“Adão”, o “homem de baixo”, reúne em si a totalidade da realidade que constitui o mundo do Ma. Por isto o Mundo está nele tanto quanto Ele está no mundo. Adão contém em seu ser (seu germe, seu âmago), a promessa da realização, num futuro distante, do Elohim, o Homem Perfeito do Mundo do Mi. Por isto é que a Qaballah afirma que o homem é o ponto de encontro do Universo e dos Deuses. é aquele que está em contato simultâneo com o Céu e a Terra (a mesma coisa afirma o TAO chinês). Assim foi terminado o último “capítulo” de nosso “passeio” pela Qaballah hebraica. Então, vamos a mais um pouco deste assunto fascinante.

Vamos ampliar um pouco mais esta história de Mundo do Ma. Olhe à sua volta com o conhecimento de que tudo o que vê é uma projeção, uma imagem de algo que se encontra além desta realidade e dentro de todos nós. Veja que o mundo social onde você está perfeitamente inserido é fruto da imaginação de milhares de semelhantes seus que ou já estão bem idosos, ou já se foram há muito desta realidade virtual para outra, talvez também virtual. Veja o automóvel luxuoso e caríssimo que acaba de passar diante de seus olhos. Veja a carrocinha de vender picolé que um seu semelhante empurra pachorrentamente pela calçada. Veja a calçada e com os olhos da mente mortal, veja os canos subterrâneos por onde corre o esgôto. Veja o emaranhado de fios de telefones e de fibra óptica que se espalha sob o asfalto ou sob as calçadas como veias e artérias de um corpo chamado cidade. Olhe as ruas bem traçadas e bem planejadas; os sinaleiros; os sinais no chão e nas placas de trânsito que sempre têm um significado… Bom, se você ficar de pé sobre uma calçada e tentar ver tudo isto, ainda que apenas na imaginação, verá que onde quer que esteja dentro de uma cidade, o mundo  social é criação de semelhantes seus. Antes de se tornar concreto ele existia potencialmente na psique humana. Tudo o que você, agora, pode ver ou saber que existe é uma projeção do que alguém imaginou e objetivou, isto é, tornou concreto na matéria exterior. Tudo é uma projeção concretizada na matéria prima: o cimento; o asfalto; o aço; o cobre; a borracha; o plástico… enfim, a matéria, mesmo aquela criada através de laboratórios químicos, é que propicia a existência das coisas e dos objetos que consubstanciam o mundo social imaginado por gerações e gerações de pensadores e criadores humanos. Na ralidade, tais objetos e coisas são projeções do que alguém pensou. Então, tudo o que lhe cerca no mundo social está “lá fora” tanto quanto está “aqui dentro”, isto é, o que está lá na realidade que você compreende como objetiva, está, como semente, em sua psiquê. Talvez, se tudo isto não tivesse sido criado, você, com o tempo e com esforço e pesquisa, criasse. Isto porque aqueles objetos são a sombra do concreto que há dentro da imaginação humana. Quando você anda pelas ruas de uma cidade, em qualquer parte do mundo, você anda literalmente sobre sonhos. Sonhos que foram sonhados por uma plêiade de “alguéns” e que estes “alguéns” se esforçaram muito para dar formas e objetivar. Formas que uma “seqüência de outros alguéns”, geração após geração, continuou sonhando e, deste modo, aprimorando e melhorando. Você está no mundo do Ma. Um mundo que é fruto da capacidade criativa do Ser Humano. Este mundo do Ma, humano, é cópia, ipisis literis, daquele outro, Cósmico. A Forma que está lá fora, também está em você, em mim, em todos nós.

Agora, veja se entende o que se segue. Olhe para o objeto que você chama de cadeira. Este ícone linguístico – cadeira – expressa realmente a essência daquele objeto que seus olhos vêem? Se expressasse, a Forma da cadeira diante de seus olhos seria fixa, imutável. Então, não haveria inúmeras variedades formais deste objeto. Assim, você pode concluir que a Forma cadeira não existe no mundo objetivo, concreto. esta Forma, cadeira, não pode ser objetivada senão através de uma centena de projeções que as pessoas imprimem na matéria de que dispõem. Há cadeiras de braços e cadeiras sem braços; há cadeiras com encosto e cadeiras sem encosto; há cadeiras com três pernas e cadeira de quatro pernas; há cadeiras altas e cadeiras baixas… Enfim, você pode encontrar um milhar de formas de cadeiras. Mas nenhuma destas cadeiras reais é a expressão exata da Forma cadeira que há à disposição da Mente Humana.Esta Forma insubstantivável e que só tem existência no ambiente da Imaginação Humana, é um Arquétipo. Está, portanto, além da Matéria onde pode ser projetada para fazer surgir inúmeras formas de cadeiras palpáveis e usáveis. A Forma essencial do objeto cadeira pertence ao Mundo do Mi, ou, em palavras cabalísticas, encontra-se nas águas acima do firmamento. O objeto cadeira que se pode usar encontra-se no Mundo do Ma, ou, em outras palavras, encontra-se nas águas abaixo do firmamento. Agora, como exercício para fixar bem a idéia de Mundo do Mi e Mundo do Ma, bem como aquela de que o Mundo do Ma está em você tanto quanto você está no mundo do Ma, olhe para qualquer objeto de uso corriqueiro e empregue o raciocínio que expus acima. Não é difícil. Basta que você tenha interesse em apreender a essência do que estou tentando-lhe passar. Só assim você compreenderá claramente o que significa um Arquétipo. Ele é algo que está além da forma densa. Não é apreensível, ainda que seja imaginável. Quando você imagina algo, está bem próximo do Arquétipo que se vincula àquele algo. Mas quando você, na imaginação, imprime uma forma ao seu objeto, ele se afasta do Arquétipo de que derivou. Compreendeu isto? Ao adquirir furma, ainda que somente no plano da imaginação, a coisa aparta-se de seu Arquétipo. Este não tem forma, não tem substância, não pode ser apreendido nem compreendido.

Todas as cadeiras, assim como todos os objetos e seres concretos na dimensão material constituem o “Homem de Baixo” ou o “Adão” bíblico. Nesta totalidade somos incluídos porque temos uma forma objetiva, concreta, que não é o Arquétipo de onde derivamos. Para que tenhamos um sentido e uma direção evolutivos é necessário que não nos apartemos de nosso “Arquétipo“. O Adão cabalístico necessariamente tem que tender à Perfeição, isto é, tem que tender a se fundir com seu Arquétipo. Então, não necessitará de muitas formas, pois terá a única que é válida e real. Ou seja: O Mundo do Ma tem como objetivo evolutivo fundir-se com o Mundo do Mi e, com isto, perder a matéria que lhe imprimia inúmeras e ilusórias formas, para encontrar-se com a Forma Unica e Primeira; imutável, perene e singular. Agora, que você deve ter compreendido toda esta história de “Aguas acima do Firmamento” e “Águas abaixo do Firmamento”, respectivamente Mundo do Mi e Mundo do Ma, ou Mundo dos Arquétipos e Mundo das Formas, tanto faz, creio que está apto a perceber o quanto de ilusão isto que é você enquanto pessoa se constitui. É por isto que os brâmanes dizem que este mundo em que vivemos e interagimos nada mais é que MAIA ou ILUSÃO. O correspondente de Maia em hebraico é ABEL que significa ILUSÃO. Ora, como bem o diz Souzenelle, seja qual for a condição ou o estágio do Ma ao qual aquele que conhece tem acesso, os elementos deste Ma têm sempre uma objetividade em si mesmos enquanto referidos aos seus Arquétipos no mundo do “Mi”. Quando há a ruptura entre o reflexo e seu Arquétipo, aquele se constitui em Abel ou ILUSÃO. Julga-se a realidade mesma e desconhece sua condição reflexiva. No Tarô o elemento do Mundo do Ma que se desligou de seu Arquétipo está representado no Arcano 21, geralmente denominado de “O Louco”. E realmente é louco aquele que vive pela e para a Ilusão. Ninguém pode renegar Abel e se entregar totalmente ao Mundo do Mi. Isto também constitui ilusão. É o caso dos muito religiosos que abdicam totalmente do viver objetivo para se entregar a um viver contemplativo, totalmente voltado para seu interior, buscando através disto alcançar seu Arquétipo Primordial a que chama de Deus. Ma e Mi, conquanto absolutamente contrários, são, não obstante, inseparáveis. Para que se compreenda um tem-se que viver no outro. Esta é a Lei.

Sinceramente, creio que melhor que isto é impossível. Tornei fácil o que a linguagem hermética faz difícil. Você só tem que compreender o que aqui está escrito e procurar aplicar este conhecimento no modo como analisa o mundo em que vive. Até o nosso próximo encontro.