PARTE 1 – COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO.

Uma das grandes dificuldades nos concursos, na prova de português, é justamente aquela que se refere a questões relativas à interpretação de textos. Os alunos das escolas modernas (últimas décadas do Séc. XX) e pós-moderna (de 2000 para cá) estão sendo cada vez mais e mais sabotados quanto ao desenvolvimento da capacidade de PENSAR, ANALISAR, DEDUZIR, INFERIR e concluir. Por não saberem falar, não sabem ler. Por não saberem ler, não sabem compreender. Por não saberem compreender, não sabem interpretar. Por não saberem interpretar, não conseguem entender o que lêem. Daí o sucesso da internet nesta geração de “burros intelectuais”. Então, a primeira coisa para começar a seguir uma trilha que leve rapidamente ao despertamento do intelecto adormecido é partir da aprendizagem da compreensão e interpretação de textos.

Primeiramente, vamos gravar bem firme na mente o significado de dois termos de grande importância em nosso vernáculo. Eles são:

a) DENOTAÇÃO – é o sentido vernacular de um vocábulo (vocábulo é a mesma coisa que palavra). A denotação é aquele significado aceito por toda uma comunidade gramatical e que está contido nos dicionários. Por exemplo: seja o vocábulo piranha. Este vocábulo denota, na Ictiologia, peixes fluviais, serrassalmídeos, dos gêneros Serrasalmo e Pigocentro, que se caracterizam pelos dentes anavalhados.

b) CONOTAÇÃO – é a atribuição de um sentido figurado ou fantasioso a um vocábulo. Para sua compreensão é necessário que a pessoa integre a comunidade lingüística que usa aquela conotação para o vocábulo em questão, caso contrário, ao ouvir o vocábulo pronunciado com aquela conotação, só o apreenderá em seu sentido denotativo. Tomemos, novamente, o vocábulo piranha. No Brasil, em sentido conotativo, este vocábulo designa mulher fácil, que leva vida licenciosa; prostituta; vagabunda; sem-vergonha; mulher sexualmente promíscua. Piranha também designa um prendedor de cabelo usado pelas mulheres. Este é outro sentido conotativo do vocábulo em questão.

É aconselhável que vocês façam um lista de palavras escrevendo os sentidos denotativos e os vários sentidos conotativos que elas possuam na gíria popular. Assim, vocês gravam facilmente estes dois conceitos e passam a trabalhar com eles sem qualquer dificuldade.

Quando se lê um texto é necessário ter em mente que há dois níveis imediatos de conhecimento do texto. O primeiro é o NÍVEL INFORMATIVO e de RECONHECIMENTO. A leitura, neste nível, deve ser feita com cuidado, prestando-se atenção à forma como o texto foi escrito, à maneira como as orações são construídas (se claras, se confusas; se gramaticalmente corretas, se gramaticalmente erradas; se os parágrafos são concluídos ou se são deixados em aberto; se há coerência na explanação do assunto ou se não há; se há prolixidade desnecessária ou se há objetividade e concisividade etc…). Neste primeiro nível o leitor deve buscar apreender superficialmente o sentido e o conteúdo da mensagem expressa no texto.

O segundo nível é o NÍVEL INTERPRETATIVO. Neste nível o leitor procura destacar palavras-chave, aquelas que orientam o desenvolvimento do pensamento contido no texto. Por exemplo, um texto médico versando sobre o câncer de mama terá, como palavras-chave oncologia; mamografia; auto-exame mamário (autópsia mamária) etc… Também destacará passagens importantes relatados no texto (como, por exemplo, no caso do texto médico sobre câncer de mama, trecho que se refira a recentes descobertas da ciência sobre o assunto; qual instituição realizou a pesquisa etc…). O leitor também deve buscar uma palavra que resuma o sentido do texto. No caso do exemplo dado, pode ser a palavra MAMA, por exemplo; ou pode ser MAMOGRAFIA. Vai depender de como o interesse do leitor se orienta.

A fim de apreender bem o que eu digo acima, é bom que vocês leiam artigos específicos sobre temas variados. Desde artigos de jornais sobre catástrofes, até artigos sociais, políticos, desportivos, científicos etc… Ao final, façam a análise interpretativa de cada texto. Com apenas seis textos com assuntos variados, vocês já estarão hábeis neste trabalho e, quando tiverem de realizar isto em uma prova de concurso, não perderão tempo pensando a respeito. A habilidade só se adquire com o exercício. Então, mãos à obra.

CUIDADO COM TEXTOS LITERÁRIOS. Por exemplo, textos extraídos de romances de Machado de Assis ou de Victor Hugo. Nesta situação, é necessário que o leitor possua informações sobre a época em que o conto foi escrito. Vestimentas, crenças, política, estereótipos sociais do povo da região descrita, costumes familiares, costumes grupais, modos de agir das pessoas daquela época… Tudo isto é necessário para que a análise literária seja produtiva e objetiva.

ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DE UM TEXTO

TEXTO LITERÁRIO

a) as personagens – pessoas, seres (viventes ou não) que são citadas no texto. Levar em conta as forças sociais ou naturais, como os fatores ambientais – rios, chuva, temperatura, relevo do solo etc… enfim, tudo que de alguma forma desempenha papel no desenrolar do enredo. Considerar o protagonista, que é a figura central, o ser em torno do qual os acontecimentos textuais se desenrolam. Verificar, também, a força do antagonista, que é aquele ser ou pessoa que se opõe aos propósitos do protagonista. Um não pode ser mais enfatizado que o outro. O choque entre eles tem de ser claramente definido, tendo cada um seu tipo de personalidade bem claramente descrita, assim como o modo de pensar e as razões psicossociais ou emocionais que dirigem seus comportamentos e seus pensamentos. Além disto, há que se considerar, também, as personagens secundárias, que são conhecidas como “comparsas” na literatura e que são “figurantes” no enredo do texto. Têm menor influência e podem surgir apenas num dado momento e não mais surgir até o final da trama. Elas são importantes porque dão vida, ainda que fugazmente, ao desenrolar do conteúdo textual.

As personagens podem ser classificadas como “planas” – as que se definem por um traço característico e que não alteram o comportamento durante o desenrolar do texto. Por exemplo: meu Conde Mogkull é uma personagem plana. E há as personagens redondas, isto é, aquelas cujos comportamentos e reações emocionais, assim como linha de pensamento e modo de se relacionar são complexos, possuindo, por isto mesmo, uma dimensão psicológica rica. É o caso do Inspetor Joseph, no meu livro.

b) A Seqüência dos Fatos – também chamado de enredo. Compreende a seqüência da narrativa, a trama dos acontecimentos e das ações das personagens. No enredo o leitor deve distinguir: 1) a exposição (isto é, a descrição do conto situando-o de imediato na dimensão tempo-espaço. Nem sempre isto acontece em um conto). 2) A complicação, ou trama do conto, o clímax ou o ponto mais tensionante ou de maior força narrativa no conto; 3) O desenlace, isto é, o fechamento da trama, onde os dilemas apresentados vão-se resolvendo; 4) O desfecho, a conclusão final do conto.

Um texto narrativo necessita de ter os seguintes tópicos:

a) OS FATOS – compreende os acontecimentos nos quais as personagens participam. É da Natureza dos acontecimentos apresentados que se depreende o gênero do texto. Por exemplo: o relato de um acontecimento diário constitui uma crônica; o relato de um drama social constitui um romance social e assim por diante.

b) O ESPAÇO – compreende o local ou os locais onde os fatos acontecem. Tais locais devem ser informados quanto às suas características físicas ou socioculturais. A descrição deve tornar o texto capaz de levar o leitor a criar imaginativamente o espaço descrito, caso contrário, o texto se torna insosso e vazio.

c) O TEMPO – o período cronológico considerado, dentro do qual ou dos quais os fatos acontecem. O tempo pode ser detalhado em mês, dia, hora, minutos ou segundos, ou pode ser identificado por uma época – um Século como o Século XV, por exemplo.

É bom notar que o tempo pode ser cronológico ou psicológico. O tempo cronológico é aquele que se controla tanto pela folhinha, quanto pelo relógio. O tempo psicológico acontece dentro do indivíduo e é variável em função de seu estado emocional. Se a personagem se encontra tensa, presa a uma decisão que lhe dará alguma vantagem ou lhe acarretará algum prejuízo, então, o tempo psicológico tanto pode ser muito longo, bem maior que o prazo cronológico de duas horas, por exemplo; ou pode ser demasiadamente curto, como acontece com o condenado à morte, cujas horas finais de sua vida parecem correr velozmente, apressando seu encontro com o carrasco.

O TEXTO ARGUMENTATIVO

O texto argumentativo é aquele em que o autor apresenta suas idéias ou suas opiniões através de artifícios da língua, buscando argumentar sobre elas e convencer o leitor a admiti-las. Caracteriza-se pela:

a) dissertação – quando o autor apresenta seu tema, descrevendo-o de modo claro, objetivo e gramaticalmente correto;

b) argumentação – quando o autor, feita a dissertação, apresenta os argumentos em prol de seu tema. Esta fase do texto argumentativo é importante, porque é aquela em que o autor busca trazer o leitor para dentro da idéia que seu texto contém. É a fase de captura da atenção e do interesse do leitor, portanto, tanto a correção gramatical é indispensável, quando a manutenção do foco no que se apresenta é absolutamente necessário. Aqui, o autor tem de evitar prolixidade e circunvoluções dissertativas desnecessárias, o que só cansaria o leitor, levando-o a se desinteressar do tema proposto;

d) persuasão – a fase em que o autor faz o fechamento de suas argumentações, enfatizando alguns dos principais argumentos que apresentou e se servindo de coerência no encadeamento de suas idéias, suas opiniões, quando, então, artifícios de linguagem, como a onomatopéia, a metonímia, as metáforas e as figuras de linguagem devem ser empregadas com correção e elegância.

EXEMPLO:

Fase 1 – Dissertação.

O Brasil vem-se arrastando por longos anos com a Saúde Pùblica na UTI, como é insistentemente divulgado pela imprensa escrita, falada e televisiva. Não é incomum mortes de pacientes que, deitados pelos corredores dos hospitais, terminam esquecidos por atendentes, enfermeiros e médicos, os quais, de tanto sofrer com o descaso das autoridades “incompetentes” governamentais, perdem a sensibilidade para com o sofrimento do outro. Enquanto isto, centenas de milhares de remédios são perdidos nos postos de distribuição por absoluta falta de competência das Secretarias Municipais de Saúde. Aparelhos caríssimos, como aqueles destinados à ressonância magnética, permanecem abandonados nos almoxarifados hospitalares, quando não são simplesmente esquecidos em alguma sala empoeirada, bolorenta, desativados por falta de técnicos capazes de os operar com eficiência.

Não se trata, aqui, de assunto puramente econômico ou puramente burocrático. Trata-se de desmazelo, quer por descaso, quer por incompetência dos senhores Secretários Municipais ou Estaduais, quer pelo câncer de que sofre a maioria dos políticos nacionais brasileiros – a corrupção. Também não se trata de assunto puramente social, mas humanitário, educacional, ético, moral e cívico. Uma vez que este assunto atinge em cheio todos os brasileiros, independentemente de sua posição sócio-econômica, é mister que voltemos nossa atenção urgentemente para esta gritante e desabonadora situação.

Fase 2 – Argumentação.

A situação aparentemente desanimadora da Saúde Pública brasileira pode ser combatida com eficiência a partir de um Plano Diretor Federal voltado para a Educação. Um Plano Diretor que oriente outros, Estaduais e Municipais, os quais, uma vez implantados, tenham fiscalização eficiente, periódica, com a implementação das correções que se fizerem necessárias a fim de os manter sempre funcionais e voltados com vigor não somente para os jovens – o futuro do Brasil –, mas também para os servidores públicos de agora, pois estes sofrem intensamente de anomia social exatamente por carência educacional. Não nos referimos, aqui, apenas à educação formal, escolástica, onde se deve buscar o retorno à excelência vernacular e à capacidade de se fazer entender através de relatórios, cartas, ofícios etc… Referimo-nos, com mais ênfase, à Educação Cívica e à Educação Moral, visto que o câncer da corrupção não se restringe à classe política, somente, mas espalha-se, infiltra-se sórdida e sorrateiramente em todas as classes sociais. Um Plano Diretor Educacional que requeira de modo inquestionável a reciclagem educacional dos servidores públicos em todos os níveis, com destaque para o nível da comunicação falada e escrita, em pouco tempo levaria o povo brasileiro a melhor se comunicar, a melhor se compreender e a melhor saber exercer sua civilidade. Um Plano Diretor Educacional que leve o cidadão a compreender plenamente não somente seus direitos como cidadão, mas também e com maior ênfase, a respeitar o direito do outro cidadão, despertando em cada um o senso de responsabilidade moral, o senso de responsabilidade ética e o senso de responsabilidade econômico-financeira para com o patrimônio público hospitalar. Ética, Moral e Civismo não podem ser descuidados em um país que se deseja pertença ao seleto grupo dos que são reconhecidos como de primeiro mundo. A par com isto, o saber comunicar-se, o saber apreender o conteúdo de uma comunicação e o saber expressar com objetividade, clareza e correção vernacular um pensamento ou um acontecimento também soa requisitos inalienáveis do cidadão que realmente assim o é.

Fase três – Persuasão.

Alguns podem classificar a argumentação acima como utopia; a estes, reconheço como alienados sociais. Outros, podem suspirar e dizer que tudo é muito bonito, mas jamais o Brasil se voltará para um assunto de tão pouco interesse para a classe política dominante. A estes, classifico como desinformados e irresponsáveis e lhes imputo a má escolha da dita classe política dominante por não saberem votar. Muitos podem ler o que escrevemos com indiferença e apatia; a estes classifico como mortos-vivos político-sociais, desesperançados por força do longo estado de abandono e descaso de que vêm sofrendo no transcorrer de suas vidas. A maioria esmagadora pode ler o que escrevemos e apenas dar de ombros, por assoberbados que se encontram na luta árdua pelo pão-nosso-de-cada-dia. Devido à ignorância em que são mantidos, não conhecem seus direitos; devido à má educação instrucional e cívica, não sabem como dar início a um movimento em defesa de si mesmos; a estes, apelo com ardor, para que se questionem, para que se sacudam, para que se decidam a não permanecer na apatia. Juntos, todos gritando “por que?” com certeza serão ouvidos e, mais ainda, com certeza farão vibrar no âmago dos demais a Nota da Vida, aquela que, uma vez tangida, não se deixa permanecer quieta e insossa. Se você, que me lê, integra uma destas classes, volte-se para si e se questione em primeiro lugar. Depois, volte-se para fora e grite sua revolta aos quatro cantos do mundo. Não interessa como; não interessa de que modo; não interessa qual ouvido vai ouvi-lo, se o do mendigo e esquecido social, ou se do político ou do servidor público bem colocado na escala social. Apenas GRITE! Seu grito se juntará a centenas de outros e todos juntos formarão um grande ruído que com certeza incomodará um Governo que se volta para o imediato externo e se esquece do imediato interno.

Vocês devem ler, reler e treinar para conseguir dominar as informações acima. Então, daqui a dois dias, volto a continuar com A COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTO. Quando eu terminar espero que qualquer um de vocês esteja apto a escrever um livro com facilidade.

ORISVAL BRITO

Goiânia, segunda-feira, 1º/março/2010, 19:26 h.