“Bicho”, se há uma categoria gramatical que está sendo totalmente achincalhada, desrespeitada, aviltada e outros “adas”  insultuosos por aí, esta categoria gramatical é o Pronome. Ao menos no idioma brasileiro. Não estranhe eu frisar que falamos o idioma brasileiro, pois se inicialmente nos foi imposto o português de Portugal como língua para o Brasil, depois de 511 anos ele foi tão adaptado para o falar do povo que aqui vicejou que já não mais se pode dizer que é o legítimo português de Portugal. Claro está que gramaticalmente ambos estes idiomas se assemelham a ponto de poderem ser considerados “irmãos gêmeos”. Mas só nisto. Pois bem, nós estamos achincalhando o emprego correto do pronome nas construções oracionais. E isto “enfeia” pra burro nosso belíssimo idioma. A propósito, você sabia que o correto, “portuguesmente” falando, seria dizer afear e não enfeiar? No português de Portugal a palavra é assim composta: a (prefixo)+feo  (português antigo)+ ar (sufixo). Já entre nós, afear é quase totalmente desconhecido. No entanto, se você quiser ser erudito diga e escreva afear em vez de enfeiar. Mas só fale e só escreva assim em meio erudito, caso contrário vão-lhe jogar pedras os que pensam que são ilustrados. Mas vamos ao que interessa.

Antes de entrar direto no estudo dos pronomes do idioma brasileiro, vamos concluir o estudo do adjetivo chamando a atenção para a sutileza de sua colocação na frase. Veja, por exemplo, as duas construções abaixo:

1 – Ele é um alto funcionário público;

2 – Ele é um funcionário público alto.

Eu creio que dá para você notar que alguma coisa mudou no significado da mensagem que cada uma das orações transmite. Na primeira, o adjetivo ALTO distingue a posição hierárquica do funcionário público a quem aquele que fala se refere. Ele pode ser baixinho, como era nosso Rui Barbosa, cuja foto está acima. Mas isto não importa. Ao que ALTO faz referência é a posição que a pessoa ocupa na hierarquia do serviço público.

Agora, veja a segunda oração. Aqui, o adjetivo ALTO distingue exatamente a altura física do indivíduo funcionário público e não leva em consideração sua posição hierárquica.

Nem sempre esta distinção é fácil de se relatar. Tome este outro exemplo:

1 – Rio, cidade maravilhosa.

2 – Rio, maravilhosa cidade.

Você nota que alguma coisa aqui também mudou com a troca de posição do adjetivo maravilhosa. Mas o que foi? Na oração número 1, maravilhosa faz referência às belezas naturais e intrínsecas da cidade do Rio de Janeiro. Belezas com que foi agraciada pela Mãe Natureza e que a distingue de todas as demais cidades do mundo. Já na segunda oração, maravilhosa implica o deslumbramento íntimo que a beleza natural da cidade do Rio de Janeiro causa em quem a vê. Assim, eu posso me deslumbrar com o que vejo no Rio lá de cima do Corcovado e exclamar: Rio, maravilhosa cidade! Mas você, que foi assaltado, teve um cano de revólver colado na teste e seu carro foi levado com dinheiro e documentos, poderá discordar de mim e dizer que o Rio é uma horrorosa cidade. Estas sutilezas, devido mesmo ao empobrecimento do estudo de nosso idioma nas escolas em geral, deixam de ser apreciadas como quem aprecia um bom vinho e as pessoas atropelam o emprego do adjetivo e perdem a capacidade de expressar com profundidade e acerto o que realmente quer dizer. Um bom advogado, contudo, que estude e conheça profundamente tais sutilezas de nosso idioma pode ganhar uma causa perdida porque vai saber usar o mal-falar da testemunha para inverter ou pôr em dúvida tudo o que ela disser. Rui Barbosa foi exemplo vivo do que digo. Causídico imbatível, ele não perdia uma causa porque dominava como poucos o conhecimento deste “vinho precioso” que nosso idioma contém. Reflita nisto. Crie centenas de exemplos e analise-os minuciosamente. Você vai encontrar adjetivos que, ao mudarem de posição, complicam o conteúdo oculto que deve ser traduzido para aquele que estuda o idioma. Mas descubra este conteúdo, pois assim você ficará “milionário” em nosso idioma. Agora, me diga: não é deslumbrante nossa língua?

Bom, vamos passar ao estudo dos PRONOMES PORTUGUESES E BRASILEIROS

Como podemos definir o Pronome? A gente pode dizer que pronome é o vocábulo que designa os seres omitindo-lhes ou substituindo-lhes os nomes na oração. Assim, em vez de eu dizer Orisval está escrevendo” digo Eu estou escrevendo”. O pronome EU substituiu com vantagem o substantivo próprio com que fui batizado na Igreja e registrado no Cartório.

Há três pronomes em nosso idioma… Eh! espera aí! Não chia não! É isto mesmo. Só temos três pessoas em nosso discurso: a primeira, a pessoa que fala (Eu); a segunda, a pessoa com quem falo (Tu) e a terceira, a pessoa de quem falo (ele ou ela). As outras variações são adaptações destas três pessoas para concordar com o verbo. E são: nós, para os que falamos; vós, para aqueles com quem falamos; e eles ou elas para aqueles de quem falamos. Entendeu ou quer que eu desenhe? Tá bom, eu desenho:

Pronomes Pessoais do Caso Reto:

Eu (1ª pessoa) – Tu (2ª pessoa) – Ele(a) (3ª pessoa).

Formas plurais para os Pronomes Pessoais do Caso Reto:

Nós – Vós – Eles(as).

Agora, note a primeira “idiossincrasia” de nossos pronomes. Eu e Tu não variam quanto ao gênero. Mas Ele e Eles têm o feminino Ela e Elas.

Ah, sim, idiossincrasia quer dizer qualquer detalhe de conduta peculiar a um indivíduo determinado. Eu empreguei este vocábulo porque quero chamar a atenção para este detalhe do pronome da terceira pessoa em relação aos demais. Só ele possui feminino, logo, isto lhe é peculiar, exclusivo, idiossincrásico. “Olhaí”! Mais uma pérola de nosso idioma para o seu vocabulário! E é assim que você vai ficando rico, “né mesm?”

E lá vem a segunda idiossincrasia de nosso idioma. Temos, na terceira pessoa, um pronome esquisito. Ele é o pronome

Você.

Muita gente boa acredita que este “você” nos vem da tradução do “usted” espanhol para nosso idioma. Nadica de nada! Você, em nosso idioma, é uma corruptela da corruptela da corruptela. Outrora, havia o tratamento vossa mercê, muito usado no linguajar comum entre os nossos antepassados. Aí, trouxeram os negros africanos para cá, como escravos. Os coitados tinham dificuldade de falar corretamente o tal tratamento cerimonioso e diziam “vós micê”. Com o tempo, seus descendentes foram piorando a coisa e diziam “vassuncê”. E descendo mais ainda a ladeira da corruptela, chegaram à expressão “vancê” de onde terminou nascendo nosso atual “você”, que os mineiros estão “corruptelando” para “cê”. (Atenção! Não existe o verbo “corruptelar”. É um neologismo, sacou? Não andem por aí empregando este aleijão que é fazer besteira). Notem, ainda, que, mesmo sendo um pronome de tratamento da terceira pessoa, você não é usado nesta posição, mas na da segunda pessoa (Tu).

Agora, vamos aprender a “classificação dos nossos pronomes”. As classificações pronominais são:

Pessoais: singular – eu, tu, ele (ela); plural –  nós, vós, eles (elas);

Possessivos: singular – meu (minha), teu (tua), seu (sua), dele (ou dela); plural –  nosso(a), vosso(a), deles (ou delas)

Demonstrativos:  – este pronome se confunde com o artigo definido; abarca-o, melhor dizendo. Eles são:

Primeira pessoa: este, esta, isto (e seus plurais);

Segunda pessoa: esse, essa, isso (e seus plurais);

Terceira pessoa: aquele, aquela (e seus plurais), aquilo; lhe, o, a,  os, as, mesmo(a), próprio(a), semelhante, tal.

Note bem: os demonstrativos situam no espaço o objeto a que se referem. Assim,estediz respeito a alguma coisa que está perto de quem fala; “esse, diz respeito a alguma coisa que está fora do alcance de quem fala, mas está perto de quem ouve; “aquele diz respeito a alguma coisa que está longe de quem fala e de quem ouve. Isto é tão simples, mas os estudantes brasileiros – e as autoridades, até mesmo professores diplomados de português,  esqueceram-se da regra. Mas note bem:

Se digo: “Esta caneta não é minha” faço referência a uma caneta que ou estou segurando, ou está perto e ao alcance de minha mão.

Mas se digo: “Essa caneta não é minha” faço referência a uma caneta que não seguro e não está próxima de mim e se encontra fora do alcance de minha mão. Ela está mais próxima da pessoa com quem falo, até mesmo ao alcance de sua mão.

Se digo: “Aquela caneta não é minha” faço referência a uma caneta que não está no mesmo ambiente em que eu e meu interlocutor nos encontramos. Está em outro local e eu estou dizendo ao meu interlocutor que ela não me pertence.

Você pode usar o mesmo raciocínio para o emprego correto de isto, isso e aquilo, aquela, aquele.

Você aprendeu que os artigos são expressados pelos vocábulos o, a, e seus respectivos plurais os, as. No entanto, estes mesmos vocábulos servem para expressar pronomes demonstrativos da terceira pessoa, daí eu ter dito que eles abarcam o artigo e os englobam. Não o artigo em si, fique bem claro, mas os vocábulos que os representam.

Exemplos:

1 – Seja a expressão: Envie o livro para a escola X.

Empregando o pronome demonstrativo de terceira pessoa você pode substituir o substantivo “livro” e dizer a oração do seguinte modo:

Envie-o à escola X. Aqui, o vocábulo “O” substitui o substantivo “livro” na condição de pronome demonstrativo. Este artifício de nosso idioma serve para tornar bela a frase e evitar a repetição cansativa e feia do substantivo. O período todo poderia ser:

‘Sabe aquele livro que está na prateleira A? Envie o livro à escola X” – embora seja um período curto, a repetição do substantivo “livro” torna-o feio. Mas empregando o pronome demonstrativo para o substituir, o período fica mais elegante: “Sabe aquele livro que está na prateleira A? Envie-o à escola X”.

Agora, veja a oração abaixo:

Maria estava na casa dela.

Quem constrói orações como a do exemplo acima comete cacofonia (grego: caco = feio; fono = som; fala). Para evitar este tipo de construção, que muitas vezes leva quem fala a cometer gafes homéricas, só dignas dos noticiários da TV Globo (como esta horrível construção: “são doze concorrentes. CinCO DELAS vão permanecer na disputa”. Este tipo de construção é muito comum entre os iletrados repórteres da TV Globo), devemos servir-nos dos pronomes demonstrativos oblíquos da terceira pessoa (o, a, os, as, mesmo, mesma, próprio, semelhante, tal; ou dos pronomes demonstrativos possessivos da terceira pessoa (seu, sua, dele, dela, seus suas, deles, delas). Então, a oração dada como exemplo, deverá ser dita assim:

Maria estava em sua casa.

Outros exemplos:

São doze concorrentes. Cinco, vão permanecer na disputa. (Aqui, você nota que o pronome foi elidido, quer dizer, eliminado da oração sem que seu sentido tenha sido prejudicado).

Agora, veja esta construção pra lá de feia, mas lamentavelmente comuníssima entre nossas autoridades policiais e de modo geral, entre os que se acham letrados em nosso idioma:

A polícia conseguiu prender o assaltante. Quando interrogado, O MESMO disse que não portava nenhuma arma.

Gente, pelo Amor de Deus! O pronome demonstrativo MESMO, não tem substância. Ou seja, ele não tem matéria de nenhuma espécie. Logo, não pode ser um substantivo. Não é uma entidade humana, logo não fala. E se não tem substância, não tem corpo; e se não tem corpo, não é um ser; e se não é um ser humano, não pode falar. Então, É EXTREMADA BURRICE GRAMATICAL pronunciar tamanha heresia. Buscando ser “bem falante”, idiotas liguísticos falam orações semelhantes emproadamente diante das câmeras de TV. Arre égua! – como dizem meus conterrâneos piauienses.

E revoltado com isto, eu me despeço.

A gente se vê mais tarde, falou? Até lá.