Pulmão com enfizema. Todos ficam assim e o dono morre sufocado, sem ar para respirar.

Pulmão com enfizema. Todos ficam assim e o dono morre sufocado, sem ar para respirar.

Anteontem, sexta-feira, 19/08, passei por uma experiência espetacular. Sou hipertenso. Desde quando eu não sei, pois jamais tive qualquer encrenca de saúde em virtude disto. Certo que o cardiologista, depois de uma longa entrevista comigo, chegou à conclusão que minha hipertensão deve ter começado quando eu abandonei o cigarro, lá pelos idos de 1975. Eu não o fiz devagar. Foi de modo abrupto. Começara a fumar para provar ao meu pai que eu podia parar quando quisesse. Fiz isto porque vi, na Escola de Medicina do Rio de Janeiro, dois pulmões retirados de um enfizemático. Horríveis! Eram órgãos negros, aqui e ali empedrados devido ao alcatrão e outras substâncias venenosas que há no cigarro. O finado dono daqueles pulmões podres tinha morrido em atra agonia. Praticamente morrera afogado, sem conseguir respirar, embora estivesse cercado por todo o ar do mundo. Pensei em meu pai, enquanto olhava aqueles órgãos tão maltratados. Então, impressionado e preocupado, tomei o ônibus e fui até onde ele trabalhava, no prédio da ABI, no centro do Rio. Lá, tanto insisti que ele acedeu em ir comigo à Escola de Medicina. Quando chegamos e ele viu os pulmões, riu e me disse: “Enfizema em última etapa. O coitado deve ter sofrido muito”. Então, eu lhe disse: “Eu o trouxe aqui para que visse isso aí. O senhor fuma há mais de quarenta anos. Acho que é hora de parar com isto”. Meu pai me olhou zombeteiro e rebateu: “Filho, fui enfermeiro chefe no hospital de Campo Maior. Vi muito disto aí. Se queria me impressionar, perdeu seu tempo”. Não, eu não queria impressioná-lo somente. Eu queria, de coração, fazer que ele refletisse no perigo terrível que corria. Eu amava profundamente meu pai, apesar das tolices que fez conosco e nossa mãe. Entretanto, ele deu de ombros e me disse: “Fumo há mais de quarenta anos. Sou comedido. Não passo de um maço por dia, quando chego a tanto”. Encurtando, tivemos uma discussão acre e a certa altura eu lhe gritei: “Você mentiu para mim o tempo todo, não é? Você me dizia que o homem pode tudo o que ele quer. Se é verdade isto, então, o senhor mente quando diz que não consegue mais parar. Se não pára é porque não quer!” Então, meu pai me gritou, com os olhos arregalados, sinal de que estava ficando fora de si e ele, quando entrava neste estado, era muito perigoso. “Antes de me acusar, fume! Experimente, se tem coragem! Vai ver que não vai conseguir fazer o que deseja que eu faça! Antes de impor a outro que faça alguma coisa, tente você primeiro, entendeu?”

Meu pai, minha mãe, eu e minha irmã. Foto batida, acredito eu, em 1945. Eu tinha cinco anos.

Meu pai, minha mãe, eu e minha irmã. Foto batida, acredito eu, em 1945. Eu tinha cinco anos.

Foi o suficiente. Papai se esquecera de que eu herdara muito de seu gênio: impulsivo, intempestivo, teimoso. Decidi que me viciaria e, quando estivesse totalmente viciado, pararia. Então, gritei-lhe num desafio: “Se você realmente é o homem que eu acreditava que você fosse, vai parar junto comigo!” Papai parou de se movimentar e se voltou para mim, muito sério. “Não faça isto. É um caminho sem volta”. E eu lhe respondi: “Vou fazer, sim. Preciso confirmar se você me dizia a verdade, quando eu era criança: o homem pode tudo o que ele quiser.” A partir dali comecei a tentar o vício do tabagismo. Não foi fácil. Eu não sabia, mas meu organismo era alérgico a um dos ingredientes químicos do papel do cigarro. Eu sempre terminava vomitando as tripas, toda vez que tragava um cigarro. Mas insisti e insisti tanto, até que terminei forçando meu corpo a aceitar aquele veneno. E como se o Diabo me tivesse ouvido, fui literalmente arrastado para trabalhar na EMBRATEL, justamente no Recrutamento e Seleção de Pessoal, o lugar mais espinhoso da empresa. A tensão ali era extrema. Eu lidava direto com o Toninho Malvadeza (Antônio Carlos Magalhães) e sua trupe de safados que queriam meter lá dentro, à força, todo tipo de apadrinhado. E como se não bastasse, generais do Ministério da Guerra e a Primeira Dama me enviavam “filhotes” com cartas de recomendações para que eu os admitisse sem seleção. Eu barrava a todos intransigentemente e comprava brigas homéricas com aqueles poderosos. Angariei muita antipatia e muito ódio de gente de estrela nos ombros. Muitos vieram pessoalmente pedir minha cabeça, mas o Diretor de Administração, um Coronel do qual já não mais me lembro o nome, era meu defensor intransigente e me dava respaldo. A ordem que eu tinha do General Galvão, presidente da empresa, ordem escrita, era taxativa: “Ninguém deve ser admitido na empresa se não tiver sido submetido a provas de seleção e, aprovado, não tiver sido indicado para o cargo através de testes psicológicos”. Não se podia desobedecer àquela ordem, mormente quando ainda estávamos sob o domínio dos militares (1970). A tensão a que fui submetido logo me fez fumar dez carteiras de cigarro por dia (um maço inteirinho).  “Malvadeza” era meu pior tormento. Um dia chegamos a gritar um com o outro porque eu me havia recusado a entrevistar um seu filhote, que, arrogante, me dissera um monte de insultos. Mandei que os seguranças atirassem o desgraçado fora da empresa, ou eu o faria no braço. O safado foi direto a Brasília se queixar ao padrinho. Aí, foi aquele auê.

Antônio Carlos Magalhães, o Toninho Malvadeza. Político cheio de artimanhas e encrencas.

Antônio Carlos Magalhães, o Toninho Malvadeza. Político cheio de artimanhas e encrencas. "Coroné" nordestino, era muito metido a valente.

O poderoso Ministro das Telecomunicações e Deputado Federal, depois de violenta discussão com o General Galvão que se negou peremptoriamente a me demitir, ligou diretamente para a Seleção e me fez uma ameaça: “Nunca ponha os pés na Bahia enquanto eu existir, pois você não saíra de lá vivo”. Pronto. Aí foi que a vaca foi pro brejo. Eu decidi que ia à Bahia, ia até a fazenda do gorducho metido a macho e ia acabar tanto com ele quanto com a família dele. E o avisaria com antecedência, para que me esperasse lá e me poupasse tempo procurando por ele até pelo Brasil todo. Se era valente, como vivia mostrando através da televisão, então ele me esperaria. E se não fui é porque todos os generais e coronéis se uniram para me barrar. Eu ainda tinha muito bem gravado em mim o treinamento para comando, que recebera no Terceiro Regimento de Infantaria, em Niterói e meu dossiê militar era do conhecimento da cúpula da Embratel. Era muito hábil com armas brancas e tinha uma pontaria invejável com armas de fogo; e era excelente em realizar penetração em terreno inimigo. O que me propunha fazer era mel-com-açúcar para mim. Toninho Malvadeza foi pro inferno sem ter consciência de que andou perto de ter toda sua família exterminada rápida e silenciosamente por mim.Tudo isto, toda esta tensão, me levou a exasperar no vício do tabagismo. Eu praticava boxe. Perdi toda a resistência física, a ponto de arquejar de cansaço ao subir um lance de escada. Dois anos depois, já não curvava a cabeça para amarrar os cadarços dos sapatos, pois minhas frontes latejavam e doíam com este simples gesto.

Casa de minha tia Sinhá, em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Casa de minha tia Sinhá, em Santa Teresa, Rio de Janeiro.

Até que um dia, em Santa Teresa, na casa onde morava minha tia Sinhá, irmã de meu pai, comemorava-se o aniversário dele. Eu estava sem cigarro. Meu pai passou perto de mim e eu lhe tomei a carteira de cigarros sem cerimônia. Ele, então, me olhou com olhar triste e, suspirando fundo me disse: “Que pena, filho. Você se ferrou. Nunca mais vai deixar o vício e vai morrer primeiro que eu, justamente de enfizema pulmonar”. Foi então que eu me lembrei da aposta que havia feito. E me decidi parar. Disse-lhe isto e cobrei dele que também parasse quando eu o fizesse. Ele acedeu, mas frisou que eu tinha chegado ao fundo do poço e de lá só sairia morto. Não foi assim. Comi o pão que o diabo amassou, mas saí do vício maldito. E saí de supetão, pois todos os tratamentos que havia, na época; todos os  truques que me disseram que funcionava, eu tentei. E tudo não deu certo. Então, um dia, cavavam o metrô do Rio e o grande valão passava bem diante do prédio da EMBRATEL, joguei todos os pacotes contendo maços de cigarros lá em baixo. E decidi que nunca mais poria um cigarro na boca. Fui parar no hospital e mergulhei num inferno indescritível devido à abstinência do vício. Por três meses vivi ao lado do demônio em pessoa. Mas venci. Nunca mais voltei a colocar um cigarro na boca. Era o ano de 1975 quando fui cobrar de meu pai que cumprisse sua promessa. Ele se recusou. Brigamos e eu lhe disse que nunca mais queria vê-lo para não ter de assistir à sua morte horrível. Sim, meu pai faleceu no Rio, sofrendo de enfizema. Mas quem o levou embora foi o coração que não aguentou o titânico esforço de trabalhar com o pouquíssimo oxigênio que um terço de seus pulmões punha para dentro do corpo.

Vista do Centro Espírita, na Rua Manágua, retirada do Google Earth

Vista do Centro Espírita, na Rua Manágua, retirada do Google Earth

Daquela experiência horrorosa me ficou uma alergia terrível (curada em uma operação no Centro Espírita Bezerra de Menezes: Rua Manágua, Setor Aeroporto Sul, Aparecida de Goiânia, GO – tel. 62-32888219). Também me ficou a hipertensão que só vim descobrir há quatro anos, quando fui refazer minha licença de motorista. A médica tirou minha pressão e se assustou. Estava 21 por 19. Fui parar no cardiologista e desde então sou obrigado a tomar dois comprimidos para controlá-la. Só que não sou muito de obedecer a horário de remédios, até porque não me acostumei a ser dependente deles. Na última semana a secura aqui estava de lascar. O sol queimava a pele como ferro em brasa. Não era nada animador sair durante o dia. Os comprimidos haviam acabado – restando só um na caixa de “Pressat”, e uma cartela com dois comprimidos na caixa de “Zarth”. Fazia cinco dias que eu não os tomava. Como eu disse, não sou de sentir sintomas da hipertensão. Mas naquela sexta-feira, quase meio-dia, comecei a sentir muito frio. Estranhei. Resolvi ir para o sol a pino a fim de combater aquele frio estranho. Trabalhei debaixo do sol rastelando o cocô dos cães e limpando o terreno à frente de minha casa. Mas apesar do sol inclemente, o frio não cedia. Ao contrário, aumentava. E então aconteceu algo espetacular. Um outro Eu surgiu de algum lugar. Um Eu que envolvia meu corpo. Este outro Eu estava tomado de uma energia espetacular. Uma força indescritível. Eu me senti dono de um Poder que não há como colocar em palavras. E com esta força, percebi uma grande alegria, um enorme estado de felicidade. “Estou-me desprendendo do corpo. Vou embora!” Este pensamento me invadiu a mente. E, então, notei que meu corpo fraquejava. As pernas pesavam como chumbo. Ele queria andar, queria voltar para dentro de casa, mas as forças estavam-se indo muito depressa. Logo, meu corpo cairia ao chão para nunca mais levantar. Minha alegria era grande. Eu, aquele Eu desconhecido até então por mim, estava muito feliz porque finalmente ia-se livrar do corpo. E foi então que me veio uma grande pena daquele corpo que cambaleava e lutava para andar em direção à escadinha de cinco degraus que leva à varanda em frente à casa. Era uma tomada de consciência maravilhosa e espantosa: havia Eu e havia o Corpo. Eu queria ir-me embora. O corpo lutava para não morrer. Tive imensa pena dele, mesmo assim, esperava com ansiedade que ele caísse de vez. Mas uma voz forte, profunda, soou no Espaço ao meu redor: “Se você deixar que ele caia e morra, será considerado suicida. E um suicida não é bem recebido deste lado. Vá. Ajude-o! Ele foi seu amigo por setenta anos. Não é justo que o abandone nesta hora tão amarga para ele”. Até agora não sei de onde veio aquela voz, mas que não era de minha consciência tenho certeza. Era de alguém que me via e eu não o via. Mas o alerta serviu para que eu reagisse. Voltei a tomar conta do corpo combalido e ele, repentinamente se ergueu firme. Caminhamos, ele e Eu, para a escadinha. Galguei-a rapidamente e corri ao quarto. Tirei minha pressão: 19 por 14. A diferença entre elas era muito grande. O frio estava piorando e eu quase não conseguia segurar as cartelas dos comprimidos. Finalmente consegui engoli-los e me sentei, tremendo, à espera do que pudesse acontecer. Fizera o que podia fazer. Agora, era rezar. Todo o resto da sexta-feira e o dia de sábado passei sentindo que meu corpo lutava ferozmente para não ser vencido. A pressão não entrava nos eixos. Tive de dobrar a dose dos remédios para que ela voltasse aos costumeiros 13/9. Mesmo assim, uma grande fraqueza me assolava o corpo. Mal me levantava para ir ao banheiro e já voltava sem forças, respirando com dificuldade, e me jogava na cama arfante. Meu corpo todo passou este tempo tremendo, não de frio, mas tremendo sempre. Em algum lugar, dentro ou ao redor deste corpo, há um Eu à espera. Não há medo da morte, não. Há uma expectativa de partida. Um desejo imenso de ir embora.

Esta experiência me respondeu a uma pergunta que sempre me inquietou: “Terei medo de morrer, quando chegar minha hora?”. A resposta veio clara: não. Não terei medo da morte, pois ela vai acontecer, infelizmente, para meu corpo. Ele, sim, morrerá. E o que é pior, ele não quer morrer. Ele gosta de viver. Mesmo tendo sido submetido a estrênuos esforços; a torturantes horas na prática de artes marciais; a esforços que o levaram ao limite de sua resistência, ainda assim o corpo luta para sobreviver. No entanto, a morte é real e inevitável para ele e eu sinto que terei muita dó e muita saudade desta máquina fantástica que me serviu muito bem por 70 anos (talvez ainda vá-me servir por mais alguns anos). Mas Eu não sou ele. Eu não morro. Ao contrário, senti intensamente que ao me libertar vou para algum lugar muito bom. Que há uma felicidade enorme no meu Eu. Felicidade indescritível. E tenho uma energia tão poderosa que não há como descrevê-la. E isto é muito bom. Gostaria, sinceramente, que todos pudessem vivenciar esta experiência. Ela nos livra daquele medo que se esconde em algum lugar dentro de nós e que, agora, sei que é somente no corpo. Nosso Espírito, ao contrário, quando percebe que se vai, alegra-se sobremodo. Afinal, “seu reino não é deste mundo”.

NAMASTÊ!