UMA VISITA INESPERADA

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Terra, uma das inúmeras "Casas de Meu Pai".

Terra, uma das inúmeras “Casas de Meu Pai”.

É tardinha. O calor sufoca. A secura do ar faz sangrar o nariz. Está assim, o tempo em Goiás e no Centro-Oeste brasileiro em geral. Tudo culpa da mudança irreversível que acontece no sistema planetário Terra.

Desanimado, suando em bica, cabeça entupida de muco que faz meu ouvido estalar incomodamente e me enche a garganta de catarro pegajoso, eu zanzava pela casa vazia. Estou só. Minha família está fora, todos eles. Eu devia ter feito uma intervenção cirúrgica para retirar a vesícula, mas o fedor do thinner e do solvente das tintas com que estão pintando a casa me derrubou. Uma gripe feroz me acometeu e não pude ser internado. Agora, não sei quando vou remarcar a cirurgia. A vesícula não me incomoda. Se tem pedras, elas estão lá, quietinhas. Mas todos me aconselham a retirá-la, pois a cólica, quando ataca, é terrível. Como já sofri com um cálculo renal, não quero passar por esta nova experiência. Assim, estou muito inclinado a “entrar no bisturi”.

Peguei um livro para ler e desanimei. Pus música para escutar e também desanimei. Até os cães estão descoroçoados sob o sol inclemente. Mais

26 DE AGOSTO DE 1822 – ZÉ PIGUNÇO EM “BOTICA”

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Um caboclo vaqueiro com sua paramenta, o chapéu de couro e o gibão.

Um caboclo vaqueiro com sua paramenta, o chapéu de couro e o gibão. Ao contrário do que parece, o gibão, todo em couro grosso, não esquenta e até ajuda a combater o calor do sertão nordestino.

Zé Pigunço chegou ao arremedo de vilarejo, ainda denominado de “Botica” e que mais tarde daria lugar à vila de Piripiri.

Botica eram terras doadas ao português Antônio Fernandes Macedo, que, por algum motivo, tinha agradado ao rei português. As casas, casebres na verdade, eram todas de palha de carnaúba e pau-a-pique. Ali não havia vida agitada. O tempo não corria. Era uma corrutela que aos poucos foi passando de lugar de parada e descanso dos vaqueiros que tangiam boiadas em direção ou ao Maranhão ou à foz do rio Parnaíba, a local de moradia de alguns alforriados que não tinham para onde ir e ganhavam alguns trocados vendendo beiju, frutos silvestres, rapadura e paçoca de carne seca socada no pilão com muita cebola, à moda escrava. Ali, também,  vendia-se a pimenta “piripiri”, como era conhecida a malagueta, em Portugal. Como todos os transeuntes, assim como os que por ali sobreviviam, gostavam de temperar tudo com a malagueta, o nome português da pimenta foi sendo estendido ao local. Já em 1822, muitos se referiam à “Botica” por Piripiri e, não, pelo nome que tinha.

Foi assim que nasceu a cidade de Piripiri, no Piauí. Mais

FAZENDA ITACOATIARA, NOITE DE 22 DE AGOSTO DE 1822

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Uma gigantesca gameleira enfeitava a frente da fazenda do "coroné" Raimundo.

Uma gigantesca gameleira enfeitava a frente da fazenda do “coroné” Raimundo.

Na fazenda Gameleira o dia se arrastou lentamente para a angustiada Sinhá Maria Rita. Até a sinhazinha Florinda começou a ficar preocupada com o desaparecimento do irmão. Por onde andaria aquele cabeça de vento? A jovem mandou selar o cavalo e enquanto sua mãe desfiava o décimo segundo terço diante do oratório, ela cavalgou direto para a Itacoatiara. Era a maior das cinco fazendas de seu pai e lá aconteceria a reunião com os demais fazendeiros. A moça galopava à toda. Seu cavalo, um preto com as patas brancas e um losango branco na testa, era jovem e gostava de correr. Geralmente a moça dava passeios pelas fazendas sempre a grande velocidade, pois adorava o vento no rosto e a incrível sensação de liberdade que o cavalo lhe comunicava. Também gostava de desafiar o perigo e sempre que chegava a uma de suas fazendas não abria a porteira. Fazia que seu “Pantera” saltasse a cerca, o que muito irritava seu pai e sua mãe. Temiam um acidente grave, mas sinhazinha Florinda não acreditava que isto lhe pudesse acontecer. Ela e “Pantera” eram uma só coisa. O cavalo sabia direitinho o que a dona queria. Quando só, conduzido por algum criado, ele esperava pacientemente que a porteira fosse aberta. Com a jovem sobre o lombo, vinha sempre em disparada e saltava a cerca ou a porteira, tanto fazia, sem se incomodar com o obstáculo. Aquilo era insubstituível para sinhazinha. Mais

TRIBO DOS JENIPAPOS, 22 DE AGOSTO -THIAGO EM PERIGO DE MORTE

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Os fiéis encaminham-se para o interior da igreja. É hora de começar a missa.

Os fiéis encaminham-se para o interior da igreja. É hora de começar a missa.

Sinhá Maria Rita estava nervosa. Buscava o filho com os olhos, sem sucesso. A campainha soou chamando os fiéis para dentro da igreja e o rapaz não aparecia. “Onde, diabos, se terá metido, este menino?” perguntava-se Sinhá Maria Rita, impaciente e batendo nervosamente o leque na unha do polegar da mão esquerda. Sinhazinha Florinda percebeu o nervosismo da mãe e compreendeu que era pelo desaparecimento do irmão. Ela o havia acompanhado com os olhos e viu quando a sinhazinha Benilde também se afastava do grupo. Viu, depois, a moça retornar, nervosa, lançando olhares fugidios em direção ao fundo da igreja, para os lados do enorme ipê roxo e compreendera que alguma coisa tinha acontecido entre o irmão e a jovem. Intimamente sorriu, pensando no atrapalhamento que certamente estava martirizando  seu mano. Sua mãe, envolvida pelos mexericos de sempre que as outras mulheres teciam, não se tinha dado conta de nada. Agora, aflita, buscava o filho inutilmente.

— Vamos, mãe, vamos entrar. O mano já foi embora.

— Embora?! Como assim, embora? — estranhou sinhá Maria Rita. Mais

FAZENDA GAMELEIRA, 22 DE AGOSTO DE 1822

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Sobre a grande lagoa da fazenda Gameleira o Sol nascia com o mesmo esplendor com que se punha e sua luz abençoava aquela terra prometida.

Sobre a grande lagoa da fazenda Itacoatiara o Sol nascia com o mesmo esplendor com que se punha e sua luz abençoava aquela terra prometida.

O dia amanheceu cinzento e ameaçando chuva. Mesmo assim, bem cedo, o coronel Raimundo Soares de Brito já estava no grande salão de refeições da Casa Grande, em companhia de sua esposa, Sinhá Maria Rita do Nascimento Brito e de seus dois filhos, sinhazinha Florinda e sinhozinho Tiago, ela com 16 anos e ele com 20. O assunto era o recente desligamento do Brasil em relação à coroa portuguesa e a confusão da resistência dos fazendeiros campomaiorenses ao novo Comandante das Armas. O coronel, com vagar e claramente, expunha a situação aos seus familiares. Dizia que todos sabiam que aquele fato havia acontecido em 9 de janeiro de 1822. Tinha sido nesta data que o Príncipe Regente do Brasil tomara a decisão mais importante para a futura Nação Brasileira, exclamando: “Se é para o bem de todos e felicidade geral da Nação, estou pronto! Digam ao povo que fico”. Com esta decisão histórica, Dom Pedro I decidiu em contrário à ordem recebida de retorno a Portugal. Rompia, assim, representando o Brasil, a subserviência do país em formação à coroa portuguesa. E o fez atendendo a um baixo-assinado dos maçons liberais radicais. Mas a coroa portuguesa não aceitou a rebeldia de Dom Pedro. Apesar de D. João VI — e com um sorriso maroto, o coronel esclareceu: seu nome completo é João Maria José Francisco Xavier de Paula Luis Antonio Domingos Rafael , Rei de Portugal, se posicionar favorável à independência proclamada por seu  filho, D. Pedro I, inclusive apoiando-o nesse sentido, desejava que a Província de Grão Pará e Maranhão continuasse Vice-Reino de Portugal (ou seja, uma colônia portuguesa no Brasil), respondendo diretamente à Coroa Lusitana, dada a sua situação geográfica favorável ao acesso dos navios europeus e ao grande rebanho bovino que nelas se criava e, também, à rica lavoura de algodão, milho, cana de açúcar e frutas como o caju, tudo nas mãos de criadores portugueses sediados no Piauí, no Maranhão e no Pará. 

— Por isto foi que a coroa nos mandou o Major João José da Cunha Fidié para assumir o posto de Comandante das Armas Portuguesas em nossa capital, Oeiras. Mas, ainda que portugueses ou descendentes, como é nosso caso, não desejamos esta servilidade à coroa e o motivo é que nos sentimos usados por um rei que, antes, nunca nos havia dado valor. Eis a razão de nossa rebeldia. Mais

NA FAZENDA CAPÃO DA ANTA, NOITE DE 20 DE AGOSTO DE 1822

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Em Parnaíba, já em 1822, o casario, em sua maior parte, era recoberto com telhas fabricadas por escravos.

Em Parnaíba, já em 1822, o casario, em sua maior parte, era recoberto com telhas fabricadas por escravos.

A freguesia de Piracuruca, à noite, é um desafio constante. Gente de má catadura, espertalhões, bucaneiros, ladrões, tudo o que há de pior no comércio daquele tempo perambula pelos botequins bebendo, roubando, brigando e matando. As fracas tochas que iluminam as ruas sem calçamento mais causam temor que espantam as sombras. No entanto, Leonardo e Facão Doido apearam de suas montarias, descontraídos.  Mostravam que estavam acostumados com a escuridão e  os fregueses perigosos.

As ruas estavam desertas, já às 20 horas. Mas os botequins fervilhavam de gente de toda espécie. Havia os botequins frequentados pela elite da freguesia parnaíbana, mas não eram eles o alvo dos dois homens. Eles queriam o “bas fond” e foi para lá que seguiram. Deixaram os cavalos aos cuidados de um cavalariço que, a troco de uma boa gorjeta, decidiu permanecer a noite toda, se necessário, por conta dos dois.

O local era muito barulhento e ficava às margens do rio Mulungu. Na verdade, um dos inúmeros braços do rio Parnaíba, em seu delta. Mais

“QUEM COM FERRO FERE, COM FERRO SERÁ FERIDO”

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Eis o assassino da garota Gabrielly Caroline Dias Rocha, de 10 anos.

Eu me peguei cheio de raiva e descobri que seria capaz de perseguir o assassino de minha filha até dentro da prisão, para eu mesmo puni-lo. E com requintes de crueldade.

Eu assistia ao noticiário e ouvia sobre o assassinato estúpido de uma garotinha em Uruana, Goiás. Depois da Globo, vi a notícia mais completa na Record. Na entrevista com o criminoso, ele dizia que tinha sido uma ação sob efeito do álcool. Tentara tocar na menina, mas como esta se recusara e tentara correr, ele enfiara uma faca debaixo do “suvaco” da garota. Fizera isto movido pelo medo de ser denunciado. Já era foragido de outras duas cidades e já havia sido condenado à prisão por estupro e por outro crime.

Todo matador sabe que uma facada direto debaixo do braço, na axila de uma pessoa, mata sem chance nenhuma de escape. A faca corta artérias importantes e pode, inclusive, varar o coração. Na arte marcial se sabe muito bem que até um soco violento disparado contra esta região pode causar parada cardíaca e morte imediata. Logo, concluí que o “coitadinho” que aparecia na telinha todo contrito, cabisbaixo e “arrependido”, de bom não tem nada. Ele está é “fazendo na latinha” depois que viu o resultado de sua ação inominável: a população, furiosa, depredou a casa onde ele e sua família moravam. Queriam mesmo era linchá-lo. Mais

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