O caju sempre foi muito apreciado pelos estrangeiros, desde o Brasil colônia.

O caju sempre foi muito apreciado pelos estrangeiros, desde o Brasil colônia.

Os plantadores de caju estavam insatisfeitos em Piracuruca. A terra de massapê que premia a freguesia de Piracuruca é muito boa para vários tipos de plantações, desde as gramíneas até as boas árvores de corte, como o pau rosa e outros. A freguesia do “Peixe que ronca” (Piracuruca, em linguagem indígena) fica bem próxima da costa marítima do Piauí e estava sendo muito frequentada por piratas e navios de muitas nações. O contrabando de árvores e de outras produções locais irritavam sobremodo as gentes do local. 

A par com a exploração do caju, da cana de açúcar (o que mais interesse despertava nos piratas internacionais) e do bom gado de corte, havia o cultivo do algodão, também muito visado pelos bucaneiros e por comerciantes de todas as nacionalidades, e uma riquíssima fauna que, no mercado contrabandista, alcançava grande valor. Aquela disputa não era boa para as gentes da freguesia de Piracuruca. E a balbúrdia que reinava no Rio de Janeiro, com Dom Pedro às voltas com o recentemente criado Império do Brasil, e ainda sob a ameaça de ter que retornar para Portugal por exigência da Corôa Portuguesa, fazia que o imperador recém-empossado descuidasse da atenção ao Nordeste. A par com isto, o Brasil ainda não dispunha de um Exército devidamente armado, mesmo que desde a guerra do Paraguai ele já tivesse sido organizado hierarquicamente.

Chiquinho do Berro era um Capitão do Mato que também jogava a mortal capoeira e não perdia contenda.

Chiquinho do Berro era um Capitão do Mato que também jogava a mortal capoeira e não perdia contenda.

Naquele dia 20 de agosto de 1822, um tiro de bacamarte, dado de emboscada, derrubou da sela, definitivamente, o famoso Chiquinho do Berro, tropeiro e, também, capitão do mato. Caçador de escravo fugido, tinha adquirido o sobrenome “do Berro” porque os escravos que aprisionava urravam de dor sob a chibata impiedosa de Chiquinho. O cabocão, agora, estava estirado de borco no saibro amarelo da estrada conhecido na região como “pedra de jacaré”, pois era cortante e bastante incômodo aos que transitassem sobre ele. Estirado a fio comprido, Chiquinho do Berro estava, agora, indiferente à gritaria que logo se formou no combate entre os tropeiros que tangiam uma boiada de gado Gir, tomada quase à força de fazendeiros locais para ser entregue a compradores estrangeiros, entre eles uma burguesia comercial inglesa e francesa, de onde brotavam gente como John Luccock, Henry Koster e Tollenare, interessados na maioria das vezes em verificar assuntos de importância econômica no Nordeste brasileiro e arrancar, se necessário à força das armas, animais que dessem lucro substancial na Europa. Peles de onças pintadas e de jacarés eram predileção, assim como papagaios, araras, canários da terra, trinca-ferro e pintassilgos. Dos produtos da terra a batata inglesa, a batata doce, o milho, o quiabo, o jiló, a abóbora, o inhame e muitas e muitas outras leguminosas eram do interesse dos estrangeiros, que por elas pagavam uma ninharia. Mas uma boa manada adquirida a preço irrisório graças ao compadrio político local era o que mais fazia crescer os olhos dos estrangeiros, ao mesmo tempo que fazia descer lágrimas pelos olhos dos fazendeiros desamparados. Desta vez, contudo, Chiquinho e seus comparsas deram o azar de roubar a boiada da fazenda Capão da Anta, pertencente ao pai de Leonardo Castelo Branco, que logo se destacaria na revolta que estava prestes a estourar na freguesia de Piracuruca.

Os cangaceiros não foram criação do Lampião. Era assim que os caboclos de antigamente se vestiam nos sertões do Piauí e do Maranhão.

Os cangaceiros não foram criação do Lampião. Era assim que os caboclos de antigamente se vestiam nos sertões do Piauí e do Maranhão.

A refrega foi rápida, com os larápios batendo em retirada e deixando apenas quatro deles fazendo companhia a Chiquinho. Leonardo, à frente de uma dúzia de vaqueiros armados e dispostos, retomou o controle da boiada e tangeu-a de volta ao seu local de origem. Após guardarem a boiada no curral, o homem discutiu com seus pais. Queria ir à freguesia de Piracuruca para enfrentar os bucaneiros disfarçados de bons cidadãos estrangeiros. Entretanto, foi contido por seus pais, que não desejavam estugar a intriga entre aquele povo perigoso e eles. Sabiam que se os estrangeiros decidissem avançar sobre a fazenda não haveria como detê-los, pois podiam comprar os serviços de muitos cabras desempregados e dispostos a tudo por dinheiro. Tinham tido a sorte de não terem matado nenhum estrangeiro. Apenas gente local havia perdido a vida. Assim, a ira dos bucaneiros, pois havia alta probabilidade de se tratar deles, não seria suficiente para que se empenhassem numa batalha contra os fazendeiros. Além do mais, os políticos de seus países não apoiariam uma briga sangrenta com o povo do Nordeste brasileiro. Abandonado pela Coroa, aquele território rico em outras coisas que não ouro e jóias preciosas, podia ser explorado à sombra das intrigas internacionais portuguesas, francesas, inglesas e holandesas.

Leonardo abdicou de ficar discutindo com seus pais. Saiu da grande sala da casa e foi ter com os empregados. Entre eles havia escravos e alforriados e entre estes, o Juca Facão Doido, um negro musculoso, com mais de um metro e oitenta de altura, olhar mau, face sempre fechada com expressão ameaçadora. Todos o temiam, pois era mestre de maculelê. Manejava dois facões de mato entre as mãos como se fossem pás de moinho de vento. Além disto, era exímio capoeirista. Era o capitão do mato mais temido na região e fiel aos seus patrões como cão de guarda.

Mestiços mamelucos e outros originaram a nossa raça tipicamente cabocla. Nenhum brasileiro é branco ou negro. Todos são caboclos.

Mestiços mamelucos e outros originaram a nossa raça tipicamente “cabocla”. Nenhum brasileiro é branco ou negro. Todos são caboclos, mamelucos e outros.

Com um aceno quase imperceptível de cabeça, Leonardo chamou Juca para segui-lo. Caminhou até se embrenhar no pequeno bosque bem cuidado que circundava um lago de águas transparentes e tranqüilas, onde a família costumava pescar piaus e outros peixes de água doce. Juca se aproximou de seu patrão só depois de escrutinar ao redor, mirando cuidadosamente por entre os troncos e os emaranhados de cipós para ver se havia alguém indesejado por perto. Não havia. Aproximou-se pisando macio, mesmo sobre folhas secas e galhos caídos no solo. Aquilo sempre causava admiração e temor em quantos o conheciam. O patrão permaneceu calado, mastigando um palito entre os dentes e olhando descuidadamente por sobre as águas verde-azuladas do lago. Naquela hora do dia os reflexos da luz desciam como lanças varando o líquido e se perdiam rumo às profundezas de mais de quinze metros. O vento suave quase não encrespava a água e se podia ver, aqui e acolá, cardumes de peixes se agitando apressados. As folhagens murmuravam alguma coisa incompreensível, mas muito agradável de se ouvir. 

— Vou à freguesia de Piracuruca, e quero que você venha comigo. Arme-se. Talvez tenhamos confusão. Vamos sair discretamente, por isto, arreie meu alazão com o mínimo de estardalhaço possível, compreendeu?

— O patrão quer que eu chame mais alguém?

— Não. Creio que você e eu daremos conta do recado. Vamos apenas espiar e escutar o que se diga por lá. Mas nunca se sabe. Hoje, demos cabo de alguns cabras safados. Gente sem importância, mas que estavam a soldo de algum estrangeiro. Certamente não vamos encontrar o desgraçado na freguesia, mas desejo saber quem é ele e qual sua nacionalidade. Se possível, onde está. Você será minha sombra. Fique alerta. Não quero ser pegado de surpresa nem à traição.

— O patrão pretende dar uma surra no sujeito?

— Não somente uma surra, Juca. Quero que ele fique desancando a ponto de não mais poder vir para cá causar arrelia entre nossa gente. Não quero que ele morra, seja lá quem seja, mas se isto não puder ser evitado… Como se diz por aqui: cana que não presta pra engenho a gente corta e joga fora. Então…

Juca assentiu com a cabeça e aguardou mais um pouco. Como o patrão não demonstrasse mais nem mesmo o estar notando, retirou-se em silêncio e foi preparar as montarias..

Eis o que sobrou dos orgulhosos Tremembés de outrora. Povo esquálido, magro, ainda tentando manter viva a memória de seus antepassados.

Eis o que sobrou dos orgulhosos Tremembés de outrora. Povo esquálido, magro, ainda tentando manter viva a memória de seus antepassados.

Naquela mesma hora dois homens cavalgavam a rédeas soltas rumo a Parnaíba. Era ali que os “comerciantes” permaneciam. Seus navios ficavam ancorados longe, no mar. Vinham até a embocadura do rio Mulungu, subiam por ele em chalupas, dezenas delas, e chegavam à movimentada vila. Em Parnaíba podia-se encontrar gente de quase todos os recantos da Europa, mas os piratas franceses, ingleses e holandeses  abundavam na região. Entretanto, também havia muitos navios comerciantes, com as mais diversas bandeiras içadas acima de suas velas. A freguesia de Parnaíba fervilhava de gente com as mais diferentes e coloridas roupas. Ouvia-se vários idiomas, mas os da terra exigiam que se falasse o português, o que tornava a comunicação muito complicada, pois os estrangeiros tinham a “língua presa”, como se dizia por ali. Os sons que emitiam eram quase incompreensíveis, mormente quando se tratava de holandeses. Mas o povo se virava. Todos sabiam que os tais comerciantes na verdade vinham roubar o que pudessem. Só que não o faziam de peito aberto, não. Contratavam capangas que pilhavam as fazendas e lhes entregavam o produto do roubo por um preço aviltante. A milícia local não era suficiente nem capaz de enfrentar a gentalha acostumada às liças violentas com armas de fogo ou com arma branca. Na verdade, agiam mais como espiãs e se restringiam a espionar o tipo de navios, os armamentos dos tripulantes, a quantidade deles etc… para informar ao Ministro da Guerra, no Rio de Janeiro. Este, não dava retorno. Os milicianos de Parnaíba tinham a impressão de que seus comunicados caíam no vazio, mas ainda assim mantinham religiosamente a tarefa árdua de enviar emissários com as informações. Serviam-se sempre dos índios Araioses, muito abundantes em Parnaíba e tremendamente rebeldes à domesticação escravagista. Não era nada fácil colocar correntes em um Araiose. Eram gente forte, aguerrida, resistentes na refrega e conheciam como ninguém os caminhos por dentro do território brasileiro. Vivam em paz com os Tapuias Tremembés, que habitavam mais o lado maranhense que o piauiense. Os tremembés eram exímios nadadores e também muito aguerridos. Não tinham a compleição física dos Araioses no quesito altura, mas também eram muito fortes e temidos. Vez por outra atacavam as chalupas e as viravam, matando os estrangeiros afogados e lhes roubando o que tivessem. Se entre os estrangeiros houvesse algum considerado valente na luta, era feito prisioneiro e levado para a tribo onde, em um ritual de magia, os tremembés comiam o infeliz, acreditando que assim incorporavam seu espirito guerreiro. Este costume era também comum entre os Tupinambás, quando ainda não catequizados. Nisto eles se diferenciavam dos Araioses, que não praticavam o canibalismo. Para evitar os temidos ataques os estrangeiros sempre traziam espelhos, colares de vidro e outras bugigangas com que compravam a paz entre eles e os violentos e traiçoeiros Tremembés. Bebida alcoólica foi a primeira coisa tentada com ambas as tribos, sem sucesso. Os índios não aceitavam senão o cauim fabricado para ser bebido em suas festividades. Fora disto, não colocavam na boca nenhuma gota de álcool, pelo que era raríssimo se ver um índio Araiose ou Tremembé bêbado pelas ruas da freguesia de Parnaíba.

Piratas, hoje, só em filmes. Mas estes retratam como eram os verdadeiros.

Piratas, hoje, só em filmes. Mas estes retratam como eram os verdadeiros.

Em um boteco de má fama estava o bucaneiro holandês Bastiaan van Engelen. Alto, espadaúdo e com pelos vermelhos espalhados por todo o corpo, tinha uma sobrancelha de assustar. Quando sem a camisa, dava a impressão de estar pegando fogo, pois seus pelos vermelhos refletiam indecentemente a luz que neles caísse. Tinha, como toda gente de sua terra, a pele alvíssima, o que contrastava fortemente com a cor de seus pelos grossos e abundantes. Os olhos azuis tinham uma mirada maldosa, que fazia perder a coragem a quantos mirassem. Rosto quadrado, bíceps gigantescos, tórax avantajado, pernas musculosas e um alfange de assustar que vivia dependurado de sua cintura como uma ameaça a quantos do homem se aproximassem. Era em busca deste gigante violento das gélidas terras holandesas que vinham os dois que cavalgavam à toda, lá de Piracuruca. Ambos vinham preocupados com a má notícia que tinham de lhe dar, pois a reação do gigante holandês não era boa, quando alguém fracassava com ele. A perda da boiada que o holandês havia encomendado iria desencadear a fúria do bucaneiro. Os dois capangas pensavam no que o estrangeiro poderia fazer. Será que arregimentaria seu povo para uma incursão em Piracuruca? Será que atacariam a fazenda Capão da Anta ou escolheriam outra? A eles não interessava uma vindima, mas tão-só o gado bovino. Possivelmente, se decidissem invadir Piracuruca, atacariam qualquer fazenda onde se criasse gado de corte.

Eis um produto caboco que o mundo todo quer e admira...

Eis um produto caboco que o mundo todo quer e admira…

A fantasia dos dois assustados capangas os fazia exagerar nos quadros, visto que a distância a ser percorrida por qualquer um que desejasse chegar a Piracuruca era muito grande, partindo de Parnaíba. Comida, água, manejo dos animais e muito mais coisa atrapalhariam qualquer avanço, sem contar que chamaria sobre o grupo a atenção do pessoal do Exército do Império que tinha olhos por todos os lados, principalmente naquelas paragens tão disputadas. Certamente que Bastiaan se limitaria a exigir que os homens conseguissem outra manada o mais depressa possível. E certamente que também não lhes faria nenhum mal, embora com toda a certeza lhes desse uma tremenda bronca e, talvez, alguns “carinhosos” tapas de mão aberta nas bochechas para que dele se lembrassem por um longo, longo tempo. Mas seria só.

O que eles não sabiam era que aquele incidente tinha colocado fogo num rastilho de pólvora que iria desencadear ações revoltosas, que dariam grande dor de cabeça ao Comandante das Armas portuguesas, Fidié…