Muitas vezes as tempestades de nossas vidas são desencadeadas aos montes em um relacionamento conturbado.

Orozimbo chegou bem cedo, como era seu costume. Entrou, abancou-se, pediu café e pão, acendeu seu indefectível cachimbo e depois de tomar o café e comer o pão, passou a pitar pachorrentamente, olhar perdido ao longe. Deixei-o lá fora e fui cuidar de meu almoço. Eu ia sair para a academia onde faço musculação. Ele decidiu me seguir e tive de ir a pé, conversando com o velho.

— Vancê soube qui aquele casal qui veio aqui trazido pelo pade Felício, se separô? Adispois de uvi vancê, a muié ficô doidona. Num arredô o pé e se separô do marido. Mas o qui mais ispantô este véio foi que o pade num se incomodô, nhor não. Ele inté tá servindo de amparo para o marido da dona, qui despencô feito manga madura. Véio num intendeu nadica de nada, num sabe? Ô cabra frouxo, sô! Se uma diaba qué ir imbora, qui vá, ora! Pru qui é qui o home tem de ficá de jueio choramingando feito bebê desmamado?

Um casamento que leva a uma lamentável situação destas, tem de terminar para o sossego de cada par do casal.

— Eles não são mais minha preocupação, meu amigo. O que eu tinha a dizer a ambos, disse naquele dia. Fim.

— Só qui véi tem uma pregunta pra vancê. Se tudo acuntece segundo a vontade de Olorum, cuma vancê afirma qui Oxalá, o fio d’Ele, dixe quando teve cá cum a gente, entonce cuma vancê ixprica ter sido vancê a causa da separação dos dois?

— É simples, meu amigo. Padre Felício foi o instrumento de que Ele se serviu para que os dois viessem a este outro instrumento Seu…

— Meu?!

— Não, de Olorum. Todos nós somos instrumentos d’Ele. Todos somos peões no Seu tabuleiro de Xadrez. Eu quis dizer que Olorum se serviu do Padre para conduzir o casal em agonia até mim, a fim de que eu lhes apontasse o caminho mais rápido e mais à mão para que saíssem da agonia em que se encontravam.

— Hum…. Tá certo, véi intendeu. E daí?

— E daí nada! Eu fiz o que tinha de fazer e ponto final.

— Peraí! E aquele negóço de o qui Deus uniu no céu o home num deve separá na Terra? O pade levô um tempão convencendo este véio de que o casamento é uma união sagrada por Olorum e num pode ser dismanchado assim, sem mais aquela. Liás, num pode ser dismanchado de jeito e manera. Agora, vancê dismancha um casamento, o pade encara tudo sem se preocupá… Véi num intendeu nada!

— Como é no Candomblé?

— No meu?

— Claro, no seu. Como é que vocês encaram o casamento?

— Bom, num tem esse negóço de sagrado, nhor não. Um home se casa cu’ma muié e ela cum ele quando estão apaixonado. É a vida, né não? Se uma fêmea se sente atraída pelo macho e este, pur ela, entonce o mais naturá é que se case, seja ome ou animá. Mas se num dé certo, cada quá segue seu caminho. Um num vai ficá infernizando a vido do otro, nhor não. Mas entre vancês, cristão, a coisa é munto compricada. Às vez véi pensa que vancês são enrolado de nascença, num sabe?

— Bom, cada cultura tem um modo específico de encarar o matrimônio. Mas esse negócio de “o que foi unido no céu não se separa na Terra” é fantasia do tempo do ronca, meu velho. Não existe nada disto no mundo do Sagrado. Até porque, como você já sabe, a Terra e toda esta galáxia onde ela se insere é uma ilusão. Não existem de verdade. Então, como é que em um mundo ilusório alguém pode agir de modo a desfazer qualquer coisa que seja feita no Mundo Eterno, Espiritual?

Velho Orozimbo me olhou matreiro e risonho. Perguntei a razão de seu riso maroto e ele me respondeu dizendo que se eu desse um trupicão numa pedra e arrancasse a unha do dedo mínimo, veria que este mundo é bem real. E eu lhe expliquei que esta realidade é relativa. A dor, a unha arrancada e a pedra são reais porque estão sendo vistos através de uma ilusão, o corpo físico que reveste nosso espírito. Assim, para um ilusão, outra ilusão parece realidade. Ele coçou a carapinha, balançou a cabeça dubitativamente, e me pediu que continuasse falando. 

Ladrão confesso, em vez de ser metido atrás das grades e ter tido seus bens bloqueados e indisponibilizados, ele continua livre, leve e solto, deitando falação dentro do partido, onde manda e desmanda à vontade. Pode?

Ladrão confesso, em vez de ser metido atrás das grades e ter tido seus bens bloqueados e indisponibilizados, ele continua livre, leve e solto, deitando falação dentro do partido, onde manda e desmanda à vontade. Pode?

Sobre o casal não tenho mais nada a falar, meu amigo. Já disse: cumpri com o que tinha de cumprir e pronto.

— Entonce vamo falá de otra coisa. Vancê tá acumpanhando esse rolo do Mensalão?

— Hum-hum… Por que?

— Lembra dum tar de Roberto Jefferson? Um tar qui era deputado?

— Claro! Ele está na crista da onda, neste momento. Por que pergunta? Ou melhor, por que seu interesse nele?

— É qui o home tá arriado, num sabe? O câncer tá cumendo o pâncre dele. Entonce, véi ficô pensando se vão sê disalmado e metê o pobre na cadeia. Se vão, vancê acha qui isto é certo? Ele num já sufreu demais, não?

— Meu velho, uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. Ou seja: ele sofrer com câncer é parte de sua vida, como pode ser parte da vida de qualquer pessoa. Se estiver no script da vida de qualquer um de nós que a gente vai sofrer com um câncer, então, sofre-se deste mal danado de ruim. Agora, isto não limpa a sujeira que o Jefferson fez. Seus roubos; sua corrupção; sua inconsciência para com a responsabilidade que o povo lhe dera ao elegê-lo deputado para representar o Estado por onde tinha sido eleito. O dever Moral e Ético ele devia ter exercido junto com o mandato que o povo lhe outorgara. Errou com a Ética Política e traiu milhares de eleitores que nele confiaram. É por isto que foi condenado na Lei dos homens. E terá de pagar pelo seu crime. Claro que não se vive mais nos tempos da escuridão, quando a impiedade era a regra. Provavelmente haverá meios de atenuar seu sofrimento, embora, até onde fiquei sabendo, ele já está livre do câncer. Pelo menos foi o que li nos noticiários. Isto significa que tem condições de toda noite ir dormir na cadeia. Não é uma pena ruim, considerando o que fez junto com os outros ladrões de colarinho branco. Só vai dormir na prisão. Quer dizer que sua punição é mais moral que física, entendeu? Não vai dormir em sua cama chic, com lençóis de cetim e ar condicionado nas noites de calor. Não terá uma televisão de 60 polegadas, em três D, nem um vídeo-play para assistir aos filmes que lhe interessam no conforto de sua casa. Mas é só durante a noite, na prisão. Depois, quando regressar à casa pela manhã, retomará toda a sua vida. Poderá trabalhar, poderá politicar, poderá voltar a planejar novos assaltos ao erário público… Enfim, sua prisão, a meu ver, foi de mentirinha. Uma reles satisfação à sociedade. 

Eis o que sobrou da arrogância política de Jefferson. Uma figura esquálida… Mas que ainda pode ser perigosa para o país, se retornar à “polititica nacional”.

— Caramba, ome, véi num tinha pensado desse jeito, nhor não. Mas parece qui vancê tem rezão, num sabe? Óia, inté o pade num enxergô a coisa ansim cuma vancê falô. Ele ficô morrendo de pena do tar de Jefferson e inté rezô ao Deus cristão pra Ele perdoá os pecado do infeliz…

— O mal do padre Felício, Orozimbo, é que ele ainda acredita em pecado.

— Ué, e vancê, não?

— Eu? É claro que não, meu velho. Esse negócio de pecado é uma balela e tanto. Serviu muito bem, no tempo da chamada “Santa Inquisição” para que os padres, os bispos, os cardeais e até mesmo os papas tomassem dos ricos aquilo que queriam. Serviu para mandar queimar as mulheres que com eles se deitaram e que, por isto, poderiam pôr em questionamento suas “santidades” fajutas. Mas até hoje ninguém sabe mesmo o que seja o tal pecado. Eu acho que o “pecado” é um eco de algo que já morreu há muito, Orozimbo. Então, rezar a Deus pedindo que Ele perdoe o pecado ou os pecados de alguém é um ato vazio. Deus é reconhecidamente o Maior Sábio, a Maior Justiça, a Maior e Inigualável Consciência que existe eternamente. Então, antes mesmo de alguém pensar em pedir por outro, Ele já conhece, desde sempre, o que esse outro merece ou deixa de merecer. Não é só porque um homem vestiu uma batina, aprendeu uma porção de rapapé que julga sagrado, que tal homem vai influenciar nas decisões de Deus. Ao Jefferson lhe será dado conforme seu merecimento, nem mais nem menos. Esta é a Lei. E ela é válida para o Jefferson tanto quanto o é para mim e para você ou o Felício. Ele devia saber disto.

— Entonce, recebê essa punição de mintirinha, cuma vancê dixe, é o que o tar de Jefferson merece diante do Deus cristão, né não?

— É.

— E cuma é qui vancê parece aborrecido cum isto?

— Mas eu não estou. Talvez, há vinte anos atrás, eu realmente estivesse bufando contra isto. Iria dizer que o Supremo agiu covardemente etc, etc, etc… Mas se tudo acontece conforme a Vontade do Pai; se não cai uma folha do galho de uma árvore que não seja por Sua Excelsa Vontade, então, o que tenho de fazer é aceitar os fatos com paciência e indiferença. A mim, deve bastar-me o meu quinhão. A cada dia ele me é dado e eu tenho de saber que a cada dia recebi exatamente o que fiz por merecer. Nem mais nem menos. Não tenho de ficar acusando ninguém nem metendo o bedelho no que não é de minha alçada. Ainda assim, vez por outra, caio na tentação e falo o que penso e 0 que sinto. Mas e daí? Ainda sou humano. Ainda vivo entre estes humanos encarnados. Ainda estou sob a Lei da Terceira Dimensão. Não sou um Cristo, cujo Espírito não era daqui. Compreende?

— Hum-hum. A gente chegô. Vancê vai fazê sua ginástica qui véi vai tê cum pade. O peste quaje qui me convence da históra do tar pecado. Eu tava caje me sintindo mal pur causa do Candomblé, pois o pade me buzinô as oiças dizendo qui praticá otra religião qui não a dele era um grande pecado. Agora, ele vai uvir…

Fiquei rindo. Gostaria de ouvir a discussão dos dois…