Uma gigantesca gameleira enfeitava a frente da fazenda do "coroné" Raimundo.

Uma gigantesca gameleira enfeitava a frente da fazenda do “coroné” Raimundo.

Thiago aproximou-se da irmã que se debruçava na balaustrada da grande varanda da casa da Fazenda Gameleira cuja árvore do mesmo nome ensombreava e propiciava uma temperatura muito amena e agradável. Eram 10 horas, o sol estava bem quente, mas à sombra da gameleira secular tudo era frescor. A jovem Florinda não conseguia disfarçar sua ansiedade pela ausência do jenipapo. Ele se fora no dia anterior, trajando as roupas que lhe tinham sido dadas e sumira na mata. Onde estava? Como dormia? Em sua cabeça soava a voz dura e direta do índio: “Urissanê quer tu!” Ela se sentia corar por ter gostado de ouvir aquilo. Não tomava as palavras do índio como insulto, como fazia sua mãe vitoriana demais para seu gosto. Ele falava conforme seus costumes. E ela havia gostado do que ouvira. Por que? Afinal, tratava-se de um índio bronco, sem cultura, sem instrução. O que ele sabia da cultura européia? Nada! O que lhe poderia dar de comodidades citadinas? Nada! Mesmo assim, gostara muito e não conseguia se livrar da voz impositiva e decidida do jenipapo, nem, muito menos, de seu corpo imensamente musculoso e… nu. Uma nudez que a cativara totalmente.

— Sinhazinha, minha irmã — a voz de Thiago tirou-a de seus devaneios —, creio que estás dando asas demais a essa cobra jenipapo. Por mim, ele seria feito prisioneiro para ser trocado por nosso pai.

Uma Sinhá, dona de engenho e esposa de "coroné" nordestino brasileiro vestia-se similarmente ao que veste a atriz.

Sinhazinha não desconfiava, mas seu coração já pulsava pelo jenipapo.

Florinda virou-se para o irmão e suspirou fundo. Sabia que Thiago ansiava por fazer alguma coisa que lhe tirasse do peito a vergonha de ser humilhado pelo jenipapo que só o tratava de “homem frouxo”. Este tratamento já começava a fazer estrago na imagem sempre impecável e sempre afofada pela mãe de ambos, a sinhá dona Maria Rita.

— Se meu querido irmão pensasse com a cabeça fria, veria que tratar bem esse jenipapo é melhor do que insultá-lo. Será que tu já pensaste em quantos homens seriam necessários para subjugá-lo? Em quantas vidas seriam fatalmente perdidas na tentativa de dominar Urissanê? Não vês que ele é forte como o Jatobá? Que é ligeiro como o coelho? Que se move tão silencioso que é impossível ouvir onde está? Ele, sozinho, meu querido irmão, vale por todos os homens desta fazenda. Não desfaço da coragem de nossos homens, principalmente de Jacutinga, mas mesmo este, não é páreo para o jenipapo. Temos de agir com cautela e muita, muita política.

— E índio entende lá de política? — Menosprezou Thiago. — Eles vivem estupidamente. Adoram fantasmas que suas fantasias criam. Não têm civilização. São rudes. E mesmo assim, parece-me que tu caíste de amores pelo silvícola. Por que? O que nele te atrai?

Florinda sentiu-se enrubescer, mas não se deu por vencida. Olhando desdenhosamente para o corpo esguio de seu irmão, ironizou.

Os índios brasileiros sempre se pintam quando vai haver uma solenidade na taba.

Os índios eram simplórios, mas viviam em harmonia com a Natureza e não mentiam nem se desrespeitavam.

— A força física. A coragem. A decisividade. A honra. Foi por honra que aceitou vir aqui, entre nós, para trazer um pedido de nosso pai e levar até ele nossas informações. Põe-te no lugar dele, numa situação inversa. Terias coragem de adentrar a taba dos jenipapos para fazer o que Urissanê está fazendo por um estrangeiro?

Thiago engoliu em seco e olhou magoado para sua irmã.

— Não, meu irmão, tu não terias tal coragem. Nem tu nem ninguém que eu conheça, portanto, não te agastes. Acho que tratar bem o silvícola é ampliar as possibilidades de salvação de nosso pai. Talvez os índios aceitem uma troca. Meu pai por dez bois e dez vacas, sendo pelo menos duas paridas, dando leite… Quem sabe?

— Eles não sabem lidar com gado…

— E por que achas que estou ensinando Urissanê a ordenhar uma vaca? A montar a cavalo? A fazer queijo?

Thiago permaneceu calado olhando sua irmã. A idéia dela parecia excelente, só que o tempo era exíguo demais para dar tempo a que o índio compreendesse a vantagem de ter bois e vacas à disposição da tribo.

Trepado nos galhos da enorme gameleira, Urissanê observava os dois irmãos conversar. Não podia captar o que diziam, por isto não sabia o teor da conversa. Mas notava que o rapaz estava raivoso e a jovem, descontraída. Será que falavam a seu respeito? Naquele momento Thiago deu dois beijos nas faces da irmã e desceu as escadas da varanda, dirigindo-se para a grande casa onde ficavam o povo de pele de carvão. Urissanê observou-o falar com um daqueles homens estranhos e este correr até desaparecer por detrás da grande senzala. Pouco tempo depois, ei-lo que retornava com um cavalo todo arriado. Ele viu Thiago montar e disparar a galope para fora da fazenda. “Para onde vai homem frouxo?” Perguntou-se, curioso. Alguma coisa o fez inquieto. Algo lhe dizia que aquela saída do “homem frouxo” tinha relação com ele, Urissanê. E não era nada bom. Mas não podia atinar em quê. Voltou os olhos para a varanda e viu que sinhazinha estava de costas para a gameleira. Como se fosse um grande macaco, rápido como os arborícolas, deixou-se cair de onde estava para um galho mais abaixo e deste para outro e deste outro para o solo. Então, afastando-se do tronco onde caíra, caminhou naturalmente para a varanda, justo quando sinhazinha Florinda tornava a se voltar para mirar o caminho. O sorriso iluminou aquele rosto bonito, que Urissanê não conseguia tirar da lembrança. E pela primeira vez o índio sentiu as mãos suadas e a boca seca. Estranhou aquilo. De que estava com medo?

Atriz "global" trajando as roupas do início do século XIX e fins do século XVIII. Ela representa uma sinhazinha.

Sinhazinha bem podia ser assim, jovial, inocente e confiante onde todos tinham dúvidas.

Sinhazinha Florinda desceu correndo as escadas e veio ter com Urissanê. Parou diante dele com um sorriso que lhe iluminava todo o rosto e o jenipapo notou um brilho de alegria nos olhos da jovem branca. Seu coração deu saltos no peito e ele estacou diante da moça sem saber o que fazer. Se fosse uma das cunhãs da tribo, ele a tomaria naturalmente pela mão e a levaria para o poço do amor. Mas as brancas tinham estranhos modos de se comportar. E viam as coisas e a vida de modo mais estranho ainda. Envergonhavam-se da nudez e se cobriam com aqueles panos, que chamavam de roupa, mesmo em dias quentes como os últimos passados. Ali, agora, o sol já dava mostras de que ia castigar e, no entanto, a jovem branca estava totalmente coberta com a tal roupa. Ele também se vestia como um branco e estava totalmente desconfortável dentro daquela coisa. Nunca, antes, havia notado o quanto o suor era incômodo até trajar-se como branco. Não, ele não podia compreender aquele modo de vida.

— Que bom que você está aqui! — exclamou impulsivamente a jovem sinhazinha, corando até à raiz dos cabelos ao perceber que se traíra. Não devia deixar que o silvícola notasse seu interesse nele. Mas era tarde. Urissanê também tinha sua atenção toda presa na jovem sinhazinha e percebeu a felicidade da moça ao vê-lo. Isto fez que seu coração também desse pulos de alegria dentro do peito e ele não conteve um sorriso, que suavizou a expressão sempre dura e desconfiada em sua face. Mas antes que pudesse dizer ou fazer qualquer coisa, como uma sombra saída do nada eis que Jacutinga se pôs ao lado de sinhazinha Florinda. O olhar do caboclo para o índio era como punhal e Urissanê sentiu a raiva e a antipatia do homem. Se estivessem só os dois, atacá-lo-ia sem pestanejar. Mas em respeito à jovem filha de seu prisioneiro, refreou seu impulso e se limitou a lançar um olhar gélido ao recém-chegado. Sinhazinha notou a tensão no ar e tratou de agir. Com autoridade de quem não admite questionamento, ordenou a Jacutinga que fosse preparar uma vaca para que o jenipapo pudesse ordenhá-la. Estranhando a ordem, Jacutinga rodou nos calcanhares e se dirigiu para o curral, observando que a jovem tomava o braço do índio com naturalidade, embora este não tivesse entendido o gesto e olhasse curioso para aquilo.

Sinhazinha não sabia, mas nas terras da fazenda Gameleira vários riachos corriam por entre a mata.

Sinhazinha não sabia, mas nas terras da fazenda Gameleira vários riachos corriam por entre a mata.

— Vamos! — Convidou sinhazinha, dobrando delicadamente o braço do índio para que o seu pudesse ali se encaixar. Urissanê sorriu levemente, admirado com aquele modo de agir da jovem branca e, deliciado, se deixou andar bem devagar ao lado dela. Notou que  a moça se apoiava em seu braço e olhava tudo como se tudo visse pela primeira vez. Ele buscou ao redor o que havia para fazer que ela sorrisse daquele jeito tão encantador, mas não viu nada que não fosse natural ao ambiente dos brancos. Eles tinham a mania de derrubar a mata e plantar árvores segundo seu modo comodista de viver. Cada árvore tinha um lugar definido e a ele parecia que elas estavam constrangidas, como se estivessem deslocadas e perturbando a harmonia artificial criada pela mão do estrangeiro. Havia até árvores que tinham sido cortadas arredondadas, como as cabeças dos guerreiros de seu povo. Tudo ficava muito bonito, mas estranhamente insultuoso para as vidas que viviam na Natureza, como o seu povo. Ele notara que ali não rastejavam as cobras nem saltavam os sapos ou as rãs. Não voavam as pequenas aves coloridas e silenciosas, que na mata caçavam, entre os troncos e cipos, aranhas e pequenos besouros. Em compensação, havia mosquito e moscas em quantidade bem maior do que havia na sua taba.

Uma pocilga, por mais que se lave, sempre tem um odor desagradável.

Uma pocilga, por mais que se lave, sempre tem um odor desagradável.

E havia aquele cheiro acre, vindo das fezes dos animais de cornos e dos caititus domesticados que a jovem chamava de porcos. No dia anterior ele fora levado à estrebaria, onde ela lhe apresentara os cavalos. Lá, também, o odor era repulsivo, acre. Mesmo assim, a moça andara pelo ambiente sorrindo desenvolta, parecendo não notar o fedor do lugar. Urissanê não atinava com o que sinhazinha via de tão bom num ambiente que quase sempre fedia. No íntimo, ele sentia dó da jovem. Será que ela jamais tinha sentido o cheiro da água clara do riacho murmurante que corria por entre as raízes, sob as sombras das grandes árvores? Ele olhou para a jovem e pensou em que ia levá-la para conhecer a mata. Sentia que ela ia gostar.

O queijo surpreendeu Urissanê, que ao prová-lo gostou muito.

O queijo surpreendeu Urissanê, que ao prová-lo gostou muito.

Ela abriu a porteira do curral e puxou Urissanê pela mão. Ele se deixou levar, olhando com repulsa para o chão cheio de fezes de bois e vacas. Sinhazinha notou-lhe o olhar, sorriu e disse que ele tivesse cuidado para não ter os pés premiado com um daqueles beijus. Urissanê não sabia o que era um beiju, mas não perguntou. Limitou-se a se concentrar onde pisar sem se sujar. Chegaram ao curral onde ele viu uma vaca separada de sua cria. Jacutinga amarrava as pernas traseiras do animal à altura dos joelhos e sinhazinha lhe explicou que era para evitar que a vaca escouceasse quando fosse ordenhada. E lhe explicou tudo o que ia acontecer ali. Urissanê permaneceu calado, apenas vendo Jacutinga colocar o banquinho, sentar-se, colocar o balde sob as tetas da vaca e começar a ordenha. Ele foi instado a se abaixar para ver melhor a ordenha. Sinhazinha explicava-lhe tudo cuidadosamente. Então, de repente, Jacutinga se levantou e lhe apontou o banco. Urissanê olhou espantado para a moça, mas esta sorrindo fez que ele se sentasse e pegasse as tetas da vaca nas mãos. Sempre receoso, o jenipapo obedeceu. Em menos de dez minutos ele ordenhava a vaca com a ajuda das mãozinhas delicadas e brancas de sua acompanhante. Achou divertido. Quando o balde ficou cheio, ela o levou a ver como se fazia o queijo. Explicou-lhe muita coisa a respeito, mas ele esqueceu quase tudo. Só não esqueceu do gosto do queijo que ela lhe dera a provar. Então, a jovem passou a explicar o quanto era bom para um povo ter vacas para ordenhar e fazer queijos e coalhadas. Ela caminhou um pouco e pôs em um prato algo branco como o leite que ele vira sair das tetas da vaca, mas era algo em pedaços. A moça colocou um pó branco que reconheceu como o açúcar, mexeu bem e lhe deu a comer. Urissanê provou cuidadosamente aquilo e gostou. Então, simplesmente virou o prato na boca e bebeu o quanto pôde, derramando muito na roupa  pelas laterais do prato. Sinhazinha ria a bom rir. Depois, com delicadeza, ensinou o jenipapo a usar uma colher. Colocou mais coalhada no prato dele e em um para si mesma. Após adoçar a coalhada, convidou o jenipapo a se sentar ao seu lado e foi-lhe mostrando como se servir com a colher. Urissanê achou aquilo extremamente divertido.

Urissanê ouvia atentamente tudo o que sinhazinha falava.

Urissanê ouvia atentamente tudo o que sinhazinha falava.

Sinhazinha aproveitou o momento de distração e continuou a discorrer sobre a vantagem de possuir gado e de aprender a usar tudo o que ele podia oferecer. Urissanê ouvia-a com atenção. O que tinha provado ali fazia que aceitasse todas as argumentações da moça, sem desconfiar de suas intenções. Sinhazinha, contudo, não chegou ao finalmente. Apenas deixou que a mente de Urissanê fixasse bem a idéia de seu povo contar com bois e vacas. A idéia de que ele aprenderia e passaria aos outros os métodos de trabalho para aproveitar ao máximo o que o gado podia dar.

Desta vez foi ele que se levantou e puxou sinhazinha pela mão. Com passos firmes dirigiu-se aos estábulos, onde apontou para os cavalos. Sinhazinha gostou daquilo. Era sinal de que o índio havia gostado de cavalgar.

Ela pediu, com a mãozinha enluvada, que ele esperasse ali e foi mandar arrear dois cavalos. Urissanê permaneceu quieto, observando atentamente o trabalho dos vaqueiros com os animais. Ninguém lhe prestava maior atenção. Com as roupas dos brancos, ele passava facilmente despercebido para quem não prestasse atenção no volume de seus músculos.

O malhado pelo qual Urissanê se apaixonou.

O malhado pelo qual Urissanê se apaixonou.

Sinhazinha tinha notado que um malhado havia captado o interesse do jenipapo. Foi justamente este animal que ela trouxe arreado. Quando os olhos de Urissanê viu o animal brilharam e um sorriso lhe iluminou a face de pedra. Ele caminhou em direção à jovem indicando que desejava montar. Jacutinga, que vinha pajeando a moça, interpôs-se entre ela e o índio. Mas teve um surpresa desagradável. Com uma só mão e demonstrando uma força assombrosa, Urissanê segurou-o pela gola do gibão e o atirou longe, como se ele fosse um trapo somente. O caboco não fez feio. Rodopiou no ar e caiu de pé, para assombro do índio que parou de chofre seu avanço em direção ao animal e se voltou para o caboco. Mas sinhazinha se interpôs entre os dois homens, pois Jacutinga tinha sacado o facão de mato e vinha decidido para cima do jenipapo.

— PAREM! Eu não quero brigas entre vocês! Jacutinga, volte para a estrebaria. Deixe Urissanê comigo!

O caboco hesitou olhando cheio de raiva para o jenipapo, que também o encarava com um olhar mortal. A  tensão se desfez quando Jacutinga se retirou. Sem comentar o incidente, sinhazinha convidou Urissanê a subir na sela. Ele já havia aprendido a fazer isto e, também, já controlava razoavelmente um animal daqueles. O malhado era dócil e não refugou o cavaleiro.

Mal o jenipapo viu Florinda montada, tocou seu cavalo em direção à saída da estrebaria. Espantada com a decisão do índio, sinhazinha quis protestar, mas ele apenas ergueu a mão espalmada e, depois, apontou para a saída que levava ao boqueirão das antas. Hesitou. O que ele queria fazer levando-a para a mata? Teve medo, mas se controlou. Tinha de mostrar confiança no índio ou, talvez, ele se ofendesse.

A trote leve os dois se dirigiram para o boqueirão das antas…

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