Meu amigo, velho Orozimbo, quando se interessa por um assunto não deixa por menos.

Ele se tornou um grande aliado de Felício.

Felício me ligou pedindo que eu fosse à sua igreja. Precisava que eu lhe desse uma pequena ajuda. A princípio eu me recusei, mas Orozimbo, com quem conversava naquele momento, fincou pé em que devíamos ir até o padre e não tive mais remédio senão capitular.

Fomos parar no salão paroquial. Ali encontramos uns trinta casais e algo em torno de umas trinta e poucas pessoas jovens, nada além de 23 anos nem aquém de 18.

—Êta, vai ser bão! — exclamou o velho Orozimbo, esfregando as mãos com satisfação. Olhei-o ressabiado e pensei: “É… Só não sei para quem”. Há muito tempo eu tentava fazer que Felício deixasse de lado aquelas reuniões. Ele não era preparado para enfrentar uma crise em grupo e já passara por algumas experiências traumatizantes e desastrosas. Mas ele me fez saber que aquelas reuniões eram imposição de seus superiores, portanto não tinha como descartá-las.Mal nos viu, o padre se levantou com o rosto iluminado por aquele sorriso pleno que era sua

O salão paroquial na Igreja de Felício é idêntico a este.

O salão paroquial na Igreja de Felício é idêntico a este.

característica mais marcante.

— Venham, venham, o doutor estava sendo aguardado por meus paroquianos com muita expectativa. Por favor, sentem-se aqui, próximo a mim.

Havia duas cadeiras reservadas, o que significava que o padre e Orozimbo estavam juntos na manobra para me arrastar até ali. Olhei para meu velho amigo e o vi soltar aquele risinho matreiro de quem fez uma traquinagem. Dei de ombros, pois, como diz o velho ditado: “O que não tem remédio, remediado está”.

Sentei-me e fiquei observando atentamente cada um dos presentes. Vi representante de todas as camadas sociais. Vi parteiras idosas; vi odontólogos; vi médicos; vi comerciantes; vi feirantes; vi pedreiros… E todos com seus respectivos companheiros ou companheiras e a filharada completa. O padre solicitou a atenção de todos (já a tinha) e falou:

—Meus irmãos, minhas irmãs, hoje nós nos reunimos aqui para solicitar ao doutor que nos esclareça melhor o que ele chamou de “Estilo de Vida”. Como todos aqui sabem, dona Ana Maria, depois que conversou com o doutor psicólogo, aqui presente, anda metendo os pés pelas mãos e colocando as mulheres desta comunidade em polvorosa. Agora, ela é a mestra número um em “Estilo de Vida” e distribui conselhos a torto e a direito às demais paroquianas. Isto tem colocado os maridos e os filhos destas filhas de Deus em grande ansiedade, pois seguindo os conselhos absurdos de dona Maria Rita, a maioria praticamente endoidou literalmente. Muitas estão aqui, entre nós, juntamente com seus maridos e filhos adultos. Eu as convidei e a eles para que ouvissem a palavra segura e ponderada do doutor psicólogo, a fim de que este tsunami chamado Maria Rita seja detido por vocês mesmos. Com a palavra, nosso convidado de honra.

Padre Felício fazia de mim um instrumento de sua Igreja. Arranjava embrulhadas e me colocava para desatar os nós. Era muito interessante… Até Orozimbo, inicialmente avesso ao cristianismo, agora andava de conluio com o reverendo. Olhei para os dois e, depois, para a platéia. Fiz um silêncio longo, muito longo, aumentando propositadamente a expectativa.

Não antecipe os seus dilemas. A cada hora lhe basta o dilema que contém. Avance sempre um passo depois do outro, para não sofrer de angústia.

Não antecipe os seus dilemas. A cada hora lhe basta o dilema que contém. Avance sempre um passo depois do outro, para não sofrer de angústia.

Eu estava-me sentindo muito sereno, em paz. Em outras épocas assumiria a responsabilidade pelo destrambelho de dona Maria Rita. Culpar-me-ia por ter falado demais e me acusaria de bocudo. Agora, percebia que cada um era o total responsável pelo que lhe acontecia. Ter-me ouvido através de terceiros e a partir disto ter desembestado pela vida a meter os pés pelas mãos era a escolha de cada um. Eu não tinha responsabilidade por isto.

Passeei os olhos pelos rostos atentos e vi em alguns apreensão, em outros, raiva. Mesmo assim, não me perturbei. Felício pigarreou alto para chamar minha atenção. Então, com um forte suspiro falei pausadamente e em alto e bom tom.

— “O que cada um faz com sua vida e na sua vida é responsabilidade só dele e de mais ninguém. Ouvir um conto e acrescentar um ponto é o mal de todos os humanos, mas tomar o acréscimo como de autoria daquele que primeiro emitiu a opinião é um erro que todos tendemos a cometer”.

Este é o Esquema do Estilo de Vida de qualquer pessoa.

Este é o Esquema do Estilo de Vida de qualquer pessoa.

Fiz uma longa pausa e deixei que minhas palavras chegassem ao fundo das mentes dos que ali estavam dispostos ou a me julgar e me atirar pedras, ou a entrar em confronto comigo. E em voz sussurrada pedi ao padre que me trouxesse seu quadro branco e os lápis respectivos. Quando meu pedido foi aceito, ainda em silêncio, fui até o quadro e desenhei o esquema ao lado.

“Eu gostaria de pedir a vocês que olhassem bem para este esquema. Ele representa a Identidade de qualquer pessoa, logo, de qualquer um dos que aqui estão presentes”.

Pessoa é uma entidade social. Quando nascemos e somos infantes não passamos de indivíduos. Um indivíduo não é uma entidade social. E não o é porque lhe faltam os predicados que cercam a pessoa neste esquema.

Não há uma ordem rígida de surgimento e formação destes, digamos assim, predicados sociais num indivíduo. Mas todos eles surgem. E quem sabe me dizer de onde?

Ninguém respondeu nada nem arriscou palpite.

Bom, eles surgem da EDUCAÇÃO. Mas a EDUCAÇÃO não pode fazer nada se antes não houver outra ação. Que ação é esta?

Novo silêncio.

Na vida nunca deixamos a sala de aula.

Na vida nunca deixamos a sala de aula.

APRENDIZAGEM. Eis a outra ação que atua para que se forme a constelação de predicados que vão constituir uma pessoa. A aprendizagem não tem uma única face nem uma única forma de moldar os predicados de uma pessoa. Os caminhos são infinitos. Iniciamos a vida respondendo a estímulos. Quando bebês, o estímulo da fome nos faz chorar. Quando adultos, o temor à fome nos impulsiona a trabalhar. Somos indivíduos reativos, isto é, reagimos a estímulos do ambiente. Quando o sino toca, vocês, católicos, sabem que o vigário chama para um dos rituais litúrgicos que será levado a efeito na igreja. Então, preparam-se, deixam o que estejam fazendo para depois, e atendem ao estímulo som do sino. Quando a sirene da escola toca, as crianças no recreio abandonam as brincadeiras e entram nas salas de aula. Respondem ao estímulo sirene. Quando, na rua, alguém nos estende a mão num cumprimento, respondemos também estendendo a nossa e aceitando o aperto de mão. Respondemos ao estímulo cumprimento. Enfim, nós somos entidades responsivas, reativas. Mas será que nossa vida é toda função de ESTÍMULO-RESPOSTA (e apontei o círculo onde havia o S-R)?

Novamente silêncio. Alguns se olharam e sorriram meio sem graça. Um dos médicos arriscou.

— Eu creio que sim. Tudo o que imaginei agora cai exatamente nessa fórmula aí. Nós somos pessoas respondentes, ou reativas como o senhor colocou. E se não for assim, creio eu, não se alcança o “STATUS” social que se deseja. Eu, por exemplo, tive de emitir milhares de respostas aos estímulos que recebi desde mesmo quando estudava no pré-vestibular para a Medicina, até quando finalmente terminei minha residência. E ainda hoje vivo sendo isto: reativo.

Todas as cabeças acenaram concordando com a lógica do médico.

—Acho que o senhor está vendo apenas a metade da moeda — disse eu. — Quando, desde pequeno, sua atenção se voltou para a Medicina, ainda que de modo subliminar, o senhor começou a encaminhar seus passos no sentido de saber como e o quê fazer para se tornar médico. Naqueles momentos, o senhor não respondia a estímulos, mas a um impulso seu, interno, que o fazia buscar os caminhos para atingir seu objetivo. E é assim com todos nós. Quando alguma coisa desperta nosso interesse, passamos a agir no sentido de nos aproximarmos cada vez mais de nosso alvo, de nossa meta. Então, estamos sendo PROATIVOS. Agimos antes dos estímulos e até criamos nossos próprios estímulos. Ou não?

Acenos de cabeça aprovando.

— Conclusão: somos simultaneamente reativos e proativos, concordam?

Sim, todos acenaram afirmativamente.

Atitude de afirmação categórica.

Atitude de afirmação categórica.

— Vocês vêm no esquema que para que sejamos uma pessoa nós necessitamos de Afirmação. Isto que dizer que precisamos afirmar-nos diante de nosso meio social. E isto significa que temos de batalhar para sermos não somente notados, mas também admirados e respeitados. E aqui, envidamos esforços proativamente para obter a consecução desta meta. 

Acenos de cabeça aprovadores.

— A Afirmação impõe-nos que lutemos para alcançar um status dentro de uma das várias alternativas que a Sociedade nos oferece. Uns, afirmam-se como pedreiros e se tornam profissionais disputadíssimos; outros, como médicos e outros como odontólogos. Há caminhos para todos alcançarem seu STATUS social. Um STATUS que defendemos para manter e pelo qual estamos dispostos a responder afirmativamente aos estímulos que a Sociedade emite com vistas a uma resposta positiva nossa.

Acenos de cabeça, novamente.

A comentarista de economia que causa muita insônia em muita gente...

A comentarista de economia que causa muita insônia em muita gente…

— Mas a Sociedade é muito instável e depende de fatores que nenhuma pessoa conhece plenamente. Por exemplo: o sistema monetário é altamente instável e por isto vivemos sempre em alerta com relação à inflação. Mas ninguém pode manter em rédeas curtas todos os fatores que podem deflagrar uma inflação descontrolada. Por isto, muitos de nós buscam o máximo de conhecimento em Economia e ciências afins, para não somente sossegar-se a este respeito, mas também proporcionar aos demais cidadãos informações que os mantenham seguros de que tudo está dentro dos parâmetros desejados.

Mais acenos de cabeça.

— A necessidade de SEGURANÇA no impõe que ajamos sempre buscando meios de PREVER os acontecimentos vindouros – e isto é ação proativa – a fim de podermos sempre CONTROLAR os fenômenos em que venhamos a estar envolvidos. Então, prever e controlar são ações que nos impõem que sejamos proativos e, não, somente reativos.

Murmúrios de aprovação.

Segurança Nacional, uma das instituições sociais mais fortes em uma Nação.

Segurança Nacional, uma das instituições sociais mais fortes em uma Nação.

— Quando obtemos a SEGURANÇA através de de PREVISÃO e do CONTROLE das situações, afirmamos diante de nossos semelhantes nossa AUTO-IMAGEM, que é resultado daquilo que os outros dizem a nosso respeito. Se somos organizados, vencedores, admirados e tudo isto é comentado ao nosso redor, então, nossa AUTO-IMAGEM é positiva e isto nos faz bem, ao mesmo tempo que serve de forte estímulo para que busquemos agir mais e mais proativamente a fim de mantermos esta AUTO-IMAGEM social.

Risos e murmúrios entre os presentes.

— A AUTO-IMAGEM fruto do reflexo social do que fazemos, reforça em nós algo que é de extrema importância para nosso equilíbrio emocional, a AUTO-ESTIMA. Por este predicado pessoal nós agimos sempre proativamente em busca do apoio social. Quanto mais apoio, maior a Auto-Estima. Quanto menos apoio, menor a auto-estima.

Murmúrios.

— Todo este conjunto de esforços pessoais para desenvolver e obter estes atributos indispensáveis à nossa condição de pessoas, leva-nos ao esforço no sentido de DOMINAR os acontecimentos ao nosso redor e aqueles nos quais estamos envolvidos. A Dominação é, portanto, uma necessidade social intrínseca à condição de pessoa.

Concordância com murmúrios e acenos de cabeça.

— Compreendido o esquema, passemos ao desenvolvimento do ESTILO DE VIDA. Já deu para intuir que qualquer indivíduo em sociedade tem esta constelação de atributos mínimos pelos quais batalha. Entretanto, a batalha de cada um é singular. Mesmo dois indivíduos que lutam para cursar Medicina e se formam, ambos, como pediatras, por exemplo, mesmo estes indivíduos não palmilharam o mesmo caminho nem enfrentaram as mesmas lutas para chegar aonde chegaram. Em função dos ambientes sociais que vivenciou e dos quais recebeu milhares de estímulos, eles desenvolveram modos específicos de ação para galgar uma posição mais, um lugar melhor na escala social. Qualificações especificamente orgânicas, como boa musculatura e boa ossatura em um deles fez que optasse por ser jogador de futebol, onde obteve recursos suficientes para arcar com as grandes e sufocantes despesas com a Faculdade de Medicina. Já o outro, tendo uma estrutura corporal mais fraca, mas possuindo grande habilidade com a música, aprendeu a tocar um instrumento, formou uma banda e com ela também conseguiu o dinheiro necessário para o mesmo objetivo. Isto, estas adequações das pessoas em função de suas metas, de seus objetivos de vida, chama-se ESTILO DE VIDA. Padre Felício, por exemplo, desenvolveu um estilo de vida todo particular, somente seu, em função de seu objetivo de vida. Aquela odontóloga que sorrir ali (e apontei para uma jovem que parecia divertir-se na platéia) também desenvolveu um Estilo de Vida somente seu, totalmente diferente do Estilo de sua colega, a seu lado.

Risos.

O Estilo de Vida pode acarretar maior ou menor quantidade de energia emocional da pessoa. Por exemplo: os praticantes de esportes radicais sabem que vão ao limite das descargas adrenérgicas; sobrecarregam seus organismos com excesso de adrenalina porque estão viciados na tremenda excitação que o perigo lhes causa. Pagam um preço alto por isto. Mas não ligam ou nem percebem que isto acontece. Todo Estilo de Vida, ou seja, toda maneira singular, pessoal, de alguém diante do processo da Vida, exige estimulação da Emoção. E toda reação emocional põe em desequilíbrio o sistema endócrino. Mas cada pessoa é única em tudo. Então, o modo como seu organismo reage com maior ou menor sensibilidade aos hormônios disparados pelas emoções resultantes de seus Estilos de Vida é específico. Mas seja como seja, o resultado da reação emocional é sempre mexer com nosso sistema hormonal. E nosso corpo inteiro é dependente dos hormônios – e os médicos aqui presentes podem confirmar o que digo. Um corpo cujos hormônios estejam equilibrados é um corpo sadio, logo, a pessoa é uma pessoa saudável psíquica, emocional e fisicamente. Mas um corpo atacado e minado por excesso de emoções disfóricas, ruins, reflete isto em toda a sua constituição – seja interna, seja externamente. No caso de dona Maria Rita, seus cabelos, sua pele, seu estômago, seu sistema de sono etc… foram afetados pelo Estilo de Vida que ela desenvolveu para si. E como cada pessoa é singular, é única, suas doenças também são singulares e únicas. Mesmo que se trate de câncer do colo do útero em duas mulheres em função de Estilos de Vida, isto não significa que tais Estilos sejam iguais. Nem significam que os cânceres surgiram do mesmo modo. Entra aí uma gama enorme de características hereditárias e outras, como maus hábitos alimentares ou de comportamento.

Assim, o que serve para dona Maria Rita não necessariamente tem de servir para todas as mulheres. Se os cabelos de dez das senhoras aqui presentes são tão fracos e quebradiços quanto os de dona Maria Rita, não quer dizer que seus Estilos de Vida sejam iguais ou, mesmo, semelhantes. Um leigo não pode sair por aí a igualar os outros por baixo, isto é, por um único padrão de medida. Murmúrios e agitação entre os presentes, que deixei que acontecesse livremente. E vieram os comentários. E vieram as perguntas. E vieram os exemplos. E veio, finalmente, a conclusão: ninguém devia se alarmar com o que Maria Rita dissesse, mesmo que seus argumentos parecessem irrebatíveis.

— Para finalizar quero dizer que o esquema pode ser copiado e estudado por vocês, mas individualmente, cada qual buscando detetar nele a tendência que desenvolveram em prol de um destes atributos. Os que buscaram PREDIZER e CONTROLAR, desenvolveram Estilos de Vida mais voltados para este modo de se comportar e, provavelmente, em função de sua maior ou menor introjetividade, agiram sempre tentando estender este modo de vida a tudo, inclusive às pessoas. 

— E há tratamento para pessoas assim? — Perguntou uma das odontólogas presentes.

— Há. Dentro da Psicologia Clínica.

— E na Psiquiatria também?

— Não. A Psiquiatria cuida de uma área específica da Doença Mental e Estilo de Vida não se insere neste campo de ação do profissional da medicina.

— Doutor — perguntou um dos médicos. — Por que o senhor encimou o diagrama com uma das sentenças de Jesus?

— Porque se vocês compreenderem o esquema, estarão mais aptos a entender o que o Grande Mestre quis dizer. Todos estamos ali dentro, logo, todos tendemos a cometer excessos e erros. Não nos cabe apontar os erros dos outros, se os nossos nós não descobrimos.

Antes que o entusiasmo dos presentes tornassem aquilo uma “novela global”, eu me levantei, pedi licença alegando trabalhos urgentes, e me retirei acompanhado do tagarela Orozimbo, que, durante toda a volta, me fez mais de trezentas perguntas e fez um comentário que me levou a sorrir.

— Vancê fui muto isperto.

— Por que diz isto, meu velho?

— Vancê se iscondeu pur detrás daquele isquema, num sabe? Vancê se tornou sombra e deixou todo mundo pensando no isquema. Fugiu bunitim daquela turma. Véi gostô munto.

Dele eu não consegui me livrar.