A piorréia, infecção bacteriana que inflama a gengiva, ataca os dentes e os faz cair. Dá um tremendo mau hálito ao sofredor.

A piorréia, infecção bacteriana que inflama a gengiva, ataca os dentes e os faz cair. Dá um tremendo mau hálito ao sofredor.

Homens denodados, no interior do Nordeste, batalhavam em defesa de um líder que alguns deles desconheciam. De um ou de outro modo, todos arriscavam suas vidas e a vida de seus familiares em defesa de um homem que aceitavam como o dirigente de seus destinos, ainda quando não o conhecessem pessoalmente. Mas o que fazia aquele ídolo? Por onde andava? Vamos ver a recíproca do líder defendido à aceitação de sua pessoa por brasileiros que até o desconheciam pessoalmente. Não nos esqueçamos de, imaginativamente, voar até aqueles tempos atrasados, quando até o transporte era feito no lombo de cavalos, jegues, mulas e outras alimárias domesticadas para isto. Não havia  telefone, nem computador, nem internet, nem Facebook, nem I-pad… Nada disto. Também não havia esgoto. Nem mesmo banheiro decente nas casas. Os dejetos, fezes e urina, vômitos ou panos com menstruação, acumulados à noite em urinóis, eram simplesmente jogados pelas janelas das casas, sem qualquer cuidado com quem estivesse passando lá na rua. Não havia ruas pavimentadas nem estradas asfaltadas. Na maioria das vezes os caminhos não passavam de sendas abertas, antes, por jesuítas ou bandeirantes. Sendas tortuosas, por dentro de mata fechada ou descampado agreste, rude, selvagem, onde, em qualquer que fosse o terreno, a morte espreitava nas presas de uma serpente peçonhenta; nas garras de um jaguar; na picada de um inseto; no toque na pele de uma rã venenosa; na água ingerida ou no ataque de silvícolas, quase todos avessos aos invasores. Você conseguiu voar até aqueles tempo? Conseguiu ver a mata folhosa, as pessoas trajando roupas grosseiras, pés no chão, facão na cinta, olhar desconfiado ou agressivo? Conseguiu ver os negros curvados ao peso dos jacás onde carregavam, nas costas, todo tipo de objetos e rações? Conseguiu enxergar os arrogantes e cruéis capatazes, sempre de chibata em punho e prontos a castigar as costas já muito machucadas dos pobres negros? Viu as mulatas de olhares lascivos endereçados aos seus senhores e sinhozinhos? Viu as bocas pútridas pela piorréia, comum naqueles idos? Então, você acabou de entrar no ambiente em que vivia Dom Pedro I.

A "Ferida Braba" era um ferimento que não sarava com remédios primitivos. Entre os seus causadores, a leishmaniose era destaque.

A “Ferida Braba” era um ferimento que não sarava com remédios primitivos. Entre os seus causadores, a leishmaniose era destaque.

A leishmaniose era muito comum e as feridas que causavam e que não cicatrizavam com os parcos remédios da época, eram chamadas de “ferida braba”. O Nordeste sofreu com a “ferida braba” até fins do Século XX. Você, que nasceu em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Curitiba ou em Porto Alegre e sempre viveu no meio sadio das grandes metrópoles, com o que há de mais moderno em matéria de vacinas e remédios para lhe defender de doenças como as que mostrei aqui (apenas duas, das milhares que eram desconhecidas e infernizavam a vida daquela gente, como as DST’s, por exemplo), não pode realmente fazer uma idéia real do que padeciam os nossos antepassados. Dê graças a Deus que retornou à Terra numa época bem mais avançada em matéria de preservação da saúde do que aquela em que certamente viveu há séculos atrás…

Eis o Palácio da Quinta da Boa Vista, hoje, museu, no Rio de Janeiro.

Eis o Palácio da Quinta da Boa Vista, hoje, museu, no Rio de Janeiro.

Naquele dia 5 de março de 1822, oito horas da manhã, Dom Pedro desceu de seu quarto e foi para o grande salão de alimentação do palácio da Quinta da Boa Vista. Inicialmente, o Palácio nem de longe se parecia com o que se vê, atualmente. Era uma fazenda que pertenceu inicialmente aos jesuítas, e posteriormente foi doada ao Príncipe Regente D. João VI, quando este chegou ao Brasil. Isto aconteceu em 1º de Janeiro de 1809, e o gesto generoso foi do comerciante Elias Antônio Lopes, o verdadeiro proprietário do belo casarão.

A propriedade era constituída de uma grande casa de chácara, onde havia muitas árvores frutíferas e se cultivavam gramíneas, além de uma pequena criação de vacas leiteiras e porcos de corte. Ao decorrer dos anos a chácara recebeu várias melhorias, até que chegou ao que hoje conhecemos. Nela residiram D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II, com suas famílias Ali nasceram Dª. Maria da Glória, depois Rainha Maria II de Portugal, e, também, a Princesa Isabel. Foi residência da família Real e Imperial até a proclamação da República em 1889. Em 1891 o, agora já palácio, abrigou a Assembléia Constituinte que promulgou a primeira Constituição Republicana Brasileira. Finalmente, em 1893, foi transformado na sede do Museu Nacional.

Mas naquela manhã a personagem real nem imaginava qual seria o fim daquela sua residência. Trajava uma camisa rude de algodão, fechada relaxadamente com cordões à altura do peito; calças largas, alpergatas nada reais, mas vulgares mesmo. Tinha os olhos congestionados de quem não dormira ou dormira pouco, graças às escaramuças que tinha levado a efeito no leito, com uma de suas inúmeras conquistas e da qual já estava esquecido, ainda que a moça dormisse profundamente jogada nua sobre os lençóis do quarto imperial.

Maçom, José Bonifácio não é figura elogiada pela Maçonaria Brasileira que o cognomina de "O Falso Patriarca".

Maçom, José Bonifácio não é figura elogiada pela Maçonaria Brasileira que o cognomina de “O Falso Patriarca”.

No grande salão já encontrou seu inseparável amigo e tutor para assuntos de política — José Bonifácio de Andrada e Silva. Homem bem mais velho, de corpo esguio e atlético, espadachim perigoso e hábil, decidido e um tremendo estratego em matéria de jogo político. Embora a Maçonaria tenha publicado um livreto intitulado “JOSÉ BONIFÁCIO, O FALSO PATRIARCA”, não há como negar sua grande influência junto a Dom Pedro, assim como sua inestimável ajuda ao regime republicano que nasceria praticamente de sua mente e de seus conhecimentos, que eram vastos.

Dom Pedro cumprimentou seu mentor e amigo e se sentou para o desjejum. Ambos comeram com apetite e conversaram sobre assuntos que preocupavam mais a Bonifácio que ao Príncipe Regente. Este, ainda que não se descuidasse de seu status, dedicava mais tempo às conquistas, naquela época. Entretanto as caudalosas águas da intriga política o colocariam à prova de modo muito duro.

Bonifácio estava seriamente preocupado com as decisões das Cortes em Lisboa. E tinha razão de sobra para isto, visto que seu nome era conhecido do outro lado do Atlântico como o de um homem perigoso, que Dom João VI gostaria de ver preso a ferros. Sua salvação estava em manter o filho do Rei de Portugal e Algarve no caminho da luta pela independência do Brasil incipiente como Nação. Se isto não acontecesse seria o seu fim. E um fim bem amargo. Mas o Príncipe Regente, ainda que rebelde e teimoso, parecia não ter ainda percebido que seu destino estava traçado: ele seria o Imperador do Brasil, e isto já caraminholava nas idéias de Bonifácio. O diabo era fazer que os passos do rebelde se encaminhassem para o rompimento de vez com o domínio das cortes portuguesas, ou, melhor dizendo, do rei da Inglaterra, que era na verdade quem tinha o poder das armas, pois era a Inglaterra que emprestava sua armada para que Portugal se aguentasse sobre as pernas naquele mundo do conquistas e batalhas sangrentas pelo Poder. E era a Inglaterra quem, por detrás das cortinas políticas, manobrava o fraco Dom João VI no sentido de abocanhar as “terras brasilis”. Os ingleses, sempre conquistadores e sempre rapinas, viam os tesouros que o torrão brasileiro tinha à disposição e queriam pôr suas garras de vez neste quinhão.

— Majestade — disse Bonifácio, quebrando o incômodo silêncio que reinava entre eles e no vasto e vazio salão de refeições — Quero falar-vos de uma assunto que me preocupa muito.

— Por que o tratamento cerimonioso, Bonifácio? Estamos só nós dois. Pode deixar de lado os rapapés da corte. Isto me chateia. 

— Bom… Está bem. Pedro, tenho andado preocupado desde aquele incidente com o General Jorge de Avilez de Souza  Tavares. Ele estava disposto a arrastá-lo para Portugal até mesmo pelas orelhas, como declarou. 

HMS Victory, um exemplo da poderosa armada inglesa dos tempos de Dom Pedro.

HMS Victory, um exemplo da poderosa armada inglesa dos tempos de Dom Pedro.

— Ora, meu caro, o general foi obrigado a bater em retirada para evitar derramamento de sangue. Você viu como ficou o Campo de Santana? Estava coalhado de nossa gente, todos dispostos à luta. E éramos em número bem maior que os mil e quinhentos soldados dele.

— Dois mil — corrigiu Bonifácio.

— Seja! Mas ele teve de recuar, depois que recebemos reforços vindo às pressas da freguesia de São Paulo.

Bonifácio riu, divertido. Os homens naquela freguesia não passavam de 2.500. Com o recrutamento de mil e quinhentos para vir ajudar na batalha que quase acontece no Campo de Santana, as mulheres, que beiravam as 4000 almas, ficavam a ver navios. Um campo e tanto para nosso Príncipe aventureiro, se ele, por acaso, desse com os costados por lá. E daria, Bonifácio sabia disto.

— Pedro, os soldados do general eram em menor número, mas tinham um treinamento apurado em campos de combate. Eram homens muito preparados para a batalha. Creio que teriam vencido, ainda que à custa de muito sangue. E se isto tivesse acontecido, você estaria prisioneiro da vontade das cortes de seu pai. E adeus às coxas morenas, mulatas e negras das donzelas deste país em formação…

Dom Pedro lançou um olhar carregado para seu amigo. Não gostava que comentassem sobre suas aventuras de alcova. Bonifácio riu e deu de ombros. Pouco se lhe dava a zanga do Príncipe. Diria o que tinha de dizer, gostasse ele, ou não.

Sem dizer nada, Dom Pedro se levantou e com um aceno de cabeça convidou o amigo a acompanhá-lo às estrebarias. Era seu costume banhar e escovar, pessoalmente, os cavalos de sua preferência e o fazia religiosamente sempre que tinha tempo, dissessem o que dissessem as más línguas que se escandalizavam com aquilo. Não era digno de um nobre ir às estrebarias fazer trabalho de cavalariço. Mas o impetuoso nobre, que, atualmente, se diz que sofria de transtorno de comportamento — hiperatividade, hipersexualidade e impulsividade — não dava a mínima para as más línguas. A medicina de sua época estava longe de diagnosticar o comportamento “irresponsável” do Príncipe, mas Deus escreve certo por linhas tortas. Não fossem estas disfunções neurológicas, jamais teríamos tido um homem decidido e teimoso até à temeridade, capaz de nos livrar dos portugueses e, por detrás destes, do tacão dos ingleses. 

Bonifácio ficou de pé, observando pacientemente seu Príncipe entregar-se com prazer àquele serviço de tão baixa categoria. Ele jamais faria aquilo. E olha que não era um príncipe… 

O Forte de Santa Cruz, nas terras de Niterói, bem localizado e bem armado, impedia a entrada de qualquer navio na Baía da Guanabara.

O Forte de Santa Cruz, nas terras de Niterói, bem localizado e bem armado, impedia a entrada de qualquer navio na Baía da Guanabara.

Enquanto Dom Pedro e seu escudeiro-mór estavam na cavalariça, índios Tamoios, que remavam em suas pirocas (nome das canoas finas feitas com um tronco de árvore. Posteriormente este nome foi alterado para “piroga”) nas calmas e azuladas águas da Baía de Guanabara, foram os primeiros a avistar as velas que branquejavam ao longe, no horizonte do oceano sobre cujas águas deslizavam. Os Tamoios tinham dado combate acirrado à colonização portuguesa e, liderados pelo cacique Cunhambebe, infligiram baixas dolorosas aos invasores. Com suas pirocas foram capazes de afundar respeitáveis navios de guerra vindos à baía a serviço de Portugal. Mas isto fazia muito tempo. Tinha sido lá pelos idos de 1610. Agora, os Tamoios não mais davam combate aos invasores, embora nunca se tenham a eles associados. Os brancos, que chamavam “perós”, foram os vitoriosos e, agora, os índios Goitacás, Tamoios, Tupinambás, Guaianás e Aimorés se mantinham livres, mas sem mais formar uma aliança com grandes líderes, como o citado Cunhambebe ou o cacique Tibiriçá. 

As sólidas muralhas da Fortaleza de São João, na Praia Vermelha, também tampavam definitivamente a entrada de navios inimigos na Baía de Guanabara.

As sólidas muralhas da Fortaleza de São João, na Praia Vermelha, também tampavam definitivamente a entrada de navios inimigos na Baía de Guanabara.

As velas não demoraram a também serem detectadas pelos vigias nos postos de alerta dos fortes de Niterói e da Praia Vermelha. Os apitos de alerta soaram nervosos e os sinos tocaram para chamar aos postos de combate. Foi aquela correria. Fogos e espelhos foram usados para a comunicação entre os dois fortes, um no lado do Rio de Janeiro, outro, no lado de Niterói.

Enquanto os quatro navios de guerra portugueses avançavam com as velas bojudas pelo vento forte daquela manhã de sol claro e brilhante sobre um mar de águas verde-azuladas, mensageiros eram despachados às pressas ao Palácio da Quinta, para alertar o Príncipe Regente, que continuava nas cavalariças banhando e escovando seus animais de estimação.

Cansado de ver aquele trabalho inglório de seu Príncipe e amigo, Bonifácio pediu licença e se retirou para dentro do Palácio. Tinha mais com que se preocupar do que cavalos. Subiu à biblioteca e se sentou para estudar os vários papéis espalhados sobre sua mesa, todos contendo informações valiosas sobre a situação nas várias freguesias do reino. Mas não demorou mais que trinta minutos naquele trabalho que, no fundo, era de todo seu agrado, quando um criado de libré veio anunciar a presença dos mensageiros com notícias urgentes. Mandou que os trouxessem à sua presença e assim foi feito. Quando tomou conhecimento da razão que levara os mensageiros até ali, levantou-se quase correndo e foi às cavalariças buscar o Príncipe.

— Pedro! — e seu gritou ecoou por todo aquele espaço calmo e belo. — Pedro! Depressa! Estamos sendo invadidos!

A última frase fez que Dom Pedro se voltasse para o amigo todo atento.

— Quatro navios de guerra de Portugal estão vindos direto para a Baía. Vamos! Tu tens de coordenar as coisas.

Largando os escovões, o balde e o sabão, Dom Pedro caminhou rapidamente para dentro do palácio, enquanto Bonifácio lhe colocava a par das notícias trazidas pelos mensageiros. Quando entrou no grande salão da biblioteca, onde, respeitosa, mas nervosamente, o aguardavam os dois mensageiros, foi dando ordens sem parar.

O prédio ainda é o mesmo, mas a pintura é atual. Este foi o Palácio Cruz e Souza, na Praça XV, Rio de Janeiro.

O prédio ainda é o mesmo, mas a pintura é atual. Este foi o Palácio Cruz e Souza, na Praça XV, Rio de Janeiro.

— Voltem aos fortes. Digam aos comandantes que ordeno que atirem salvas de aviso, para que os navios sustem o avanço. Se depois da terceira salva não obedecerem, atirem para afundar. Eu vou para o palácio Cruz e Souza, agora mesmo. Lá, quero encontrar os comandantes dos dois fortes. Vão!

 Enquanto os dois homens saíam às carreiras, Dom Pedro voltou-se para Bonifácio e ordenou.

— Vens comigo. Parece que teus temores se concretizaram mais depressa do que podíamos imaginar.

Ambos correram às cavalariças. Ali, Dom Pedro escolheu dois cavalos que mandou arriar com o máximo de urgência. Não demorou e os dois disparavam a galope rumo à futura praça XV de Novembro, bem diante da grandiosa Baía da Guanabara, que, naqueles idos, olhava livremente para as águas serenas e piscosas do grande mar…