Padre Felício de batina era assim, bem sério e compenetrado.

Padre Felício de batina era assim, bem sério e compenetrado.

Felício, depois de uma semana sumido, apareceu de repente em meu portão às 19h.

Estranhei.

Aquela não era uma hora comum para suas visitas.

A abertura do portão não deu para que eu visse que havia mais alguém em sua companhia e ele, meio sem jeito, com um inclinar de cabeça, me fez que não estava sozinho. Premi o controle e o pesado portão da garagem abriu-se um pouco e eu a vi. Alta, um tanto mais alta que meus um e setenta, esguia, olhos azuis, face rosada, nariz e boca bem-feitos, trajando jeans e blusa branca de manguinhas curtas com um suave decote bordado nas bordas, seios duros e bem proporcionais ao tronco, ela me sorriu com simpatia.

Vera lembra muito esta modelo. Esguia, alta e com roupas discretas.

Vera lembra muito esta modelo. Esguia, alta e com roupas discretas.

Calçava sandálias de tirinhas, salto Luis XV, e uma saia curta, que lhe deixava à amostra coxas roliças e bem trabalhadas pela musculação.

“Felício não perdeu vez” Pensei eu, malicioso.

— Venham pela garagem, senão a jovem aí vai ficar atolada no meio da grama molhada — disse eu, tratando de me afastar e franquear a entrada para o casal. Vim na frente, seguido por Felício e sua acompanhante. Quando, finalmente, estávamos dentro de casa, Felício me apresentou sua acompanhante.

— Esta é a senhorita Vera. Ela já o conhece dos encontros de família, quando o senhor nos tirou de apuros com certas carolas.

— Muito prazer, Vera — disse eu, estendendo-lhe a mão. Seu rosto se iluminou com um sorriso de alegria que me encabulou. Seu aperto de mão foi caloroso e seus olhos brilhavam de contentamento. Disse que tinha muita vontade de vir-me conhecer melhor, assim como à minha família que, segundo o “padre”, mesmo não sendo de católicos, eram pessoas fascinantes.

A Igreja parou no  tempo e isto só lhe tem causado perda de fiéis.

A Igreja parou no tempo e isto só lhe tem causado perda de fiéis.

— A senhorita Vera é psicopedagoga e ajuda a paróquia como catequista. Mas tem andado em dúvidas quanto às diretrizes e a filosofia do Catolicismo…

— E por isto você a traz a mim? — Estranhei.

— O padre largou a batina, depois dos encontros com o senhor — disse a jovem. — E mudou seu discurso comigo, depois disto. Tem falado de coisas que não fazem sentido, para mim. Não sei se é seu entusiasmo ou se é porque ele não compreendeu direito o que tem lido e ouvido aqui. Antes de largar a batina ele não aceitava meus questionamentos e tentava-me convencer de que os dogmas católicos eram a Verdade inquestionável. Mas mudou radicalmente seu discurso, depois que deixou a batina.

— Correção! — Exclamou Felício. — Eu não larguei abatina. Apenas pedi licença…

— … porque está em dúvida quanto à sua vocação sacerdotal — cortou a jovem, olhando firme para o ex-padre.

— Mas isto não significa que eu tenha renunciado aos meus votos — disse Felício, determinado e com a face endurecida.

— Por favor, por favor — intrometi-me. — Vamos sentar-nos. Vocês não vieram à minha casa para brigar, pois não? 

Minha filha e sua mãe trouxeram uma jarra contendo suco de laranja e torradas com queijo. Desculparam-se por não poderem ficar conosco e se retiraram. Felício aguardou que as duas se fossem para comentar à meia-voz.

— Tenho a impressão de que elas não gostam de nossa presença, aqui…

Ri com sua observação. Era verdadeira quanto à mulher, mas não quanto à nossa filha.

— Não, não é isso. Ambas sabem que nós conversamos sobre Teosofia e Ocultismo e não querem se intrometer. Minha filha, você sabe, é espírita praticante e sua mãe é meio católica, meio espírita.

— E pode isso? — questionou, curiosa, a jovem Vera.

A Terra em comparação com os outros planetas

A Terra em comparação com os outros planetas menores que ela no Sistema Solar.

— Quando a gente está à procura da própria senda, sim — Respondi, dando de ombros. — Em matéria de religião é bom que deixemos cada qual buscar seu caminho.

— Mas sua esposa não estudou Teosofia na mesma Ordem que o senhor? Ela, também, não atingiu o grau de Mestra?

— Sim, mas não foi por escolha própria. Foi porque eu tinha decidido entrar na Ordem.

— Ah… — Exclamou Felício, ar reflexivo. — Aquilo que a Psicologia chama de Juntidade?

— Não. Eu diria mais que foi por Vigilância. Ela sempre foi ciosa do que classifica como seu. Posse.

— Ciúme? — Perguntou a jovem, interessando-se pelo assunto, o que me chamou a atenção.

— Eu não diria isto. Diriam mais que se trata de um forte sentido de posse. “Isto é meu e ninguém tasca”, entendeu? Tudo o que ela classifica como “seu” não pode ser tocado por ninguém.

— E o senhor é… “posse” dela? — Estranhou a jovem.

— Eu não posso fazer que pense e aja diferente, mas não sou posse de ninguém. E isto tem dado rusgas bastante fortes entre nós.

— Por ciúmes? — Eu observei atentamente a jovem. Ela estava demasiadamente interessada naquele assunto e isto me dizia que devia ser porque de algum modo estava ou estivera às voltas com esta reação emocional mesquinha. Felício interpretou erradamente meu breve silêncio e meu olhar escrutinador para o rosto de sua acompanhante e se intrometeu, nervoso.

Acho que não viemos bisbilhotar a vida do Doutor.

Vera mexeu inquieta as mãos sobre as pernas. Então, após um pigarro, falou.

— Desculpe-me, Doutor. Não era minha intenção ser indiscreta.

— E não foi — Disse eu, lacônico.

A Terra em comparação com planetas maiores que ela no Sistema Solar.

A Terra em comparação com planetas maiores que ela no Sistema Solar.

— Obrigado — disse ela realmente agradecida e com um leve sorriso  nos lábios. — Eu gostaria de ouvi-lo falar sobre a Criação do Universo… E de todas as coisas. Como aconteceu tudo isto? Foi realmente em somente sete dias que Ele fez estas maravilhas? Por que Deus escolheu o último dia para criar Adão? E quem foi Adão? Por que Deus fez Eva somente depois de observar a solidão de Adão?

Respirei fundo. “De novo, não!— pensei, aborrecido.

— Felício não lhe disse nada? Ele sabe muito bem discorrer sobre este assunto fora dos antolhos religiosos católicos

— Não, senhor. Ele preferiu que eu ouvisse de seus próprios lábios.

— Eu não gosto de me repetir. Já falei e escrevi muito sobre este assunto. Basta que leia meu blog e os artigos que ali se encontram abordando o tema — disse eu, com enfado.

— Mas Doutor — apressou-se Felício — esse assunto sempre pode ser enriquecido. Foi por isto que preferi que ela o ouvisse. Além do mais, sempre que dialogamos terminamos discutindo. Não sou autoridade no assunto, como o senhor é.

Eu o olhei com enfado e aborrecimento. Não estava com o menor ânimo de abordar àquela hora ou em qualquer outra, aquele tema já batido por mim. Meu silêncio incomodou.

— Posso dar o pontapé inicial? — Propôs Vera, sem se dar por vencida. Eu nada disse nem fiz qualquer sinal de concessão ao seu pedido. Mas Felício foi rápido.

— Vá em frente! — disse ele, entusiasmado demais para meu gosto.

Este é o Universo do qual Jesus é o Deus Criador. Nossa Via Láctea.

Este é o Universo do qual Jesus é o Deus Criador. Nossa Via Láctea. Ela lembra sua coroa de espinhos, não é?

— Bom  — começou a moça, toda satisfeita. — Eu imagino, apenas para efeito de raciocínio, que o Espaço é uma bola infinita. E é justamente aqui que começa minha dificuldade. Não há como se imaginar uma bola que não tenha limite. Mas eu tento eliminar qualquer finitude para essa bola e não consigo, pois não posso visualizar imaginativamente uma Forma sem Forma, o senhor me entende?

Claro que eu entendia. Ela mantinha sua mente presa à Terceira Dimensão. Nem por um momento ela pensou, por exemplo, no vento. Ninguém pode imaginar o vento, pois ele não tem forma. No entanto, isto não impede que ele seja imaginado em suas conseqüências. E aí entra o dilema da relação entre as coisas.

Sabemos que venta porque os coqueiros estão-se agitando.

Sabemos que venta porque os coqueiros estão-se agitando.

O vento pode ser imaginado porque nossa experiência nos indica que ele está presente quando uma brisa sopra ou quando um tufão se abate com fúria sobre uma cidade, ou quando as águas de um lago se encrespa porque é tangida pelo vento ou, ainda, quando observamos as copas dos coqueiros farfalhando sob sua ação. Nós sabemos que é o vento porque o sentimos em nossa pele. O resultado de sua presença são os movimentos que imprime nas coisas e nos objetos. E o conhecimento de sua presença nos é dado pela memória de nossa sensação já vivida anteriormente com ele. Por isto é que sabemos que o vento está presente quando as folhas se movimentam ou quando nossa pele se arrepia ao seu sopro frio. Mas o vento em si mesmo ninguém pode imaginar. Entretanto, nós podemos afirmar que há vento presente em algum lugar quando, por exemplo, a chama de uma vela se inclina em um ambiente fechado. Mas qual é a forma do vento? Era isto, em síntese, que Vera desejava encontrar. E na quarta dimensão. Não é possível alguém da terceira dimensão imaginar formas na quarta dimensão.

— E então, professor, o que tem a dizer? — Estimulou-me Felício.

O Sistema Solar diante de uma estrela muito maior que o Sol.

O Sistema planetário em comparação com o Sol, uma estrela de 5ª grandeza.

— Tenho a dizer que a moça não está pronta para refletir e aprender sobre a Matéria que se encontra além do Arquétipo Forma, Felício. Lá, nosso diálogo, ainda que apele para formas como simbolismos a fim de que se possa compreender, esta forma é somente um artifício. — E me voltando para a jovem, disse: — Você não está pronta para o que procura. Meu conselho é que se dedique a viver sua vida seguindo sua consciência interior. Acredite: ela é a melhor mestra de qualquer pessoa. Ela a guiará quando chegar o momento.

A jovem arregalou os olhos e olhou, ansiosa, para Felício. Este, abaixou os olhos e deu de ombros, num sinal de impotência.

— NÃO! — Exclamou Vera quase gritando. — Eu vim buscar ajuda, não vim encontrar uma porta que se fecha em minha cara! Eu preciso de ajuda para compreender, o senhor me entende? Eu quero ser ajudada!

— Você está verde, minha jovem — Disse eu, sem me alterar.

— Pois me amadureça! Eu quero ser amadurecida, mas sozinha não sei como fazer isto.

Permaneci em silêncio, apenas observando a expressão determinada na face da jovem mulher. Bebi lentamente meu copo de suco mergulhado em minhas recordações. Psicologicamente o ambiente em que estávamos mudou e eu me vi no meu consultório, tendo diante de mim uma jovem mulher que, com olhar desesperado, me pedia ajuda de modo angustiado. Parecia um animal enjaulado que não encontrava a porta de saída e me dizia, também quase gritando: “Pelo Amor de Deus, me ajuda!”. Agora, aqui, na minha sala de estar, naquele momento, a cena se repetia. 

Dúvida, culpa, ansiedade. Mudam os cenários e as personagens, mas o drama é sempre o mesmo.

Dúvida, culpa, ansiedade. Mudam os cenários e as personagens, mas o drama é sempre o mesmo.

A vida humana sempre se repete em espiral. Mudam os cenários, mas a raiz do drama é o mesmo”. Alguém me dissera isto quando eu tentara fazer a Faculdade de Filosofia. Fazia tanto tempo que já não mais me recordo claramente do ano e de quem. Com um suspiro de resignação concordei.

— Está bem. Mas em primeiro lugar abstraia-se, ou tente abstrair-se do Mundo da Forma. Este Mundo está inserido na Terceira Dimensão e o que vou falar faz parte de outra dimensão. Todas as palavras que usarei são somente meios simbólicos para descrever aqui em baixo o que lá em cima quase em tudo não corresponde ao que a imaginação possa criar a partir das palavras que pronuncio. Entendeu?

Ela assentiu com a cabeça, toda atenção.

O Espaço é esse imenso "vazio" do qual só vemos uma parcela mínima da 3ª Dimensão.

O Espaço é esse imenso “vazio” do qual só vemos uma parcela mínima da 3ª Dimensão.

— Bom, vamos em frente. Não imagine o Espaço segundo o Conhecimento proporcionado pelos pobres cinco sentidos do corpo nem tampouco pelo que a experiência sensorial lhe deu como base para formar sua memória. Apenas aceite o Espaço e sua infinitude. Não se preocupe com esta Infinitude. Ela pertence ao Espaço e fim, compreende?

— Mas… — Ela se mostrou desorientada.

— Veja, se fosse possível você se sentar na posição do Buda, fechar os olhos, abstrair de sua mente toda e qualquer forma, todo e qualquer pensamento, e ver mentalmente o vazio escuro do Espaço; se, vendo este vazio, fosse possível que sua mente por ele se lançasse sempre em linha reta, buscando alcançar o limite daquele Espaço Negro e Imenso, certamente seu corpo definharia, você morreria, seu cadáver viraria pó, os milênios passariam até chegar o final do Maha-manvantara em que nos encontramos e ainda assim você não teria se aproximado nem um  zeptômetro do limite que buscou inutilmente.

O Sistema Solar em comparação com Arcturo, uma estrela gigante.

O Sistema Solar em comparação com Arcturo, uma estrela gigante. A Terra já não mais é visível. É menor que um pixel.

— O que é um zeptômetro? — Perguntou Felício, curioso.

— Um zeptômetro é uma medida de comprimento para medir coisas tão infinitamente pequenas que não se pode sequer imaginar. É usada em laboratório de pesquisa e corresponde a  10−21 m. Mas há uma medida muito menor que ela. É o yoctômetro, que corresponde a 10−3 zeptômetros.

— Caramba! — Exclamou Felício, pasmo.

— Mas vamos voltar ao nosso assunto? — Insistiu Vera, impaciente. Sorri.

— Está bem. Consegue abstrair a Forma em relação ao Espaço?

Estrelas infinitamente maiores que nosso pobre Sol. Onde está a Terra? Onde estamos nós?

Estrelas infinitamente maiores que nosso pobre Sol, cujo tamanho é equivalente a um pixel. Onde está a Terra? Onde estamos nós?

Sua expressão de perplexidade me disse que lhe era difícil realizar tal abstração.

— Está vendo o que eu quis dizer? — Falei, paciente. — Você não está pronta.

— Acho que eu também não — disse Felício, com um suspiro. — Essas abstrações são quase impossíveis para os que, como nós dois, foram educados dentro do Catolicismo. Esta religião embasa toda sua Filosofia na Forma. Por isto é que tem tantos ícones em suas igrejas. O Deus católico, e agora eu já concordo com o senhor, é demasiadamente antropomórfico. Ele vive dentro do Espaço, em um lugar onírico, inimaginável senão segundo os padrões sensoriais que temos. A este lugar chamam céu. Os “salvos”, lá, no céu católico, continuam a ser pessoas. Têm a aparência física de quando eram vivos na Terra. Têm suas famílias que se unem como as famílias dos silvícolas numa grande Taba, onde o Tuxaua é a autoridade máxima. Só que, lá, no céu dos católicos, esse Tuxaua é Deus. E lá, o sexo, o coito, não é permitido porque é pecado carnal. No céu católico todos os salvos são espíritos. Não têm carne nem, por isto mesmo, seus vícios degradantes.

Homens de conhecimentos empedrados.

Homens de conhecimentos empedrados.

— Seu bispo, Felício, discordaria de você. Ele lhe diria que Deus esta acima e fora do Espaço-tempo. Só não pode dizer é o que envolve este Deus quando Ele se encontra além da dimensão Tempo-Espaço. Nem explicaria a finitude deste mesmo Espaço, visto que todos sabem ou, pelo menos aceitam, que ele é infinito. Também, com certeza, não teria resposta para a pergunta: e os “salvos” não vão ficar ao lado direito de Deus? Então, eles também ficarão fora da dimensão Espaço-Tempo? Se Deus os “salva” e os leva para Seu Reino e este Reino está além da dimensão Espaço-Tempo, onde é este lugar? O inferno eterno também fica além da Dimensão Espaço-Tempo? Ou este local tenebroso e dantesco permanecerá para sempre dentro da dimensão Espaço-Tempo? Se assim é, esta dimensão é uma dimensão já de saída infernal? Depois da Salvação, o que farão Deus e seus Salvos? Cairão em sono letárgico para todo o sempre Amém, visto que nada mais haverá que fazer?

Meus dois companheiros se entreolharam com um meio sorriso nos rostos. 

Esquema da Gravidade terrestre na dimensão espaço-tempo.

Esquema da Gravidade terrestre na dimensão espaço-tempo.

— A Teosofia e o Budismo solucionam este impasse com a afirmativa de que Deus é justamente esta dimensão infinita a que denominados de Dimensão Espaço-Tempo, não é?

Era Vera que fazia a pergunta.

— É. E se pensarmos com cuidado, não há outra explicação mais clara e mais plausível para isto. O Espaço tudo contém e não é contido por nada. Dentro d’Ele tudo pode ser pensado e imaginado, menos Ele mesmo. Como Imaginar o Espaço se Ele não tem forma, não tem substância e não tem finitude? Se se conseguir conceber o Espaço sem nada, absolutamente nada dentro dele, como é que ele se parecerá, visto que não tem fim nem forma, nem substância?

Os dois se entreolharam, tensos.

— Eu penso que Deus jamais poderá ser imaginado vazio — Disse Felício quase num murmúrio.

— E realmente Ele jamais está Vazio, meu amigo. Ele é Movimento e Criação Perpétuos. Mesmo no Pralaya Ele é a Criação e o Movimento em repouso.

Os "maliciosos" são pessoas mascaradas, disfarçadas, traiçoeiras.

Os “maliciosos” são pessoas mascaradas, disfarçadas, traiçoeiras.

— O senhor disse, padre, que no céu não há os pecados carnais. Mas o que me diz dos pecados não carnais, como, por exemplo, a mentira, a traição, a malícia, a ferinidade, as maquinações para o Mal? Tudo isto não são vícios da carne, mas do Espírito, da Mente que pensa. Nascem na psique, brotam na forma dos pensamentos. Como é que os espíritos salvos se livraram destes pecados mortais? Sim, pela visão cristã, são mortais porque não matam o corpo. Matam a Essência do Bem no próprio Espirito.

— Por esse caminho vocês vão entrar em uma tautologia infinita — disse eu. — Em primeiro lugar, a essência do Bem não pode ser destruída no Espírito Humano, pois esta essência é o Próprio Inominado, a quem vocês chamam Deus, no Ser Humano. Sua Excelsa presença, sem a qual, o homem nada seria. A “Centelha” de que nos fala o Jesus de Benítez.

Eis o Espirito Humano. Somente três ínfimos Átomos Ultérrimos Permanentes.

Eis o Espirito Humano. Somente três ínfimos Átomos Ultérrimos Permanentes.

— Em segundo lugar, o espírito humano é composto tão somente de três átomos ultérrimos ligados permanentemente entre si por um fio de matéria monádica. Estes átomos revoluteiam ao redor de si mesmos, quando, então, em determinadas épocas, um deles se torna central e os outros dois orbitam ao seu redor, sempre ligados pelo fio monádico. Cada um destes Átomos Ultérrimos Permanentes, porque nunca se modificam, é, apenas para efeito de imaginação, como um HD de infinita capacidade de gravação.

— No momento cósmico em que temos existência na Dimensão Física, Densa, Material, o átomo central é o Átomo Ultérrimo Físico Denso Permanente.

— E está no centro porque cabe a Ele o desenvolvimento de todas as suas possibilidades de aprendizagem no que  toca a todos os fenômenos possíveis na Terceira Dimensão. É imperioso que experiencie absolutamente todas as possibilidades desta dimensão, independentemente do grau de dor ou sofrimento que isto impinja à matéria do corpo orgânico que possui para tal vivenciação.

— Por isto é que esta Dimensão Material foi criada pela Consciência Suprema. Para que tudo o que diga respeito a este Plano ou a esta Terceira Dimensão se torne para sempre parte do Conhecimento do Espírito Humano. É o início da Caminhada Espiritual rumo à Conscientização Plena, a Iluminação Absoluta, só alcançada por um Deus cuja evolução esteja acima daquela de Jesus. E que eu saiba, não há entre nós conhecimento de ninguém que tenha chegado a tanto.

Fez-se um longo silêncio, que eu deixei permanecer para que eles pudessem absorver o peso da informação que eu lhes dava.

— Meus amigos — voltei a falar. — Enquanto Espíritos, estamos na Creche do Conhecimento Cósmico Total que temos de aprender.

— Então — perguntou Vera, voz embargada pela emoção de que era tomada —, qual é a forma do Espírito Humano?

— Forma? Você não consegue abdicar do sensorial nem por um segundo? — Perguntei, condoído. Ela queria conhecer, mas sem abdicar dos valores e da aprendizagem sensorial.

— Mas… Mas… Como assim? — Atrapalhou-se a jovem, olhando ansiosa para Felício. Este, deu de ombros em sinal de impotência.

Levantei-me e fui buscar o livro “Os Chakras”, de C. W. Leadbeater. Abri-o na página em que há o desenho representativo de um átomo ultérrimo. Vera estudou atentamente a figura, leu as informações sobre o átomo ultérrimo e, depois, com os olhos brilhando de excitação, me olhou e perguntou:

— Qual é o tamanho disto?

Felício explodiu numa gargalhada, o que fez a jovem corar feito um tomate maduro. Eu o censurei com um meneio negativo de cabeça e, com o máximo cuidado, disse, sério, para que a jovem percebesse que eu dava valor à sua pergunta infantil.

— Sabe o que é um picômetro?

— É a bilionésima parte do nanômetro, que, por sua vez, é a bilionésima parte de um milímetro — respondeu ela, sem vacilar.

— Pois bem, tome um picômetro e o divida por um bilhão e, depois, divida o resultado obtido, chamado de  zeptômetro por mais um milhão. Então, talvez tenha aproximadamente o tamanho de um átomo ultérrimo.

— Um yoctômetro? — Perguntou Felício, arregalando os olhos.

— É isso aí.

— Meu Deus! — Exclamou a jovem Vera. — Não dá nem para imaginar!!!

— Não, não dá. E olhe que nós, quando comparamos a Terra com outras estrelas diante das quais nosso Sol é menor que uma bactéria, deixamos de  ter qualquer significado dimensional. E creio que, se nos comparamos com o tamanho de nossa Galáxia, somos, talvez, algo um bilhão de vezes menor que um yoctômetro.

Adiantamos nossa Evolução. Construímos nosso Terceiro Olho.

Adiantamos nossa Evolução. Construímos nosso Terceiro Olho.

— No entanto — disse Felício, maravilhado — somos capazes de ver nossa galáxia, fotografá-la e medi-la.

— O que quer dizer que temos nosso “terceiro olho” nos instrumentais que inventamos — disse eu, sério. — Em outras palavras, mesmo sendo tão pequeninos nós já nos adiantamos ao Oculto e nos demos de presente um “terceiro olho” no Hubble, que nos permite ver o que não podemos a olho nu, material, físico, orgânico.

— A famosa terceira visão — murmurou Felício, encantado.

— Como pode ver — disse eu —, caminhamos, sem consciência disto, para nosso destino. Um dia virá em que teremos, cada um, nossa própria “terceira visão” e não vamos mais precisar de mecanismos toscos, pesados e custosos. Mas por enquanto vamos ater-nos em nossa pequenez física. Quando comparamos a Terra com outras estrelas diante das quais nosso Sol é menor que uma ínfima bactéria, temos uma pálida dimensão de nosso reduzido tamanho na escala Universal de nossa Galáxia. E isto, nesta terceira dimensão, que é mínima se comparada com as dimensões onde a matéria que as compõem é infinitamente  mais sutil que o nosso gás nitrogênio.

A jovem permaneceu calada e me olhando como se não me visse. Compreendi que ela, pela primeira vez, pensava na questão de nossa infinitude dimensional.

— Então — murmurou, abismada —, na dimensão deste Universo que é a nossa Via Láctea, cada um de nós não passa de átomo ultérrimo… E eu pensava que tinha algum significado!

Eu ri ante sua tomada de consciência. Ela concluíra com certa dose de acerto.

— Tudo que foi criado nesta Terceira Dimensão, Vera, tem significado para o Criador. E sendo assim, você também o tem.

"AÍí, ó! Vocês vão pagar o imposto de renda que ficamos devendo sobre os salários indevidos que abocanhamos por muitos anos... E sorriam! Vocês estão sendo 'fumados'!!!"

Isto é válido somente para você, garota. Eu sou um Deus.

— Mas Doutor — disse ela ainda com aquela expressão de pasmo no rosto —, somos ínfimos. Quase nada, diante do gigantismo dos corpos celestes. Eu jamais houvera sequer cogitado em me ver em relação a eles, aos corpos celestes. É humilhante para nossa arrogância… O senhor me entende?

— Hum-hum — fiz eu à guiza de resposta.

— Bom, agora que descobrimos que em relação aos corpos celestes desta dimensão temos o tamanho de um átomo ultérrimo, vamos voltar ao nosso tema? — Disse Felício, temendo que nos desviássemos do assunto.

— Certo — concordou Vera voltando à nossa realidade. — Eu já admito que nosso Espírito seja composto de somente três átomos ultérrimos, Doutor.

— E também — complementou Felício — que neste momento de nosso início evolutivo, o Átomo Físico Ultérrimo Permanente seja o que está no centro, com isto se tornando o prioritário na tríade. Mas por é que ele está no centro?

Pequeno, feio, ele carrega facilmente cem vezes o próprio peso sem se cansar.

Pequeno, feio, ele carrega facilmente cem vezes o próprio peso sem se cansar.

— Felício, observe os fenômenos deste mundo. Tudo começa do menos para o mais; do menor para o maior. E tudo parte do mais denso para o mais sutil. Somos os menores da Criação, depois dos estágios que já deixamos para trás, quando fomos unicelulares, protozoários. E ainda somos os mais fracos organismos na constelação de trezentos milhões de organismos que vivem neste planeta. O Átomo Ultérrimo Permanente mais denso, mais primitivo, é o Físico. Daí que seja lógico que ele esteja como dominante neste momento desta nossa evolução. Como eu lhes lembrei, tudo, nesta Terceira Dimensão, começa do mais denso e evolui para o mais sutil.

Bonito, posudo, 100 kg de músculos, seria esmagado vergonhosamente sob cem vezes seu peso.

Bonito, posudo, 100 kg de músculos, seria esmagado vergonhosamente sob cem vezes seu peso.

— E como nós estamos no início de nossa evolução — cortou-me Felício — é lógico que seja o Átomo Ultérrimo Físico Permanente que seja o primeiro a se desenvolver…

— Dai o ter, Deus, criado a Terceira Dimensão — concluiu nossa jovem companheira.

— Sim, isto mesmo — concordei, sorrindo de seu entusiasmo.

—É fantástico! — Explodiu a moça com o semblante radiante. — O senhor baseou toda a sua argumentação na Ciência Humana.

— Quase toda — corrigi. — Falei de entidades que a Ciência Pragmática ainda desconhece.

— Sim, sim — concordou ela, rosto afogueado. — O que eu quis dizer é que o senhor não se ateve apenas à linguagem e aos conceitos Teosóficos. Eu li alguns livros desta área e sempre os achei meio “Mandrake”.

— Entendo… A propósito, você sabe quem foi Mandrake? — Perguntei, curioso. Esta personagem de histórias em quadrinhos já havia “falecido” há muitos anos. Acho que desde 1960.

O mágico Mandrake e seu companheiro Lotar.

O mágico Mandrake e seu companheiro Lotar.

— Sim. Uma personagem de histórias em quadrinhos que deixou de existir. A personagem foi baseada em Leon Mandrake, um mágico que fazia performances no teatro pelos anos 20, usando uma cartola, capa de seda escarlate e um elegante bigode fino. Eu conheço Mandrake porque meu pai ainda possui sua coleção daquelas revistas.

— É. Eu também gostava muito dele — disse eu, rindo.

— Agora, Doutor —, pediu a jovem — deixe-me resumir o que aprendi até aqui. Primeiro, somos espíritos que se constituem somente de três átomos ultérrimos permanentes, ligados por um fio de matéria monádica; segundo, somos seres que, comparados com outros corpos na Terceira Dimensão, temos, comparativamente é claro, o tamanho de um átomo ultérrimo; terceiro, estamos no princípio mesmo de nossa Evolução. Nosso Espírito precisa que o Átomo Ultérrimo Físico Permanente experiencie tudo o que há para ser vivenciado, estudado, pesquisado e aprendido neste pequeno planeta chamado Terra e que é seu ponto de partida para uma viagem totalmente desconhecida.

— Caramba, Vera — exclamou Felício. — Você me espanta. Com que precisão resumiu tudo o que ouvimos!

— Sinal de que ouviu com atenção — observei, satisfeito. Nada estimula mais um instrutor que perceber que é entendido.

— Vamos continuar? — Convidou a jovem, satisfeita pelo elogio de Felício.

— Hum-hum — fiz eu, também satisfeito com sua aprendizagem.

— Por que os três átomos que compõem nosso Espírito são chamados de “permanentes”?

— Boa pergunta — disse eu. — A explicação é que eles nunca se desfazem e nunca se desagregam um do outro. Se tal acontecesse, a entidade espiritual humana perderia sua condição divina que é a de ser eterno, tal como o seu Criador.

— Entendo e é lógico… Mas, Doutor, se estamos no início do princípio de nossa jornada, todas aquelas fantasias sobre inferno, purgatório, pecado etc… que fazem parte do cristianismo em geral são pura besteira, pura invencionice, não é?

Pensei um instante, antes de responder. Não queria enveredar pela longa história dos hebreus e suas peregrinações por outras nações de onde tinham absorvido muito das suas crenças e incorporado à própria, como era o caso do tal “inferno” com seus diabos chifrudos e rabudos, absorvidos dos mazdeístas persas. Estava na Bíblia. Era só ler com atenção. A conclusão da jovem era precipitada. Ela tendia a fechar “gestalties” com demasiada rapidez.

— Sim e não — respondi, cauteloso.

— Não entendi — disse ela, curvando-se em minha direção, toda atenta.

— Nossos parcos cinco sentidos nos estimulam a classificar os estímulos que percebemos em duas classes de qualidades. A classe dos estímulos agradáveis, prazerosos, sexuais; e a classe dos estímulos desagradáveis, desprazerosos e anti-sexuais.

— Certo — concordou ela, toda ouvidos.

— O nosso corpo físico…

— Que o senhor chama de Elemental Físico — cortou-me ela.

— Sim, o nosso Elemental Físico é impulsivo, logo, perigoso para si mesmo. Ele precisa que algo o refreie e faça que evite os estímulos anti-sexuais, desprazeroso e, até, dolorosos. Este algo é a reação emocional de Medo. Mas há perigos que necessitam de serem enfrentados, mesmo com o risco da própria vida. Para isto, o Elemental Físico precisa da força da Emoção de Ódio, pois é dela que derivam as reações de raiva, de ira, de fúria, de zanga, de irritação etc… Entretanto, medo e ódio são incontroláveis e tendem a extremos, podendo matar aquele em que se manifestem exageradamente. Para refrear esta tendência, o Elemental Físico necessita de uma terceira reação emocional que seja “enregelante” e esta emoção é a Culpa. Então, o triângulo emocional MEDO-ÓDIO-CULPA dá suporte à vida Elemental e tais reações emanam do Segundo Átomo Físico Ultérrimo Permanente, o Átomo Astral ou Emocional. Mas comportar-se de modo automático com reação de fuga ou luta não ajuda no processo Evolutivo humano. É preciso que o Elemental Físico fixe a experiência vivida. Para tanto precisa de um aparelho capaz de realizar esta façanha. Entra em ação o Átomo Ultérrimo Físico Mental Permanente. Dele é que o Elemental Físico ganha sua psique, através do qual fixa a experiência, memorizando-a e dela se utilizando quando tem que enfrentar os desafios dos ambientes em que se encontre. E isto obriga o cérebro a crescer e se desenvolver, a fim de apresentar estruturas capazes de responder à solicitação daquela parte do Espírito Humano. Assim se explica o aprimoramento constante, ainda que lento, de nossa estrutura cerebral. 

— A partir das memórias psíquicas resultantes das vivências sensoriais, o Elemental Físico Humano começa a desenvolver a capacidade ideacional. Encadeando as idéias, processo a que chamo inteligência, através de operações lógicas ele cria o pensamento simbólico. Estimulado pelo ato de pensar o Elemental Físico desenvolve a capacidade de fantasiar, de sonhar e de imaginar. E é o conjunto destas funções psíquicas que leva à formação, em cada Elemental Humano, daquilo que chamam de Personalidade e que eu prefiro chamar de Identidade Individual. Sonhando, fantasiando e imaginando, o Elemental Físico Humano torna-se capaz de ser um Criador. E é por força da Fantasia que ele cria entidades absurdas, como o inferno mazdeísta, que judeus e cristãos assimilaram em suas crenças religiosas.

— Então —, disse Vera, excitada — a emoção de Medo é a base da capacidade inventiva do ser humano.

— É, podemos dizer que sim — assenti, para não ter de me estender mais neste assunto.

— Doutor, por que o Criador nos premiou com este “vale de lágrimas”? Se tudo foi tão sabiamente criado por Ele, porque nos faz começar pela Dor?

Olhei espantado para Felipe, o autor da pergunta, mas percebi, surpreso, que a pergunta era sincera.

— Acho que sei! — exclamou Vera, toda excitação. — É porque tudo começa pelo mais denso e evolui para o mais sutil. A dor, o sofrimento, são densos. A felicidade, a alegria, são sutis.

— É, isto pode ser usado como parte da explicação — disse eu. — Mas há algo mais importante no plano do Criador para a sua criatura.

— Aprender! — Exclamou Vera com o rosto afogueado. — É isto, não é?

— Essa é a necessidade básica — respondi. — Mas não é só isso.

— Então… O que é? — Perguntou Felício, todo atento.

Jesus lava os pés de seus discípulos.

Jesus lava os pés de seus discípulos.

— Conta-se que na última ceia o Deus que se fez carne tomou a decisão de ensinar com um exemplo, a seus apóstolos rudes e obtusos, a finalidade primeira da Vida do Espírito no mundo material. Era costume entre os judeus lavar os pés e a mão direita antes da ceia pascal  e antes das refeições em geral. Mas isto, o lava-pés, não podia ser feito por um judeu de boa estirpe, sangue puro. Era um trabalho considerado indigno, imundo. Por isto eles o delegavam a escravos ou não-judeus.  Jesus colocou seus discípulos sentados e mandou que Pedro lavasse os pés de Marcos. Este, por sua vez, lavaria os pés de João e assim por diante. Foi aquela explosão de revolta e indignação entre os rudes e broncos discípulos do Cristo. Em silêncio, Jesus observou atentamente seus discípulos discutirem e invectivarem contra sua ordem. Eles estavam revoltadíssimos porque achavam que aquela ordem do Mestre era absurda, indigna deles. Jesus, então, quando as emoções estavam no extremo da revolta, tomou da bacia e da toalha, ajoelhou-se junto aos pés de Pedro e, ante a perplexidade de todos, com energia e determinação deu início ao ritual do lava-pés. Pasmos e desconcertados, um a um, todos foram obrigados a aceitar que o Mestre se humilhasse daquele jeito diante deles. Quando terminou o trabalho considerado indigno por todos, exceto por Ele, o Rei dos Reis se pôs de pé e falou: “Se eu, que sou vosso Mestre, vos servi, então, servi vós também aos vossos irmãos, pois esta é a Vontade do Pai”.

— Então, estamos aqui para aprendermos a servir? — Decepcionou-se Vera. — Esta é a missão “impossível” do Elemental Humano e do próprio Espirito Humano? Eu acredito que há muita coisa mais importante que isto.

Eu lhe observei a frustração. Ela, como todos nós de modo geral, sempre pensávamos em “coisas grandes”, coisas que, vistas pela nossa óptica mesquinha, estavam bem acima da Mensagem do Cristo. Servir era algo pequeno, em sua visão.

— Não é tão simplista assim, Vera. O Rei dos Reis exemplificou a Lei que rege o “Estar no Mundo” do ser humano. Ele não impunha a obrigação de servir como um meio de se receber a graça da salvação, até porque nós já estamos salvos desde o princípio. Não nos esqueçamos de que somos Deus em manifestação. E um Deus não pode ser condenado, principalmente se este Deus for uma Centelha do Criador. O que o Rei dos Reis mostrou foi que até o final dos tempos aquela seria a tarefa primeira do Ser humano: servir. Consciente disto ou não, todos viveremos servindo sempre, pois o Amor impõe que nos doemos sem condições nem restrições. E para aprendermos este Amor, o único e verdadeiro, temos de aprender a servir. Servir sempre.

Os dois se entreolharam com ar de decepção.

— Por que noto desânimo em vocês? — Perguntei, intrigado. Afinal de contas, todo padre repete que se deve servir. Será que não percebem a profundidade disto?

— Porque o que menos se faz neste mundo é servir, Doutor. Todos só pensam em ser servidos. Só têm olhos para si mesmos, para seus interesses pessoais e mesquinhos. É a humanidade do egoísmo, a que vive atualmente no mundo. E o egoísmo está levando este mundo à falência, ao desastre. Ódio, ganância, usura, eis o que nos está cavando o fim — disse Felício com amargura. — Nós, padres, sabemos bem o quanto servir é importante para a salvação do homem. Vivemos pregando isto e vivemos exemplificando isto em nossas ações. E tudo faz parte das orientações do Catolicismo. Mas os paroquianos não aprendem e quando tentam fazer este dever, fazem-no com exibicionismo, o que é errado.

Eu explodi em uma gostosa gargalhada. E foi entre risos que disse:

— Felício, você se esquece de que “o homem põe e Deus dispõe”? 

— Como assim? — Perguntou ele, desconcertado com meu riso.

— Veja, desde quando assumimos a forma hominídea até quando chegamos a esta forma atual, o que fazemos é obedecer à Lei Suprema, da qual não temos como fugir. Ela rege este início de nossa caminhada, meu amigo. Não foi à-toa que a Inteligência Suprema nos deu o corpo mais frágil, mais fraco, dentre os animais da Terra. Até os insetos são muito mais fortes que o mais forte dos homens. O escaravelho, por exemplo, carrega com facilidade cem vezes o peso do próprio corpo. Nós, a maioria, somos esmagados com duas vezes o peso de nosso corpo. E a totalidade de nós morre esmagada sob a carga equivalente a dez vezes o próprio peso. 

— E daí? — Perguntou Vera, intrigada.

Thomas Edson foi persistente em sua intenção e conseguiu seu objetivo.

Thomas Edson foi persistente em sua intenção e conseguiu seu objetivo.

— E daí que a nossa fraqueza física e o nosso medo daí derivado faz que nos procuremos uns aos outros como meio de nos protegermos. Isto obriga nossos Espíritos a experimentar e vivenciar a humildade. Goste ou não, ele tem que se humilhar e buscar a proteção do grupo. Mas nosso egoísmo faz que engendremos meios de agradar e enganar o outro, submetendo-o à nossa vontade mesquinha de ganhos, de dominação e de controle. Para tanto, buscamos agradar nossos alvos, servindo-o naquilo que lhes interessa. Com esta motivação foi que criamos o comércio. E é aí que obedecemos ao Criador sem nos darmos conta disto plenamente. O que exige o Comércio? Que sirvamos aos nossos clientes com aquilo que julgamos que eles necessitam. E se não necessitam de alguma coisa, nós inventamos a propaganda e o marketing que tem como objetivo fazer que necessidades específicas sejam criadas nos nossos alvos. Quando isto acontece, nós passamos a servi-los com o de que, agora, necessitam. As condições ambientes, por outro lado, são fortíssimos estímulos para que ponhamos em ação nossa capacidade criativa. Vejam, por exemplo, Thomas Edson. Ele tentou por nove mil, novecentas e noventa e nove vezes descobrir a lâmpada. Só na décima milésima vez foi que o conseguiu. Por que ele tentou tanto? Certamente não tinha em vista o lucro, mas sim, espantar o fantasma incômodo da escuridão. Com isto, ele criou a arma contra as entidades fantasiosas que o escuro estimulava a Mente humana criar. E morreram os lobisomens, os vampiros, a mula-se-cabeça e centenas de outros abantesmas que tais. Edson serviu à humanidade e esta continua a servir a todos os demais com a invenção dele. Faz isto através das empresas de energia elétrica. Mas para tanto, outros abnegados inventores criaram muitos outros artefatos que transformaram movimento e luz em eletricidade, o que possibilitou a construção de hidrelétricas e redes de transmissão. E é assim com todos os inventos. Uns descobrem os segredos da Natureza. Outros os transformam em meios de servir. Não há como escapar à Lei que Jesus tentou mostrar aos seus broncos discípulos. Mesmo os bancos, os maiores centros de usura que o homem pôde criar, servem os seus clientes, ainda que forçados pelo Governo e pelo Mercado. Mas servem e isto é o que interessa. A mesquinharia, o apego ao dinheiro e ao lucro, a avareza, a usura, tudo isto são fantasmas ou desvios de qualidade que serão espuídos ao longo da Evolução do Caráter humano. Não há um comportamento humano, a rigor, que não obedeça à lei máxima demonstrada por Jesus em sua Última Ceia junto com mortais.

Fez-se um longo silêncio. Observei que os dois estavam em profundo estado de introspecção e não os interrompi. Aguardei que retornassem de seus mundos interiores.

Ele faz parte dos Planos de Deus para o homem.

Ele faz parte dos Planos de Deus para o homem.

— Doutor, eu creio que a mais nefasta invenção do ser humano foi o papel moeda. Ele é a causa da explosão de todos os males morais e de alma do ser humano. O que o senhor pode-me dizer a respeito disto?

Vera fizera a pergunta e me olhava com um olhar inquietantemente inquisidor. Aquilo me incomodou. Por que mudara a intensidade de seu olhar? Por que endurecera as feições?

— O que é, para você, os males da alma? — Perguntou Felício.

— Egoísmo; ganância; usura; mentira; falsidade; corrupção, tudo isto e muito mais — respondeu a jovem, encarando com semblante fechado seu interlocutor. Fiquei mais preocupado e atento à sua reação.

— Lembrem-se — disse eu. — Tudo evolui do mais denso para o mais sutil; do mais pesado para o mais leve; da maior dor para a felicidade plena. E lembrem-se, ainda, que “nem uma folha cai do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai”. Esta Lei inclui tanto a invenção do fuzil, quanto a invenção do sistema financeiro e do papel moeda, com toda a certeza. Então, por que estranhar que ele também seja algo criado segundo a Vontade Suprema? O Espírito não tem que experienciar de tudo, aqui em baixo? Como experienciar os “males da alma”, como você chama a estes vícios, se não houver um estímulo para que eles se manifestem? Conhecê-los tem uma finalidade, com certeza. Servirá para algum propósito oculto, não há como duvidar disto. E se é oculto, não está, até o momento, à disposição de nosso conhecimento. Talvez para nosso próprio bem.

— Então, tudo se resume em servir? Perguntou Vera e eu não gostei do tom de sua voz.

— Sim, com certeza. Por que?

— Então me diga: onde está o serviço do homem que trai sua mulher?

Acho que o par de cornos doía na jovem Vera.

Acho que o par de cornos doía na jovem Vera.

A jovem falava com expressão de raiva que, percebi, não se dava conta de a estar deixando aparecer não somente em sua face, mas também em toda a postura de seu corpo. Entrávamos em terreno muito delicado. O olhar da jovem era duro e acerado como um punhal. Todo seu corpo estava tenso e suas mãos fechadas com força, ainda que ela não percebesse isto. Seus maxilares mastigavam em seco, fazendo que os músculos de sua face se contraíssem tensamente. Com toda certeza ela sofrera alguma forte decepção com o que chamava de traição. O terreno, agora, era explosivo.

— Às vezes, Vera, é preciso que sirvamos decepção para que o outro aprenda a se olhar e se corrigir de defeitos que são pontos cegos para seu Ser social. O egoísmo, uma auto-imagem e correspondente auto-estima exagerados tornam-nos cegos para nossos defeitos. E isto é notável nos filhos caçulas de família numerosa. Eles aprenderam a serem servidos e vão vida-a-fora exigindo isto de todos. Não aprenderam a servir. Quando casados, tornam-se tirânicos, exigentes, impositivos, controladores, perversos para com seu par. Não são capazes de enxergar os próprios defeitos, mas são exímios em apontá-los nos outros. E transformam tudo, qualquer palavra, qualquer gesto, qualquer expressão, em arma para ferir os que desafortunadamente os  tenham machucado de propósito ou não. Não sei e não quero saber se este é seu caso. Estou enunciando uma Lei da Psicologia do Filho Caçula, compreende? Ela é verdadeira com maior ou menor intensidade, dependendo de cada caso. É aí que podemos encaixar a história do Karma. Este, nos presenteia, quando temos tais tendências por sermos filhos caçulas ou por termos desenvolvido tais caracteres em nosso caráter por vivências erradas, com um parceiro ou uma parceira que nos fará provar do dissabor da “traição”. Nenhum homem nem nenhuma mulher aguenta continuar apaixonado ou apaixonada por uma pessoa, sua parceira, se esta tem comportamentos regidos por aquelas características defeituosas de Identidade. O “amor” esfria. A raiva e a revolta se avolumam e a pessoa “premia” o pequeno tirano com uma estrondosa “traição”, tanto mais dolorosa quanto mais apegada seja a pessoa “traída” aos seus valores mesquinhos. Aquele que “traiu” serviu a taça da amargura e da decepção ao orgulhoso e tirânico companheiro (ou companheira). É a vez desta pessoa saber como beber daquela taça sem se envenenar, mas sim, purificando-se dos próprios defeitos, o que é raro conseguir sozinho. Em tudo, Vera, há uma lição a ser aprendida. Nada acontece por acaso, não é? Nosso dever é descobri-la, compreendê-la, retirar dela o conhecimento que nos oferece e agradecer ao Criador por tê-la disponibilizado para nós. Se não alcançamos a sabedoria para realizar esta complexa tarefa de alma, então a lição será repetida. Talvez até mais amarga que a anterior.

Vera inspirou fundo, engoliu em seco e se fechou como um ostra. Pensei que era hora de parar aquela conversa, pois tínhamos enveredado para um terreno nada agradável. Felício, contudo, não pareceu perceber a delicadeza do momento e comentou.

— Tem razão, doutor. Aqueles que se sentem “traídos” por seus companheiros ou suas companheiras tendem a se encher de mágoa, de rancor e de raiva. Isto os cega e os torna mais e mais encruados em suas características más. E é difícil fazer que reconheçam sua parcela de culpa, de responsabilidade no desenlace dramático de suas vidas.

— Mas nem sempre a mulher tem culpa na história — rebateu Vera e sua voz soou alta demais e tensa demais. — Há homens que não prestam por natureza. São crápulas desde o berço!

— E não são eles, esses “crápulas”, que o Senhor usa para enviar a lição que a filha deve aprender? — rebateu Felício com um olhar duro e censuroso direto para Vera, que abaixou a cabeça, inquieta. Eu positivamente não estava gostando do rumo que a conversa tomava. Se não interviesse teria em mãos uma pessoa em crise e seria obrigado a atuar como Psicólogo Clínico, o que não desejava de modo algum.

— Não creio que haja mais clima para continuarmos nossa conversa —falei com voz impositiva e de timbre mais alto que o necessário. — O assunto foi desviado para terreno pessoal, emocional, íntimo, que não vem ao caso.

Houve um silêncio constrangedor, quando ambos, Vera e Felício se agitaram incomodados e desconcertados em seus assentos. Finalmente, a moça falou e sua voz era de constrangimento.

— O senhor tem razão, Doutor. Eu peço desculpas por ter-me descontrolado, mas prometo que isto não acontecerá da próxima vez. Eu cheguei aqui vendo a realidade por uma frincha muito estreita. Saio daqui com uma janela aberta para um cenário que nem desconfiava que existia. Tenho muito a lhe agradecer. No entanto — e ela se pôs de pé — isto só aumentou minha sede de saber mais. Pena que tenha estragado tudo com minha estultície. O padre tem razão. O senhor é espantoso. Seus conhecimentos são inigualáveis e o modo como os disponibiliza para leigos como eu é magistral. Simples, direto, sem rodeios nem floreios. Não tenho palavras para agradecer sua bondade e sua paciência. Estou feliz por tê-lo conhecido, de verdade. O senhor, Doutor, é muito mais do que eu tinha pedido a Deus.

Aquelas suas últimas palavras novamente me lançaram a um passado distante. Distante no tempo, mas bem próximo no coração. Sorri um sorriso de silêncio… Então, os dois se despediram e se retiraram. Eu fiquei pensando em quando seria que a jovem voltaria com mais perguntas.

Até quando isto ia acontecer comigo?