Uma coleção das maiores estrelas já descobertas em nossa Galáxia. A terra é menor que a centésima parte do elétron...

Uma coleção das maiores estrelas já descobertas em nossa Galáxia. A terra é menor que a centésima parte do elétron…

Eu estava profundamente mergulhado em pensamentos e não vi meus amigos chegarem. Vieram Felício, Orozimbo, Vera e um novato que eu ainda não conhecia – Juvenal. Este, era idoso. Contava 68 anos e parecia bem mais velho que eu. Sentaram-se e se curvaram sobre a grande foto para a qual eu olhava e sobre a qual meditativamente.

— O que é? — Perguntou Vera, sempre a mais curiosa do grupo.

— Um esquema mostrando as maiores estrelas já descobertas dentro da Galáxia Via Láctea. São tão gigantescas que causam estupefação.

— Por que? Por que causam estupefação? — Perguntou o novato Juvenal.

— Porque estes gigantes cientificamente descobertos e fotografados; que existem dentro da Galáxia onde está nosso Sistema Solar escarnecem do quão tolos e presunçosos somos.

Os quatro me olharam com interrogação. Sorri e lhes mostrei outras fotos.

A Terra, quando comprada com planetas menores dentro do Sistema Solar.

A Terra, quando comprada com planetas menores dentro do Sistema Solar.

A primeira mostra como a Terra parece muito grande em relação com alguns planetas dentro do Sistema Solar.

— Vejam — pedi eu. — Vejam como esta foto nos enche de orgulho. Nosso planeta é enorme quando com ele comparamos Plutão, Mercúrio, Marte e Vênus. Nesta dimensão, somos grandes, não somos?

Todos assentiram com um aceno de cabeça.

— Eu já vi estas fotos na internet — disse Vera, olhando para todos nós.

— E foi de lá que eu as trouxe — disse eu, sem constrangimento. — Elas me fazem pensar não como o comum dos mortais pensam, quando as vêem. Nesta foto, onde a Terra é maior que outros planetas do Sistema Solar, nós nos sentimos importantes, dignos dos “Olhos” e do “Coração” de Deus.

— E não somos? — Perguntou Felício olhando-me com intensidade no olhar.

Não lhe respondi. Apenas mostrei outra foto.

Nossa sensação de importância diminui sensivelmente quando vemos a Terra em comparação com planetas gigantes do Sistema Solar.

Nossa sensação de importância diminui sensivelmente quando vemos a Terra em comparação com planetas gigantes do Sistema Solar.

— Veja, meu amigo, nossa Terra quando comparada com os planetas gigantes do Sistema Solar. Esta foto nos agasta, não agasta? Fico pensando em qual é nosso tamanho; nossa importância cósmica diante de Netuno, Urano, Saturno e Júpiter? Nós nos tornamos micróbios que vivem arrogantemente pensando que são os tais diante dos Olhos e Coração de Deus. Será que temos mesmo a importância celestial que nos arrogamos?

— É claro que temos! — Agastou-se Felício. Eu ri e fui censurado com um olhar duro de Vera. Juvenal apenas deu de ombros. — Sou muito velho par me preocupar com isso. Logo, logo, vou saber… — disse ele, sem entusiasmo. Dei de ombros. Não me importava com sua apatia. Ele me parecia um chato de galocha.

— Felício — disse eu, voltando-me para o padre “desbatinizado. — Não veja isto com os olhos míopes dos preconceitos humanos. Tente enxergar esta maravilha com olhos além do limite de seu cérebro e de seus condicionamentos, caso contrário vai perder toda a grandeza do milagre que Deus colocou nisto que chamamos Terra. Agora, veja esta outra foto.

Nosso Sol, quando comparado a Sírios é pequeno. Quando comparado a Pólux, é ínfimo. Onde esta a Terra nesta escala? Onde estamos nós?

Nosso Sol, quando comparado a Sírios é pequeno. Júpiter surge como um grão de feijão. E a Terra? Onde está ela? Nosso planeta se torna do tamanho do ponto final deste parágrafo. E nós? Qual é nosso tamanho, nossa dimensão? Microbial, meus amigos, microbial.

Desembrulhei um grande poster que continha uma bela foto de uma estrela maior que o Sol, a estrela batizada de Sírius.

— Por favor, olhem para a estrela Sírius e, depois, para nosso Sol. Nesta dimensão, ele, o Sol, está para Sírius como Saturno para Júpiter na foto anterior.  E a Terra? Qual é seu tamanho com relação à gigantesca Sírius? A Terra, meus amigos, não passa de um grão de mostarda. Agora, pensem: qual é nosso tamanho diante de Sírius?

Os três ficaram pensando um tempo e se olharam, espantados. A consciência que eu queria que tomassem lhes chegava aos poucos.

— Nosso Sol, quando comparado a Sírios é pequeno. Sírius tem algo em  torno de seis vezes o tamanho do Sol. Onde esta a Terra nesta escala? Onde estamos nós?

— Eu creio que nesta dimensão nós não passamos de grãos de poeira — murmurou Felício, olhos arregalados. — Mesmo assim, ainda somos importantes para o Pai Celestial. Afinal, Ele nos criou por algum motivo.

— Em uma superfície do tamanho de um grão de mostarda Ele fez tudo isto que vemos? Fez os oceanos que nos parecem gigantescos?Fez os continentes que nos parecem enormes? Fez o dia e a noite? Fez o tempo que vivemos?

Era Juvenal quem falava.

— Sim, Ele fez — respondeu Vera, voz embargada de emoção.

— Então — disse Juvenal, voz rouca —, Ele pintou um lindo quadro na cabeça de um alfinete...

Eu ri e não disse nada. Em vez disto, abri outra folha contendo mais um desenho diante dos olhos deles.

Sírius Pollux e Arcturus deixam o sol para trás e muito.

Sírius Pollux e Arcturus deixam o sol para trás e muito.

—Vejam, agora, esta outra estrela. Seu nome é Arcturus. Olhem como o Sol se tornou muito pequeno quando comparado a ela. Vejam como Sírios e Pólux perderam as respectivas impressão de grandeza, de Poder em tamanho.

Os três se debruçaram sobre a foto esquematizada.

— Isso aí é verdade? — Duvidou Juvenal, olhando para cada um de nós.

— É, senhor Juvenal. É o que a Ciência comprovou através de telescópios gigantescos, como o Hubble, que flutua no espaço ao redor da Terra. Esse olho mecânico, meu amigo, pode ver muito longe e pode fotografar coisas que nós não enxergamos  informou Felício.

— E o que é um pixel? Aqui diz que Júpiter é do tamanho de um pixel — Perguntou Juvenal, após olhar atentamente para a informação de que “nosso” gigantesco Júpiter não passa deste tamanho, na dimensão de Arcturus.

— Bom, Arcturus é um milhão e setecentas mil vezes maior que “nosso” Sol — disse eu. — E um pixel, meu amigo, é um ponto igual ao que faz a ponta de uma agulha fina sobre uma folha de papel. Quase invisível.

— Então… Onde está nossa Terra? E onde estamos nós? — Perguntou Juvenal, espantado.

— Estamos na Terra e esta, na dimensão de Arcturus, é menor que um micróbio. Nós vivemos sobre um micróbio, senhor Juvenal. E somos sete bilhões de seres humanos sobre este micróbio.

Juvenal olhou, pasmo, para cada um de nós.

— É assombroso — murmurou, contrito. — Eu penso no Poder de Quem criou tudo isto e fico sem fôlego. Ele criou séculos e milênios para a dimensão de um micróbio!!!

— Séculos e milênios que, na dimensão do micróbio e a partir da visão na dimensão de Arcturu, passam tão rápidos quanto a chispa de uma faísca na escuridão de um quarto — disse eu, rindo.

— E qual é o tamanho de uma pessoa nesta dimensão?

A pergunta de Juvenal permaneceu no ar, sem resposta.

— Acho que nesta dimensão nós temos o tamanho de um bilionésimo de milésimo de milímetro — arriscou Vera.

— É inimaginável. Nesta dimensão, meus amigos, a duração de uma vida de cem anos é como aquela de uma chispa rapidíssima na escuridão. Um quase nada.

Todos me olharam assombrados.

— Mas vocês pensam que Arcturus é grande? Então, vejam este outro gigante da Criação d’Ele.

Pólux, Arcturus e Aldebaran. Esta última assombra pelo tamanho.

Pólux, Arcturus e Aldebaran. Esta última assombra pelo tamanho.

E eu abri outra foto esquematizada. Nela, Sírius que já nos tinha parecido gigantesca, era, agora, do tamanho do caroço de uma ervilha. Nosso maravilhoso Sol já não tem tamanho significativo na dimensão de Aldebaran.

— Notem, agora, que na dimensão da gigantesca Aldebaran nosso Sol é tão insignificante que já não aparece. Ele tem o tamanho de um micróbio. E à pergunta: e nossa Terra, qual seu tamanho? Não tenho resposta. E à pergunta mais intrigante ainda: e nós? Não sei o que dizer. Um Manvantara, o período que dura 3.420.000.000.000 de anos lunares contados no nosso tempo é absolutamente insignificante para o Tempo contado segundo a dimensão de Aldebaran. Na dimensão desta estrela nós somos apenas um sonho… Um ínfimo sonho, possivelmente quase despercebido à Mente Criadora de toda esta maravilha… E um Manvantara na dimensão Terra talvez não passe de meio-dia, na dimensão Aldebaran.

Minhas palavras ficaram ecoando no silêncio que se fez ao meu redor. Todos estavam pasmos, mergulhados na tentativa de apreender toda aquela grandeza que nos parecia incomensurável.

— Mas Aldebaran ainda não é grande, meus amigos. Vejam esta outra foto:

Aldebaran, que parecia grande, é ínfima diante de Betelgeuse e a gigantesca Antares.

Aldebaran, que parecia grande, é ínfima diante de Betelgeuse e a gigantesca Antares.

— Quando comparamos Aldebaran com Betelgeuse e Antares ela é humilhada. Pólux, que já nos pareceu grande, vejam: está do tamanho de um grão de alpiste. E o Sol? Ele não tem mais dimensão. Desapareceu, simplesmente. E se “nosso” gigantesco Sol sumiu diante destes dois colossos celestiais, o que aconteceu conosco? Onde estamos?

— Na dimensão dessas estrelas nós ainda nem nascemos. Somos menos que nada…

A fala foi de Felício e foi dita em um som murmurado, respeitoso, quase inaudível.

— E o nosso tempo. O que é ele? — Perguntou Vera, mão no coração.

 “A Casa de Meu Pai tem muitas moradas”. Será que nosso irmão maior fazia referência a isto e a muito mais? Com certeza que sim — disse Felício com enlevo e olhos cheios d’água. 

— Essas maravilhas, que o Hubble nos deu a conhecer em todas as suas esplendorosas grandezas, devem sem ínfimas diante de outros portentos estelares. Então, amigos, a pergunta que eu me fazia quando vocês chegaram era: “Existimos de verdade? Em que dimensão? Por que Ele criou-nos em um ambiente que não tem dimensão dentro da Via Láctea? E o que somos se comparados com o conjunto de todos os duzentos bilhões de galáxias que a Ciência ousa supor ser o número limite destas aglomerações estelares no Espaço? E isto, só na terceira dimensão. Quantas galáxias há nas quartas, quintas, sextas e mais dimensões? Como Ele pode se lembrar de nós, se somos menores que nada? Quem foi o homem Yehoshua bar Yoseph, mais conhecido como Jesus de Nazaré? Por que veio até aqui? Por que se submeteu ao pesadelo destas partículas ínfimas do sonho d’Ele, o Criador? O que é a dor? Existe? O que é a paixão? Uma partícula do Nada? Nossos dramas de vida têm algum valor? Qual, se suas durações são menores que a menor partícula de átomo que se possa imaginar? Qual a razão de termos sido criados sobre algo que não  tem real dimensão dentro da Via Láctea – a nossa Terra? Temos, mesmo, o valor que nos atribuímos diante do Criador?”

Todos os olhares se voltaram para Felício. Ele nos olhou estupefato.

— Gente, eu também já havia visto estas fotos na internet — disse, com um suspiro e voz embargada. — Mas, diabo, jamais havia pensado nelas segundo a linha de questionamento de nosso amigo, o doutor aqui presente. Ele conseguiu me tirar o fôlego e me pôs mais ainda em questionamento com minha religião. Com todas as religiões, para ser mais preciso e verdadeiro. Na dimensão desta gigante, a estrela Antares, nosso tempo é… é… é nada! Nossa vida… Ela passa mais veloz que o brilho de uma faísca no escuro! Onde estão todas aquelas “verdades” religiosas? Como considerá-las em um tempo tão diminuto? Aliás, o que é Verdade e o que é Erro? Começo a perceber a profundidade do agnosticismo do doutor. 

— E, no entanto, existimos — disse eu, filosófico. — A pergunta é; por que? Por que existimos numa dimensão tempo-espaço infinitesimal? Este é verdadeiramente o começo daqueles que um dia serão regentes e criadores de Galáxias, como insinuou o Jesus de Benítez e a Teosofia assevera com convicção? Deuses que, ainda assim, são nada diante do Criador Verdadeiro? Diante do Senhor do Tempo-Espaço? Ou será que há uma infinidade de sistemas estelares muito menores ainda que o tamanho do átomo de hidrogênio? E será que ao redor de tais estrelas orbitam planetas semelhantes a este em que estamos? Por que? Qual a razão de suas existências? Qual o objetivo de colocar seres “divinos” evoluindo a partir de dimensões tão… tão…? Nem sei como classificá-la…

— Talvez, para Ele, dimensão espacial não exista. Só em nossa percepção finitérrima — murmurou Vera, como se estivesse com medo de aventar esta hipótese.

— Tudo é factível, Vera. Tudo é factível — assenti. — O que não pode ser factível são as fantasias de todas as religiões que criamos. E surge a pergunta: por que fazemos isto? Por que temos a necessidade de criar religiões? Por que temos este impulso incontrolável para o ritual religioso? Que ele nos toma e nos domina não há o que questionar. Desde as mais longínquas eras a História nos mostra que o homem tem uma propensão incontrolável para criar Deuses. Por que?

— Talvez porque sua origem mesma seja Divina, como assevera o Cristianismo — sugeriu Felício.

— Tudo é divino, Felício, não vê? Toda esta maravilha que lhes mostrei é absolutamente divina. Então, não cabe ao homem pleitear para si esta divindade original. Tudo é divino e não nos esqueçamos: somos todos um. Eu creio que esta assertiva deveria ser: tudo somos Um. 

— “Deus sonha, e quando Ele sonha tudo é criado”. Li isto em um livro bramânico — disse Vera, meditativamente. — Será que somos realmente um sonho de Deus?

—Por que não? — Disse Juvenal. — Essa idéia é plausível e me parece lógica.

— Se somos um sonho, somos finitos. Onde, então, nossa imortalidade? Mais uma vez Felício nos colocava diante de um dilema interessante.

— Tudo é criação de um Imortal. O mais imortal de todos. Então, meu amigo, não há a imortalidade do homem, mas a de tudo. Tudo é imortal. E tudo está absolutamente certo. Até o que nos parece ser absolutamente errado.

Minha observação foi recebida com sisudez por todos. Ficaram pensando um tempo e um a um foram assentindo com um aceno de cabeça.

— Então… O conceito de pecado… — murmurou Felício.

— Não passa de uma falácia — completou Vera, com ceticismo.

— Reflitam nesta afirmativa do Rei dos Reis: “Não cai uma folha do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai”. O que vocês concluem disto?

Eles pensaram um pouco e Juvenal foi quem primeiro falou.

— Ele nos dizia que até nossos mais mínimos pensamentos; nossas idéias mais íntimas e sutis são produtos de Sua Vontade. Mas… Eu quero perguntar: onde está nosso livre arbítrio?

— E onde está a lógica de Ele condenar furiosamente os “pecados” de pensamento, como assevera a Religião Católica? Lembremos que em uma de suas orações há a afirmativa categórica: “que pequei por pensamentos, palavras e obras”  Observei. 

Estendi meu polegar e meu indicador para eles e comecei a juntá-los e separá-los o mais rapidamente que me era possível.

— O que é isso? — Perguntou Vera, curiosa.

— Se é verdade que nascemos e morremos inúmeras vezes, a duração de uma existência nossa é como o toque súbito de meus dedos; e o somatório de nossas vidas e não vidas é infinitamente menor que o tempo que eu levo para colar e descolar duas vezes meus dedos. Em tão curto tempo, o que nosso Espírito aprende verdadeiramente?

— Nada — disse Vera.

— Tudo o que é necessário que aprenda — contestou Felício.

— Acho que a resposta de Felício é mais correta — disse eu. — Somos espíritos e na dimensão espiritual nossa aprendizagem é infinitamente mais rica e mais intensa do que a que acontece na dimensão de nosso Elemental Físico. Pensem nisto.

— Então, o que criamos – carros, barcos, aviões, computadores etc… não significam nada — murmurou Juvenal.

— Sim e não — disse Vera. — Sim, quando consideramos que o planeta invisível galaticamente onde nos encontramos nos foi dado, conforme já o disse o doutor, como um local onde nele tudo podemos fazer. Até mesmo destruí-lo com uma bomba atômica ou uma bomba H, visto que sua extinção não teria qualquer repercussão nem mesmo para nosso Sol, que dirá para a dimensão de Antares.

— Sinto que preciso de tempo para refletir melhor sobre este tema deveras maravilhoso e deslumbrante. Neste momento não sou capaz de acrescentar mais nada ao que já falamos — confessou Felício, limpando o suor da testa.

— Faço minhas as suas palavras — falou Vera. Orozimbo apenas assentiu com a cabeça. Ele a tudo ouvia calado, mas totalmente atento ao que eu mostrava.

— Então, fiquemos por aqui, certo? Vamos falar de amenidades. Da realidade ilusória em que nos encontramos e das tolices que cometemos enquanto seres sociais.

E a conversa derivou para os acidentes, os crimes, o descaso político e outros assuntos que não me interessavam. Eu apenas ouvia, incomodado por ter sido interrompido em meus devaneios iniciais. Devaneios que me retiravam deste corpo tão insignificante e me levavam para paragens além da imaginação…