O melhor amigo e o melhor inimigo do homem dito "civilizado".

O melhor amigo e o melhor inimigo do homem dito “civilizado”.

Para regularizar o registro de minha arma fui à Polícia Federal. Ali me deram uma relação de arrepiar, solicitando declarações de não estar respondendo processo criminal na Justiça Militar, na Justiça Federal e na Justiça Estadual, entre outras exigências que tais. Bom, através da internet facilmente obtive as declarações da Justiça Militar e da Federal. Mas quando chegou a hora de pegar a da Justiça Estadual o bicho pegou feio. Primeiro, no Palácio da Justiça Estadual não se consegue a declaração. Segundo, só aqui, no Estado de Goiás, você tem de pagar uma taxa de R$ 28,00, que deve ir para a Polícia e ali desaparecer como qualquer dinheiro que cai nos cofres públicos. Mas o que irrita é que até a Justiça Militar fornece facilmente isto, de graça e pela internet. Mas em Goiás a ganância pelo dinheiro do povo é tanta que você tem de pagar por uma declaraçãozinha furreca. Aliás, este é o Estado em que se paga uma taxa equivalente a 45% de sua despesa de água a título de “Taxa de Afastamento de Esgoto”. Ixi, Diabo! É de virar as tripas de qualquer cidadão que tenha vergonha na cara. Mas aqui, em Goiás, o povão é como boi: agüenta qualquer aguilhão inventado pelos polititicas, como esta taxa, que foi criada para tapar o rombo que os Governadores Estaduais fizeram na Companhia Estadual de Águas e Esgotos – CEDAE de Goiânia.

"Já me tiraram a Lei do Nepotismo. Agora esse velho quer retirar mais uma fonte de renda? E se o povo escuta o danado?"

“Já me tiraram a Lei do Nepotismo. Agora esse velho quer-me retirar mais uma fonte de renda? E se o povo escuta o danado?”

E a gente ainda tem, depois de pagar a tal taxa sem-vergonha, de esperar três dias para poder ter o documento na mão. Isto é que é atraso, o resto é brincadeira. E Goiás ainda teima em se dizer o Estado de referência do Brasil. Ixi, Diabo! Vá ter megalomania assim na baixa da égua, bixim!

Escrevia este artigo quando me chega Orozimbo. Cumprimentou-me, abancou-se e ficou quieto, esperando que eu acabasse. Interrompi o que estava fazendo para lhe dar atenção. Então, ele, com um suspiro, me perguntou:

— Home, o qui diabo é uma “peguete”?

Peguete formada na escola do pega-e-amassa.

Peguete formada na escola do pega-e-amassa.

Eu o olhei espantado.

— “Peguete”? Onde você ouviu isto, meu velho?

— Premero, arresponde o véio. O qui é uma “peguete”?

Pensei um pouco e resolvi fazer uma gozação com ele.

— Bom, você sabe aquele poste de praça onde todo mundo disfarçadamente dependura sua meleca?

— Hum-hum — fez ele, careteando.

— “Peguete” é como um poste daquele. É uma garota que é pegada por todo homem que assim queira fazer.

Orozimbo arregalou os olhos de espanto.

— Arre égua! E tem muié ansim? Os home pendura meleca nas coitada?

Eu tive de rir. Gostava de ver o Orozimbo espantado com significados que desconhecia.

— Eu não sei se tem, meu amigo. Mas que as “peguetes” são alguma coisa assim, lá isso é. Por que?

Orozimbo se ajeitou na cadeira e por sua expressão vi que estava zangado.

— É qui o muleque netim do véio Tomé tava dizendo que meu netim anda enrabichado por uma tar de peguete. E, agora qui sei o qui diabo é isso, num gostei nada, num sabe? Imagine a Lucinha toda cheia de meleca da mulecada lá da iscola dos garoto… Num dá, né não?

— Mas… Por que ela estaria cheia de melecas, Orozimbo?

Uma peguete em pleno ataque ao macho "indefeso".

Uma peguete em pleno ataque ao macho “indefeso”.

— Vem não! Foi vancê qui dixe qui “peguete” é cuma um poste onde o povo coloca as meleca qui tira do nariz. Só de pensá na porcaria o istombo do véio se imbola e chego inté a inguiá. E o netim do Tomé dixe qui Lucinha é uma “peguete”. Liás, vou grudá na oreia do danado qui é prele aprendê a num dizê bestêra cum as minina boazinha qui nem minha netinha, a Lucinha.

Como eu suspeitara, ele já havia adotado a garota como sua neta e andava todo vovozão pro lado dela.

— Eu acho que seu amigo Tomé não vai gostar de você puxar as orelhas do netinho dele, meu amigo. 

— Dane-se! Véi num tem medo dele, nhor não. Mas ninguém vai ficá falando qui minha netinha é poste de dependurá meleca. Ela num é não, tá uvindo?

— Eu apenas quis reforçar a idéia que a moçada coloca no termo pejorativo que criaram.

— Termo o quê? Qui diabo é isso aí?

— Pejorativo. Quer dizer, que diminui, que achincalha, que vulgariza, que deprecia.

— Munta coisa pruma palavrinha tão petititinha.

— Bom, você pode escolher um destes significados e pronto. 

— Num vô iscuiê nada. Vou é dar uns cascudo no cocuruto do peste qui falá qui Lucinha é uma peguete. Peguete é o diabo que o carregue, sô!

— Deixa isto pra lá, Orozimbo. Em querela de criança a gente não se mete. Eles se resolvem sozinhos.

— Arresorve não. Num arresorve mermo! Meu netim anda de crista baixa pruqui todo mundo fala már da Lucinha. E véi num tá gostando disto, nhor não. E qué sabê? Vái direto daqui pra iscola dos mulequim arreliado e vai avisá qui eles tem de acabá cum esta história. As prefessora qui se vire pruqui senão vai tê munta oreia vermeia de dá dó, ora se vai!

E lá se foi ele todo zangado, enquanto eu ria a bom rir. Quanto ao que escrevia, nem sei mais do que se trata.