O Santuário de Fátima. Onde estará a famosa Gruta? O que aconteceu com ela?

O Santuário de Fátima. Onde estará a famosa Gruta? O que aconteceu com ela?

Uma jovem estudante de uns oito anos estava no ônibus que a levava ao colégio quando uma senhora vestida de branco entrou na condução. Sentou-se ao seu lado e com ela conversou amigavelmente. Quando a menina lhe perguntou quem era ela, recebeu a resposta: “Você saberá assim que entrar em sua escola”. Dito e feito. A menina, ao entrar no pátio do colégio onde havia uma imagem da Virgem Maria sentiu algo estranho e foi compelida a se aproximar da estátua. Ela não era religiosa, não entendia nada de religião. Mas ao olhar bem para o rosto da estátua viu que era igual ao da mulher que com ela conversara no ônibus. A mulher voltou a lhe aparecer e pediu que ela comprasse um local para que fosse erguido ali um santuário para ela, a Mãe de Jesus. A garota perambulou muito, até que finalmente descobriu o local. Como lhe havia sido dito, um anjo a esperava. Ela o viu por alguns segundos, acha que por cinco ou quatro, mas guardou na lembrança a figura de um homem segurando um escudo e com a mão erguida para o alto. Um forte odor de rosas, tal e qual ao que sentira quando a mulher entrou no ônibus em que estava, impregnou o ar. Compreendeu que ali era o local escolhido. Um santuário foi erigido à Mãe de Jesus, em Pereira, cidade da Bolívia.

Este santuário, dedicado ao Divino Pai Eterno, está em um local onde se diz um milagre salvou o dono daquelas terras do ataque de uma onça pintada. Fica em Goiás.

Este santuário, dedicado ao Divino Pai Eterno, está em um local onde se diz um milagre salvou o dono daquelas terras do ataque de uma onça pintada. Fica em Trindade, Goiás.

Tudo o que diz respeito à assim chamada “Sagrada Família” mexe comigo. E eu fiquei com uma estranha sensação de alegria, profundo respeito e embevecimento enquanto a TV mostrava o lugar. Pensava comigo em como jamais pude ir a qualquer lugar onde se diz Maria apareceu. E me lembrei que também jamais tive vontade de ir a qualquer deles. “Vosmicê é filho de Iemanjá, Nossa Senhora da Glória, e sua coroa é de Oxalá”. Esta frase me veio à recordação. Ela fôra dita há mais de 47 anos, em um pequeno terreiro de Umbanda, no Rio de Janeiro. Eu não fazia idéia de quem fosse a tal Iemanjá e levei algum tempo até conseguir desvendar o sincretismo religioso feito pelos padres do passado, visando, com isto, descaracterizar os Orixás do Candomblé dos negros africanos. E por toda a vida, sempre que adentrei um terreiro, fosse de Umbanda, fosse de Candomblé, ouvia sempre esta sentença: “Você é filho de Iemanjá e sua coroa é de Oxalá”.

A imagem de Nossa Senhora de Fátima, cujo andor eu ajudei a levar até à Igreja Matriz de Teresina, quando eu contava 12 para 13 anos.

A imagem de Nossa Senhora de Fátima, cujo andor eu ajudei a levar até à Igreja Matriz de Teresina, quando eu contava 12 para 13 anos.

O noticiário acabou e eu permaneci com aquele sentimento de enlevo e leveza que não posso traduzir em palavras. Estou convalescente. Minha recuperação é lenta e ainda não pude retornar à musculação, o que me causa aborrecimento. Meu corpo anda dolorido e meus ombros, os deltóides para ser mais exato, andam doendo muito mercê de disfunção no tal canal ulnar. Meus músculos das costas também andam reclamando a falta de exercícios fortes e inventaram de também doer.

“Nunca fui a qualquer desses lugares onde se diz que Maria Santíssima apareceu. Ela que é O Manu da Cadeia Setenária Terrestre e minha “mãe de cabeça”. Nunca tive vontade de visitar um desses lugares, talvez porque a maior parte de minha vida passei agnóstico ou duvidando totalmente de tais acontecimentos. Mas me intriga que Ela jamais me tenha chamado até um destes locais que, dizem, tocam os que ali vão de tal modo que, mesmo os mais agnósticos, mudam de posição. Por que Ela não me chamou jamais?”

Estava assim, mergulhado em pensamentos de curiosidade quanto à minha falta de interesse por tais lugares “santificados”, quando a campainha tocou. Olhei pela TV e vi Orozimbo, Felício, Vera e Késia acompanhados por um homem forte, alto, que usava roupa de gari e tinha sobre a cabeça o boné com a aba de trás bem longa para cobrir o pescoço e resguardá-lo do sol ardente. Não reconheci o homem, não dava para lhe ver o rosto, mas se estava na companhia de meus amigos não devia ser perigoso. Tenho andado sempre com o revólver ao alcance da mão, pois ultimamente meu bairro anda perigoso. Os assaltos às residências se dão à luz do dia, a qualquer hora, e os bandidos são violentos, deixando, quase sempre, as vítimas gravemente feridas. Então, por isto, decidi que “se entrar, entra andando, mas sair só carregado“. Apertei o botão que abre a porta no portão da garagem e eles entraram. Encaminharam-se para a varanda, subiram as escadas e se sentaram à mesa que temos ali. Fui ter com eles e Felício sorridente estendeu a mão para o gari.

— O senhor o reconhece?

Olhei atentamente para o estranho gari. Ele ria e seu riso era de alegria. Uma alegria contagiante que fluía por entre dentes alvos e perfeitos. Era amorenado, quase um metro e oitenta ou mais um pouquinho e forte, musculoso.

A foto era a mesma que nosso misterioso amigo nos mostrara dizendo ser o gari do meio dos três.

Jesus de Deus vez por outra andava metido em empregos humildes.

— Jesus de Deus! — Exclamei, com alegria, reconhecendo meu visitante. Fazia muito tempo que ele não aparecia.

— Mas o que faz vestido de gari? — Perguntei curioso.

— Estou trabalhando na empresa contratada para fazer a limpeza pública. Um contrato temporário, mas que veio bem a tempo. Tenho andado meio apertado de grana.

— Nós o encontramos atolado até os joelhos em um monte de lixo fedorento. Cantava alegremente, parecendo não sentir o fedor danado daquela porcaria.

— Ora, é meu trabalho. Preciso fazê-lo do melhor modo possível. Não para os outros, mas para mim. Se entrasse ali reclamando de tudo, então, meu dia seria estragado por mim mesmo, não pelo lixo. Ele não tem culpa de ser fedorento, não é?

Ri e o puxei pela mão para que se levantasse. Então dei-lhe um abraço bem apertado. Eu gostava imensamente do rapaz. Seu perene estado de bom-humor era contagiante. Mas meus amigos estavam certos: sua roupa fedia muito.

— E então? Para vir aqui você precisou de toda esta escolta? — Brinquei.

— Não. Eu até fiquei surpreso quando os ouvi me chamando. Eles é que me retiraram de meu local de trabalho para virmos juntos até aqui. 

— E isto não o vai prejudicar? — Perguntei, apreensivo.

— Não. Eu acabei primeiro o que estava fazendo. Só, então, pude vir. E gostei de rever o senhor. Estava com saudade, sabia?

— Eu também, de você. 

Sentamo-nos e ele foi o primeiro a dar a partida.

— Por que ficou tão impressionado com o que viu na TV?

Sua pergunta pareceu natural, exceto por um detalhe: como é que sabia que o que eu vira me havia emocionado? No entanto, os outros nem pareceram ter notado este “detalhe”.

— Sempre que ouço ou leio algo a respeito d’Ele ou de Sua Mãe, fico tocado…

— Por que? O senhor, que eu saiba, não é religioso.

Olhei para os outros e vi que todos estavam atentos ao nosso diálogo.

— Não é verdade. Sou religioso, mas à minha moda. Religiões antolhadoras não fazem meu forte, que me desculpe o Felício aqui presente.

Felício apenas deu de ombros sorrindo descontraído.

— Não acredita que Maria tenha realmente aparecido onde se afirma que apareceu?

“Ele disse Maria e, não, a Virgem Maria” pensei com meus botões, mas nada comentei a respeito.

— Para falar a verdade, jamais me questionei sobre a veracidade ou não, destas histórias. 

— Mas o senhor pode-nos dizer se acredita ou não? — Insistiu o estranho Gari.

— Eu… Sabe, com toda sinceridade, não. Eu não creio verdadeiramente nisso. Mas alimento, lá no fundo de meu espírito, uma esperança de que alguma coisa seja verdadeira.

— E o que o leva a ser desconfiado bem mais que esperançoso?

Pensei um pouco e olhei para Felício. Ele estava, como os outros, todo atento à nossa conversa.

— A Igreja Católica — respondi, com firmeza. — Ela suja tudo em que põe as mãos. Jamais fui a Fátima e não sei como é, agora, a gruta onde se diz que a Mãe de Jesus Cristo teria aparecida às pastoras. Mas pelas fotos atuais, acho que ela foi totalmente desvirtuada, como fizeram com o local onde se acredita que Jesus tenha sido “enterrado” depois que foi retirado da cruz. O local é tão faustoso que dificilmente o próprio Jesus reconhecê-lo-ia se retornasse ao lugar.

Esperei que Felício dissesse alguma coisa, pois sabia que ele estivera em Fátima por duas vezes, mas ele se manteve calado e sem dar qualquer sinal de recusa ou aceitação do que eu dizia.

— Não é o lugar em que a Senhora apareceu que é santo — disse Jesus de Deus, sério.  Nenhum lugar é mais santo diante do Criador que outro qualquer. O solo de Fátima é tão sagrado quanto aquele em que se deram batalhas sangrentas por causas estúpidas ou aquele em que se cremaram vivos milhares de seres humanos. O que é sagrado é o coração da pessoa. Este, sim, é que tem ou não merecimento diante de Maria ou de Jesus Cristo.

Fátima tem várias grutas, todas conservadas e embelezadas pela Igreja. Algumas são destinadas aos peregrinos para que joguem moedas em suas águas e façam pedidos. São as "Gruas da Moeda".

Fátima tem várias grutas, todas conservadas e embelezadas pela Igreja. Algumas são destinadas aos peregrinos para que joguem moedas em suas águas e façam pedidos. São as “Grutas da Moeda”.

Felício, então, falou.

— Discordo de você — disse. — Um lugar onde um santo aparece é magnetizado por sua luz, por sua irradiação divina. Não que ele assim o queira, mas porque é o natural. Diante do Criador toda a Terra é sagrada, concordo com você, se se refere a isto. Mas os locais escolhidos pelos santos para conceder a graça de aparecer entre nós se torna, sim, sagrado. E se a Igreja toma conta do lugar e procura melhorá-lo de modo a receber com mais conforto os peregrinos não vejo que seja algo censurável. Ela preserva o local santo. A gruta onde depositaram o corpo de nosso senhor Jesus Cristo está conservada. Tudo foi embelezado ao seu redor em honra do Cristo, mas no solo em que seu corpo repousou nada foi tocado. Estive lá e vi. Também estive em Fátima e vi que a gruta continua a jorrar água tal e qual era na época da aparição. Aliás, há várias grutas naquele lugar. São chamadas de Grutas da Moeda” porque há o hábito dos peregrinos de jogar moedas em suas águas e fazer pedidos. Tudo ao redor foi melhorado para acomodar os peregrinos e isto é necessário, caso contrário, levados pela ânsia de também obterem um favor divino, um milagre, eles terminariam por arruinar tudo, depredar tudo.

— Isto não é fé, padre — disse Jesus de Deus, rindo divertido. — Isto é desespero. É medo da vida. Medo aos seus desafios. Coisa que não devia haver entre as pessoas. E jogar moedas para comprar um favor de Maria me parece um insulto a Ela e a seu divino Filho. Sabe, eu não entendo como é que se pode temer a vida, se se tem de vivê-la tão certo quanto certo é morrer? O melhor que se deve fazer é viver. Somente isto. O como é assunto do Pai Celestial. Ele sabe o que é melhor para cada um de nós. Ou será que estou errado?

Houve um pequeno, mas significativo silêncio entre todos nós.

— Jesus temeu a morte — arriscou Felício, olhando-me de soslaio.

— Não. Engano seu. Ele, enquanto corpo, temeu o sofrimento que sabia que sofreria injustamente. Ele, enquanto corpo, temeu não ser capaz de não pedir socorro e ser retirado ileso das mãos dos homens. Temeu, enquanto corpo, não ser capaz de se deixar imolar para que a Missão de Seu Espírito ficasse para sempre fixada na memória humana. Jesus, enquanto Espírito, não temia a morte porque sabia que Ele mesmo jamais morreria. Quem ia morrer era seu corpo. Lembram-se do que disse Deus a Adão, a este respeito? “Lembra-te que és pó e ao pó voltarás”. O Criador não falava ao espírito da raça adâmica, mas sim aos seus corpos ou, como bem os chama o doutor aqui, aos Elementais Físicos. Quem, no Monte das Oliveiras, se aterrou, não foi o Sagrado Espírito de Jesus, que, naquele momento, estava em pleno estado gozoso  em comunhão com seu dileto Pai Celestial. Ele, o Verdadeiro Cristo, já se retirara do Corpo Carnal e o deixara entregue ao final trágico porque assim é que deveria ser. Houve um momento de dicotomia entre o Senhor e seu Corpo Mortal. Este, implorou a Ele, ao Espirito, que não o abandonasse e, nos derradeiros momentos, chorou e clamou por Seu Socorro. Sabia que ao último suspiro deixaria de existir para sempre. Voltaria ao pó como todo elemental físico deve fazer. E ao retornar ao pó o corpo físico nunca mais, para todo o sempre, voltará a viver como foi. Só o Espirito sobrevive à passagem, pois esta, para ele, não existe. 

Bateram forte no portão. Fui ver quem era. Eram três garis que vinham buscar Jesus de Deus para terminarem o dia de serviço. Ele se despediu de nós, sorridente, agradeceu a hospitalidade e se foi antes que Felício ou qualquer um de nós lhe fizéssemos alguma pergunta. 

Fiquei cismando com aquela visita…