A canoa furada dos Zé Nings brasileiros.

A canoa furada dos Zé Nings brasileiros.

Eu tinha colocado no ar meu artigo contra as “bolsas-esmola” fazia só duas horas e eis que me tocam a campainha. Olhei pela TV e vi Jesus de Deus, com sua farda de gari, tamborilando na parede esperando que fosse atendido. Franqueei-lhe a entrada e fui ao seu encontro, satisfeito. É sempre um prazer recebê-lo em minha casa.

— Bom-dia! — Exclamei contente. — Que bons ventos o trazem? Cadê a tropa?

— Não sei deles — respondeu-me com um caloroso abraço. Desta vez, sua roupa estava limpa. Não sei por quanto tempo, visto que ele só pega o trabalho mais sujo, no grupo em que está integrado.

"É isso que me preocupa. De grão em grão a galinha enche o papo. O velhote vai formando opinião que é contra nossos interesses partidários...

“É isso que me preocupa. De grão em grão a galinha enche o papo. O velhote vai formando opinião que é contra nossos interesses partidários”…

— E o que o traz aqui, bom amigo? — Tornei a perguntar.

— É que eu vi, no telefone de um colega, seu último artigo. Ele foi motivo de grandes risadas, mas também de forte discussão. Todos concordam com o senhor, ao menos em tese. Eu também me diverti à grande e resolvi vir-lhe dar os parabéns. Seu modo satírico feroz de dizer as coisas ora diverte, ora assusta. Mas sempre chama a atenção. 

Viemos para dentro e eu lhe mostrei a estatística do site, a seu pedido. Ele estudou-a por um tempo e, então, voltou-se para mim com olhar de espanto.

— Notou que seus leitores desaparecem quando o senhor fala de coisas sérias, que afetam diretamente suas vidas? Nos meses em que o senhor alivia a mão sobre os Políticos, os leitores crescem. Aqui há dias em que a audiência chegou a 643 em um só dia. Mas da semana passada para cá, caiu drasticamente. Ontem foi só de 73 e no início da semana não ultrapassou a marca de 52 visitantes. Isto não o abala?

— De modo algum.

— E por que não?

— Já o disse: não escrevo para agradar tal ou qual facção. Digo o que sinto e penso, doa a quem doer, aborreça a quem aborrecer. Não busco agradar a quem quer que seja. 

"Demônio eu expulso é no grito e no gatilho! Comigo é vai-ou-racha!"

“Demônio eu expulso é no grito e no gatilho! Comigo é vai-ou-racha!”

— O senhor vive em um mundo de evangélicos. Eu creio que mais da metade dos que lhe visitam o blog sejam de gente desta seita. Não lhe preocupa perder esta audiência?

— E seu xará, de Belém, se preocupou por não ter audiência entre os manipuladores do Templo?

Jesus de Deus caiu na gargalhada.

— O senhor me pegou direitinho! É verdade. Aquele lá também não tinha papa na língua. Mas se deu mal, não foi?

Estudos gráficos computadorizados concluem que a face de Jesus era assim...

Ele está vivo e bem vivo na memória de todos…

— Não. Acho que Ele se deu tão bem que nunca mais foi esquecido. Já os “grandes” polititicas nacionais de todos os tempos tiveram glória efêmera e a maioria não passa de retratos em livros de História onde o que se diz sobre eles são mentiras bem trabalhadas. Nem a vida que levaram é contada de conformidade com a verdade do que viveram. Que lástima, não é?

Jesus de Deus permaneceu silencioso e me olhando, mas parecendo não me enxergar. Enfim, com um aceno de cabeça, acedeu. Saímos para a sala e nos sentamos para conversar.

— Sabe, eu me lembrei do que disse meu xará, no tempo em que viveu por aqui. Segundo se diz, ele teria sentenciado: “Quando, pois, derdes esmola, não toqueis trombeta diante de vós, como fazem os hipócritas, nas sinagogas e nas ruas, para serem glorificados pelos homens. Em verdade vos digo que eles já receberam o seu galardão. Tenho observado que, atualmente, o que mais há entre os homens de poder são justamente os já galonados por seus feitos. Isto sempre me impressionou. Onde anda a humildade de que tanto falam?

Fiquei considerando Jesus de Deus. Ele sabia de cór a vida do Cristo encarnado. E não me consta que freqüente qualquer religião.

"Quem não é visto e, principalmente, quem não agita. Esta é que é a verdade!"

“Quem não é visto e, principalmente, quem não agita. Esta é que é a verdade!”

— É assertiva tida como correta entre os políticos: “quem não é visto, não é notado”. Por isto é que apregoam que todos os que quiserem ser engrandecidos na Política têm de ser vistos. Nem que seja entre o populacho abanando uma bandeirinha do partido do “grandão”.

— Mas tocar trombetas ao dar esmolas, como na concessão das tais “bolsas-esmola” que o senhor ataca sem dó nem piedade, é o que mais se vê e o que menos engrandece o homem diante de Deus. O pior é que os que assim fazem na maioria se dizem cristãos. Eu me sinto triste com o que observo. E mais ainda quando vejo que esta Nação, que já foi a mais abençoada pelo Pai Santo, é onde mais viceja este tipo de vergonha.

Eu sou cego, mas estou nadando na "bufunfa" e no Poder. E vocês? Não passam de Zé Nings...

Eu sou cego, mas estou nadando na “bufunfa” e no Poder. E vocês? Não passam de Zé Nings…

— O Filho do Pai Santo, como você chama ao Inominado, também disse: “Deixai que os cegos guiem os cegos”. Neste momento o meu país está totalmente nas mãos de cegos, meu amigo. Eles só vêem até o umbigo e nada mais. É uma lástima, não é?

— Para todos, senhor, para todos. Ricos e pobres hão de chorar o que fazem agora, no Brasil. Tal e qual chora Jerusalém pelo que fez há três mil anos ditos cristãos…

Eu lhe vi os olhos se embaciarem e ele tentando disfarçar a tristeza que quase o fazia chorar.

— Você se entristece por este povo? — Espicacei-o.

— Sim. Afinal, todos são, também, filhos de Deus, não é mesmo?

— Mas não lhe basta que você aja fora do padrão mesquinho que nos amaldiçoa? Você trabalha. Você está sempre tentando aprender. Você está sempre enfrentando a vida com alegria, boa disposição e determinação. Você é um exemplo edificante para os seus companheiros. Não lhe basta que faça sua parte?

— Não. Eu, como o senhor também, tento despertar os que não têm olhos de ver nem ouvidos de ouvir”.

— Um esforço árduo, não é mesmo?

— Mas válido. Quando estou desanimando, eis que encontro pessoas como o senhor que me reacendem a chama da Esperança. E aí eu volto à vida com toda minha alegria e toda minha energia. Sempre tentando mostrar, com meu exemplo, que a Vida é bela, estejamos onde quer que estejamos. Sabe que eu já estive numa trincheira?

Olhei-o espantado. Não conseguia imaginá-lo com um fuzil nas mãos nem, muito menos, atirando nos outros.

Jesus de Deus vestiu esta farda e foi um deles.

Jesus de Deus vestiu esta farda e foi um deles.

— Bom, eu não estava lá para matar. Eu fazia parte da Cruz Vermelha e estava ali para tentar socorrer os desesperados que só se davam conta da estupidez da guerra quando eram atingidos e feridos gravemente. Mas estar no front com ou sem uma cruz vermelha não faz diferença. Não diminui a ferocidade dos homens. É a dor que os faz repensar seus atos grotescos. Acho que aqui, no Brasil, será a dor que fará que os brasileiros despertem do sono letárgico em que foram mergulhados pela política esmoler(*) que se adotou. O que o senhor acha?

— Penso como você. Mas ainda que sabendo disto, tento fazer que nas poucas consciências que me lêem fique uma pequena chama que deverá se transformar numa lâmpada incandescente, quando os tempos de vagas magras chegarem. 

Há, em nós, uma figura lendária: a do Quasímodo de Victor Hugo. Feio por fora, mas bonito por dentro.

Há, em nós, uma figura lendária: a do Quasímodo de Victor Hugo. Feio por fora, mas bonito por dentro.

— É por isto que eu acredito que o senhor devia mudar seu estilo de escrita. Escreva para os outros. Escreva buscando atingir uma população que se agrade do que diz. Escreva, enfim, para ganhar prosélitos. O senhor tem esta capacidade. Não insulte o povo chamando-o de Zé Ning. Ninguém gosta que se lhe ponha diante dos olhos um espelho que mostre o Quasímodo que realmente é. Todos querem sempre parecer bonitos, por mais feios que sejam. Claro que falo por metáfora, mas é exatamente pela metáfora que se pode dizer duras verdades.

Sorri. Compreendi o motivo real de sua visita, mas intimamente não estava nem um pouco disposto a mudar meu modo de ser. Estou muito velho para isto. Ele teria de buscar outros mais jovens para tentar o que tentava comigo.

— Vou pensar no que me diz, mas não lhe prometo nada, entende?

Ele permaneceu me olhando sério por um longo tempo. Então, com um suspiro, disse abraçando-me com carinho:

— Está bem. Eu o compreendo. Pena que não tenho sua capacidade de expressão. Nem conto com um computador! Mas cada qual dá o que pode, não é mesmo? O senhor, ainda que ferindo muitos, desperta a atenção de outros tantos. Já é algo de importância. Agora, tenho de retomar minha faina. Meus parabéns pelo seu artigo.

Ele desceu em direção à porta e sumiu. Fiquei com uma ponta de tristeza e de decepção porque sentia que não mudaria uma vírgula no meu modo de escrever. Apesar de seu pedido…

(*) ESMOLER = o que dá esmolas.