Eu sou uma infeliz. Sou uma desgraça para mim mesma"

Eu sou uma infeliz. Sou uma desgraça para mim mesma”

“Eu sou uma infeliz” — foi assim que uma cliente minha, em 1981, começou sua sessão. Levantei a mão e lhe pedi que parasse. Então, pedi que ouvisse o que me tinha dito e repeti destacando cada palavra: “Eu sou uma infeliz”. Ela ficou um tempo me olhando com olhos marejados e expressão de desentendimento na face.— Por que o senhor repetiu o que eu disse? — Finalmente ela me perguntou com voz sumida e hesitante.

— Porque com orações como essa, você aplica uma rasteira naquele Ser que é realmente seu verdadeiro SER.

— Eu… Pode repetir? — Ela estava confusa.

—Quando digo “EU” invoco o Ser Imortal e Sublime Filho de Deus que me habita. O Ser que veio todo poderoso, mas que só pode agir quando minha “Personalidade” seja tão grande que lhe possa reconhecer esta divindade.

— O senhor está dizendo que eu… Eu sou… Eu sou Divina?

Mesmo lavando os pés de seus discípulos Ele não perdeu sua Majestade.

Mesmo lavando os pés de seus discípulos Ele não perdeu sua Majestade.

— Pense: Jesus certa vez disse: “EU SOU o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao pai senão por MIM”. A senhora percebe a responsabilidade que a Personalidade Humana de Jesus atribuía ao Seu Ser Divino? Este Ser, mesmo n’Ele, não falava porque não podia ser carnal visto que a carne é finita e Ele é infinito. E o que é Infinito não pode caber no que é finito.

Fiz uma pausa e minha cliente permaneceu a me olhar com certo assombro.

— O senhor vai-me dar aula de religião? — Perguntou ela, com voz titubeante, mas demonstrando certa raiva pelo que pensava de meu direcionamento de nossa entrevista.

— Eu não sou religioso, portanto, nunca espere isto de mim.

— Mas o senhor está falando de Jesus e isto aqui é um consultório de Psicoterapia. Ao menos eu penso que é.

Desta vez sua voz soou claramente zangada. Eu sorri.

— Mesmo que nós dois não sejamos religiosos, posso garantir-lhe que jamais houve um psicoterapeuta mais profundo e mais sábio que o Homem de Nazaré. Portanto, se deseja que façamos uma boa sessão, não fuja ao Seu nome e às Suas palavras. Vamos continuar?

Ela deu de ombros, contrariada. Eu lhe ignorei o aborrecimento e continuei seguindo o que havia definido que seria aquela sessão.

— O primeiro SER; a primeira ENTIDADE em cada pessoa é seu EU. Quando nos referimos a este ser, o EU, não devemos detratá-lo nem culpá-lo pelo que nossa “Personalidade” é ou sente. No seu caso, não é seu “EU” que é infeliz. É sua “Personalidade”, esta coisa formada com um milhão de remendos pela sociedade humana e que nos é dada como nosso ser verdadeiro. Mas, curiosamente, a “Personalidade” fica oculta. Ninguém diz “minha Personalidade é uma infeliz”, o que seria o correto, mas todos têm a tendência a dizer, como a senhora o fez, “EU sou uma pessoa infeliz”. Por que seu EU é visto pela senhora como um ser infeliz? A senhora nem o conhece, não é? E note que acrescentei a palavra pessoa na sua oração, pois é necessário ressaltar quem se sente infeliz: a pessoa, não o Eu.

Ela estava com a boca entreaberta e não se dava conta disto, sinal de sua grande confusão. Esperava qualquer coisa de mim, qualquer tipo de abordagem padrão, típica do que se pensa que seja a psicoterapia, mas jamais esperou dar de cara com um “doido” que a levava por caminhos nunca dantes palmilhados.

— Espere… Espere um pouco — Pediu, depois de um tempo de reflexão. — O senhor está-me dizendo que… eu… a pessoa que sou… Pessoa! Sim, sou uma Pessoa!

Seus olhos brilharam.

— É esta pessoa que é infeliz… não Eu… Mas… Mas isto é tão simples e tão bom! De repente tive vontade de rir… não sei se estou-me fazendo entender…

— O que interessa é que a senhora se entenda, não que eu a entenda. Eu me entendo e estou de bem comigo. O que quero é que a senhora se entenda e fique de bem consigo mesma. Só então é que poderemos começar a trabalhar na pessoa que se sente infeliz, pois nenhum terapeuta pode trabalhar o EU de ninguém. O EU é único e inalcançável. O Homem de Nazaré dizia ” EU SOU a luz do mundo”; “EU SOU a Verdade”; “EU SOU o filho do Pai”;  mas não se encontrará nada que Ele tenha dito que seu EU era um infeliz…

Um pequeno silêncio se fez entre nós dois. Então, ela escondeu a face entre as mãos e começou a rir. A princípio, baixinho. Depois à toda, com o corpo se sacudindo no riso franco, aberto e livre. Eu, por empatia, também ri com vontade. Quando finalmente o riso se lhe amainou, ela,enxugando os olhos lacrimejantes, me olhou com olhos brilhantes de contentamento e me disse:

— No início, juro, pensei que ia ter uma briga danada com o senhor. Pensei que ia levá-lo à Justiça, porque o senhor estava me cobrando para me sacanear, juro que pensei isto. Aliás, pensei tanta coisa ruim, que acho que não consigo colocar tudo em palavras. Depois… quando a luz se fez, me entende? Quando a luz se fez e eu percebi de repente que sou duas entidades distintas e que a primeira nunca erra e nunca está triste ou infeliz, algo aconteceu com aquela raiva. Ela sumiu de repente e eu me senti leve… Não sei se me entende… Nem sei se o que digo faz sentido…

— Entendo, sim. Faz sentido sim. Se não fizesse, não teria começado nossa seção como comecei. Afinal, este é nosso segundo encontro, não é? E como não gosto de me deparar com pessoas desarvoradas e perdidas em tempestade de copo d’água, tratei de esclarecer que quem está diante de mim é a parte que sofre e que é criação social. Não é humana. É uma coisa que devia servir de instrumento de manifestação ao EU imortal que há na senhora. Este EU espera pacientemente para se manifestar. Ele é tranqüilo, é de paz, não empunha a espada. Nunca deseja a briga. A pessoa, ao contrário, sendo criação de uma Sociedade Violenta e Falsa é à semelhança de que a fez. E como na Sociedade quem comanda é tudo aquilo que o EU não aceita, quem está diante de mim é seguramente uma pessoa, não um EU. Então, quando conversando nós nos referirmos a um “eu”, este “eu” pequenino quer dizer “minha pessoa”, não meu EU. Fiz-me entender?

— Perfeitamente, doutor. E acredite, este enfoque me facilita enormemente falar de coisas “íntimas” que me envergonham… à pessoa que sou, não ao meu EU…

— Não se preocupe, eu a entendo. Vamos em frente?

Aquela sessão e as seguintes foram leves e minha cliente falava de suas mais íntimas dores e mais íntimos segredos sem qualquer censura e francamente. Sempre chegava à sessão já com seu dilema devidamente analisado e resolvido. 

Eu sempre comecei minhas sessões psicoterapêuticas fora dos padrões comuns e meus clientes sempre ficavam à vontade para se colocar abertamente, sem censuras e sem restrições. E ríamos de acontecimentos que, com outro psicólogo talvez fosse motivo de dor, vergonha e resistência de ser abordado.