Há momentos que a nostalgia que se abate sobre nós é como a tristeza alegre de um belo entardecer...

Há momentos em que a nostalgia que se abate sobre nós é como a tristeza melancólica de um belo entardecer, quando só o Criador assiste ao silencioso espetáculo…

Eu estou sozinho nesta tarde de sexta-feira. Minha filha e sua mãe estão no Rio. Uma de minhas cunhadas está gravemente doente com esclerose lateral amiotrófica, uma doença da qual não se escapa. A morte é sofrida. Eu recordava dos tempos alegres em que todos nós nos confraternizávamos em sua casa, onde um lar feliz atravessava as vicissitudes da vida com calma e segurança. Uma mulher fantástica, humaníssima, boníssima e muito, muito querida por mim. Seu marido, um amigo inigualável, está, agora, amargurado, alquebrado, preso a uma cadeira de rodas porque as articulações de seus joelhos se desgastaram. Não pode mais andar. Logo ele, que sempre foi ativo e sempre esteve fazendo alguma coisa em casa. Engenheiro, ele sempre adorou fazer trabalhos domésticos relativos a eletricidade ou conserto de algum aparelho elétrico.

A dor da partida é como o morrer do dia e o nascer da noite. A gente pode presenciar, mas não pode sustar...

A dor da partida é como o morrer de um dia gratamente agradável e o nascer da noite. A gente pode presenciar, mas não pode sustar…

Brincalhão, extremamente prestativo, calmo e amigo de seus amigos para o que desse e viesse, agora sofre a agonia de se ver obrigado a se separar de sua companheira de toda a vida. Como se pode minorar a dor de alguém com esta cruz? Não religioso, não teosofista e nunca interessado “nessas coisas”, agora a solidão interior lhe pesa e amarga doridamente. A primeira coisa que pediu à minha mulher foi que me dissesse para lhe ligar, pois gosta muito de mim e há mais de dez anos eu deixei de falar com ele. Isto me doeu muito. Pesou muito em minha consciência. Sim, não chega a dez anos, algo em torno de cinco ou seis anos, mas realmente eu me afastei deles por interpretar errado algo que só existiu em meu mau juízo. Liguei. Conversamos por 59 minutos exatos. Neste tempo, entendi rapidamente sua mensagem. Ao menosprezar o trabalho da psicóloga que lhe tentou ajudar, pedia-me entrelinhas, que eu o fizesse. Sem declarar abertamente, deixou claro que confiava no profissional que sou. Com o pranto preso no peito, evitando deixar transparecer que suas palavras me doíam muito, fiz o que me pediu. Foi uma hora de psicoterapia. Na metade, vi que ele abdicava da resistência e aceitava minhas orientações. Chorou um pouco, abriu seu coração comigo francamente, falando de sua saudade, de sua dor, de sua depressão, de sua imensa tristeza, de sua sofrida impotência e de sua fraqueza. E disse de quanto sentia minha falta em sua casa e de quão grande era sua saudade de meus dois filhos, que ajudou a criar, e isto me fez sofrer mais ainda. Se fosse possível, eu trocava de lugar com ele. Ficaria na sua cadeira de rodas com todo o prazer; assumiria sua dor física e emocional e a suportaria por maior que fosse, só para que ele pudesse novamente encher sua casa com aquele vozeirão alegre e brincalhão; só para vê-lo correr para o lado de sua “nega”, apelido carinhoso com que chamou por toda a vida sua companheira que, agora, está sendo preparada para deixar este mundo de provações.

Minha cunhada e minha sogra. Aqui, ela já estava próximo da partida.

Minha cunhada e minha sogra. Aqui, ela já estava próximo da partida.

Ano passado foi minha sogra. Aos 89 anos morreu e deixou seu clã desorganizado. O golpe foi mais duro do que jamais pude imaginar. No fundo, eu gostava imensamente da velhinha, embora tenhamos terçado armas por um longo tempo. Mas ela foi uma mulher especial. Muito especial Seu sorriso jocoso não se apagará nunca mais de meu Espírito. Sua família era unida ao redor de si. Ela os mantinha firmes e era a Matriarca que segurava a união de seu grande clã. Mas se foi como todos um dia iremos. Só espero poder encontrá-la lá no alto, sempre com aquele seu sorriso jocoso. Antes de se ir ela me fez uma homenagem que muito me encabulou, mas que ficou fundamente gravada em meu ser. Na casa de uma de suas filhas, a cunhada de que mais gosto, um almoço me foi oferecido. A cabeceira da mesa me foi destinada e ela se sentou ao meu lado. Antes de darmos início à refeição, ela disse: “Brito, hoje eu dou o braço a torcer. Você me mostrou que é um homem digno. Me deu os dois mais belos netos que eu tenho e tratou muito bem minha filha. Você é um homem admirável. No início, confesso, eu não vi com bons olhos sua união com minha filha. Achava que você fosse abandoná-la com os filhos, como fez com sua outra mulher. Eu achava que você era um irresponsável. Mas não. Você ajudou a criá-los com muita beleza. São adultos que não envergonham onde quer que cheguem. Eu adoro o F… e a S… São lindos! Obrigada pelo presente e aceite minhas desculpas pelo mau juízo que fiz de você”. Naquele momento, pegado de surpresa, fiquei ressabiado e sem jeito. Ela, com quem sempre eu bati de frente, me pedia humildemente desculpas. Ela me mostrou que era imensamente maior que eu, pois se fosse o inverso, dificilmente eu teria aquela grandeza e aquele desprendimento de espírito. Ela se foi, e seu sorriso ficou comigo, como se sua imagem permanecesse se divertindo com minha pequenez… Perdão, minha sogra. De coração, perdão. E que você possa estar ao meu lado quando eu tiver de me ir. Gostarei imensamente que a primeira pessoa que eu venha a ver quando deixar esta casca material seja seu rosto e seu sorriso jocoso. Vou-lhe dar aquele abraço amoroso que jamais lhe dei aqui em baixo. Eu, agora, também me considero seu filho. Um bastardo arreliado, é bem verdade, mas seu filho.

Minha tristeza me fez elevar meus pensamentos para meu Pai Celestial e com Ele conversar em silêncio. Aprendi que um diálogo assim, íntimo com o Criador, nos conforta. E estava assim, mergulhado no silêncio ruidoso de mim mesmo, quando a campainha tocou. Abri o portão e dei de cara com meu velho amigo Orozimbo. Eu não estava para visitas e quase que o mando embora. Ele ficou parado me olhando, sério. Então, com um suspiro, se desculpou por ter chegado em tão má hora.

— Seu coração tá banzo, home. Tá doente de banzo. Vancê percisa ficá só e purgá essa tristeza. Vai curá, véio sabe qui vai. Mas véio tombém intendi que há dias em qui a gente percisa ficá sozim. Entonce, fique em paz. E seja lá o que seja qui tá machucando vancê, num se isqueça: ninguém é totarmente ruim nem tortamente bom. Vancê é ansim, num sabe? Cuma carqué otro, vancê tombém escurrega e cai. É naturá. A gente tamo aqui é pr’isso mermo, né? Entonce, chore, limpe os ói e adispois, tome um café bem amargo. Cum ele, engula a tristeza. E deixe novamente no seu rosto aquele olhar de águia, aquela expressão dura qui só engana a quem num cunhece vancê. Ah, sim. A véia tá rindo de vancê bem aí de seu lado. Ela tá dizendo que num s’importa cum seus pensamento triste, não. Manda dizê qui tombém ela errô, mas qui isto num é importante. Diz qui importante é o amô entre os fio de Deus. Ela diz que ama vancê de todo coração.

Aí, não resisti. Fechei a porta na cara de meu amigo e corri para dentro me desfazendo em lágrimas…