Eles estão na pauta do dia... e da noite também.

Eles estão na pauta do dia… e da noite também.

Felício chegou juntamente com Orozimbo e se abancou sem cerimônia. Já perdeu a vergonha. Pediu um suco de limão e ficou esperando que eu me sentasse ao lado deles.

— Gostei muito do que o senhor escreveu em seu último artigo — disse ele, referendo-se à ironia que expressei naquele artigo. — Nós estamos vivendo a época de Sodoma e Gomorra, novamente. Deus bem que podia mandar seus anjos destruir as Sodomas e as Gomorras da atualidade. Iria sobrar bem pouco de tudo isso aí, pode crer.

Restos do Anfiteatro de Gomorra.

Restos do Anfiteatro de Gomorra.

— Que negócio é esse de anjos enviados para punir os humanos? — Perguntei, olhando-o nos olhos.

— Ora, foi o que o Senhor fez, na época das duas cidades mais depravadas de então — respondeu-me ele, também me olhando nos olhos.

Tamborilei um tempo no tampo da mesa e olhei para o arremedo de mata sobre o cocuruto do morro que há ao lado de minha casa.

— Felício, desde quando o Inominado passou a ter qualquer resquício de ódio em seu coração? — Perguntei sem o olhar.

— Como? — Espantou-se o padre.

— O home tá preguntando cuma é qui vancê ixprica Olorum odiar a gente, se foi Ele que nos criô, ora — falou Orozimbo já todo interessado no debate que antevia acontecer entre mim e nosso amigo padre.

— Eu não disse que Deus fosse odioso — defendeu-se Felício.

As ruínas de Gomorra.

As ruínas de Sodoma.

— Não com essas palavas — repliquei. — Mas você deixou claro que Ele foi zangado e punitivo com os pobres coitados de Sodoma e Gomorra. Lembro-lhe que aquelas pessoas também eram Seus filhos. Não posso crer que você ainda tenha em Mente a idéia de um Deus vingativo e punitivo.

Meu amigo sorriu um sorriso amarelo.

— Você me pegou. Sem querer, deixei escapar que subliminarmente ainda reajo com a idéia de um Deus mau. Mas de sã consciência, não é isto que penso d’Ele.

— Inda bem — disse Orozimbo, suspirando decepcionado. — Vancê fala cum a boca, mas mente no coração.

— Não, não é assim. Eu só me expressei como o fiz por condicionamento. O Doutor entende o que digo, não é?

— Sim, entendo. Mas sempre que der um deslize destes perto de mim, vou chamar-lhe a atenção. Até que se condicione a reprimir o mau condicionamento que sofreu durante o tempo em que esteve escarvo da Igreja.

— Não gosto que fale assim. Não vejo a Igreja como uma entidade má. Sem ela, o que seria da humanidade?

— Seria do Candomblé e aposto qui ia tá bem mió — disse Orozimbo, acendendo seu cachimbo.

— Com aquela matança toda? Com a mania de sujar rios, lagos e cachoeiras com oferendas a seus deuses inúteis?

O olhar do nosso velho amigo foi assassino e Felício empalideceu. Interferi antes que a coisa degringolasse para o “lado negro da Força”.

— Calma, gente. Eu sei que Religião, Mulher, Futebol e Política não se deve discutir. E não estamos discutindo Religião. Apenas falando por falar, não é?

— Orozimbo num fala pur falá quando se trata do Candomblé. Véio arrespeita a religão dos otro, mas exige que se arrespeite a dele, ora essa…

— Peço desculpas, eu não quis ofender, juro — Desculpou-se Felício, engolindo em seco.

— Orozimbo compreende bem o que acontece com você, meu amigo. Apenas não gosta que se ataque sua religião. E se eu fosse religioso também reagiria como ele. É o comum em quem se filia a uma crença.

— Cuma é qui vancê pode vivê sussegado sem aquerditá em nada, heim, home?

Bom, a atenção de Orozimbo se voltou para mim e isto era bom. Sabia que ele guardaria a lembrança do que Felício dissera e na primeira oportunidade voltaria ao ataque, mas por enquanto a tempestade havia sido contornada.

— E quem lhe disse que eu não creio em nada? — Perguntei, dando um tapa amigável no forte ombro de meu velho amigo.

— Vancê, ora. Vancê ataca tudo qui é religião. Vai dezê qui num é ansim…

— Bom… Eu não sei… Talvez sim.

— Num é tarvez. É sim, sim sinhô — teimou ele.

— Vá lá. Eu não acredito em nenhuma delas…

— Exceto no espiritismo — completou Felício. — Já o ouvi defender esta crença algumas vezes.

— É que ela é a mais coerente com os ensinamentos do Rei dos Reis. 

— O Catolicismo também — defendeu automaticamente nosso padre.

Paulo VI esteve no Brasil, no Rio de Janeiro, em

Eles fingem que são santos. Os chefes de Estado fingem que acreditam nisto e os idiotas acreditam mesmo.

— Não. O Catolicismo não tem a mínima censura quando sente que deve alterar os fatos ou inventar mentiras a fim de reforçar seus dogmas caducos. Sinto muito, Felício, mas neste quesito Catolicismo e Evangelismo se igualam. Pecam em nome de Deus.

— Vancê num aceita a idéia de pecado. Pur qui é qui, agora, cita isso? — Questionou o velho Orozimbo, sempre atento a tudo o que eu dizia.

— Não aceito tal idéia quando é referida ao Criador. Mas eu a aceito no sentido de crime cometido contra Ele ou contra seu Enviado.

— Tá falando de Oxalá?

— Não. Falo do homem que se fez conhecer como Yoshua ou Yehoshua, que, traduzido para o Ocidente passou a ser Jesus.

— Ah… Vancê tá certo. Ele num foi Oxalá, nhor não.

— Vamos mudar de assunto? — Propôs Felício.

— E pru quê? — Perguntou Orozimbo dando aquela cusparada.

— Porque o que está na moda é a grita nacional e o Doutor tem mergulhado fundo no assunto. Por que? Que a gente saiba, o senhor detesta política.

— Porque é meu dever enquanto brasileiro. Só por isto.

"Eu sabia que vocês iam falar da gente!"

“Eu sabia que vocês iam falar da gente!”

— O que achou das viagens dos Ministros usando os aviões da FAB para ir assistir ao jogo final do Brasil?

— Crime. Crime punível com o máximo rigor. Mas é claro que todos, Justiça, Legislativo e Executivo vão se dar as mãos para safar os ministraços. Estão todos no mesmo barco e Vovozona não teria coragem de apertar pra valer. Mesmo sabendo que isto elevaria sua popularidade acima dos 80% entre os brasileiros.

— Ela não pode fazer nada…

— Pode. Ministro é seu subordinado, ainda que tendo sido eleito para Deputado. Uma vez que se tornou Ministro e subordinado do Presidente da República, forçosamente abdicou do mandato que lhe foi dado pelo povo. Então, como empregado subordinado diretamente à Presidência da República, pode ser punido duramente pelo crime que cometeu. Mas isto jamais vai acontecer aqui, no nosso Brasil Varonil.

"Aí, gente boa, eu só cometi um enganozinho. Vocês vão-me perdoar, não é?"

“Aí, gente boa, eu só cometi um enganozinho. Vocês vão-me perdoar, não é?”

— O senhor não leu? Houve um cidadão, cujo nome não foi revelado, que denunciou o Presidente da Câmara dos Deputados, Henrique Eduardo Alves, pelo uso do avião da FAB de modo indevido. Com isto, o Ministério Público pode agir. E parece que vai agir de verdade. Li no Jornal do Brasil on-line.

— E isso aí é bom? — Perguntou Orozimbo.

— É. Pelo menos o Órgão da Justiça que mais tem enfrentado os de Colarinho Branco vai poder agir. As amarras lhe foram retiradas dos pulsos — disse eu. — Mas bem que outro cidadão poderia denunciar Renan Calheiros pelo mesmo crime. Ele não só o fez como durante tempo arrotou grosso contra o Brasil.

— E pur qui é qui vancê num faiz a denúncia?

— Porque acho que isto tem de partir de gente jovem, para quem o futuro no país está negro. Eu já estou no ocaso. A briga não mais é minha. Sou expectador.

— Ou é um preguiçoso de marca?  — Provocou Orozimbo.

— Também sou isso aí. Mas acrescento que minha decepção é tão grande com os Poderes Constituídos que no meu íntimo estou convencido que se eu, idoso e aposentado, entrasse com tal denúncia, ela não seria levada à frente.

— E por que não?

— Porque sou aposentado e idoso e neste país já se tornou praxis: aposentado é parasita da nação e tem mais é que morrer. Quem vai levantar qualquer bandeira em sua defesa? 

— O Senador Paulo Paim levanta esta bandeira há muito tempo.

— E mesmo ele não é levado em consideração. Por que fariam isto comigo?

— Não acha que devia tentar?

— Por que, então, não faz a denúncia você, que é jovem, Felício? Ou por que minha filha, que está toda entusiasmada e é advogada, não procede a isto? Ou por que outro jovem não o faz?

— Eu não sei.

— eu tombém não.

— Nem eu. O Renan tem um santo muito forte, não é?

Todos rimos.

Entrei na internet e fui ler o Jornal do Brasil. Ali estava dizendo que “Na semana que vem, a Procuradoria da República no Distrito Federal deve abrir uma investigação semelhante contra o presidente do Senado Renan Calheiros (PMDB-AL). No dia 15 de junho, ele usou um avião da FAB para ir ao casamento da filha do líder do governo no Senado, Eduardo Braga (PMDB-AM) em Trancoso (BA). Ontem (5) Renan disse que também vai devolver o valor equivalente às passagens”. Mostrei o artigo aos meus amigos e eles suspiraram aliviados. 

— Afinal, alguma coisa vai ser feita — disse Felício.

— Vai terminar em pizza. Ele devolve o dinheiro, dá uma desculpa esfarrapada, o processo é arquivado e o peste vai continuar lá em cima deitando arrogância pra cima da gente — rebati, pessimista.

Os dois ficaram em silêncio. Então, levantando-se e me estendendo a mão em despedida, Felício comentou:

— É, o senhor realmente detesta político.

— Não. Eu odeio polititica.

— E todos não são polititica, para o senhor?

— Não. Há políticos verdadeiros lá em cima. Só que estão esmagados pelo poder malévolo dos polititicas, como esse Renan e o peste do Sarney. Mas a vez deste deve chegar logo. Uma vez ele teve de fugir pela porta dos fundos. Espero que desta vez façam que saia com sua mala pela porta da frente. Para nunca mais voltar.

— Ele já está perto da sepultura. Se sair, deve ir direto pro cemitério. Nem vai passar por sua casa — disse Felício, puxando Orozimbo pela manga da camisa.

Os dois se foram e eu fiquei lendo o JORNAL DO BRASIL.