Há caminho para todos e um deles é este.

Há caminho para todos e um deles é este.

Eu assisti a uma palestra espírita sem qualquer informação adicional para meu conhecimento. O palestrante falava sobre o Matrimônio e sobre a atual questão da homossexualidade. Hoje é domingo e no CEGAL há sempre um palestrante. Alguns deles são interessantes e eu gosto de ouvi-los, ainda que discorde do que dizem em grande parte. Mas sabem falar bem e arrazoam bem o tema que escolheram para o dia. Cheguei a casa e mergulhei na cozinha. Como sempre havia uma pilha de copos, panelas, talheres, louças etc… jogadas na cuba esperando por mim. Aproveitei e lavei o chão também. Depois, fui assistir televisão, desligando-me totalmente da casa e de quem nela estivesse.

Isto é muito bom, mas cansa. E no final, está-se também em isolamento.

Isto é muito bom, mas cansa. E no final, está-se também em isolamento.

E aí me aparece Felício. Veio sozinho. Recebi-o com alegria, afinal tinha com quem conversar sem tensão.  Ser aposentando tem suas desvantagens e uma delas é ter que se transformar em dono de casa. Mas tudo bem. Não se vive na Terra apenas de iate e caviar.

— Ocupado? — A pergunta foi feita depois de meu amigo beber a limonada que lhe ofereci.

— Já terminei meu dever de casa que nunca se acaba. Agora, espero a hora do almoço. Então, podemos conversar sobre o tema que me trouxe.

Felício me olhou de esguelha e disse que nem ao menos tinha dito nada, como é que eu sabia que ele me trazia um tema para debate?

Se pensar com cuidado, vai descobrir coisa interessantes.

Quanto mais idoso, mais a gente se recolhe a repensar a vida e descobrir suas maravilhas.

— Você não vem aqui papear à-toa, meu caro. E gosto muito disto. Não sou bom em puxar do fundo da gaveta temas que sirvam de amenidades num encontro. Cada vez mais fico fechado num mutismo gostoso, só quebrado por você, Vera, Orozimbo e seus amigos.

Felício abriu uma pasta de couro preto e dela retirou um livro de capa dura. Era um livro antigo, volumoso. Olhei-o curioso. As folhas estavam bem amareladas e quebradiças. Era um livro muito velho. Procurei o autor, mas não havia, pois era uma coletânea de vários artigos de vários autores. Espíritas, budistas, taoistas  xintoístas, teosofistas e outros. Folheei o livro e vi que os artigos eram, quase totalmente sobre a Lei do Retorno.

— É curioso — disse eu, devolvendo-lhe o livro. — Hoje mesmo estive no CEGAL e ouvi uma palestra fundamentada nesta crença. Lei do Sincronismo ou Lei da Ressonância Magnética Harmônica?

Nossa Via Láctea é uma construção dentro da Terceira Dimensão. Aqui, neste aglomerado de estrelas , planetas, cometas e meteoros, ao ser humano tudo é permitido.

De algum lugar nascem e pulsam as Leis do Sincronismo e de Ressonância Magnética Harmônica.

— Não conheço esta segunda Lei — disse ele.  Mas se se refere à aparente coincidência entre o que você fez e minha presença aqui, não creio que caiba a primeira Lei. 

— Cabe, sim. As mesmas forças cósmicas que me levaram ao CEGAL o trouxeram aqui porque tanto você quanto eu estávamos ligados no mesmo tema: resgate cármico. Eu, repudiando isto tudo; você, suponho, intrigado com isto tudo. Esta nossa condição emocional nos pôs sincrônicos em relação a este tema.

Ele refletiu um pouco e assentiu com a cabeça.

— É, visto assim, acho que você está certo. Mas seja como for, vim para conversarmos sobre este tema que, eu sei, o senhor defende.

— Defendia. Por mim, agora, pode jogar fora este livro e todos os demais que falem da Lei do Retorno. Ela não existe.

Felício ficou-me olhando com uma expressão de espanto na face.

— Poderia me explicar essa sua súbita mudança de lado? Antes, o senhor defendia e até tinha bons arrazoados para convencer as pessoas de que realmente existe a Lei do Retorno. Afirmava, até, que se tratava de uma Lei Cósmica, inviolável. Disse isto para mim, há quase um ano. E agora desdiz o que disse. Não dá para lhe compreender.

Cérebro, a usina de energias que desconhecemos totalmente.

Esta usina fantástica está em contínua mudança, tanto no físico-denso quanto no espiritual.

— Meu amigo, nem o aço é imutável, quanto mais a mente humana. Esta, está sempre em frenética aprendizagem e em processo de pensamento ultra-veloz. Tão veloz que muitas idéias, quando nos surgem na consciência, já são velhas em nossa Mente. É certo que por mais de vinte anos, talvez até por trinta anos, eu vim estudando e questionando todos os que falavam e falam sobre a tal Lei do Retorno. Ela não me convencia e sempre que procurava mais argumentos para me convencer, mais ela se me afigurava incoerente com a idéia que faço de Deus. E depois que li Benítez e refleti no que ele coloca na boca de Jesus, concluí que eu estava certo em minhas dúvidas.

— Que-me explicar? Parece que Benítez se tornou seu guru.

— Está bem. Mas vamos esclarecer uma coisa: não tenho gurus. Se cito Benítez é que ele foi o escritor que mais informação nos deu sobre a Vida de Jesus e os ambientes político, religioso, social e ecológico em que Ele viveu. Ele desmitificou sem dessacralizar a Vida de Jesus entre os homens e isto é um feito e tanto. Então, é natural que eu o cite. Mas se vier a encontrar alguém com melhor pesquisa e maior quantidade de informações sérias, mudo de autor como quem muda de roupa, entendido? E agora, vou começar pela palestra a que assisti, hoje. O palestrante falou sobre o casamento abordando dois temas; e falou sobre a tão discutida opção sexual, defendendo o “gayismo” e a adoção por eles de crianças para educar. Como você sabe, eu sou contra, mas depois que o ouvi fiquei refletindo muito. Minha filha achou que ele deu argumentos que devem-me convencer de que estou errado. Não. Seus argumentos me levaram a refletir num mistério profundo que, agora, se me afigura mais claro e, por isto mesmo, mais reforçador de minhas convicções contrárias aos aplausos aos homossexuais. 

Eu não aceito isto. Para mim é uma afronta à Moral Social e ao equilíbrio humano.

Eu não aceito isto. Para mim é uma afronta à Moral Social e ao equilíbrio humano.

— Então o senhor os considera doentes, como quer o pastor Marco Feliciano? — Espantou-se meu amigo.

— Eu não disse isso. Disse que acho que descobri algo que está oculto e fora do alcance de todos os que até agora se envolveram superficialmente com este dilema humano.

— Excelente. Quero ouvir tudo. Pode começar?

— Vamos lá. O primeiro tema do palestrante foi o casamento. Segundo a visão espírita do palestrante, uma família se forma sempre por espíritos que têm afinidades entre si. Ou afinidades positivas, amorosas (Dhármicas), ou afinidades negativas, rancorosas (Kármicas).

Veja bem: os casais se formam por afinidades espirituais e quero ressaltar esta afirmativa, que é básica na crença espírita tanto quanto na pregação budista.

"Caramba! Mas que carma pesado este meu, cara!"

“Caramba! Mas que carma pesado este meu, cara!”

Na compreensão do palestrante é certo que os casais não se encontram aleatoriamente. Eles se formam para resgatar carmas, culpas, dívidas pretéritas; ou para reforçar estimas anteriores, fortalecendo o Amor entre aqueles espíritos. E tudo isto segundo a Lei do Karma ou Lei do Retorno.

Quero ressaltar este ponto que é crucial: resgatar culpas, dívidas com terceiros ou com a sociedade; reforçar estimas amorosas de vidas pretéritas. Este é outro pilar que sustenta a Lei do Retorno ou Lei do Carma.

Bom, e quero ressaltar que esta observação é minha, não creio que seja a afinidade espiritual em si mesma que leva uma pessoa a procurar e se juntar a outra que esteja encarnada, conforme afirma a Lei do Carma, está entendendo?

Estudos gráficos computadorizados concluem que a face de Jesus era assim...

Ele não errava e não podia errar, já que era e é um Deus.

Acompanhe meu raciocínio. Um Espírito encarnado na condição de pessoa escreve uma história de vida e tudo o que fizer de “bom” nesta escrita ser-lhe-á creditado espiritualmente como Dharma, ensinam os budistas, os taoistas, os esoteristas, os ocultistas, os espíritas, os kardecistas, os druidas e os maçons, para citar apenas algumas das seitas que aceitam esta tese.

Tudo o que aquele espírito-pessoa fizer de “mau” ser-lhe-á creditado também espiritualmente como Karma.

Entretanto, quero que você registre isto: ninguém consegue prever com certeza nem mesmo o minuto seguinte de sua vida. Isto significa que nós estamos entre duas situações: a) uma vez que somos cegos quanto ao nosso futuro imediatíssimo, tem de haver alguém ou alguma coisa que nos dirija no viver os dilemas surpresas que a Vida nos coloca a cada segundo. E se isto é verdade, nós não somos donos de nossas escolhas, o que faz que a assertiva de Jesus, nem uma folha cai do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai, esteja absolutamente correta. 

Pastores gays teriam condição de agir com a lisura do Amor Fraternal igual ao de Jesus, capaz de levar anjos a realizar milagres?

Isto acontece segundo Sua Vontade? Não posso aceitar tal hipótese.

Entretanto, se vivemos a cada segundo conforme Sua Vontade, o que adianta que estejamos vivendo aqui, nesta terceira dimensão, se não temos a liberdade de fazer nossas escolhas? Ele determina nosso viver segundo a segundo. Isto está certo? Eu acho que não. Se assim fosse, se esta hipótese fosse verdadeira, quem estaria vivendo realmente estes bilhões de vidas não seria a entidade humana que Ele criou, mas Ele mesmo e de conformidade com Sua Vontade. Onde estaria, nesta hipótese, o sentido da tal Evolução? O que aprenderíamos, já que não passamos de marionetes de Sua Vontade?

A segunda situação, b), é a de não estarmos determinados, a cada segundo, pela Sua Vontade. Então, nossas opções são responsabilidades nossas e nós as fazemos segundo nossa restrita capacidade de prever probabilisticamente o futuro imediatíssimo e, até mesmo, mediato. Neste caso, Jesus teria errado, pois há algo que acontece fora da Vontade do Pai. E este algo é a capacidade decisória do homem por si mesma. 

Neste Planeta, as Leis que regem e determinam o intrincado sistema fenomenológico, obedecem ao planejamento do Grande Arquiteto.

Neste Planeta, as Leis que regem e determinam o intrincado sistema fenomenológico, obedecem ao planejamento do Grande Arquiteto.

Mas Jesus é um Deus, logo, Ele não erra.

Então, por que teria afirmado aquilo?

Quero crer que ao pronunciar aquela sentença complexa, o Mestre não afirmou que os processos de nossas escolhas estão sob a gerência direta do Pai, mas tão só que no Sistema Terrestre, no intenso processamento dos fenômenos que no planeta se sucedem e aos quais nós estamos submetidos, tudo obedece às Leis ordenadoras criadas pela Vontade do Grande Arquiteto para que exista ambiente propício à manifestação da Vida nas frágeis formas físicas aqui desenvolvidas. Este “tudo” não diz respeito às escolhas que fazemos, mas sim ao ambiente planetário em que vivemos. Seja o que seja que escolhamos, não podemos fazê-lo fora dos processos que equilibram o Sistema Planetário e mantêm as condições para que a Vida se manifeste na Forma. Isto não significa que à Vida na Forma seja vedada a capacidade de optar e de decidir. Isto lhe é dado para que o faça de modo a se aperfeiçoar e avançar evolutivamente.

— Muito bem colocado, doutor. Estou gostando.

O mais conhecido "anjo' intermediário entre os Deuses e o Homem, Mercúrio. Ele veio a se tornar o Exu do Candomblé.

Mercúrio, o Exu do Candomblé, comercia os desejos humanos com as diretrizes dos deuses. Então, comercia com o Carma. Esta função o cristianismo católico passou a atribuir aos seus santos.

— Obrigado. Agora, afirmam os adeptos da Lei do Retorno, após um balanço entre o bom e o ruim, o que restar de Karma deverá ser resgatado. Note que isto é afirmado por todos os defensores da Lei do Retorno ou Lei do Carma.

Esta assertiva coloca Deus em saia justa, pois não há como negar que ela é uma cobrança divina, visto que a Lei do Karma é alocada à conta de Deus, nosso Criador e Criador de todos os Universos através da infinita dimensão Tempo-Espaço.

Na hipótese de o Carma ser positivo, então os espíritos se procuram para se complementar e podem fazê-lo em inúmeras encarnações. Em tal caso eles se juntam em famílias ou em grupos de trabalho de tal modo que sempre estarão se ajudando para avançar evolutivamente na Bondade, na Caridade e na Espiritualidade.

Mas se for negativo, os espíritos se procuram para se digladiarem, vingarem-se e darem vasão ao ódio que trazem em si. Neste caso, a encarnação foi perdida, segundo a visão dos adeptos da Lei do Retorno. O karma de ambos os envolvidos no ódio aumentou e terão futuras encarnações mais difíceis, mais duras, na proporção direta do peso carmático que cada qual carrega. Uma cobrança implacável do Deus de Misericórdia e isto vai contra a assertiva que afirma taxativamente que Ele é o Pai da Bondade Suprema, não acha?

Representação artística de Hermes Trismegisto.

Representação artística de Hermes Trismegisto.

— Ora, doutor, nós sabemos que todo pai pune seus filhos quando eles erram. E, segundo Hermes Trismegisto, assim como é em cima é em baixo e vice-versa, o que sanciona a hipótese de que quando o homem age corretivamente com os mal-feitos de seus filhos, faze-o seguindo um, digamos assim, impulso profundamente mergulhado em sua Consciência Espiritual, logo, a punição que reproduzimos aqui é uma projeção adaptada daquela que Deus procede a partir de Seu Reino.

— Você está julgando Deus a partir de baixo e lhe atribui valores que são apenas humanos. O que é verdadeiramente errado, na terra? NADA. Uma coisa, um acontecimento, uma tomada de decisão só está errada quando avaliada em relação a algo ou a alguém ou, ainda, a um processo político aceito como certo pelo homem. Deus não é relativizado, meu amigo. Ele é ABSOLUTO e no absoluto não há dubiedade nem duplicidade.

Felício pensou um pouco e assentiu, com um meneio de cabeça. Eu prossegui. 

— A afinidade cármica é, então, por Amor Divino ou por Ódio. Se é por Ódio, este não pode ser Divino. Então, certamente é Diabólico, não é lógico?

— É. Pelo menos à primeira vista, é sim — concordou Felício, com certa relutância que eu ignorei.

Ele certamente não é assim, tão simpático...

“Será que eu sou somente uma criação da fantasia humana?”

— Ora, como o Diabo não existe, é uma figura retórica que o cristianismo importou do mazdeísmo, o estímulo odioso é algo acéfalo, sem dono, exceto que nascido da raiz espiritual humana em si mesma.

Mas esta raiz espiritual é uma Centelha Divina; é uma Fagulha do próprio Criador e isto até a Igreja repete mundo a fora. É Ele mesmo em cada um de nós, e isto também é apregoado por todas as facções religiosas e filosóficas que citei acima.

Então, sendo a Vida que nos anima uma Centelha do próprio Criador, o Senhor da Bondade e do Amor não pode gerar de si nada que seja odioso, pois Ele não tem em si o Ódio, visto que é Bondade Pura. E agora?

— Só um momento, doutor. A Igreja afirma que a maior façanha do Diabo é fazer crer que ele não existe. Isto leva a um relaxamento perigoso da parte do cristão – e dos não-cristãos – que os coloca à mercê das artimanhas dele…

Isto é o Demônio Mazdeísta que os cristãos importaram para  sua Religião e complicaram o que era simples.

Isto é o Demônio Mazdeísta que os cristãos importaram para sua Religião e complicaram o que era simples.

— Deus é Onipresente, Oniconsciente, Onipotente, não é, Felício? Sua Igreja afirma isto alto e a bom som. Acima de Deus não há nada. Fora de Deus também nada existe.

Ora, a idéia fundamental sobre o Demônio ou Satanás é que ele é um inimigo ferrenho de Deus. É Seu contrário, Sua negação. E se é Seu inimigo, é algo que existe fora de Deus, pois o totalmente Bom não pode coexistir com o totalmente Mau. E se tal condição é verdadeira, isto torna Deus uma entidade quase-onipotente, quase-onisciente e quase-onipresente, o que não é nem lógico nem cabível, pois desmorona toda a Unicidade do Criador. Ele deixa de ser O Criador de todas as coisas, pois o Diabo não pode ser Sua criação. E não me venha com a patacoada de que no princípio o Diabo era um Arcanjo, o mais próximo de Deus, tão próximo que Lhe mereceu a confiança, quando Ele saiu do céu para trabalhar em Sua Criação. Isto é simplesmente patético. Mas vamos continuar nesta fantasia e lembrar que ela diz que o arcanjo se rebelou contra seu Senhor, foi lançado para baixo e criou o inferno, tornando-se adversário de Deus. É como se você me dissesse que meu coração de repente enlouqueceu e se voltou contra mim; passou a ter existência própria dentro do corpo que me pertence. Eu lhe pergunto: o que fará um coração furioso, cheio de ódio contra o corpo em que se encontra, e independente dentro de mim? Um coração que passou a viver exclusivamente pelo ódio a mim, ao meu corpo? É lógico que buscará destruí-lo e com isto, destruir a si mesmo. O Diabo não quer ser destruído. Ele quer o lugar de Deus. Esta é a mitologia que você nem ninguém com mais juízo pode aceitar.

— Mas, Doutor, o Diabo tem que existir para que se explique tanta maldade no homem…

— Felício, se enveredarmos pela discussão sobre a existência ou não do Diabo, jamais concluirei o que desejo falar. Então, deixe-me prosseguir no tema que vinha abordando, sim?

— Desculpe-me. Vá em frente.

Desenho do Espírito de André Luiz por um médium vidente.

Desenho do Espírito de André Luiz por um médium vidente.

— A Doutrina Espírita também ensina que a fim de amenizar o choque devido a emoções negativas que permaneceram no Duplo Etérico daquelas pessoas, na forma de Karma, após o regresso de seus espíritos à encarnação, a elas são dados os filhos. Estes, note bem, são almas que lhes são entregues tanto para que formem cidadãos Moral e Eticamente bem educados, úteis segundo os ditames da Religião do Cristo, quanto como instrumento de união dos pares do casal, principalmente se estes pares foram adversários e criaram dívidas kármicas entre si.

Então, aqui, e digo mais uma vez que esta é uma observação minha, alguém utiliza outros espíritos para atuar na briga entre os renitentes e esses outros espíritos, se devem ter a missão de amenizar o ódio entre os pares espirituais, estarão sendo ou metidos numa confusão na qual talvez não quisessem estar; ou, quem sabe, tivessem pedido para serem intrometidos ali porque, egoistamente, viram na mazela dos pares em guerra, um meio de auferirem lucro para si. A história se complica, não é?

Foto do Dr. André Luiz, quando encarnado.

Foto do Dr. André Luiz, quando encarnado.

Veja, digamos que eu sou um espírito “bonzinho” e sei que uma antiga desafeto minha vai encarnar. Então, peço licença para descer a fim de me encontrar com aquela zinha e tentar resgatar meu karma com ela. Sucede que a zinha não está a fim de conversa comigo. Então, quando nos encontramos “cá em baixo” o que surge emocionalmente entre nós é confuso, um misto de amor e ódio simultaneamente. Mistura essa que se traduz numa antipatia inicial da parte de ambos. Antipatia que é ocultada pelo coito carnal entre nós. Talvez um coito com laivos de sadomasoquismo que, de certo modo, agrada às nossas psiques espiritualmente doentias. Mas como eu pedi para ser envolvido com a zinha, então, uma manobra que me é desconhecida foi armada no meu Karma e ela me leva a, finalmente, me embolar com a dita cuja. Prevendo que o par que formamos vai terminar dando com os burros n’água, dois ou três espíritos ou são mandados encarnar através de nós, na condição de seus pais, ou pedem que lhes dêem permissão de virem na condição de filhos a fim de amenizar o choque inevitável.

No primeiro caso, os espíritos que foram mandados necessariamente têm de ter Dharma conosco, pois se não for assim, a história vai-se complicar ao infinito. O Dharma deles é que lhes dará força para aguentar as tensões odiosas que virão inevitavelmente.

No segundo caso, os  espíritos envolvidos numa história de vida encarnada têm Karma a resgatar que tanto pode ser com qualquer um de nós, como pode ser totalmente independente de nosso passado Kármico. No entanto, nossa história se desenvolve de tal modo que os interessados vêem nela um meio de purgar suas dívidas e, neste caso, a vinda é por interesse nada espiritual e muito egoísta. Está entendendo?

— Estou, mas confesso que o negócio ficou complicado demais.

— Mas a Lei do Retorno é complexa. E o que lhe apresento não é nem dez por cento de sua complexidade. Mas vamos em frente e falemos um pouco sobre esta complexidade.

O sexo, na acepção de coito, não existe entre os espíritos.

O sexo, na acepção de coito, não existe entre os espíritos.

— Dentro do tema da família, o palestrante também abordou a idéia dos espíritas segundo ensinamentos do dirigente da Casa, André Luiz, sobre o sexo após o desencarne. No seu ensinamento, André Luiz diz que o sexo existe entre os espíritos, mas não de conformidade com aquele que rege a vida encarnada. Nisto, ele e eu concordamos. O sexo carnal é função única e exclusiva dos elementais físicos macho e fêmea. O impulso coital não é função espiritual, mas sim um meio que há nos elementais para aproximar entre si pessoas que podem ajudar-se ou não, e nós acabamos de ver isto no exemplo que dei.

Do meu ponto de vista, o impulso ao coito entre os casais, totalmente nascido no elemental físico, é um tremendo desafio para o Espírito que se reveste daquele corpo carnal. Se ele não souber administrar este impulso instintivo, puramente animal, puramente elemental, certamente que vai cavar seu retorno à Casa do Pai de modo bem desagradável. E a AIDS é um dos caminhos de retorno nada agradável de ser percorrido.

Ensina ainda André Luiz que o sexo espiritual se traduz num amor fraterno mais intenso entre dois Espíritos que comungam a mesma senda evolutiva, isto é, que, segundo a Teosofia, estão sob um mesmo raio evolutivo ou em raios que são complementares. Estes espíritos, quando se encarnam, procuram-se e são capazes de vencer o poder do Elemental Físico e levá-lo a se movimentar na direção daquele a quem ama espiritualmente. Isto pode tanto resultar num casamento elemental duradouro, feliz, plácido e tranqüilo, quanto pode redundar numa luta sofrida, onde ambos se vêem envolvidos em situações provacionais em que sofrerão muito, mas sempre juntos em companheirismo inabalável. E muitas destas provações eles não teriam enfrentado se não se tivessem procurado com determinação espiritual intensa. Em tal caso, vejo eu, não há a famosa Lei do Retorno em ação punitiva; ou corretiva, o que no final dá no mesmo. As dores e as aflições resultantes desta determinação de procurar seu amor espiritual é função de uma Vontade Férrea do Espírito que, assim, não somente coloca em prova mais uma vez sua capacidade de dominar o Elemental Físico, como também consegue para si ambientes provacionais altamente proveitosos para o fortalecimento de sua Vontade, de sua Persistência, de sua Perseverança e de sua Determinação, atributos indispensáveis à sua Evolução. Se tudo isto, toda esta luta intensa fosse apenas pela Vontade do Pai, qual o mérito do espírito que a enfrenta? O mérito seria todo do Pai, que engendrou as provas enfrentadas e dirigiu aqueles seres nas escolhas para enfrentá-las com êxito ou com fracasso. Está entendendo?

— Perfeitamente. Continue, por favor.

— Agora, vamos ao primeiro tema de nossa conversa: o resgate cármico. Ora, a Lei do Carma, em sua complexidade, estabelece que a partir dos futuros pais do espírito que vem encarnar, tudo esteja previamente determinado para ele segundo as provações que deverá enfrentar no resgate de suas dívidas.

Assim, após a definição  dos pais, com vista a uma herança genética compatível com o que exige a Lei do Retorno para o engendramento de situações provacionais, há a determinação da rua onde o espírito deverá nascer humanizado. Esta rua tem que ter uma média cármica que seja compatível com a parcela cármica a ser expiada pelo espírito que desce ao mundo dos encarnados.

Após os Senhores do Karma encontrarem esta rua, devem verificar se ela se insere num ambiente de bairro em que a média cármica seja propícia aos dilemas que serão dados ao espírito em provação. Isto é necessário para que a Harmonia dos processos espirituais não se quebre, afirmam os adeptos da Lei do Retorno.

Definido o bairro, terão que definir a cidade em que o bairro se insere e para esta também vale a mesma média buscada. Encontrada a cidade, procura-se o país em que ela está. Encontrado o país, espera-se que os complexos processos sociais, políticos e religiosos estejam num momento cósmico-carmático propício para a estruturação da história de vida que o indivíduo irá escrever através dos enfrentamentos cármicos que deverá encarar. Mas isto não é tudo. Os vizinhos de rua ou de bairro, deverão conter, em muitos casos, espíritos que foram desafetos ou que foram amigos daquele que está chegando à encarnação novamente. A mesma coisa tem de acontecer na cidade onde o indivíduo irá trabalhar e onde trabalhará em locais nos quais vai encontrar espíritos que o amam e procuram defendê-lo, ou que o odeiam e procuram prejudicá-lo. Eles farão parte de sua História de Vida na encarnação atual, ora ajudando-o, ora dificultando-lhe a vida. Ensina a Lei do Carma ou Lei do Retorno que ninguém evolui sozinho. Todos devem evoluir em conjunto e isto é necessário para que o Espírito aprenda, através de suas provas cármicas, a ação fraternal, o valor do perdão e do companheirismo. Isto, afirmam os defensores da Lei do Retorno, faz que o espírito aprenda o quão importante é o Perdão mútuo.  

A formiga preta da Amazônia, também chamada de tucandeira.

A formiga preta da Amazônia, também chamada de tucandeira.

Quando eu era criança e estava na rua após uma chuva, observei um grupo de formigas que desciam a corredeira formada pela água da chuva emboladas entre si. Acompanhei aquela bola de formigas e vi que elas iam morrendo afogadas, mas não se largavam. Umas subiam nas outras, buscando safar-se da água, mas como a bola girava sempre, nenhuma ficava fora do caudal de lama. Acompanhei a agonia das formigas até quando todas estavam mortas, mas sempre grudadas umas nas outras. Aquela cena me ficou gravada na mente de modo muito intenso. Pois bem, estudando a Lei do Retorno ou Lei do Karma, passei a ver os seres humanos como formigas que se debatem inutilmente no caudal da evolução. Ninguém pode safar-se da derrota porque a implacável Lei do Karma não permite isto. E esta imagem sempre foi o argueiro na estrutura tão bem urdida pelos que defendem a tal Lei. E meditando na Lei em comparação com a Bondade do Criador, ela de repente me pareceu algo inadequado e frontalmente contrária ao Seu magnânimo Amor. Como entender um Pai que cria uma lei cruel que obriga todos os seus filhos a ficarem presos quase eternamente ao pagamento de dívidas que, a rigor, cometeram cegamente, visto que a ninguém é dado saber além do milésimo de segundo do momento em que está vivendo? Somos sete bilhões de seres encarnados, número que tende sempre a crescer. Se não podemos evoluir individualmente, então, meu amigo, permaneceremos nesta condição até o final de um Manvantara e, com certeza, retornaremos a esta agonia no próximo, e no próximo, e no próximo… Isto é inadmissível. E assim pensando, comecei a repudiar a Lei do Karma. Veja você, a Lei do Karma nos dá a figura de um Deus à imagem e semelhança d’Aquele hebraico, herdado pelos cristãos. Um Deus punitivo, cobrador, incapaz de perdoar e, pior, apegado ao extremo à sua criação material, pois todos os processos que vivemos não deixa de ser derivado de Sua Criação. Não foi dito que não cai uma folha do galho de uma árvore que não seja por Sua Excelsa Vontade? Então, não se sofre a mais mínima dor nem a mais mínima decepção que também não seja por Sua Vontade. Não diretamente, como já demonstrei, mas indiretamente, pois estamos presos a este orbe, gostemos ou não. Agora, se Ele impõe que para cada um se livrar deste processo tem de esperar que todos o façam também, certamente que condena a todos os seus filhos a permanecer ad infinitum nesta condição desumana de encarnar e desencarnar sempre dolorosamente.

Artistas representam o Nascer do Espírito deste modo. Mas é pouco para mim. Não diz nada.

O Deus de Amor não pode ser o mesmo que castiga e impõe leis desumanas e sádicas.

— E, o que é pior — disse Felício, olhos brilhando de excitação — Deus se torna um sádico terrível e isto é incompatível com Aquele que nos dá diariamente o Milagre da apreensão do nascer e do morrer do dia e nos coloca no céu um espetáculo deslumbrante que a maioria da humanidade se esqueceu de admirar. Agora eu compreendo mais profundamente sua conversa conosco de outro encontro, quando nos disse que esta terceira dimensão foi um presente de Deus aos homens e que, aqui embaixo, tudo nos é permitido fazer, pois este é nosso Jardim de Infância, ou, melhor dizendo, este é nosso Éden. Aqui, tudo nos é permitido porque, façamos o que fizermos, em nenhum momento afetaremos outros planos e outras entidades superiores à nossa evolução. E se tudo é permitido e não há erro nem pecado, então, não há razão para que Deus nos perdôe de nada. O perdão, então, não passa de mais uma ilusão criada pelo homem e segundo sua estreita visão do Infinito. É… Esta sua visão é mais coerente com a Imagem que se deve ter do Verdadeiro Deus. Ela me sossega o coração.

Ele se calou e ficou um momento totalmente introjetivo. Respeitei seu silêncio e deixei que retornasse quando lhe fosse conveniente.

Este local horrível só existe na imaginação de gente ainda muito primitiva.

Este local horrível só existe na imaginação de gente ainda muito primitiva.

— E estou pensando — disse ele, voltando a fixar os olhos em mim — que o conceito de pecado está totalmente errado. Ou melhor, é totalmente inútil e somente serve para que ignorantes histéricos procurem impor a outros ignorantes, também histéricos, o controle de suas mentes e de suas vontades, passando, assim, egoistamente, a se tornarem diretores daquelas vidinhas miseráveis…

Ele fez uma pausa e pensou um pouco. Depois retornou com uma pergunta. 

— Mas como o senhor explica as dores e sofrimentos que se vive aqui, enquanto pessoas?

— Não sou eu que explico. É Aquele que se deixou conhecer sob o nome de Yehoshua ou Yoshua, como se queira. No nosso meio, Jesus de Nazaré. Segundo Benítez, Ele é que teria dito que somos livres para viver intensamente a Vida. Que o Pai não censura nada; não pune nada; não reprime nada, pois aqui, nesta dimensão, Ele nos permite experimentar de tudo, só assim poderemos crescer como espíritos individualizados. E se tudo nos é permitido não há erros contra Deus e se não há erros contra ele, não há necessidade de perdão… E isto, para mim como para Benítez, é lógico e claro, claríssimo. Não é a Lei do Karma que nos leva a nos embolarmos com alguém “errado” para nós. É nosso impulso elemental dominando nosso Espírito que nos tange para um drama que bem poderia ter sido evitado, não fôssemos espiritualmente ainda fracos diante da força da Matéria. A gente se mete na enrascada, sofre muito por isto, mas com toda a certeza nosso Espírito aprende que da próxima vez, se assim o desejar — pois não há qualquer obrigação de retorno a esta dimensão —, terá de ser mais dominante em sua relação com o Elemental Físico. 

Este é um aparelho refinadíssimo, que trabalha além da percepção.

Este é um aparelho refinadíssimo, que trabalha além da percepção.

— Mas doutor — ponderou Felício — em uma única encarnação nós não temos condições de aprender tudo o que seja necessário para nossa libertação deste mundo conhecido como infernal por ser o mais inferior possível na escala de densidade da Matéria Cósmica. Custei a admitir isto, mas concordei finalmente com a idéia. Agora, o senhor me vem com um retrocesso…

— Será? Veja, meu amigo, comprovadamente nós só vemos um milésimo do que realmente enxergamos ao nosso redor. O que é conhecido como “visão periférica”, constituída por milhares de bastonetes do nervo óptico, tem capacidade de registrar em milissegundos um milhão de percepções que nosso intelecto não consegue traduzir para a consciência desperta. A mesma coisa acontece com nosso sistema auditivo, que pode registrar sons conscientemente inaudíveis. E o cérebro computa, analisa, seleciona e armazena todas as informações, mesmo que elas jamais sejam acessadas pela nossa consciência intelectual. Isto significa que a contra-parte etérica de nosso cérebro físico, naquela estrutura a que chamamos de Duplo Etérico, pode registrar um milhão de vezes mais do que nossos cinco sentidos podem perceber até mesmo subliminarmente. Ou seja: em uma única existência nosso Espírito tem a seu dispor tudo o de que necessita para se informar ao máximo de tudo o que há para ser informado aqui na Terra e nos ambientes em que penetrou e vivenciou.  E quando atingimos o grau de evolução técnico-científica que já alcançamos, onde a internet e o computador nos põem o Mundo todo, não somente fisicamente, mas também cultural e instrucionalmente ao alcance, nossa capacidade sensorial está estimulada muito acima do que atualmente a Ciência supõe. Tanto que as crianças desta época já nascem muito mais adequadas para interagir com a parafernália computacional do que as de meu tempo. Então, uma única encarnação é suficiente para que amealhemos aquele conhecimento de que precisamos para, posteriormente, trabalharmos e ampliarmos a Sabedoria de nossa Entidade Espiritual. E antes que você me pergunte, isto eu não li assim como explano. Deduzi do que estudei durante anos e anos de minha vida e que Benítez, pelo seu Jesus, confirma. Por que a sincronicidade põe em meu caminho as idéias de um homem que vou morrer sem conhecer pessoalmente e de quem nunca, antes, tinha ouvido falar? Porque, digo eu, atingi um estágio de vibração sintônica com ele que fui atraído para o conhecimento daquele terreno que ele me criou e que me é sintônico, compreendeu?

Na Alça Descendente, à esquerda, no Esquema, em cada Globo de Matéria há dois outros, cada qual correspondendo a densidades diferentes de Matéria do Plano Material a que se refere. Idem, na Alça Ascendente.

Na Alça Descendente, à esquerda, no Esquema, em cada Globo de Matéria há dois outros, cada qual correspondendo a densidades diferentes de Matéria do Plano Material a que se refere. Idem, na Alça Ascendente, à direita, no Esquema.

Agora, preste atenção: nenhum espírito humano tem necessidade de aprender absolutamente tudo o que há ou que acontece processualmente sobre o planeta. Tanto que há os Raios através do qual se evolui. Estes Raios são como canais que agrupam especialidades específicas, como as especialidades conhecidas sob a denominação de Ciências Matemáticas, ou as Ciências Humanas, ou as Ciências Biológicas, ou as Ciências Físicas etc…

Digamos que um grupo de espíritos evolui dentro do Raio das Ciências Humanas. Então, todo o Conhecimento adquirido por todos os Espíritos daquele grupo tornam-se comuns a todos eles, quando estiverem no Globo Ascendente de Matéria Astral Superior. Por que, então, voltar e voltar centenas de vezes a esta dimensão, se nada mais há que ele possa recolher daqui?

— Mas doutor, perdoe-me se insisto, o senhor não está levando em conta o sentimento de Culpa. Este, para mim, é o motor que move à reencarnação.

Com máquinas assim, nós qualificamos a Energia Elétrica naquilo que supre nossas necessidades.

Com máquinas assim, nós qualificamos a Energia Elétrica naquilo que supre nossas necessidades.

— Meu amigo, Culpa, Medo, Ódio, são qualificações da Energia Sentimento. Veja a Eletricidade, por exemplo. É única. No entanto, nós a qualificamos como energia calorífica, energia frígida, energia eólica, energia cinestésica… Está compreendendo? As qualificações da Energia Sentimento são necessárias para que o Elemental Físico se dobre à Vontade do Espírito. O espírito humano não está sujeito a elas, pois são desvios da única qualificação aceita nos páramos celestiais: a qualificação Amor. 

— Mas já li vários livros espíritas em que é deixado bem claro, pelos que se diz que o ditaram do além, que Medo, Culpa e Ódio são as razões primeiras de suas torturas no pós-morte. Angustiado pela culpa ou pelo ódio ou pelo medo, o Espírito permanece anos e anos, às vezes séculos, no lugar que os espíritas chamam de Limbo e nós, católicos, chamamos de purgatório. Então, quando, finalmente, se rendem à Existência de Deus e oram a Ele pedindo ajuda, são finalmente retirados dali e levados para as tais cidades espíritas, como o famoso Nosso Lar. Como se explica isto?

— Os “mortos” também se angustiam com a saudade dos seus entes queridos e isto está bem claro nos escritos mediúnicos. Mas veja, nós temos sete mortes, não uma.

— Sete? — Espantou-se Felício.

— Sim, sete. Nosso Espírito está revestido por sete corpos constituídos de sete matérias de níveis bem distintos quanto ao grau de sutileza de cada um deles. Quando morre o corpo físico, o Espírito passa a viver no Duplo Etérico, que é o molde que manteve a vida no físico. É no Duplo Etérico que realmente acontece toda a Vida e seus processos psicológicos e emocionais. Nada acontece realmente no corpo físico denso. Este é somente carne inerme. Carne que somente dá a sensação de que sente porque cada uma de suas células está interpenetrada pelo Duplo Etérico. Então, morto no corpo físico denso, o Espírito passa a viver no verdadeiro corpo denso, o Duplo Etérico. É neste que atuam as qualificações grosseiras de que falamos: medo, ódio e culpa. O espírito o percebe bem, mas não tem como sobrepor-se a tais qualificações. Assim, em verdade, ainda é a consciência intelectiva do “morto” que está atuando no indivíduo. E se é a consciência intelectiva que atua, é ela que cria a necessidade de punição; é ela que requer que o Espírito retorne à vida física para se corrigir, não uma Lei criada pelo Pai da Justiça, do Amor e da Bondade. No fundo, é o próprio indivíduo que acha que deve retornar e se impõe isto. Deus não lhe exige tal regressão e tal perda de tempo. 

— Quer dizer, então, que tudo o que se vive depois de perder o corpo físico ainda é eco desta vida? Em outras palavras, depois de perdermos o corpo denso ainda vivemos seguindo modelos psicológicos que aprendemos aqui?

— Exatamente. Os que têm consciência de que foram muito maus, não avançam no processo evolutivo e não passam para o Mundo de Regeneração, na alça ascendente da Cadeia Setenária Terrestre. O medo à punição os faz regredir e voltar ao glóbulo inferior do Mundo Etérico, que é chamado de mundo de expiação. Aqui é o tal Purgatório. Já os que não sofrem tão intensamente o aguilhão nem do ódio, nem da culpa nem do medo, estes seguem para o globo etérico mais sutil na alça ascendente da Cadeia Planetária Terrestre. Eles, aqui, vivem uma vida muito similar à que acabaram de deixar para trás. Encontram um  ambiente poluído, nebuloso, mas muito superior àquele que constitui o Mundo de Expiação. Sentem frio e calor; sentem fome e sede; sentem cansaço, alegria e tristeza, sentem o aguilhão do desejo sexual e praticam o coito com parceiras, tal e qual faziam aqui no mundo denso, visto que o Duplo Etérico reproduz integralmente o modelo físico que se desfez na terra. Só não sofrem da acusação de uma consciência culpada ou cheia de ódio com desejo de vingança. Passado um tempo, que é específico para cada um, o Duplo Etérico se desfaz, ou seja: morre. Não é como morrer aqui em baixo. Ele simplesmente se desfaz lentamente e na medida em que isto vai acontecendo, o Espírito com seu revestimento de Matéria Emocional ou Astral, sobe para o Globo inferior do Plano Astral, constituído de matéria mais densa que seu irmão no mesmo plano, conforme mostro no esquema em sua mão. Aqui, ele não mais sofre a influência das memórias da Terra, exceto quanto às emoções que viveu intensamente. Ainda reage fortemente com raiva, tristeza, alegria, felicidade etc…, mas não mais tem o aguilhão do apelo sexual coital, pois este se desfez com o desfazimento do Duplo Etérico. Neste globo astral de matéria mais densa, o Espírito começa a tomar consciência de que há um mundo melhor e que é bem diferente daqueles de onde veio. Com o tempo, ele perde o envoltório etérico de matéria mais densa e ascende para o globo astral de matéria mais sutil, onde perde totalmente os vínculos com os mundos densos que deixou para trás. Como este mundo de matéria astral mais sutil se corresponde com aquele mundo de matéria mental mais sutil, seus pensamentos, suas vontades, suas emoções são, todas, voltadas para a Criação e é aqui que ele encontra à sua disposição todas as vivências de todos os espíritos que evoluem no mesmo raio que ele ou que evoluem em raios complementares. Não tem, portanto, de voltar à encarnação, onde sua colheita é ínfima.

— Eu fiz um resumo de um assunto que requer uma coleção de muitos volumes, mas creio que consegui transmitir-lhe a idéia central de tudo isto. Agora, vamos falar dos homossexuais. Eles, na minha concepção teosófica, são uma aberração que não devia acontecer. Uma perturbação da Onda Evolutiva Humana.

— Por que?

— Porque, se é verdade que seus espíritos retornam ainda prenhes do “amor” que os elementais físicos que ocuparam em outra vida sentiram um pelo outro; e se é verdade que é este “amor” que faz que, ignorando a nova estrutura corporal de que se revestiram, continuem se buscando ansiosamente, formando, deste modo, a mole humana dos homossexuais e afins que pugnam por serem reconhecidos como sãos e com direitos a casamento e constituição de família, então, estes espíritos estão infringindo violentamente a Lei da Evolução. Em última análise, eles insultam o Criador, quando não obedecem à Sua Lei. Neste sentido, eles estão realmente doentes, embora seja difícil compreender que uma Centelha do Criador fique doente. Mas se considerarmos que o Espírito, mesmo quando atinge o Globo de Matéria Mental Inferior, ainda está sob o domínio da Mente Mortal e, com isto, das emoções inferiores, compreendemos que esta doença não é do Espírito em si, mas dos envoltórios sensíveis e vivos de que se reveste. E não é a Lei do Retorno ou do Carma a responsável por este comportamento cego e teimoso. Isto é tão-só o domínio dos elementais astrais e mentais inferiores sobre seu verdadeiro dono e senhor: o Espírito Humano. A esta doença a Ciência Humana não tem condições de tratar, pois está além de seu alcance. Daí que tais espíritos, perdidos em suas evoluções, vão permanecer aprisionados num redemoinho que não é de verdadeiro amor, mas de simples desejo, de simples luxúria carnal.

Felício permaneceu calado, com o senho franzido, fortemente concentrado no que eu lhe acabava de dizer. Então, pondo-se de pé, disse:

— Caramba! O senhor não me deu tempo nem de me acostumar com a tal Lei do Carma e já a destruiu, trazendo-me quase totalmente de volta ao catolicismo. Estou zonzo. Se me dá licença, vou-me retirar para pensar em tudo o que conversamos, hoje. De qualquer modo, foi tremendamente instrutivo. Obrigado.

— Disponha e volte quando quiser.

Ele se foi e eu fiquei pensando se não tinha pegado pesado demais…