Daqui pode sair o prêmio pelo qual trabalho mentalmente.

Daqui pode sair o prêmio pelo qual trabalho mentalmente.

Eu estou sentado na rede e tenho diante de mim um livro que não leio há mais de meia-hora. Minha concentração está toda ela na Mega-sena. Firmo o pensamento em ganhar o prêmio máximo. Dei de fazer isto faz uma semana, mas ainda não consegui a disciplina que devo ter para construir um forte elemental que vá influir na queda das benditas bolinhas do sorteio. Não é trabalho nenhum para mim me concentrar no jogo. No início estava difícil manter os números firmemente na memória, mas agora, depois de um mês sempre vacilante, já consigo permanecer por mais de cinco minutos quieto, com a imagem do globo girando diante de minha mente e soltando as bolas com os números que escolhi para jogar sempre. Mas descobri que manter a imagem por mais de uma hora, que é minha meta, está danado de difícil. O desafio é grande, mas como tenho tempo, vou-me esforçando.

Orozimbo adora se estender dentro da rede.

Orozimbo adora se estender dentro da rede.

E eis que chega alguém, toca a campainha e me quebra a concentração. Sem perder a calma, vou atender. Era Orozimbo que me abraçou todo sorridente. Ele veio deitar na minha rede sem qualquer cerimônia e tratou de acender seu pito. Contentei-me em sentar na cadeira ao redor da grande mesa que tenho na varanda.

— Entonce, qui foi qui vancê dixe pru Felício qui ele anda doidão?

— Doidão? Como assim?

— Bão, o home aloprô, num sabe? Ele, qui nunca se assentô numa mesa de bar, agora inté tá mandando pra dentro umas garrafa de cerveja. E deixô de fazê o jejum religioso qui fazia aos sábado. E dixe qui vancê abriu os óio dele. Como é que se pode abri os oio de quem já tem eles aberto, home?

Fiquei em choque. Nem de longe podia imaginar que minha conversar com o “padre” ia levá-lo a sair dos trilhos tão depressa. Lá no íntimo uma ponta de arrependimento brilhou em mim e me incomodou.

— Onde está o Felício, agora, você sabe?

— Bão, véio acha qui ele deve de tá na casa da Vera. Vancê sabia que os dois se enrabicharum?

Eles passaram a andar lado a lado e bem felizes um com o outro.

Eles passaram a andar lado a lado e bem felizes um com o outro, como qualquer jovem apaixonado faz.

— Eu vi os dois de mãos dadas e deduzi isso. Vou ligar para a Vera e ver se consigo trazer nosso amigo até aqui. Não gostei de saber que ele chutou o pau da barraca.

Vera atendeu e confirmou que Felício estava com ela. Passou-lhe o telefone e eu o chamei para uma conversa. Perguntou se podia trazer sua namorada e eu lhe disse que não via impedimento. Não demorou nem meia-hora e os dois chegaram. Vera vinha sorridente e exalando alegria. Felício parecia compartilhar aquilo com ela.

— Do que se trata, doutor? O velhote aí veio fazer fofoca de mim?

— Num sô fofoquero. Vancê me arrespeita, cabrito sem rabo — resmungou Orozimbo fingindo zanga.

— É verdade que você está bebendo, freqüentando bares etc…?

— Bom, não do modo como certamente o Orozimbo deu a entender, com certeza. Ontem fui a um bar e tomei algumas cervejas em companhia de rapazes mais ou menos de minha idade. Conversei com eles e achei interessante o modo como pensam sobre sexo, religião, futebol e política. Este foi o teor de nossa conversa.

— Mas você rompeu com seus hábitos sacerdotais, como o de fazer jejum aos sábados?

Eles podiam ensinar aos seus fiéis a orar buscando encontrar-se com seu Ego Divino, não com um Deus fora da pessoa.

Eles podiam ensinar aos seus fiéis a orar buscando encontrar-se com seu Ego Divino, não com um Deus fora da pessoa.

— Ah, com isso aí rompi, sim. E rompi com a oração padronizada e estou lutando ferozmente contra o mau hábito de pedir a Deus que perdôe os pecados da humanidade, visto que estou convencido de que isto é uma besteira. E das grandes. Ah, sim, oficializei meu pedido de desligamento da Igreja. Não mais sou padre.

— Graças ao senhor, doutor — completou Vera, com um meio-sorriso no rosto.

— Bom, não quero que o que converso com vocês faça estragos tão profundos — disse eu. — Por isto, acho que devemos conversar sobre conhecimentos que, creio eu, são necessários para que vocês tomem decisões mais conscientes, com mais profundidade. E vou começar recordando que há muitos séculos havia na entrada do Oráculo de Delfos, sem que ninguém soubesse dizer quem a houvera escrito ali, uma sentença que é a mais sábia de todas as que já ditaram à Humanidade: “Conhece-te a ti mesmo e conhecerás a Zeus”. Com a supressão de Zeus, passou-se a atribuir esta sentença a Tales, à sacerdotisa Femonoe, a Chilon a Platão e a Sócrates, entre outros pensadores gregos, mas a verdade é que ninguém sabe ao certo quem inscreveu a sentença no portal de Delfos. No antigo Egito, no templo de Luxor, no Templo Interior, encontrou-se inscrito a sentença: “Homem, conhece a ti mesmo e assim conhecerás os deuses”. Isto, consta, foi criado em função da afirmativa deles de que “o corpo é a casa de deus” e assim, se se conhece o corpo, conhece-se a Deus. O que comentei com Felício foi a superfície de uma estrutura muito complexa e que gostaria de abordar com todos, embora não saiba como sintetizar o iceberg que há por debaixo desta superfície.

— Então, comece pelo começo e vá devagarinho — sugeriu Felício, já todo atento.

Fiquei pensando um pouco tentando ordenar meus pensamentos. Então, hesitante, comecei por desenhar em um quadro branco a seguinte figura:

Eis o esquema que apresentei aos meus amigos.

Eis o esquema que apresentei aos meus amigos. Para ver melhor mande abrir o link em uma nova janela.

— Vamos entender o esquema. A Consciência Suprema, nosso Deus, eu designei pelo nome com que os Budistas e Teosofistas o designam: AQUILO. 

— O “Aquilo” é composto de três Forças distintas, a Saber: BRAHMÃ, VISHNU e SHIVA.

— Brahamã é o Criador, é o SER. No sentido do EU SOU, não no sentido de CORPO.

Vishnu é a Consciência Suprema, a Sabedoria Absoluta.

— Shiva é a Felicidade Plena que só acontece no pralaya, daí a sua poética designação de “o destruidor”.

— A Consciência de “Aquilo” se manifesta nos planos tridimensionais como:

— ICHCHHÃ – é o processo da percepção do Eu, que distingue o Homem dos demais seres da Natureza;

JNANA – é o processo da percepção do outro, daí a singularidade egoística que a Ilusão, ou MAYA  nos empresta e nos faz crer que eu sou diferente do outro e o outro é diferente de mim.

KRIYA – o processo da percepção das coisas, dos objetos, dos processos psicofísicos e físico-químicos. Esta percepção reforça a ilusão de que eu sou diferente de tudo.

— Ensina o Budismo Teosófico que assim como é verdadeiro o que se afirma quanto à Consciência de “Aquilo”, é verdadeiro também para a consciência humana. Por isto é que, sendo nós à Imagem e Semelhança de Deus, nossa consciência é como a D’Ele. Compreenderam?

Todos assentiram com um aceno de cabeça e Felício observou que Brahmã, Vishnu e Shiva eram representados no Cristianismo como As Três Pessoas Distintas que constituem Deus. Concordei sem comentários e prossegui.

Eles também juntam as mãos, mas voltam-se para si mesmos, quando oram.

Eles também juntam as mãos, mas voltam-se para si mesmos, quando oram.

— Asseveram os Budistas Teosofistas que é o pensamento, no ser humano, a força que constitui sua atividade, ou seja, a energia motórica de sua ação.

— Eles também asseveram que a percepção nunca é passiva, mas sim é um processo sempre ativo. Nisto, a Psicologia concorda com eles.

— A segunda assertiva deles é que nem a Vontade nem o Desejo operam diretamente no corpo. Quem faz isto é o Pensamento. A Psicologia também concorda com eles, mas em parte. Para ela, o Desejo se consubstancia nos processos neurológicos e glandulares e é sabido que sem estes dois sistemas importantíssimos para a Vida manifestada na Forma o corpo não teria ação. Não vou discutir isto, aqui, mas tenho tendência a concordar com a Psicologia.

Passamos mais da metade de nossa vida assim, pensando no quê fazer, no quê dizer, no quê decidir...

O Pensamento move o Homem.

— É através de krya, o pensamento, que conhecemos as coisas materiais e que sobre elas e sobre todos os fenômenos que observamos, raciocinamos. E é pelo raciocínio, que pode ser lógico dedutivo, indutivo e inferencial, que construímos um grandioso arcabouço de conhecimentos que nos proporciona imaginar e criar um mundo de comodismos sempre aprimorado. Um mundo que se torna à parte daquele natural. Um mundo que avançou para este, tecnológico, em que atualmente vivemos.

— Krya, o pensamento, não se compreende como as imagens criadas na Mente, mas sim como uma Energia específica. Para mim, esta Energia é mais uma forma de qualificação da Energia Sentimento, pois a Sabedoria implica amorosidade, compreensão sensível, como a sabedoria demonstrada pelas mães que antepõem o bem-estar de seus filhos a qualquer outro interesse. A Sabedoria é Amor Inteligente, prenhe de Conhecimento e com capacidade decisória para saber escolher e empregar este Conhecimento em trabalho dignificante. E, em sendo Energia, não tem forma imaginável possível.

— Ensinam os Budistas Teosofistas que JNANA é SABEDORIA e esta não deve ser confundida com CONHECIMENTO. O Conhecimento é avidya, isto é, é não-sabedoria. Muitos confundem avidya com ignorância, mas não se deve fazer isto. Ignorância se refere ao desconhecimento de algo e tem ralação direta com o Conhecimento. A Sabedoria, JNANA, ultrapassa o nível do Conhecimento, portanto, não cabe a correlação entre ela e ignorância.

— O Conhecimento leva sempre à indagação científica, que nunca tem fim. A Sabedoria leva ao silêncio interior e à busca do si mesmo, libertando o Espírito da escravidão ao Intelecto.

Eis Vishnu na religião indu.

Eis Vishnu na religião indu.

— Agora, resumindo, temos que a Consciência Física, Mortal, aquela a que denomino de Identidade, revela-se-nos através da projeção de VISHNU, a Consciência Divina, nas três modalidades de Consciência Física, a saber: ICHCHHÂ, JNÂNA e KRIYA. Sem estas modalidades conscienciais, não teríamos como viver na Terra encarnados como pessoas. E sem elas, não conseguiríamos criar o que temos criado desde quando aqui surgimos como humanos.

— ICHCHHÂ, a percepção do EU atua no ambiente e na pessoa mesma como o poder da Vontade;

— JNÂNA, a percepção dos OUTROS, atua no ambiente como o Poder do Amor;

— KRIYÂ, a percepção das coisas, atua no ambiente como o Poder do Pensamento. 

— Vontade, Amor e Pensamento são o que nos faz humanos e nos distingüe da animalidade.

Agora, quero-lhes apresentar outro esquema:

Meu esquema para o UNIVERSO DE DEUS segundo ensinamentos Teosóficos-budistas.

Meu esquema para o UNIVERSO DE DEUS segundo ensinamentos Teosóficos-budistas. Para ver melhor mande abrir link em nova guia.

 — Neste esquema eu quero ressaltar: a Matéria (SAT), a Consciência (CHIT) e o Eu Transpessoal (ANANDA). E dos três princípios vou falar com mais ênfase, neste primeiro momento, sobre SAT.

— SAT é o Criador, logo, é Matéria em primeiro lugar, em qualquer que seja o nível de sutileza considerado. Como vocês sabem, há 7 grandes Planos de Matéria de Densidades Diferentes, sendo que este onde existem as Galáxias com tudo o que ha dentro delas, inclusive nós enquanto pessoas, é o Plano de Matéria Densa. Esta Matéria vai além do gás conhecido pela nossa Ciência Pragmática. Além do Estado Gasoso, temos ainda o Estado Etérico, o Estado Superetérico, o Estado Subatômico e o Estado Atômico. Não vou falar destes subníveis da Matéria Densa porque já abordei este assunto com muito detalhamento em conversas que tivemos e tudo está publicado aqui, no Blog. 

Toda esta minha conversa foi para chegar até aqui, porque Felício precisa conhecer determinadas facetas do corpo humano que são muito desconhecidas pela maioria das pessoas, sejam psicólogos, sociólogos, pedagogos, médicos e afins.

Mesmo denso; mesmo muito estudado, ele ainda guarda mistérios que não são conhecidos.

Mesmo denso; mesmo muito estudado, ele ainda guarda mistérios que não são conhecidos.

— Nós não somos somente Corpo e Espírito. Este Corpo é demasiadamente complexo, não somente na matéria densa de que se compõem seus sistemas vários, como o cardiovascular, o neurológico, o glandular, o ósseo e todos os demais. Nele se ocultam processo e Leis que estão ainda sendo descobertos muito lentamente. Ele, o corpo humano, está em estreitíssima harmonia com toda a Galáxia. E isto pode parecer um disparate, mas não é. Nada há que não integre o Todo e esta é a Lei da Harmonia. Tudo em nossa Galáxia funciona em perfeita Harmonia e em perfeita Ordenação integrados entre si. E o que determina esta Harmonia e esta Ordem são as Leis, desde aquelas que definem a relação entre os átomos químicos dos elementos da tabela periódica, até aquelas que definem a relação entre galáxias no Espaço. 

— Para não ir demasiadamente longe, basta que eu cite as pesquisas psicológicas que demonstram claramente que as Leis da Gestalt funcionam igualmente para chineses como para índios brasileiros. Do mesmo modo, as Leis do Condicionamento também agem em qualquer ser humano, seja de que localidade do planeta ele seja. Além disto, há os fenômenos que já são pesquisados cientificamente como aquele da Lei da Sincronicidade e Lei da Ressonância Harmônica, em que se descobriu que numa vasta campina, os pirilampos começam suas piscadelas desarmonicamente. Mas com o decorrer do tempo e o avançar da noite, todos os que se encontram naquele ambiente passam a acender e a apagar suas “lanternas” ao mesmo tempo, estabelecendo-se entre eles uma harmonia sincrônica que é incapaz de acontecer por vontade própria ou porque eles se estejam enxergando mutuamente.

— Então, voltando ao corpo humano, o Budismo Teosófico afirma que nós temos corpos tamásicos, rajásicos e sátvicos. 

— Um corpo tamásico tem relação na Medicina com a classificação de Kretschmer denominada de pícnico. Um corpo pícnico é aquele gordo, pesado, de ossatura densa. Este médico afirmava que um físico rotundo, pesado e curto está associado ao caráter ciclotímico, isto é, temperamental, extrovertido e jovial. A propósito disto, quero apresentar a vocês um quadro excelente, bastante sintético e claro, que o Dr. Luis Pasquali colocou na internet no endereço http://veterinariosnodiva.com.br e que eu imprimi exatamente para lhes mostrar. Ei-lo aqui:

Para ver melhor mande abrir link em nova página

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— Atualmente esta classificação anda meio esquecida, com exceção de seu uso pela medicina psiquiátrica, no que fazem muito bem os médicos. Os psicólogos, apegados que são às novidades, não levaram avante uma pesquisa mais profunda sobre a observação criteriosa que fez Kretschmer. Particularmente, acho muito válida sua observação. Com alguns acréscimos mais esclarecedores pode muito bem ser utilizado pelos psicólogos.

— O corpo tamásico, pícnico, é predominantemente materialista, isto é, seus interesses em tudo têm relação com o mundo exterior e imediato. Gostam da comida farta, gostam de artesanatos, principalmente os que se relacionam com o barro, a terra, a madeira e a pedra. É o corpo de alguém que tende fortemente para a distensão, o relaxamento, a fuga à luta e ao esforço que não o restritamente necessário. Viver a vida buscando os prazeres imediatos é seu objetivo psíquico. São resistentes à mudança e fazem de tudo para permanecer no status quo. Tendem a reações rudes, brutas, quando se sentem ameaçados no seu “laissez faire”. Não é o caso de Felício.

— O corpo rajásico, leptossômico, determina no indivíduo ações que têm tendência à alta atividade; ao movimento forte, agitado, participativo. Mas buscam um ideal de neutralidade das idéias, fugindo à participação em facções de quaisquer natureza. No entanto, quando se envolvem em alguma, mergulham de ponta-cabeça. A consciência de rajas volta-se predominantemente para os processos sociais, para o materialismo do pensamento imediato, no sentido da ligação com a sensualidade, as dores, os prazeres da vida e seus vícios. Este comportamento acontece porque tem índole intempestiva, inquieta, aventureira, imediatista e agressiva, no sentido de buscar aproximação do novo, do excitante, do aventureiro. Este é o caso de nosso amigo Felício.

— Uma vez que eu quebrei as cadeias que prendiam nosso amigo a um estilo de vida mais condizente com os tamásicos, que se apegam a ritos e rituais para evitar pensar por si mesmo, sua Natureza Oculta Corporal se revelou com força e isto me causou preocupação, pois tenderá a exagerar na busca pela “recuperação do tempo perdido”

— Então, foi por isto que nos chamou aqui? — Perguntou Vera, toda interessada.

— Sim, foi. Eu queria esclarecer esta qualidade “oculta” de nossos corpos a fim de que ele tenha mais peso para se pesar e mais medida para se medir, equilibrando suas ações segundo estes pesos e estas medidas.

— Doutor — disse Vera — existe uma Ciência não-pragmática, chamada de Ayuveda que  identifica as constituições mentais de cada indivíduo chamando-as de gunas. O que o senhor nos explicou são as gunas?

— Sim. Tamas, Rajas e Sattwa são conhecidas no Budismo Teosófico como Gunas e afirmam eles que todos os corpos, humanos ou não, animados ou inanimados, possuem o predomínio de uma destas gunas. Inclusive há a Medicina Ayuvédica que estuda os alimentos e as plantas segundo o predomínio das gunas, classificando-os de conformidade com as qualidades gunádicas que apresentam. De certo modo, os Druidas também fazem este estudo, ainda que não empreguem a linguagem budista-teosófica.

— E como o senhor descreve o corpo sáttiwico? — Perguntou Felício, atento.

— Um corpo predominantemente sáttiwico é impulsionado para progredir, para evoluir e se aperfeiçoar, tanto emocional quanto intelectual e espiritualmente. Quando admiramos as atitudes de uma pessoa considerada bem evoluída, nós estamos admirando atitudes, posturas e concepções típicas do sattiwico, muito ligadas também aos ideais que se voltam para a cultura da paz, como a compreensão, o perdão, a compaixão e a fraternidade. Corpos com predomínio da Guna Sattwa emprestam à Identidade Individual forte tendência para o Místico, a quietude mental e o desprendimento do mundo comum. A pessoa tende a, quanto mais esta guna predomina em seu Ser, se desapegar do mundo e de suas ilusões. Tornam-se calmas, tendentes à introversão, à quietude e à fuga ao contato social, que a incomoda por entendê-las como superficiais. Quem está nesta sintonia mental procura soluções para um bem em comum, que abranja a todos. Seu sujeito é NÓS e seu verbo vem sempre no plural, pois não são egoístas e gostam de dividir com todos, desde que sejam por ela selecionados como bons para compartilhar de sua intimidade.

—O senhor acaba de se descrever — observou Vera, com um sorriso divertido.

— É. Tenho o predomínio da Guna Sattwa em meu Ser, do Corpo à Identidade. Mas o que nos interessa agora é Felício. Ele deve refrear a guna Tamas em seu corpo e enfatizar mais as qualidades da guna Rajas. Deve entrar nos grupos de jovens, idosos, gerentes ou serventes com a intenção de mais ouvir que participar. E deve buscar a prática de alguma atividade física como a natação, pois sei que ele nada bem e gosta de nadar. O que não deve, de modo algum, é deixar que a força da Guna Tamas predomine sobre a força de Rajas, pois isto o faria literalmente perder-se de si mesmo. Pesquisar é muito característico de Rajas. Então, que nosso amigo Felício pesquise, mas com controle. Neste momento de sua vida ele se encontra em choque e em revolta. Choque porque descobriu que andou iludido por muito tempo; revolta porque se julga enganado. Mas seja no que for, em tudo há sempre uma ponta da Verdade. Ela jamais se revela toda em parte alguma e por meio nenhum. Mas aos poucos vai levando àquele que busca suas pistas a se aproximar de si mesmo, o que é o primeiro e verdadeiro passo para a Evolução Interior, a Iluminação budista ou a Individuação Jungueana.

— A propósito, doutor — cortou-me Felício — eu gostaria de discutir com o senhor a questão da partenogênese de Maria, bem como aquela de sua virgindade. O senhor não as aceita de modo algum e eu gostaria…

— Em outra ocasião, meu amigo. Em outra ocasião. Primeiro quero que você pense bem no que eu lhe disse. Não somente pense, mas procure informar-se sobre este tema que é sumamente rico e amplo. Na Internet, filtrando com cuidado o que ali se coloca sobre o tema, você vai encontrar muita coisa esclarecedora. Há os exageros, mas estes você tem capacidade de discriminar e deixar de lado. Nada de Sectarismo. Mantenha-se com a cabeça fria e pesquise sempre como cientista, nunca como um iludido que busca o Elixir da Verdade e da Felicidade. Isto não existe. Agora, se me dão licença, tenho muito o que fazer. Vocês são livres para ficarem aqui e discutirem o que ouviram.

Retirei-me e eles se engalfinharam por mais de uma hora em uma discussão acalorada sobre as Gunas e o Ayuveda.

Eu não mais me intrometi.