Goiânia tem belos parques e, às vezes, eu vou até eles e fico zanzando por lá.

Goiânia tem belos parques e, às vezes, eu vou até eles e fico zanzando por lá.

Eu acabara de distribuir as cartas-convite pela rua MA-3, do Bairro onde Moro. Ontem, por duas horas, ficamos, minha filha e eu fazendo este trabalho cansativo. Ela está reativando a Associação de Moradores e eu fui escalado para ser seu pau-pra-toda-obra. E aqui estou, sob o sol quente das 10:30 horas, colocando a última carta na última casa da rua. Está danado de quente e mesmo tendo passado um protetor solar 60, ainda sinto as pinicadas do Sol furioso.

Estou regressando a casa, quando vejo, longe, na rua, um homem alto que caminha em minha direção. Ele é forte e tem passadas largas e decididas. Penso: “O sujeito está apressado” e continuo meu caminho. Quando estamos próximos um do outro, reconheço o estranho: é Jesus de Deus. Abro aquele sorriso de satisfação. É sempre bom encontrá-lo, principalmente quando ele aparece nos momentos em que menos é esperado.

Vereador, em qualquer Estado, não é confiável.

Vereador, em qualquer Estado, não é confiável.

Vou em sua direção, mão estendida num cumprimento, que ele ignora e me dá aquele abraço carinhoso. Desapareço dentro de seus braços fortes e peitoral largo.

— O que o senhor faz por aqui, neste sol quente? — pergunta, depois de me deixar respirar.

Conto-lhe o que estou fazendo e ele prontamente se oferece para ajudar. Não dá mais. Não há mais convites a serem distribuídos e ainda faltam quatro ruas. Voltamos para minha casa, a passos lentos e conversando.

— Então, sua filha resolveu topar a parada? — Perguntou Jesus, interessado. — Parece que estava resistente…

— Sim, estava. Mas foi incentivada por um amigo e, meio à força, está na briga. Mas está assustada. Muito assustada. Principalmente porque enfrenta um politiqueiro, um pau mandado que, coitado, só trabalha por ter um político que lhe arranjou um contrato no Município, compreende? Em troca, tem de funcionar como cooptador de votos para o sujeito. E por causa disto, ele atropela minha filha e usa seu nome e o da Associação em convites indevidos através do FACEBOOK. É uma dor de cabeça e um aborrecimento constante. O sujeito é arteiro, aproveitador e sempre aplica golpes baixos. É rápido na ação. Tenho a impressão de que passa seus dias de olho no que ela diz e programa fazer, para correr à sua frente a atropelar seus planos em benefício de seus padrinhos. Para esta reunião, que vai ser dia primeiro, já convidou “líderes” de outros bairros e vereadores, o que é um atrapalhamento sem nome. Minha filha não quer políticos metido na Associação, até porque é contra a Lei, mas o sujeito insiste em trazer seus padrinhos. Precisa firmar sua figura diante deles. Acho que vai dar dor de cabeça, na reunião…

— Mas as Associações não precisam dos Vereadores? Eu sempre soube que uma Associação de Moradores não funciona se não contar com os Vereadores. São eles que atuam junto à Administração Municipal e só através deles é que a Associação pode conseguir os benefícios que pleiteia. Considerando isto, meu amigo, não é bom que o tal “pau-mandado” traga seus vereadores para as Assembléias?

— Não, não é. Os Vereadores sempre querem “botar a Associação debaixo do sovaco”, isto é, entram pela porta dos fundos e logo estão ditando o como e o quando uma Associação deve ou não fazer alguma coisa. Eles as transformam em seus “currais eleitorais”. Além disto, quando um Vereador domina uma Associação e os seus adversários tomam conhecimento disto, estes tratam de torpedear toda e qualquer iniciativa do adversário, de modo que tudo o  que ele tentar em benefício da Associação é barrado politicamente. Aí, o tempo se escoa e o bairro não consegue nada do que precisa. A briga entre os vereadores e seus partidos termina por prejudicar o povo. Está entendendo o rolo?

— Então, como é que sua filha deseja levar este trabalho que, já vi, é andar sobre o fio da navalha?

— Ela, segundo orientação do amigo que a induziu a entrar nesta unha-de-gato, deve manter os Vereadores e o pau-mandado sob rédeas curtas. Por exemplo: aos que vierem às Assembléias sem o convite oficial da Associação, assinado por ela, não serão aceitos como Vereadores, mas somente como simples cidadãos convidados. Como tal, não sendo morador do bairro, podem assistir, mas não podem opinar em nada nas deliberações dos moradores. A Associação procurará estes mesmos cidadãos, na condição de representantes do povo, na Assembléia Legislativa Municipal, onde, então, eles trabalharão usando o mandato que lhes foi outorgado para trabalhar pelo povo. É um objetivo quase utópico, mas se ela não conseguir se impor assim, vai ser duro.

— É… Vai ser mesmo. E o que o amigo está fazendo aqui, agora, neste sol de rachar?

— Colocando cartas-convite para os moradores. Estes, constituem outro dilema duro para minha filha. Ela tem de conseguir fazer que eles “saiam da toca”.

— Saiam da toca? 

— Sim. Os moradores têm o mau vício de chegar do trabalho e se entocar em suas casas. Ninguém conhece ninguém, nas ruas. Só os jovens é que se dão devido ao futebol ou à convivência em clubes e colégios. Mas quando no bairro, raramente se juntam para planejar uma ação conjunta, que una suas famílias.

— Puxa! Eu não sabia que o pessoal daqui era assim, tão desunido. Por que você acha que eles agem deste modo?

— Estive pensando muito a respeito e concluí que se trata de uma reação de anomia. A mesma anomia que adoece todo o povo brasileiro.

— Anomia quer dizer… Indiferença… Desânimo… Alienação Social… É isso, não é?

— É, mas é um pouquinho mais complexo este negócio, Jesus de Deus. A anomia é um estado social de ausência de normas, uma anarquia, considerando a relação entre os indivíduos e as forças de controle social para uma convivência harmônica. De certo modo uma Associação de Bairro é uma Força de Controle Social. Ela termina por criar normas de comportamento que regulam a convivência dos moradores do bairro, entende? E normas reguladoras sempre se chocam com a tão decantada Liberdade Democrática a Qualquer Custo, filosofia dos que sub-repticiamente desejam o caos social.  Émile Durkheim, sociólogo francês, utilizava as taxas de desvio do comportamento, a condição das leis e o critério de punição como índices da anomia de uma população. Mesmo buscando fugir aos conceitos psicológicos, ele cria que o egoísmo, a competição insaciável e a ausência de sentido e de objetivos poderiam ser apontadas como as reações prováveis dos indivíduos que vivem em uma sociedade anômica, na qual os obstáculos estão no funcionamento ordenado da sociedade. Eu tenho defendido a tese de que o nosso Brasil é um pais atualmente profundamente anômico. 

Jesus de Deus permaneceu calado, pensando um pouco. Depois, questionou.

— O senhor acha que estes parâmetros: egoísmo, competição insaciável e ausência de sentido e de objetivos, são a causa da suposta anomia dos moradores deste bairro?

— Bom, pode ser que esteja ocorrendo uma competição insaciável entre a população do bairro, principalmente em função do Evangelismo. Como você já percebeu, nesta área tão pequena, de não mais que 400 residências, há nada menos que três templos de diferentes ramos evangélicos disputando fiéis. Não incluo a Igreja Católica porque ela foi feita pelas beatas do bairro vizinho ao nosso e é uma iniciativa à parte. Mas a competição pelo dízimo dos fiéis é feroz entre os pastores.

— E isto me entristece muito — ouvi-o dizer com voz apagada e olhar perdido.

— Pois é. Mas é a realidade que todos vivemos aqui. Então, no que diz respeito à competição feroz, creio que o cerne se encontra na religião. Agora, para mim, o que mais fortalece a ração anômica desta população, a meu ver, é o egoísmo, sabe? As pessoas fogem umas das outras. Um vizinho passa anos morando em uma rua e não conhece seu vizinho de parede. A indiferença é espantosa. Veja, está difícil trazer os moradores às reuniões da Associação. Todos sabem o que é e para que serve a entidade, mas quase ninguém se interessa em nela participar ativamente. O que estamos fazendo, neste momento, é um esforça danado para conseguir conscientizar os moradores de que precisam dar-se as mãos. E como se não bastasse a dificuldade da luta contra a anomia reinante, há, ainda, o “pau-mandado” tentando não somente manipular a inciativa, como, também, sabotar esforços que lhe parecem não se voltar precipuamente para seu protegidos políticos. Sua ação afasta os poucos moradores que atendem ao chamamento para as Assembléias. Eles não têm nem ânimo de questionar e inibir a ação do sujeito. Minha filha fica sozinha e isto é, realmente, apavorante.

Novamente Jesus de Deus silenciou por um tempo. Estávamos já diante do portão de minha casa e ele parou sob a sombra do oitizeiro que tenho na calçada.

— Estive pensando e creio que você está errado. Não se trata de anomia social, mas sim de depressão coletiva. Os moradores daqui, como, aliás, todos os brasileiros, estão deprimidos. Fortemente deprimidos. E no seu bairro, esta depressão coletiva faz que se recolham uns indiferentes aos outros. E é natural. A reação de depressão instala uma necessidade de isolamento para busca de uma paz e de um sossego que não se encontra neste comportamento que, no entanto, é característico do deprimido. Eles sabem que a Associação é muito boa iniciativa, mas falta-lhes o ânimo para participar do esforço, entende meu ponto de vista?

Fiquei pensativo. Era minha vez de refletir e não me fiz de rogado. A óptica pela qual ele entendia a situação psico-emocional dos moradores era muito interessante e mudava para pior minha visão a respeito do mesmo tema.

— Você coloca todos os moradores do bairro no mesmo balaio dos que estão quebrando o pau pelas capitais do país, inclusive aqui. Mas não é generalizar demais, não?

— Não creio. Uma nação é um organismo que deve funcionar sadiamente. E o sistema nervoso central deste organismo social é a Política. Como você sabe, neste país a Política está muito doente e o vírus que a ataca é intensamente resistente a qualquer medicação…

— Os polititicas…?

— É, se o senhor quer chamá-los assim… Eles mesmos. O que fazem e que é explorado pela Mídia corrói o ânimo dos brasileiros. Principalmente quando tomam conhecimento de que têm de trabalhar cinco meses do ano para cobrir a gula dos Impostos, cuja dinheirama é muito mal utilizada pelos que foram eleitos para justamente trabalhar com ela em benefício da nação. 

— Ora, Jesus, gente deprimida não reage…

— Depende do grau de depressão, doutor. O senhor sabe que a depressão nada mais é que a agressividade natural da pessoa, a qual é reprimida. Nesta condição de repressão, ela provoca depressão que aparenta uma anomia social; mas no íntimo subliminar da pessoa a agressividade reprimida transmuta-se em violência. Nas manifestações de rua o senhor pode ver bem esta agressão violenta em função da depressão coletiva nacional. Os mais deprimidos são os que mais sofrem da repressão de sua agressividade natural e são os que se chama de baderneiros ou vândalos. No fundo, são doentes sociais em função da má política que se pratica no Brasil. Eu creio que os moradores deste bairro estão nesta condição. A violência está latente no íntimo de cada um e sua filha tem de estar atenta a isto, pois, a qualquer momento, uma frase mal compreendida pode fazer que uma reação em cadeia contra ela, aconteça. E se o “pau-mandado” é esperto, pode manobrar a situação para que ocorra uma situação onde a tal frase mal compreendida se torne o estopim que irá detonar os esforços que ela faz para estruturar a Associação. A propósito, o senhor tem de se auto-vigiar, pois tem um temperamento explosivo, sofre de “pavio curto” e pode ser o estopim para a explosão indesejada… Compreende?

Permaneci calado e tomando consciência do que Jesus de Deus me dizia. Ele tinha razão, principalmente no que dizia respeito a mim. E eu havia, inadvertidamente, introduzido um amigo meu, Sensei de Karatê-dô e tão ou mais esquentado que eu, a integrar a Diretoria a ser eleita. O perigo para minha filha era duplo.

Mais que nunca eu tinha de me envolver com a PM, com o seu Sub-Comandante para a Região Leste onde se insere nosso bairro. Ele está interessado em que eu ministre aulas de Tai-Chi para crianças em situação de perigo por serem pobres e viverem bem próximo da criminalidade. Talvez esta aproximação nos ajude na Associação. Não pretendo ensinar as técnicas marciais, mas tão-só a parte da Yoga, que é muito válida para crianças e adolescentes em tal situação. Eu havia ido com minha filha até o Comando e sem me controlar falei demais sobre minha condição de Psicólogo Clínico com especialidade em Casais e Família, assim como falei de meu treinamento em Tai-Chi. Pronto. Foi o bastante para que o militar abrisse para nós o serviço social que por iniciativa própria leva a efeito com o pouco que tem à sua disposição. Eu me entusiasmei e me coloquei à sua disposição para dar palestras às famílias das crianças e até mesmo triná-las na Yoga do Tai-Chi. Mas já estava arrependido. Esta conversa com Jesus de Deus, no entanto, me colocou de volta no olho do furacão. Terei de quebrar minha própria depressão social, o que requer um esforço triplo, pois terei de agir para ajudar dezenas, talvez centenas de outros, adultos, crianças e adolescentes em situação de risco.

Quando voltei a mim e queria falar, espantei-me. Jesus de Deus já não se encontrava ali. Tinha ido embora tão sorrateiramente que eu nem percebera…