Esta é a imagem de um espírito negro, um desencarnado voltado para o Mal. é conhecido entre os espíritas de terreiro como Exu Capa Preta.

Exu, a entidade do Candomblé que substituiu o famoso Hermes dos gregos.

Jesus de Deus chegou acompanhado de Orozimbo. Os dois vinham numa engalfinhada discussão sobre Exu e Deus. Franqueei-lhes a entrada e fomos sentar à mesa, na varanda. Eu continuei lendo o livro “O JULGAMENTO DE JESUS”, escrito por Gordon Thomas e que traz na capa um destaque: “mais de 1 milhão de exemplares vendido”. Em dado momento a discussão entre os dois arrefeceu e Orozimbo se voltou para o livro que eu segurava nas mãos.

— O qui é qui vancê lê de tão interessante qui num prestô atenção in nóis? — Perguntou ele, espichando o pescoço para enxergar a capa, onde se vê Jesus semidespido, braços amarrados às costas, coroa de espinhos na cabeça, de pé ao lado de Pilatos, que o aponta à multidão com a mão esquerda aberta.

É assim que está no "inconsciente coletivo" a figura de Jesus ressurreto.

Ei-lo. quem foi? Por que veio até aqui? O que desejava? Por que não foi compreendido?

— Um livro que foi escrito sobre o julgamento de Jesus — respondi sem tirar os olhos do que lia.

— Mas vancê num teim otro do mermo assunto? Véio lembra qui teim, sim.

— É verdade. Eu tenho.

— Entonce, pra que lê mais um?

— Todo livro sobre o Mestre dos Mestres me interessa, Orozimbo. Há sempre uma nova faceta revelada em cada publicação nova. Um quebra-cabeça que se monta aos pouquinhos e sempre traz surpresas e um pouco de luz para a escuridão das mentiras seculares que a Igreja lançou sobre Sua História, quer por fanatismo, quer por desequilíbrio psicoemocional daqueles que, depois, foram santificados por ela. 

— E aquela coleção do Benítez? Ela não lhe preencheu a curiosidade? — Perguntou, por sua vez, Jesus de Deus, olhando-me com um estranho olhar de fogo, que me despertou a curiosidade. Aquele homem sempre me intriga.

— Em parte, sim. Mas em parte. Ele não tem o privilégio de ser “O Escritor” a respeito deste assunto enrolado como cabelo de nego.

— Eta, diabo. Lá vem ele mexendo cumigo — protestou Orozimbo.

— Não estou mexendo com você, meu amigo. E você sabe disto. É uma expressão de minha terra, só isto.

— Entonce, use otra, home. Deixe quieto os cabelo dos negão.

— Vou pensar no assunto. Não sou preconceituoso e você sabe disto. Agora, se você é, o problema é seu.

Jesus de Deus estourou numa sonora gargalhada, o que irritou mais ainda o Velho Orozimbo. Depois, pediu que eu lesse em voz alta o que me fazia menear negativamente a cabeça. Atendei-o e li.

Ela é imaginada assim: etérea, inumana, irreal. No entanto, foi uma mulher de mãos calejadas, pés de sola grossa como toda mulher de sua época.

A mulher e seu filho. O casal mais misterioso de todos os tempos.

— Bom, estou lendo uma parte fantasiosa do escritor, pois nada há que comprove o que ele narra, exceto sua imaginação. Diz respeito ao encontro de Jesus com João Batista, no famoso batismo do Cristo pelo seu Predecessor. A descrição é totalmente diversa daquela que faz Benítez. Segundo este autor que leio, Jesus e João Batista conversaram muito, depois do ritual do mergulho nas águas do rio, que para Benítez, não era o Jordão e sim, um afluente dele. Segundo Benítez, Jesus não conversou com João Batista. Este, mal o batizara, sumiu do lugar, correndo para se abrigar em seu esconderijo no meio da mata ciliar. Eis o que Gordon Thomas escreve. Ele informa que João Batista e Jesus se retiraram para uma gruta onde os dois, acocorados um diante do outro, conversaram e Jesus conta ao primo o que aconteceu no seu nascimento: “Jesus descreveu como, em sonho, “o anjo do Senhor” falou delicadamente com José e lhe disse para não se envergonhar de tomar Maria como esposa, pois a criança que ela carregava não era de um outro homem, mas havia sido colocada ali pelo Espírito Santo, o próprio Deus; e que seu filho viria ao mundo para redimir seu povo do pecado. João atualizara uma profecia que tinha sustentado gerações, desde que o profeta Isaías disse pela primeira vez:’Por isso o Senhor mesmo lhes dará um sinal: a virgem ficará grávida e dará à luz um filho'”.

Calei-me e os olhei, com um olhar cético. Jesus de Deus balançou a cabeça lentamente e me olhando nos olhos perguntou:

— O senhor sabe quem foi o Profeta Isaías?

Isaías, o Profeta que, segundo a Bíblia católica, previu uma virgem dando  à luz.

Isaías, o Profeta que, segundo a Bíblia católica, previu uma virgem dando à luz.

— Sei. Foi um judeu “furiosamente” religioso, que viveu entre 765 antes do nascimento de Jesus e até 681, durante os reinados de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias. Isaías foi contemporâneo da destruição de Samaria pelos assírios e, também, da resistência de Jerusalém ao cerco das tropas de Senaqueribe, que sitiou a cidade com um exército de 185 mil assírios, lá pelos idos de 701 antes do advento do Rei dos Reis. Quando estudei Historia Geral, no Ginásio, fui apaixonado por Senaqueribe e pelos assírios. Sempre fui fascinado pelos assírios. Foi fácil, para mim, gravar este episódio bíblico por causa do estudo de História Geral.

— O bichim aí tá bem informado, né não? — Riu Orozimbo, olhando para Jesus de Deus.

— É. Ele aprendeu bem a lição de catecismo… — E voltando-se para mim, Jesus de Deus perguntou: — Vi que meneava negativamente a cabeça, quando leu esse trecho. Por que?

— Porque nele o escritor introduz sub-repticiamente fábulas fabulosas criadas pelo Catolicismo, muitos anos depois da cruel morte infligida ao Jesus judeu.

— Por exemplo? — Pediu meu amigo, olhando-me muito sério.

O arcanjo Gabriel visita Maria para lhe anunciar sua gravidez. A auréola é invenção cristã.

O arcanjo Gabriel visita Maria para lhe anunciar sua gravidez. A auréola é invenção cristã.

— Primeiro, Jesus teria relatado que o anjo, em sonho, asseverara a José que Maria não tinha copulado com outro homem e a criança em seu ventre ali fôra colocada pela Vontade de Deus. Aliás, ele usa uma expressão que é criatividade dos Papas: Espírito Santo. Isto é invencionice. O escritor se adéqua ao que as inverdades introduzidas na História Bíblica asseveram para fortalecer os dogmas ditos cristãos. Segundo, Jesus teria dito que o anjo asseverara a José que seu filho vinha ao mundo para redimir seu povo do pecado. Mais uma adequação do escritor às invencionices acrescentadas à História de Jesus. Ninguém vai-me convencer de que Deus tenha mandado Jesus com a missão precípua de redimir um único povo dos seus supostos pecados. Primeiro: até hoje a Igreja não definiu com clareza o que seja o tal pecado. Nos tempos de Jesus e antes dele, o Templo inventava milhões de pecados e trazia os hebreus controlados com mão de ferro e idéias terroristas apavorantes. Segundo: há até bem pouco tempo, era pecado punível com a morte contradizer a crença religiosa que afirmava que a Terra era plana e o Universo girava ao seu redor. A idéia de pecado muda ao sabor das crises epilépticas de certos papas na história religiosa dos católicos. Masturbação, no meu tempo de criança, era pecado grave aos olhos da Igreja e a criança era punida com bolos de palmatória, aplicada pelo confessor. Então, o que é e o que era PECADO aos olhos do Criador? Eu não sei. E olha que venho estudando isto há anos…

Jesus de Deus sorriu e acenou afirmativamente com a cabeça.

As Tábuas da Lei.

As Tábuas da Lei.

— Para os judeus — disse ele, olhando-me nos olhos — pecado era transgredir as Leis determinadas pelos Rabis do Templo. Logo, leis judaicas e, também, aquelas supostamente ditadas por Deus através de seus profetas e seus anjos. E o senhor tem razão. Os rabis inventavam milhões de pecados, de conformidade com seus interesses pessoais ou grupais. No entanto, temos de concordar, que as Leis que Moisés apresentou escritas nas famosas Tábuas da Lei, foram excelentes para controlar um povo de escravos, revoltado, vingativo, rancoroso e cheio de crença em um Deus guerreiro, odioso e protetor apenas deles. Moisés tinha de criar esta figura dantesca, pois sem ela jamais teria conseguido obter a obediência dos hebreus recém-libertados da escravidão. Certamente que, desunidos, eles logo seriam feitos escravos por outros povos. Afinal, eram nômades sem terra e sem nada que lhes pertencesse. Párias do mundo naquele tempo. E continuaram párias até hoje. À força das armas e das intrigas políticas, conseguiram, com a ajuda dos britânicos, que lhes fosse dado um pedaço de deserto para construírem uma nação para si. E isto agora, já nestes tempos. Desgraçadamente, para eles, o país que lhes deram, um pedaço do deserto,fazia parte do território do povo que mais os detesta: os palestinos, cuja maioria, tal como os judeus, é de gente que não tem pátria nem cidadania em qualquer parte do mundo. Os palestinos se sentiram invadidos e ameaçados com a chegada dos judeus impostas pelos britânicos e daí a resistência à ocupação jamais aceita.

— É, eu li sobre isto. A intrigante história dos hebreus é um desafio. Por que logo eles foram os excluídos do mundo? Por que Jeovah não foi capaz de lhes minorar as penúrias? Ou, melhor dizendo, por que o Criador fez que aquele povo se tornasse um excluído de todas as nações? Será que têm o triste destino de virem a ser o estopim da guerra que vai aniquilar esta humanidade? Eu não sei. Mas sei que Jesus não nasceu entre eles à-toa. Veio para tentar fazer que mudassem o tremendo condicionamento religioso a que foram submetidos e, com isto, fazer que se tornassem mais integrados entre as nações. Mas parece que esta não era a Vontade do Pai Celestial e os judeus terminaram por tramar Sua crucificação, dando um recado direto ao Criador: viemos para uma missão que Tu nos deste e a cumpriremos a qualquer custo. Mas, voltando à questão do pecado, entre eles, com certeza, não havia aquele do dogma da castidade da jovem mulher. Primeiro, porque a mulher não tinha qualquer importância para um judeu; segundo, porque eles podiam tomar por esposa a jovem que completasse 13 anos e 6 meses, ou seja, uma criança ainda. E os pais, uma vez assumido o compromisso da filha com um homem, permitiam que ela fosse morar com ele antes mesmo do casamento, já no período de noivado. Se durante este tempo eles copulassem não tinha importância porque já eram prometidos um ao outro.

Falei, observando atentamente a reação de Jesus de Deus. Mas ele se limitou a assentir com um leve aceno de cabeça e manter o olhar firmemente fixado nos meus olhos.

— E o senhor ficou sabendo disto através das pesquisas de Benítez, não?

— Sim, em certa parte, sim. Mas este desprestígio da mulher entre os judeus não era apanágio apenas deles. Quase todas as culturas daquela época não prestigiavam as mulheres como se faz atualmente.

— Óia, véio num qué sê desmancha prazê, mais quando a gente dá corda demais às danadinha, elas logo botam as unhas di fora. Acho qui, hoje, os home tão ficando mole…

Jesus de Deus riu e deu um tapinha na perna de Orozimbo, que passou a pitar todo satisfeito.

— E tem mais — disse eu, prosseguindo na conversa. — O autor deste livro, Gordon Thomas, se deixa apenas colocar no texto a idéia da virgindade da mãe de Jesus, sem comentários quaisquer. Isto só vem reforçar o engano em que, eu acredito, a Igreja mantém todos os cristãos.

— O senhor não acredita que a criança especial tenha sido mesmo produto de um ato divino? — Perguntou Jesus de Deus, parecendo-me muito sério. Olhei-o curioso e atento.

— Não. Definitivamente não sou defensor deste, para mim, absurdo. Jesus não precisava que algo tão anormal fosse feito para que Ele se destacasse dos humanos. Por Si mesmo, pelo Seu comportamento e pela capacidade de sapiência acima de qualquer humano Ele podia, como pôde, mostrar Sua Superioridade. Veja, Jesus de Deus, a se adotar este mito discriminatório, aceita-se, tacitamente, a idéia idiota dos histéricos padres do passado de que que o sêmen do homem é algo repugnante e imoral. Aceita-se que a cópula é algo nojento aos olhos de Deus e reprovável ao Seu Juízo. Mas isto é totalmente fora de propósito, visto que TUDO O QUE SOMOS E TUDO O QUE NOSSO CORPO É foi Criação do Poder Máximo dos Universos, ao qual chamamos Deus e Jesus chamada de Pai. Ele, o Criador, não possui em Si este senso de Imoralidade. Ou você discorda de mim?

— Véio num adiscorda, nhor não. Véio pensa cuma vancê — disse Orozimbo, sério.

— Sim, seu argumento é bom e verdadeiro. Mas não impede que o Criador, como o senhor chama a Deus, tenha tomado a decisão de realizar aquela partenogênese com o propósito de chamar a atenção das gentes para a Sua Existência. Uma existência que, o senhor pode ver, está sendo esquecida em favor da crença no poder da Tecnologia. E isto é um perigo mortal para a humanidade. Ou o senhor acredita que eu esteja errado?

— Então, não Lhe bastava apenas a partenogênese de João Batista? — Perguntei eu.

— Creio que não — respondeu Jesus de Deus. — João Batista não veio com uma missão trans-secular como a de Jesus. Ele ficou na História preso, digamos assim, a um rio. Não foi além disto. Sua morte foi obscura, ao contrário da de seu primo que foi um espetáculo dantesco e de injustiça além da suportável pela humanidade. E era preciso que fosse assim, para que ficasse na consciência de todos através dos séculos.

— Nisso aí, home, o Jesus de Deus tá certo mermo. Véio concorda cum ele.

— Bom, não discordo. Mas continuo não achando necessário que o Criador tivesse apelado para a violação da Natureza tal e qual Ele mesmo criou. Partenogênese não mais faz parte da Evolução Humana. É um modo de multiplicação que foi abandonada no filo humano. Por que regredir? Ele é o Senhor de Tudo e de Todos. Pode fazer algo melhor, não pode?

— Vamos voltar ao seu livro? — Convidou Jesus de Deus— Se continuarmos a discutir este assunto, jamais chegaremos ao fim.

— O que quer dizer que eu estou agindo como um cão que corre atrás do próprio rabo — observei, sarcástico.

— Como ansim? — Perguntou Orozimbo, todo atento.

— Se nosso amigo aí afirma que se continuarmos a discutir este assunto nunca chegaremos a um final, ele está afirmando que minha procura se destina a este moto perpétuo. Mas por que tem de ser um moto perpétuo a simples gestação de um corpo animal?

— Eta! Corpo animal? Vancê tá chamando seu Jisus de animal, é?

— Não. Eu falo segundo a visão teosófica. Este corpo que habitamos é um elemental da Natureza e obedece rigorosamente às Leis que lhe são determinantes na Evolução. O Espírito não é ele. E dizendo isto, digo que o Espírito de Jesus não era o corpo que ele habitou. Assim, a gestação que discuto diz respeito àquela do corpo físico em que viveu Aquele espírito superior. E assim sendo, não haveria razão para o Criador complicar algo tão simples e natural. Ou será que Jesus de Deus discorda de mim?

Meu estranho amigo. limitou-se a sorrir um sorriso indecifrável. Abanou negativamente a cabeça e comentou.

— Não, não discordo do senhor. A satanização do sexo coital foi criação de fanáticos que vieram muito depois do Jesus judeu. Mas acho que o que importa não é saber como o corpo d’Ele foi gestado e, sim, a razão ainda não esclarecida de Sua Vinda. Veja, se Ele é o Senhor desta Galáxia, qual a razão de se ter diminuído até se tornar menor que um pixel, se levarmos em consideração a relação de tamanho da Terra em comparação com outros corpos galácticos, a fim de trazer uma mensagem até hoje não compreendida, para esta espécie de seres ainda no princípio de sua evolução? Por que para Ele, gestor de uma Galáxia, esta raça de seres em evolução é importante? Eu creio que esta é a questão que devia interessar ao nosso doutor, não esta picuinha sobre a partenogênese ou não partenogênese da gestação d’Ele.

Fiquei em silêncio e pensando no que tinha acabado de ouvir. Sim, Jesus de Deus acertara em cheio. Mas, então, por que eu me prendia àquela falsa questão religiosa? Não encontrei resposta imediata e resolvi fechar o livro.

Eles se foram e eu fiquei ainda entalado com a pergunta que me fiz.