Míriam de Magdala.

Míriam de Magdala.

“Ela possuía cabelos cor de fogo, tinha olhos caramelados claros, dando-lhe o conjunto um aspecto muito felino. Sua face era de traços suaves, boca pequena e carnuda, rosto triangular e nariz levemente adunco. Seu olhar era penetrante e trazia um quê de malícia que desconcertava os homens. Era como se zombasse deles constantemente. Ao contrário da maioria das mulheres de sua gente, seus dentes eram alvos e não possuíam cáries. Tinha o busto empinado e andava de modo a realçá-los o melhor possível. Deixava claro que desejava despertar o desejo nos homens. E despertava. Era jovem, menos de 20 anos, mas já conhecia profundamente os prazeres da alcova. Não era alta, mas também não era baixa. Algo em torno de 1,75 m de porte esguio, de braços e pernas roliços. Pele clara, bem tratada com óleos e leite de cabra. Era a mais procurada e a mais cara prostituta do lugar. Entre suas coxas muitos homens importantes tinham gemido de prazer. Nas suas mãos habilidosas ou em sua boca perfumada eles haviam gritado de gozo. Ela era hábil nas artes de alcova. Chamava-se Míriam, era natural de Magdala, um vilarejo sem grande destaque na região, e naquele dia recebera o convite para ir dispensar os prazeres de seu corpo ao causídico mais temido e, também, mais caro da Galiléia. Seu nome era Simão, conhecido entre o povo como o Galileu.

Simão tanto podia trabalhar como advogado de defesa quanto de acusação. Em qualquer posição, era temível, pois conhecia a fundo a intrincada teia de regras e leis que a Torá Escrita e Falada impunha ao povo judeu. E as acusações e defesas eram, sempre, baseadas na Torá e em suas regras de comportamento. Regras que muitas vezes beiravam as raias do absurdo.

Ouro, o metal que vira a cabeça dos fracos e gananciosos.

Ouro, o metal que vira a cabeça dos fracos e gananciosos.

Míriam dispensou o mensageiro e ficou olhando o bracelete de ouro que lhe mandara Simão. Pegou-o displicentemente e o olhou rolando-o entre os dedos. Depois, sem mais se importar com a jóia, foi-se banhar no leite de cabra, ritual que não dispensava de modo algum. Seu corpo era seu ganha-pão e tinha de mantê-lo agradável, bonito e desejável.

Enquanto se banhava ouvia da escrava que a servia as histórias sobre um rabi, também da Galiléia, que vinha fazendo estardalhaço entre as gentes. Tentava não dar muita importância às histórias espantosas que se contava a respeito do tal rabi, que era conhecido como Yehoshua. Mas não sabia dizer a razão porque sempre ficava muito interessada quando a escrava falava do estranho homem. Dizia que era um jovem, o que não era normal para o título que ostentava. Alguma coisa se agitava em seu ser, tão logo lhe ouvia o nome. Uma inquietação que a incomodava, como se uma outra pessoa se contorcesse dentre dela. Uma pessoa que lhe causava ansiedade e lhe tornava a respiração opressa. Quase sempre, de modo brusco, interrompia a escrava e a mandava fazer alguma coisa longe de si, para que não lhe percebesse a agitação. Ficava confusa, com um misto de raiva e de culpa a lhe espremer o peito.

Simão seria assim, se vivesse em nossos dias.

Simão seria assim, se vivesse em nossos dias.

No outro lado da vila, Simão, alto, mais gordo do que desejaria ser, pele clara e gordurosa, olhos negros, de olhar falso e penetrante, face redonda e lábios grossos, distribuía ordens a seus criados. Seu ventre volumoso dizia bem do quanto era aficcionado da boa mesa. Tinha nariz fortemente adunco e seus dedos pareciam pedaços de salsichas que se movessem por vontade própria. Com vozerio impressionante dizia aos seus serviçais: “O homem que vem aqui a meu convite para jantar em minha companhia não é importante para mim, portanto nada de prataria na mesa nem comida cara. Uma salada, pão, alguns legumes e alguma carne de pato vai bem até demais. Sem vinhos caros. Apenas uma jarra de vinho de terceira categoria. Vou recebê-lo para ver se consigo provocar-lhe uma reação que o coloque em situação de ser condenado por injuriar de algum modo à Torá. E vou fazer isto, pelo Santo dos Santos! E vocês, nada das honrarias que normalmente dispenso a pessoas importantes. Ele é um pré-condenado, a quem eu tenho a missão de fazer cair a máscara diante do Sinédrio. Estou sendo pago a peso de ouro pelo Templo, que não suporta a falação impertinente do sujeitinho. Juntamente com ele vai vir Míriam de Magdala a convite meu. A esta, sim, vocês devem dispensar todas as honrarias que mulheres ricas e dadivosas merecem. Ela ainda não sabe, mas eu a usarei para fazer cair a máscara do homem”.

Pressurosos, os escravos ouviam e corriam para preparar a frugal refeição, escamoteando da mesa a prataria e substituindo tudo por louças mais humildes. Míriam chegou numa liteira dourada. O Sol já se encaminhava para o ocaso, lançando sobre a Terra sua luz alaranjada. Ela desceu da liteira como uma princesa que descesse as escadarias do Templo de Salomão e foi recebida por Simão, cujos olhares concupiscenciosos já diziam de sua excitação, prevendo uma noite de prazeres inauditos no  corpo daquela mulher. Ele a cobriu de mimos, que ela, com sorrisos melífluos e insinuantes foi recebendo com avidez disfarçada. Serviu-se-lhe um copo do mais caro vinho que havia na adega e os dois se sentaram para conversar.

— E então, Simão, por que tu te lembraste de mim? Há mais de cinco meses que me ignoras! Teu convite me surpreendeu.

— Ora, tenho andado muito ocupado e… e… bom, se me mantenho em constante contato contido, recebendo-te como te recebo agora, isto  se tornaria um problema dos grandes para mim.

Míriam de Magdala era acostumada a se vestir com o maior luxo que sua época permitia a uma cortesã.

Míriam de Magdala era acostumada a se vestir com o maior luxo que sua época permitia a uma cortesã.

— E é justamente devido à curiosidade que me despertou esse teu convite que aqui estou. Sou sabedora que mulheres como eu devem ser recebidas à noite, de preferência em dias onde não haja muitos convidados, mas parece que vais receber mais alguém além de mim, pela movimentação de teus escravos. Quem é? Terei de agradá-lo, também? Se é isto…

— Não, não. É certo que vem mais alguém, mas tu não terás de agradá-lo. Nem mesmo aparecerás diante de tal pessoa até que eu te chame.

— E quem é o infeliz merecedor desse desprezo que adivinho nos teus olhos e no teu sorriso de mofa?

— Mais um perturbador da ordem. O Templo está inquieto com a crescente popularidade do sujeito. Parece que ele anda angariando o povo, principalmente os pobres, juntando-os em torno de si através de uma pregação subversiva. Fala do Reino de Deus e diz que ele está próximo. Exorta as pessoas a se arrependerem de seus pecados e insiste em que ele é o filho de Deus na terra. Essas coisas bestas que, vez por outra, um louco dá de falar por aí. 

— Mas esse homem de quem falas, não é, por acaso, o que se chama Yehoshua bar Yoseph… É?

— Exatamente ele. Vejo que até tu já tens conhecimento do homem.

— Sim, tenho. E pelo que tenho ouvido, ele não causa nenhuma perturbação da ordem. Quando o povo o procura em grande volume, foge para longe, desaparece…

— …justamente porque é um charlatão. Vê-se ameaçado pela multidão, mete o rabo entre as pernas e corre a se esconder feito coelho. Não é um profeta verdadeiro. Eu acho. De qualquer forma, Caifás está-me pagando para pegar o sujeito numa falha em que possa ser preso e condenado pelos esbirros do Templo.

— Querem lapidá-lo? — Exclamou a mulher, horrorizada.

— Não sei. Sei que o Templo deseja ardentemente prendê-lo, mas até agora não encontraram motivo. Em suas falas, ele jamais fere a Torá. Ao contrário, serve-se dela justamente para desancar os exageros dos rabis, o que torna estas víboras muito assanhadas e inquietas. O homem é temerário ao extremo, mas reconheço que é esperto como uma raposa. 

— E vais recebê-lo para provocar um diálogo em que ele se traia?

— É. Vou, sim. 

— Tenho pena dele. O Templo não podia lançar sobre Yehoshua alguém mais perigoso e mortal. Mas… Onde eu entro nisso?

As odaliscas eram mestras em provocar o desejo carnal.

As odaliscas eram mestras em provocar o desejo carnal.

— Serás minha arma secreta. Espera e verás. Não vais ter de fazer quase nada. No devido tempo, chamar-te-ei e tu deverás vir à odalisca, semi-nua. Dançarás diante dele e lhe provocarás o desejo. Eu vou servir ao sujeito vinho de má qualidade a fim de o embriagar. Bêbado e com a tentação de teu corpo diante de si, ele terminará por falar asneiras. Tu serás minha principal testemunha. Tu e meu escravo Helal, que estará por perto, tudo ouvindo e tudo anotando.

Míriam de Magdala sentiu uma tristeza imensa escurecer seu coração. Teve ímpetos de sair dali e voltar para sua casa. Não sabia a razão, mas em seu íntimo gostava do tal Yehoshua. As histórias a seu respeito a fascinavam e não havia nada que tivesse feito ou dito que de sã consciência pudesse colocar qualquer pessoa contra si. Mas conteve-se. Simão tinha maus bofes e se ela fizesse o que seu íntimo pedia, com toda a certeza ele a perseguiria e  Míriam não queria aquele perdigueiro em seus calos.

Ele chegou diante da casa. Vinha com uma sandália muito surrada pelo uso. Pés empoeirados e de sola grossa de tanto caminhar pelo deserto e pelas sendas pedregosas daquelas terras. Trajava um haluk, mas de cor branca, ao contrário da maioria que era geralmente amarela. A longa vestimenta, como se fosse um balandrau, caía-lhe pelo corpo musculoso e esbelto, forte e alto, como se apenas pousasse nele, e parava a uns dez centímetros sobre seus pés. Não lhe ficava feio. Ao contrário, dava-lhe distinção, talvez pela cor branca. Via-se que escolhera a melhor roupa para vir ao encontro de seu anfitrião. Sabia que se tratava de uma armadilha. Seus seguidores o tinham insistentemente desaconselhado a vir meter-se na toca do lobo, mas ele era assim, destemido e sempre sereno. Parado diante da vetusta mansão, ele estudou os arredores e se demorou admirando a construção. Era rude, mas era bonita. Algumas tamareiras artisticamente dispostas ladeando o caminho de pedra que levava até a porta da mansão dava-lhe ares de importância. “Os homens sabem manipular bem o que a Natureza lhes oferta” — pensou consigo. “Elas não adquiririam tal beleza se não estivessem assim dispostas. Isto é bom. O senso de beleza eleva a alma”. 

Helal o viu através da janela e alertou seu amo. Simão veio olhar seu convidado, parado sozinho diante dos muros da grande casa. Riu, zombeteiro, e chamou por Míriam de Magdala para que também visse a figura ridícula que olhava parecendo assustado para sua mansão. Míriam aproximou-se, coração aos pulos. Era a primeira vez que seus olhos pousariam no famoso Yehoshua. E tão logo o fez sentiu leve tonteira e um estranho zumbido nos ouvidos. Sua boca ficou seca e pela primeira vez na vida envergonhou-se de si mesma. Quis recuar, mas a mão gorducha de Simão fechou-se em seu braço e a obrigou a ficar ali. Os olhos de Yehoshua passearam pela casa e vieram fixar-se nos de Míriam. Quanto tempo durou aquele olhar? Ela nunca soube dizer. Mas sentiu que alguma coisa lhe agitou o ser e com um safanão livrou-se da mão de seu algoz e se afastou. Um pranto assomou do fundo de seu coração e lhe custou muito sufocá-lo. Simão olhou-a intrigado e ela, com dificuldade, explicou que o homem tinha olhado para a janela e não era bom, para os planos de Simão, que ele a visse antes do tempo. Simão concordou com um aceno de cabeça e em voz baixa ordenou a Helal que fosse introduzir o convidado na grande sala.

Yehoshua permaneceu de pé esperando ser cumprimentado como era a praxe entre seu povo. Mas Simão nem mesmo lhe estendeu a mão. Apenas lhe indicou um banco de pedra e se sentou em outro. Bateu palmas e Helal apareceu com duas taças de vinho. Yehoshua sorriu levemente e declinou da bebida. Pediu apenas água. Simão não gostou daquilo. Contrariava uma parte importante de seu plano.

— Estou curioso em saber a razão desse convite que me fizeste — disse Jesus, fitando seu anfitrião nos olhos.

— Ora, estás ficando famoso entre o povo. Inquietas a muita gente importante e, parece, vendes-te como aquele que as gentes judaicas esperam para libertá-las do jugo romano. És a grande esperança dos zelotes e isto põe em polvorosa toda a nação. Teu ministério, não reconhecido pelo Templo, vem agitando os romanos e isto é muito perigoso para todos. Creio que sabes disto, não?

Jesus sorria e olhava fixamente para aquele homem que se julgava esperto.

— Nada digo que fira a Lei. Não falo às escondidas e não prego onde não se possa me encontrar. Muitas vezes tenho falado do próprio átrio do Templo e em minhas palavras não se encontra nenhuma que seja contra a presença dos kittins entre nós. Então, por que inquieto tanto?

— Não mo perguntes, Yehoshua. Eu não sei o que se passa pelas cabeças dos senhores rabinos, mas posso dizer-te que eles não estão satisfeitos com o que andas dizendo. Principalmente com os teus milagres… E por falar nisto, é verdade que podes transformar água em vinho? Se isto é possível, poderíamos fazer uma parceria. Sou, também, comerciante e essa habilidade que afirmam que tens, bem poderia ser lucrativa para nós ambos. Tu ficarias rico e o ouro é um poderoso escudo contra inimigos, em qualquer nação. Creio que sabes disto.

Yehoshua sorriu parecendo divertido. Ele percebia o apelo à ganância que lhe era feito e com desenvoltura e bom-humor respondeu, desconcertando seu anfitrião.

— O ouro não me atrai. Ele pesa na alma e creio que tu tens grande experiência quanto a este peso incômodo. E até onde sei tu não comercias, mas vives do Direito, da Lei. E não, eu não transformo água em vinho. É meu Pai que o faz.

Simão, que se sentia muito incomodado com aquele olhar sereno e duro ao mesmo tempo, ficou mais inquieto com aquelas palavras que lhe foram até o âmago do ser. Mas a agudeza de sua mente estava firme e logo percebeu o “pequeno deslize” de Yehosha.

— Pai? De que pai tu falas? Até onde sei, teu pai é um simples carpinteiro da Galiléia. E ele nunca fez nada de extraordinário.

— Ele fez tua casa e esta é uma habilidade que poucos têm. Mesmo assim não lhe reconheces algo extraordinário entre as habilidades que possui?

— Eu não sabia que esta casa tinha sido feita por ele — respondeu Simão, mexendo-se inquieto. Aquele homem era demasiadamente direto e firme. — Quando a comprei não me contaram este fato… tão… tão… extraordinário de teu pai.

Yehoshua riu e se recostou. Ele observava que não havia nenhum outro convidado, o que era uma clara desconsideração para com ele. Entre os judeus não se convidava apenas uma pessoa para casa, mas várias. Não só para demonstrar prestígio como, também, para que os convidados compreendessem que o anfitrião tinha boas relações sociais e pudessem, também, ampliar o número de seus conhecidos importantes. Também não se recebia um convidado sem lhe dar o beijo de boas-vindas. Mas Simão não se dignara a fazer este cumprimento com Yehoshua. Nem, tampouco, lhe oferecera água para lavar os pés e retirar o pó da estrada, proporcionando ao viajor um alívio ao cansaço. Nada destas gentilezas sociais fôra oferecida a Yehoshua. Mas ele parecia não ter notado e aparentemente estava à vontade. De certo modo sua descontração e seu estado de bem-estar, com aquele estranho sorriso no olhar, incomodaram Simão, que se sentia irritado com a descontração de seu convidado.

Caifás em seu traje cerimonial.

Caifás em seu traje cerimonial.

— Conversemos um pouco, enquanto meus servos preparam a mesa — disse Simão, lutando para manter o controle dos nervos. — Eu te convidei porque tenho curiosidade em conhecer um pregador que, mesmo não sendo um rabi reconhecido no Templo, vem causando tanto alvoroço entre as gentes. Dizem que até os gentios se sentem bem em estar contigo e que os recebes descontraidamente, não fazendo diferença entre eles e nosso povo. Por que? Julga-os iguais a nós?

— Eu não julgo. Eles o são.

Simão sorriu. Ia ser mais fácil do que tinha pensado. Trocou um olhar significativo com seu servo Helal e Yehoshua percebeu isto, mas não deu qualquer sinal de o haver feito.

— É blasfêmia o que afirmas. Ao menos aos olhos argutos de Caifás. Não temes dizer tais coisas? — provocou.

— Não. Está nos livros sagrados. Todos somos criação do Pai. Nada há que não tenha sido criado por Ele. Então, se Ele é o Pai de todos, todos somos irmãos e somos iguais. Ou será que tu desconheces as Escrituras?

— Elas não dizem que os gentios devam ser aceitos pelo nosso povo. Nós somos os escolhidos do Eterno, bendito seja seu nome.

O Pai das Leis que orientam os hebreus até hoje.

O Pai das Leis que orientam os hebreus até hoje.

— A divisão em gentios e não gentios é criação dos antigos profetas e aos olhos do Pai é vazia. Mas naqueles tempos era preciso que tal distinção se fizesse, para que nascesse o espírito de nacionalidade entre este povo escravizado, sofrido e totalmente destituído do senso de pátria. Mas isto deve ser posto de lado, eu te assevero. Ao Pai que está no céu não agrada que seus filhos se digladiem. No Seu reino uns não são superiores aos outros. Todos são seus filhos, logo, a seus olhos, todos têm os mesmos direitos. Ele criou Adão e de Adão todos nasceram. Assim, da primeira criação Sua derivaram-se as demais, obedecendo ao que está escrito no Gênesis: “Crescei e multiplicai-vos”. Esta ordem não separa os filhos do Pai, a partir de Adão, em bons e maus; em gentios e não gentios. E antes que me acuses de blasfemo, lembro-te que está escrito no Deuteronômio: “Não cobiceis a mulher de vosso próximo. Não cobiceis nada que seja de vosso irmão: a sua casa, as suas terras, os seus escravos, os seus animais ou qualquer outra coisa que lhe pertença”. Ali não é dito especificamente que não se faça isto somente entre judeus, mas sim que a Lei é válida para todos, gentios e judeus. Se o Pai quisesse que tal distinção fosse feita, isto constaria no Deuteronômio, ou será que estou errado?

— Falas do Santo, bendito seja seu nome, com desrespeito. Por que?

— E onde há desrespeito em minhas palavras? Indica-mo e eu me corrigirei.

— Tu o chamas Pai e isto é blasfêmia.

— E Ele não é nosso Pai? Não está escrito que foi Ele que nos soprou a Vida nas narinas através de Adão? E não é Ele que continua doando a vida, magnanimamente, a todas as gerações, gentios ou não gentios? Em verdade, em verdade eu te digo: o sopro do Pai que anima o judeu não é diferente daquele outro que anima aos que erradamente chamas gentios. Da mesma boca saiu o alento de vida e este alento é igual para todos. Por acaso, quando expiras, o ar que te sai dos pulmões é diferente do outro que tu acabaste de expelir?

Muitas vezes o pranto que se chora não é entendido nem por nós mesmos.

Muitas vezes o pranto que se chora não é entendido nem por nós mesmos.

Simão mexeu-se inquieto na cadeira. Atrás da cortina vermelha que separava a grande sala de visita daquela onde seria servido o jantar Míriam observava sufocada os dois homens e lhes ouvia a conversa. Seu coração batia descompassadamente no peito. Ela via, e não sabia como explicar isto, que ao redor de Simão uma luz escura o envolvia, enquanto ao redor de Yehoshua uma luz brilhante e dourada, suavemente o envolvia. Enquanto a luz escura parecia vir de algum lugar ignorado por ela, a luz dourada emanava de todo o corpo daquele homem fantástico. Mesmo sendo tratado com desprezo, ele era infinitamente superior ao arrogante Simão. E novamente aquele pranto desesperado subiu por seu peito e ficou engasgado na garganta. Ela lutava denodadamente para não o deixar escapar, mas sentia que não o conseguiria por muito tempo. Não era um pranto de desespero, mas de felicidade e isto a desorientava e perturbava. Por que tinha vontade de chorar?

— Tu citas o Deuteronômio e eu vou te seguir. Ali é dito que nós, Seu povo eleito, tenhamos temor a Ele. Taxativamente se lê: “Temei o Eterno, o nosso Deus, e adoreis somente a ele; fiqueis ligados a Ele e jureis somente pelo Seu nome”. Não há menção a gentios. Ali a Lei é específica: refere-se a nós, Seu povo eleito.

Yehoshua soltou uma sonora gargalhada, o que irritou profundamente seu anfitrião. Irritou-o e o desconcertou, pois aquela gargalhada descontraída o colocara com a estranha sensação de que tinha dito algo ridículo e isto o incomodava e o deixava inquieto e inseguro.

— Tu tiveste pai? 

A pergunta de Yehoshua pegou Simão totalmente desprevenido.

— Mas que pergunta mais despropositada, homem! Claro que tive e tenho pai. Se não fosse assim, como estaria aqui, sentado diante de ti?

— E tu o temes?

— Como?! Tu me perguntas se eu temo a meu pai?!

— Sim. Tu o temes?

— Claro que não. Que absurdo é esse?

— Se não temes teu pai terreno, que é passível de cometer ações súbitas e violentas contra os filhos, quanto mais será direito que temas ao Grande Pai que é pura Bondade e Amor? Eu te digo: ninguém deve temer ao Pai que está no céu, mas sim amá-Lo de todo coração e a Ele entregar sem temor e sem restrições a condução do fio de sua vida terrena. Pois esta vida não pertence a ninguém que não a Ele que vô-la dá por Amor e só por Amor. Ele vos dá não somente a vida, mas também a liberdade de vos moverdes e de falardes o que desejardes, pois a palavra do homem não lhe ofende os ouvidos.

— Estás dizendo, Yehoshua, que esse Pai a que te referes tão intimamente é o mesmo Eterno a que tememos?

— Sim. E digo que não deveis temê-lo, pois quem dá Amor irrestritamente não pode receber a ingratidão do temor a si, como paga de sua ação dadivosa. Ou tu discordas de mim?

— Mas o mesmo Pai que dá amor, meu caro, também dá castigo. Está escrito no Deuteronômio que Moisés, quando entregou ao povo as Tábuas da Lei, lhes advertiu: “Agora vos deixo a escolha: se quereis a bênção ou a maldição do Altíssimo. Recebereis a bênção se obedecerdes a Lei; recebereis a maldição se a desobedecerdes e vierdes a adorar a outros deuses que não o Altíssimo”. Tu citas o Deuteronômio e que eu saiba, baseias tuas prédicas no seu texto. O que tens a me dizer sobre isto?

— Em verdade, em verdade te digo que cabe ao próprio homem conceder-se a bênção ou a maldição. Para tanto, o Pai Celestial lhe deu a Consciência. Se a ouvir, o homem obedecerá à Lei, mesmo que a desconheça e mesmo que não seja hebreu. Mas se não a ouvir, então ele se condenará à penúria da maldição, ainda que seja o mais respeitado rabi do Templo. Mas a penúria, em nenhuma hipótese, virá de nosso Pai Celestial, isto eu te garanto. 

— Como podes garantir alguma coisa, homem imprudente? Por acaso vais-me dizer que tu O conheces? Tuas orações chegam aos Seus excelsos ouvidos por gritares mais alto que os outros? Se assim é, diz-me onde oras e eu irei contigo para também poder ser agraciado pelo Santo dos Santos, bendito seja Seu nome.

Yehoshua notou a irritação de Simão e percebeu que suas palavras o inquietavam, mas não recuou em sua posição. Nunca faria isto em toda a sua vida. Assim, continuou firme naquela conversa que começou com a intenção, por parte de seu anfitrião, de o fazer ficar na posição em que ele, agora, é que estava. Por isto, olhando firme para Simão e se endireitando no assento, fazendo que sua bela estatura aparecesse mais ainda, respondeu com voz firme e sonora, ainda que sem agressividade.

Ele orava assim, em êxtase e todo entregue Àquele que não tem nome.

Ele orava assim, em êxtase e todo entregue Àquele que não tem nome.

— Sim, eu O conheço. Falo com o Altíssimo em minhas orações e não mo digas que tu não oras a Ele, pois que se assim for, tu é que és o herege em que tentas me transformar com teu jogo de palavras. Ouve-me, Simão, não ores em voz alta e em grupo, pois o Pai não é surdo e pode ouvir o menor sussurro como aquele do vôo do inseto no meio da mata. Ores ao Pai no silêncio de teu coração. Uma vez eu disse e repito: Ele dará àquele que pede segundo seu merecimento. Nem mais nem menos, por maior que seja a gritaria e a ostentação que seus filhos exibam diante de Si. Orações em grupo e em voz altissonante são como os gritos de birra de uma criança teimosa à qual o pai ou a mãe não cede às vontades insensatas. O Pai Celestial não necessita de teatro que se Lhe faça para engrandecer seu filho. O Pai reconhece somente a humildade sincera e o Amor verdadeiro, pois ambas estas virtudes, juntas, geram a Caridade que é o bem mais precioso do ser humano. Nosso povo odeia os kittins porque estes não lhes demonstram caridade, mas se assim não fosse, ambos os povos viveriam em harmonia e seriam agraciados diante de Seus olhos. Ninguém ataca o caridoso, a menos que tenha maus propósitos em seu coração empedernido. É este o teu caso?

Simão estava atônito e por um momento ficou em silêncio, olhando fascinado para aqueles olhos castanhos que o miravam com um olhar mais firme que a rocha. Então, com um pigarro, retornou de seu longo alheamento, já perdido na trama da conversa a que tinha dado início.

— Vem, acompanha-me. A mesa está posta.

E sem esperar que Yehoshua se pusesse de pé; e sem lhe dar o direito de se colocar a seu lado para o acompanhar, seguiu adiante pedantemente. Buscava, com isto, esconder dos olhos argutos a confusão em que se encontrava diante dos argumentos irrefutáveis que seu convidado lhe apresentara.

À mesa, não chamou nenhum criado para realizar o ritual do lava-pés. Yehoshua pareceu não dar importância ao fato.

— Por que — perguntou de súbito o anfitrião — João Batista e seus seguidores jejuam com todo o fervor religiosos e tu  e teus  seguidores não fazem isto?

Yehoshua o olhou com o senho franzido, mas respondeu com tranqüilidade.

— Dize-me, o anfitrião exige que os convidados do noivo façam jejum quando o noivo ainda está entre eles? Eu sou o noivo de meus seguidores, meu amigo. E estou com eles. Então, é tempo de festa e não de jejum.

— És o noivo? — estranhou Simão, ao que Yehoshua respondeu com um sorriso suave e um olhar sereno que desconcertou seu aparvalhado anfitrião. — Dize-me, Yehoshua, estás por acaso tentando diminuir a importância que João, o Batista, adquiriu entre os seus seguidores e entre todo o povo da Judéia?

  De modo algum — respondeu Yehoshua, sério. — Eu disse e repito: entre os nascidos do ventre de uma mulher nenhum é tão grande quanto João, o Batista. Todavia, o menor no reino do Pai é maior que ele.

O silêncio pairou, incômodo, sobre os dois homens e Simão procurou desviar os olhos daquele olhar que o queimava como fogo.

— Do modo como falas, tu me pareces que te vês maior que ele. Tu te consideras assim?

— Sim, eu o sou. Não porque meu primo não tenha merecimento diante do Altíssimo, como tu não o tens por teu próprio merecimento. Mas porque não trago em mim a malícia, a ganância e a falsidade como meios de sobrevivência entre os homens. Não digo que meu primo tenha tais predicados negativos consigo. Digo que a maioria de nosso povo os têm, para sua desgraça.

— Até os rabinos do templo? Tu afirmas que eles possuem tais… predicados?

Os olhos de Simão brilharam de satisfação. Afinal, o peixe tinha fisgado o anzol. Procurou com os olhos seu serviçal, mas infelizmente ele não estava ali. Não fazia mal. Daria testemunho porque ele lhe ordenaria que assim o fizesse. Yehoshua, contudo, estava sereno e sorria misteriosamente.

— Os rabis, Simão, mostram a todos o que dizem através do que fazem. Eles não precisam que eu dê testemunho a seu respeito. Suas ações falam alto e, acredita, são ouvidas e vistas pelo Santo dos Santos. Quem é ouvido pelo Pai só pelo Pai é julgado e Ele não julga, meu amigo. Ele apenas compreende e espera. Os rabis estão, todos eles, sendo ouvidos e observados pelo Criador e só Ele pode dizer sim ou não à tua pergunta.

Simão sentiu-se desconcertado e confuso, mas antes que pudesse dizer alguma coisa, eis que surge Míriam de Magdala em prantos. Ela trazia em suas mãos uma caixa de alabastro. Seus olhos estavam fixados naquele homem maravilhoso que a olhava tranqüilamente e sem se perturbar com suas ações que escandalizavam e irritavam Simão. As lágrimas de Míriam de Magdala desciam silenciosas por sua face, enquanto seus soluços, baixos, lhe sacudiam o tórax.  Míriam ajoelhou-se diante de Yehoshua que a observava em silêncio e lhe tomou os pés calejados e sujos nas mãos delicadas. Com a água contida na vasilha que se dispensava aos comensais para que lavassem os dedos antes da refeição, ela lhe lavou os pés e os enxugou com seus cabelos cor de fogo. Simão estava pasmo e não conseguia dizer uma única palavra. Nem mesmo um som saía de sua boca. Confuso, via o que a mulher fazia sem saber como a interromper. E Míriam prosseguiu em seu mimo ao viajor tão humilde. Míriam massageou delicadamente aqueles pés machucados e os beijou com ternura. depois, friccionou-os com o creme que trazia e tornou a beijá-los com muito amor. Simão estava engasgado com aquela cena que reputava abjeta. Descontrolado e esquecendo-se de que fôra ele mesmo que convidara a mulher para ali estar e o ajudar na armadilha que tinha em mente, gritou descontrolado, mirando furibundo a face de Yehoshua.

— Tu não sabes quem é essa mulher? Por acaso tu desconheces sua abjeta profissão? Como te deixas tocar por suas mãos pecaminosas? Ela é uma meretriz infame, mais infame do que qualquer outra que se vende na Babilônia ou nos malditos palácios dos kittins! 

Yehoshua, pela primeira vez, olhou com olhar duro e de censura para Simão, que se encolheu involuntariamente diante da ira que trovejava naquele olhar.

— Eu entrei em tua casa e tu não me desta água para lavar meus pés; mas esta mulher molhou-os com suas lágrimas e enxugou-os com seus cabelos. Tu não me saudaste com o beijo  de boas-vindas na face, como é a práxis em meio deste povo. Mas esta mulher, desde que chegou aqui, não pára de me beijar os pés. Tu não me ungistes a cabeça com o óleo de bálsamo, como manda a boa educação entre este povo, mas esta mulher derramou com carinho todo seu perfume em meus pés. Agora, eu te digo, Simão, que os muito pecados que ela tem diante dos olhos de seus algozes não existem perante os do Altíssimo. Mesmo assim, eu digo a ela: mulher, tua fé e tua humildade te salvaram. Vai e não te aviltes mais, pois em teu coração tu superas este homem que pensa que é grande diante dos grandes da Terra. Em verdade, em verdade eu vos digo: só os que sabem se humilhar são grandes diante de meu Pai. Não vi humilhação, hoje, aqui, onde meu Pai me mandou vir. Mas vi com espanto a arrogância e a prepotência mascarada atrás da falsidade; e também vi um coração puro que se desmancha diante do Amor. A virgindade de uma mulher não está entre suas pernas, mas em seu coração e homem nenhum a alcança senão pela vontade de sua dona exclusiva. Tu te deitaste com ela e sobre ela suaste e gritaste de prazer. Mas em verdade te digo, Simão, que dela não tiveste mais que repúdio e nojo. Aqui, agora, me presenteando com tanto amor, ela me oferta o que de melhor possui em seu ser: seu Amor, Simão. O amor que todo teu ouro não pôde jamais comprar.

E Yehoshua se levantou e sem dizer mais uma única palavra se retirou, deixando Simão boquiaberto e humilhado, pois Míriam de Magdala seguiu o estranho rabi e dele nunca mais se separou até mesmo depois que Ele superou a morte”.

Acordei aparvalhado e com o coração acelerado. Na semi-obscuridade do quarto vi a figura de um homem que era inconfundível: Jesus de Deus. Ele sorria e me disse num sussurro, sem mexer os lábios: “Foi verdade. Eu estava lá. Eu vi”.

Será que eu ainda estava sonhando? Jamais vou saber…