Treinados para matar. Eram os gladiadores de Roma.

Treinados para matar. Eram os gladiadores de Roma.

A trilha era calçada com pedras rústicas. Era uma importante estrada, de não mais que trinta quilômetros, mas passava por Siquém, um vilarejo hebraico com uma população de quase mil habitantes. Não fosse aquela estrada, reputada como de grande importância estratégica, a vila não teria a atenção dos romanos conquistadores. O fato de ser muito usada por comerciantes de todas as partes do mundo conhecido fazia que bandos de ladrões também se aventurassem por ela e isto impunha aos romanos que mantivessem sempre patrulhas vigilantes ao longo de todo o percurso.

Era perto do meio-dia e o sol estava causticante. A estrada não tinha árvores às suas margens. Ao contrário, cortava áreas desérticas. Só aqui e acolá algumas árvores lançavam sombra sobre o escaldante pedregulho. Embora sua construção suavizasse o rústico caminho de barro e poeira, ela não aliviava o sofrimento dos que por si transitavam, pois as pedras absorviam o calor e esquentavam a ponto de fazer bolhas nos pés descalços dos que nem sandálias possuíam.

Os Centuriões modernos, cujos tacões irão esmagar as liberdades nacionais mundo a fora...

Os Centuriões modernos, cujos tacões irão esmagar as liberdades nacionais mundo a fora…

O homem moreno, que eu já conhecia de meu outro sonho estranho, caminhava apressado pela estrada. Seu haluk, agora, era cor de açafrão e tinha uma corda prendendo-o na cintura. As sandálias, pude ver, eram batidas e seus pés, grandes, muito calosos. Ele andava como se ignorasse o sol escaldante e as pedras chamejantes. Parecia estar apressado para chegar a algum lugar. Vindo em direção contrária à sua, uma patrulha romana de doze soldados, dois a cavalo e o restante seguindo uma carroça que levava uma gaiola de ferro dentro da qual seis homens se espremiam. Todos suavam em bica. Yehoshua, pois era ele o caminhante solitário, afastou-se para o lado para dar passagem à patrulha, mas o comandante sustou a marcha assim que o viu. Desceu de sua montaria e se aproximou dele. Sem qualquer cerimônia apalpou-lhe os braços vigorosos e lhe tocou com brusquidão o forte tórax.

— És judeu de onde? — Perguntou, arrogante.

— Galiléia — Respondeu Yehoshua, sereno e devolvendo o olhar penetrante ao comandante romano.

— És forte. Estamos procurando homens com tua compleição.

— E para quê os queres?

— Arena.

— Aqueles homens, na jaula, são destinados a isso? Tu os capturaste, como parece que pretendes fazer comigo?

Homens simples terminavam por se tornar sanguinários matadores.

Homens simples terminavam por se tornar sanguinários matadores.

— Sim, eles vão para treinamento. E creio que vou levar-te também.

Yehoshua nada disse. Com delicadeza, mas com firmeza, colocou a mão sobre o ombro do decurião e o empurrou para o lado. O soldado o olhou, pasmo de espanto. Nenhum judeu com juízo ousaria tocar no corpo de um romano. Mas aquele o fizera e com desenvoltura e, parecia, certo desprezo por ele, o comandante.

Yehoshua aproximou-se da jaula e observou o aspecto cansado dos prisioneiros. Pareciam exaustos.

— De onde vós sois? — Perguntou, erguendo a mão numa ordem muda de “Pare!” em direção ao decurião que ia começar a se movimentar em sua direção. Como se tivesse sido cravado no chão, ele permaneceu parado, boquiaberto com sua impotência em se mover. Parecia que toda sua vontade de agir se tinha esvaído.

— Sou grego. Era comerciante de vinhos. Fui aprisionado sob a alegação de que não tinha pago os tributos devidos a Roma. Mas é mentira. Eu os paguei.

— E eu sou sírio. Era comerciante de tecidos e pastor de ovelhas em minha pátria. Fui feito prisioneiro sob a mesma alegação, mas é mentira.

Belíssima construção em Samarkand, Uzbequistão.

Belíssima construção em Samarkand, Uzbequistão.

— Eu sou egípcio. Era médico em minha terra. Estava em viagem para Samarkand quando fui feito prisioneiro. Não alegaram nada. Apenas me apalparam os músculos, como fizeram contigo, agora, e me enjaularam.

Um a um todos relataram suas histórias. Yehoshua os observava em silêncio. Então, rodando nos calcanhares pôs-se a descer correndo a grande ladeira que levava direto a um poço a mais ou menos 200 metros de onde estavam. Lá, estendeu a mão para uma mulher que lhe entregou seu cântaro cheio de água e uma concha. Ele voltou a subir a longa ladeira, sempre correndo. Aproximou-se novamente dos presos e estendendo a mão direita sobre o odre fechou os olhos e fez uma oração breve. Depois, encheu a concha com um líquido vermelho vivo e deu-o a beber a um dos presos. Era vinho da melhor qualidade. Ele o deu a todos os presos. Então, quando todos estavam saciados e o olhavam com espanto, ele lhes falou:

— Não morrereis pelo gládio, nem pela maça, nem por nenhum instrumento de matar que o homem já criou até hoje. Saireis vivos do lugar para onde desejavam vos levar e voltareis e às vossas famílias. E não mais sentireis nem a agrura da sede nem o cansaço da desidratação. Meu Pai ouviu minha prece e vos abençoou.

Um soldado gritou para o comandante:

— O judeu está dando vinho a beber aos prisioneiros. Isto não é permitido. Deve ser preso!

O Decurião Romano tinha estas vestes.

O Decurião Romano tinha estas vestes.

— E ele está! — Gritou de volta o decurião, saindo, finalmente, do torpor em que se encontrava. Avançando a passos firmes até onde estava Yehoshua, ele lhe tomou bruscamente o cântaro e a concha. Encheu-a e a levou aos lábios. Um gole de água quase fervente lhe desceu pela goela, fazendo que carateasse de nojo.

— É água! Água quente!

Então, segurando Yehoshua pelo braço ele o manteve preso a si enquanto abria a jaula.

— Dêem espaço! Um judeu vai fazer companhia a vocês.

Mas quando tentou empurrar o galileu para dentro da prisão teve um surpresa. Nem toda a força de seus braços gigantescos conseguiram abalar um milímetro sequer o manso gigante que o mirava com olhar duro e penetrante. O decurião buscou os olhos de seu suposto prisioneiro e tremeu diante daquele olhar  censuroso.

— Minha hora não é chegada e vós não estais em minha história. Não será assim que vou morrer nas mãos de vosso povo. Então, deixai-me ir em paz e segui com vosso destino miserável e mesquinho. Não sois merecedores da misericórdia divina e, por isto, ainda muito tereis de sofrer até que a luz se faça em vossas mentes.

— Não irás a lugar nenhum, judeu! Soldados, avancem e venham ajudar-me a engaiolar este atrevido!

— NÃO! — E o grito de Yehoshua atroou os ares como se fosse trovão. — Permanecei sobre vossa montaria e em vossos lugares, eu vos ordeno! — E voltando-se para o decurião que o olhava estupefato, ele lhe disse:

— O que é mais fácil: eu pedir que me deixeis seguir viagem em paz ou eu ordenar aos homens que aprisionastes indevidamente: saí e ide embora. Estais livres para retornar a vossas famílias?

O decurião queria responder, mas sua língua estranhamente ficou presa na boca, pesando como chumbo.

— Já que não me respondeis eu faço a opção — e se voltando para os espantados prisioneiros, Yehoshua lhes ordenou:

— Saí. Estais livres. Retornai para vossas casas sem temor. Nenhum romano vos perturbará no regresso. E não faleis sobre este incidente a ninguém, pois esta história não deve passar à posteridade. E para me assegurar de que assim será, vós esquecereis disto tão logo dobreis a primeira curva do caminho. Agora, ide! Estais livres!

Atabalhoadamente os homens se atiraram correndo pela estrada por onde tinham sido trazidos, enquanto Yehoshua permanecia parado a observá-los até que dobraram a curva do caminho. Então, voltando-se para o decurião disse-lhe com voz dura.

Legionários romanos. Os mais temidos guerreiros do passado.

Legionários romanos. Os mais temidos guerreiros do passado.

— Sois homens fortes e corajosos. No entanto, curvais vossas cabeças a homens mesquinhos e fracos, que têm o Poder somente porque contam com apoio de homens fortes e broncos como vós. Enquanto a humanidade não despertar para esta verdade: os fortes não devem servir de pedestal para os fracos e tiranos, sofrerá dores inauditas. Mas esta é a condição do Espírito que teima em não querer dominar a carne. Agora, ide vós também em vossa triste e lamentável missão. Mas em verdade, em verdade eu vos digo: não encontrareis mais nenhum homem forte o suficiente para vos despertar a maldade e voltareis a vossos lares cansados e deprimidos pelo fracasso diante de vossos tirânicos senhores. Adeus!

E sem se voltar mais para olhar a patrulha parada como se hipnotizada, ele se foi seguindo na mesma direção em que os libertos tinham ido.

O sonhou parou aí. Novamente abri os olhos meio aparvalhado e na obscuridade do quarto tornei a ver, entre dormindo e acordado, a figura sorridente de Jesus de Deus que me dizia de novo: “É verdade. Eu estava lá. Eu vi”.

Meio torporoso voltei a dormir…