Este corpo está feio, mas já foi bonito e quando o era, eu não sabia...

Este corpo está feio, mas já foi bonito e quando o era, eu não sabia…

Eu estava pensando sobre os estranhos sonhos que tenho tido e que me intrigam, quando tocam a campainha. Era Jesus de Deus. Sorri comigo mesmo. “Ele tinha de aparecer justamente agora”. Premi o botão ao lado do interfone, o portão foi aberto e ele entrou, todo sorridente. Estava afogueado, talvez pelo sol quente e pelo ar demasiadamente seco às 9 horas da manhã. Tão cedo que se tem a impressão de se estar sendo picado por um milhar de agulhas se se sai sob ele sem proteção.

— Eu queria mesmo falar com você — disse eu, convidando-o a entrar para a sala de estar.

— E do que se trata?— De sonhos. Estranhos sonhos. E de certas visões que venho tendo, quando desperto.

— Visões? Acho que isto é para Psicólogo, o que o senhor é.

— Não. Eu sou apenas eu. Não sou Psicólogo. Estive psicólogo, mas já faz muito tempo.

— Perdeu o interesse pela Ciência em que se formou e pela qual brigou um bocado?

Das Artes Marciais que pratiquei, o Aiki-dô de Morihey Weshiba foi a mais maravilhosa e a de que mais gostei. Mas até ela, agora, não mais me interessa.

Das Artes Marciais que pratiquei, o Aiki-dô de Morihey Weshiba foi a mais maravilhosa e a de que mais gostei. Mas até ela, agora, não mais me interessa.

— Por ela e por muito mais coisas que me pareceram ter importância, quando eu era mais novo. Mas isto não vem ao caso. Vamos falar de sonho e de visões.

— Está bem. Estou curioso — e ele se curvou para a frente para me encarar, sério.

Contei-lhe meus dois sonhos e ele os ouviu sem se mover. Depois, recostando-se, disse que já os tinha lido em meu blog e estranhava que eu o tivesse visto dentro de meu quarto, dizendo o que eu descrevia. De certo modo, tinha vindo justamente falar sobre isto.

— Então, o que tem a me dizer? — Perguntei, interessado. Precisava colocar luz sobre minhas dúvidas.

— Primeiro, que devemos esclarecer uma coisa que, desconfio, está fazendo parte de seus pensamentos: não sou nem de longe a reencarnação do judeu. Gostaria, mas não sou.

— E como se explica que eu o veja depois que desperto? Você me aparece nitidamente e eu o ouço dizer o que escrevi. E não é invencionice.

Minha irmã e eu no Cristo Redentor. Faz tanto tempo que já nem me lembro. Mesmo esta saudade está arrefecida em mim.

Minha irmã e eu no Cristo Redentor. Faz tanto tempo que já nem me lembro. Mesmo esta saudade está arrefecida em mim.

— Mas o senhor ainda está no limbo psíquico, quero dizer, ainda não está totalmente desperto. Acho que há uma confusão psíquica entre o que o senhor pensa a meu respeito, a influência marcante do sonho e seu interesse intenso no homem de Nazaré. Creio que tudo isto se funde, quando o senhor está quase desperto. E o meu nome deve influir bastante em sua fantasia e seu desejo secreto e intenso de se encontrar face a face com o Jesus judeu. Na verdade, acho que seu desejo íntimo de fugir ao tipo de vida que leva, desinteressado de tudo, indiferente ao mundo, fechado em casa e solitário como um prisioneiro, tudo isto alimenta um desejo secreto de escapar desta situação. Não me consta que o senhor seja alguém dado a depressão. Aqui e ali pode ser que sofra de um pequeno surto, mas isto é mais que normal, considerando a vida que se leva. Até crianças sofrem de tais surtos. Então, eu acho, o senhor cultiva não uma depressão, mas uma melancolia, uma espécie de saudade de algo que viveu intensamente, um amor, uma batalha intensa — e até onde sei sua vida foi sempre cheia de batalhas violentas, todas a nível psicoemocional — e que, agora, lhe faz falta. Sem contar que o senhor descobriu que ninguém deixa rastro, depois que se vai. A vida de qualquer pessoa é simplesmente apagada. Mesmo aquelas pessoas consideradas importantíssimas para a História ou a Ciência, se foram e suas histórias estão sumindo, enterradas em prateleiras de Bibliotecas empoeiradas. Quanto mais o tempo se escoa, mais a memória daquelas pessoas some do quotidiano feroz em que atualmente a gente vive. Apenas um homem deixou uma história que se mantém atual, viva, pulsando fortemente sobre toda a humanidade. Um homem a quem o senhor busca tenazmente...

Quando criança eu senti muito o que esta foto transmite: melancolia...

Quando criança eu senti muito o que esta foto transmite: melancolia…

Permaneci calado, remoendo o que ele dizia. Sim, fazia sentido. E realmente, eu acalento um desejo secreto de, quando morrer na carne, espiritualmente me encontrar com aquele homem que me fascina desde há muito tempo. Há anos venho deixando de lado tudo o que diz respeito à vida material, encarnada. Tenho, ultimamente, apenas um desejo: voltar a ter um automóvel e para isto faço o que posso para conseguir dinheiro. Até agora o resultado do esforço é ZERO. Mas continuo tentando. Não porque deseje um carro para me exibir, nada disto. Mas porque quero a liberdade de ir e vir que uma condução de 4 rodas nos dá. Preciso muito experimentar ser livre para ir para onde desejar. Ao menos uma vez na vida quero viver para mim e somente para mim. Há 72 anos que vivo em função de terceiros. Não tive vida minha. Ela foi dedicada aos outros. A todos os que me procuraram necessitados de ajuda. Ajuda que, muitas vezes, exigiram de mim o máximo de renúncia de meus sonhos e meus anseios. E eu renunciei. E me dei todo ao outro. Acho que mereço me dar a mim mesmo ao menos uma única vez na vida…

Como o senhor explica, psicologicamente, estes acontecimentos? — Perguntou Felício, depois de esperar por um longo tempo que eu retornasse de meu mergulho introspectivo.

Um sonho é tão misterioso quanto o ar que sutilmente flutua em um entardecer...

Um sonho é tão misterioso quanto o ar que sutilmente flutua em um entardecer… Não sei de quem é esta foto, por isto não cito seu nome. Mas a pessoa que a fez foi muito feliz.

— Não o faço. Não me interessam teorias psicológicas. Elas falham numa coisa essencial no meu caso: eu sinto intensamente o que sonho. Não faz parte do mundo onírico comum, restrito ao Intelecto. Enquanto sonho, tenho a nítida impressão de que estou lá, estou vendo e quase participando de tudo. É muito estranho. Neste campo sensitivo onírico a Psicologia é falha. Eu sinto e vivo o sonho, não sei se me faço entender. Não é um sonho fisiológico, ditado por carências, como fome, sede, sexo etc… nem, tampouco, psicológico ditado por frustrações, traumas, desejos reprimidos ou expectativas irreais. Eu, quando estou “sonhando”, sinto que estou lá naquele ambiente. Não me vejo, mas sinto odores, vejo cores, sinto calor e frio, sinto o solo e as pedras. Tudo é muito sensível, concreto e, o que é mais curioso, é objetivo, claro, seqüencial. O sonho não salta de um tema para outro, como geralmente acontece em função do que Freud chamou de censura. Não é cinzento e inconsistente, opaco e disforme;  as imagens são claras e as sensações são bem definidas.

— Perfeitamente. Então… Bom, vou dar meu pitaco de leigo, está bem?

— Está. Vá em frente.

O Único realmente Teosofista até o extremo.

O Único realmente Teosofista até o extremo.

— O senhor é um Mestre em Teosofia e tem profundos conhecimentos de outros aspectos da Magia Elemental. Sei que não se interessou profundamente na prática do Ocultismo, como fez seu pai. Para o senhor a apreensão intelectual dos ensinamentos Ocultos lhe basta. Nunca, ao que eu saiba, o senhor se entregou a desenvolver qualquer parte dos ensinamentos de Magia até o máximo, como fizeram alguns dos que deixaram informações sobre dimensões desconhecidas dos cientistas normais.

— É verdade. Mas isto é porque realmente não quero apressar a Natureza. Vem de longe esta minha postura. Sempre acreditei  e acredito — que tudo deve acontecer a seu tempo. Basta-me que apreenda e compreenda o sentido das coias que me intrigam. Quando minha Evolução me permitir, então, eu me voltarei para estimular meus chakras e minha Mente ao ponto de me projetar nos Mundos Sutis além deste, segundo minha vontade e meu desejo. Até lá, contento-me em somente compreender. Preciso de, primeiro, vencer meu ceticismo e abrandar minha resistência. Também preciso de colocar luz em minhas dúvidas, que são muitas, e de desenvolver um forte controle da Vontade, a fim de não me tornar um joguete numa dimensão na qual não tenho nenhum domínio. Sabe, meu caro, tenho percebido que os planos mais sutis são como areia movediça. Um movimento em falso e a gente pode cair em lugares que são como furacão ensandecido. Nada, ali dentro, tem controle sobre si mesmo. Tudo rodopia numa confusão alucinante. Não quero passar por tal experiência…

— No entanto, o senhor é capaz de fazer projeção astral. Mesmo com esse cuidado e, até mesmo, esse temor que vejo em suas palavras, o senhor faz projeção astral. E bem elevada, devo dizer.

— Como pode saber disto? Quero dizer, que a projeção astral que faço é elevada? — Perguntei suspeitoso.

— Ora, o senhor não faz segredo de suas vivências paranormais. Elas acontecem naturalmente e o senhor apenas se deixa ir. Não força nada. E quer saber? Eu acho que está certo. A Natureza não dá saltos, não foi o que disse Darwin?

— Hum-hum — concordei.

— Bom, voltando a seus sonhos estranhos. Creio que seu interesse pelo Jesus judeu tem-se intensificado depois que o senhor pôde parar para se dedicar ao estudo e pesquisa sobre o assunto. Quando era um homem integrado à sociedade produtiva o tempo não lhe sobrava para isto. Mas agora, idoso e aposentado, com tempo de sobra, pode voltar-se com intensidade para este campo de estudos que sempre o desafiou. Isto tem feito que sua mente se intensifique nas vibrações com energias “psi”, capazes de estimular seu chakra Alta Maior, que, como o senhor sabe, pode trazer à memória presente as suas últimas sete encarnações passadas. De algum modo, suspeito, o senhor já vem-se envolvendo com este assunto. E de modo muito intenso, pelo jeito com que está voltado para ele, presentemente. 

— Desculpe, mas eu não mexo com o meu Alta Maior. É perigoso e você sabe disto. Quanto ao meu interesse pelo Jesus Judeu ele sempre foi uma forte força a mexer comigo. Mas não é o tempo de que disponho, agora, o que me faz voltar-me para Ele, e sim uma vida que não me satisfaz. Certo, tenho uma família equilibrada, dentro das condições atuais de vida da humanidade, onde quem manda em primeiro lugar são as drogas e em segundo, como conseqüência, o sexo coital destemperado. Mas isto que podia ser uma bênção, torna-se uma preocupação e frustração decepcionante. Mas não quero falar sobre isto. Esta dor é minha e irá comigo para o lado de lá.

— Tudo bem. Não vamos falar sobre este novo ângulo de nossa conversa. Vamos manter-nos restrito ao tema inicial. Não quis dizer que o senhor esteja mexendo com seu Alta Maior. Mas quis chamar a atenção para a suposição de que seu esforço em se voltar para um passado longínquo pode estar vinculado a alguma atividade despertada nele, até mesmo de modo involuntário. Não sou um “expert” neste assunto, mas aprendi um pouco a respeito com os Brâmanes, quando estive viajando pela Índia.

— Você anda demais, não é, meu amigo?

— Sou assim. Gosto de bisbilhotar. E não é difícil, pois sou bom cozinheiro, bom arrumador de quartos, bom garçom e perito na arte de servir. Também entendo muito de eletricidade de casa e de embarcação. Por isto, sou excelente garçom, cozinheiro, arrumador, eletricista etc… Tudo isto é muito necessário nos transatlânticos, compreende? Então, não me é difícil conseguir emprego num deles, quando sinto vontade de sair do Brasil. Depois de alguns anos embarcado em tais empregos passei a ser conhecido dos comandantes dos paquetes e adquiri a confiança deles. Então, hoje, é muito fácil para mim, embarcar como empregado temporário em tais navios. Não me interessa a vida fútil e momentânea dos embarcados. O que me interessa é o porto para onde me leva minha curiosidade… Minha procura.

— Ah!… Entendo. Isto é muito interessante… Mas quer saber? Comecei a me desligar das coisas, das pessoas e do mundo quando passei a transformar em mantra uma das sentenças de Jesus. Há várias de suas sentenças que me fascinam pela atemporalidade de que são imbuídas. Mas esta em especial me prendeu a atenção e nela meditei muito, principalmente quando tomei conhecimento do que há “do outro lado”.

— É? qual delas o prendeu tanto?

— Contam que ele, quando foi arrastado até o infeliz Herodes, amarrado, surrado e estropiado, manteve-se de pé em silêncio diante do tetrarca. Este fazia o que podia para lhe arrancar uma única palavra, mas Jesus mantinha a boca fechada e com expressão de total alheamento e indiferença ao que acontecia consigo mesmo e ao seu redor. Então, descendo de sua cadeira de monarca e arrastando seu corpo banhoso e de boca desdentada, graças à piorréia, que não era incomum naqueles idos, ele se aproximou até uma distância prudente do gigante e lhe perguntou, com a respiração sempre opressa:

— É verdade que tu és o rei dos judeus?

Jesus, pela primeira vez olhou-o nos olhos. Então, depois de um pequeno silêncio tensionante, respondeu com voz forte, mas calma:

— Meu reino não é deste mundo.

Calei-me e olhei fixamente para Jesus de Deus.

— Oh! Eu já o ouvi falar disto algumas vezes. Mas não pensei que estivesse levando isto a sério, quero dizer, o conteúdo dessa sentença. É uma afirmativa profunda e de grande significado para a Humanidade. Ele disse, ali, sem sombra de dúvidas para os céticos que não acreditam em vida após a Morte, que realmente ela continua. A Morte é somente um incidente de percurso. Mas ninguém ou quase ninguém tem atentado para esta revelação. Entretanto, vejo que o senhor atentou. E como!

Isto verdadeiramente nada vale, mas muitos vendem sua alma para pôr as mãos nele. Mesmo que seja por pouco tempo...

Isto verdadeiramente nada vale, mas muitos vendem sua alma para pôr as mãos nele. Mesmo que seja por pouco tempo…

— Sim, eu levo a sério, muito a sério. Desde o ano de 1957, quando acidentalmente fiz meu primeiro desprendimento. Quando comecei a me repetir isto pela manhã, ao me levantar, e à noite, ao me deitar, não notei o quanto estava sendo mudado interiormente. Mas sem que eu percebesse, uma transformação em toda minha postura com relação a tudo o que eu valorizava no meu mundo social e de relação, foi acontecendo. Tudo foi ficando pequeno, sem importância… Até mesquinho, mesmo. Uma certeza que a princípio era subliminar aflorou em minha consciência: a certeza de que eu não pertenço a este mundo. Que, aqui, tudo é destituído de valor. Mesmo uma montanha de ouro puro nada vale. Nem a maior montanha da Terra transformada em gigantesco diamante, nem ela nada vale. Tudo o que pertence à Terra ficará na Terra. Meu corpo é composto por seus elementos químicos, logo, retornará a ela, quer eu queira, quer não e assim é com o corpo de qualquer ser vivente. Então, não sei bem como lhe dizer isto de modo claro e cristalino, mas as coisas e as pessoas, como seres sociais, perderam a importância para mim. O que nelas me importa é a verdade de que são minhas irmãs em uma dimensão da qual a maioria não tem consciência. Quando muito vejo meu semelhante em forma, isto é, em corpo, como um irmão em espírito e dou mais valor a esta forma, a espiritual, do que àquela, material. Como já estou cansado de repetir, o corpo morre e sua morte é para sempre. E visto que ele tem uma consciência própria sobre isto, é ele que teme a “morte”. A entidade trans-material mesma, o ser imortal que a pessoa é verdadeiramente, se sente perturbada no momento de se separar da forma corporal, mas isto dura pouco tempo. Nossa essência divina jamais morre. Ela é para sempre. E ela não está vinculada à Terra. Ela tem vida e destino próprios. Está aqui por um motivo que ainda não atinei e as explicações que encontrei até agora não me satisfizeram. Não é punição divina; não é castigo cármico; não é pela Vontade de Deus… Mas não sei ainda por que estamos aqui.

A repetição do mantra “meu reino não é deste mundo” nos transporta sem retorno possível a um estado de paz interior. De expectativa de algo que está por vir. Tudo o mais perde o valor…

— Ora, mas o senhor deseja intensamente ter um carro e carro é bem material e muito, muito social. Um bem que não faz bem ao espírito, se me permite dizê-lo.

Olhei para Jesus de Deus e ri, divertido. Ele me provocava de propósito, mas não me importei e resolvi entrar em sua jogada.

Viajar de carro, parar na estrada para admirar belas paisagens e se aventurar sem saber o que vem pela frente. Eis algo gostoso de se fazer.

Viajar de carro, parar na estrada para admirar belas paisagens e se aventurar sem saber o que vem pela frente. Eis algo gostoso de se fazer.

— O carro em si, meu amigo viajor, não é nem bom nem mau. É apenas um monte de lata com um motor bem pensado e que, por isto, nos concede uma extensão maravilhosa na qualidade de nosso deslocamento. Se a pé em uma hora percorro no máximo 8 quilômetros, de carro em uma hora posso percorrer 120 quilômetros e sem o cansaço que tenho quando ando a pé. Querer a liberdade de proporcionar a este corpo velho e já alquebrado o direito de sentir o prazer pequeno de poder ir aonde jamais foi, por sua livre vontade, é o mínimo que posso ansiar lhe dar antes que termine para sempre. Afinal, meu amigo, este corpo me deu vivências sensoriais indescritíveis e foi meu escravo sempre. Aqui e ali eu lhe concedi o experimentar vícios que levam outros ao fim sob sofrimentos atrozes. Mas sempre que percebia que ele se estava apegando perigosamente ao vício, como o do tabagismo e do alcoolismo, por exemplo, parei-o sem apelação. Ele agüentou esforços extremos, contra sua vontade, é verdade. Mas eu sempre segui a orientação de meu pai que, desde quando eu me entendi como gente, me dizia: “Filho, o homem tudo pode. Ele só não pode aquilo que não quer realizar”. Meu Elemental Físico tremeu de medo e raiva centenas de vezes. Encolheu-se acovardado ou atacou em desespero dezenas de vezes. Mas sobre ele e o controlando ainda que com esforços tremendos, estive eu o tempo todo. Enfim, ele viveu para mim, para meu espírito. E eu sempre o submeti às mais duras condições e dele sempre exigi que abdicasse de si em benefício daqueles que durante muito tempo me fizeram crer ser meu irmão na carne. Ninguém é irmão em carne, mas em espírito e o espírito de ninguém exige de seu irmão qualquer sacrifício, pois todos os espíritos são fortes o suficiente para enfrentar qualquer desafio e qualquer provação. Sinto que é seu direito querer ter novamente um automóvel e eu lutarei por isto até o fim. É um objetivo tão pequeno, não é? Mas está tão difícil realizá-lo como difícil é subir o corcovado pelo lado mais íngreme e sem qualquer aparelhagem que não as mãos e os pés.

— Ouvi-lo falar de seu corpo como de um serviçal que lhe serviu bem é sumamente curioso, tenho de confessar. Acho que todos deviam refletir melhor sobre este enfoque e mudar de atitude no que diz respeito ao próprio corpo. Depois que o ouvi, passei a perceber esta máquina maravilhosa, este “Elemental Físico” como o senhor o chama, de modo diferente e interessante. É como se ele fosse um belíssimo cavalo que, terminado seu trabalho, pode retornar ao campo para gozar de uma última experiência de liberdade sem peias, antes de se ir definitivamente. É até poético, sabia?

Eu assenti com um aceno de cabeça e sorri, nostálgico, diante de uma recordação que me veio à mente.

Hidalgo é o cavalo malhado montado por um caubói americano. Sua história, dizem, é verdadeira.

Hidalgo é o cavalo malhado montado por um caubói americano. Sua história, dizem, é verdadeira.

— Seu comentário me trouxe à lembrança um filme que, acho, não estou bem certo, tem o título de “Mar de Fogo”. É a história de um cavalo mustangue que foi levado para o deserto a fim de competir com os melhores sangue-puros árabes numa corrida dantesca pelo deserto. Creio que seu nome verdadeiro era “Hidalgo”. Ele venceu a corrida e, ao ser trazido de volta às pradarias dos Estados Unidos, pelo seu dono, este o libertou e deixou que fosse viver entre os de sua espécie como agradecimento pelos esforços que fez para levar seu dono a vitórias que, sozinho, ele não teria jamais conseguido. É… O Elemental Físico de cada um de nós é como aquele mustangue: só precisa que nós lhe apontemos o caminho e dele cuidemos com cuidado e ele nos levará invariavelmente à vitória nas muitas liças em que somos obrigados a nos meter pelo simples fato de estamos vivendo aqui, na Terra. Sabe? Eu vi em uma mulher esta transformação, esta experiência. De fraca e titubeante; de desorientada e perdida em si mesma, ela dominou seu Elemental Físico, submeteu-o a experiências que lhe foram extremas e fantásticas e, hoje, tranqüila, assim como eu, olha com indiferença para as tolices em que as pessoas ainda se debatem. Ela também soube se tornar a Rainha de seu Elemental. E se libertou.

— O senhor teve alguma coisa haver com isso, não teve?

— Hum-hum...

Jesus de Deus permaneceu calado e me olhando sério. Então, com um suspiro, levantou-se e me disse, batendo suavemente em meu ombro.

— O senhor foi um homem bom. A maior parte de sua vida o senhor foi bom para com os outros. Então, creio que conseguirá o que anseia com tanta determinação. Agora, espero que tenha ficado bem claro que eu não sou o judeu que retornou. Aliás, pelo que se diz e espera, Ele virá cercado de anjos e de trombetas. Acho que vai causar uma surdez monumental nos que estão aqui em baixo…

E ele se foi rindo de sua própria tirada. Mas eu não fiquei convencido. Havia um quê indefinível em sua estatura, em seu modo de andar, na cor de sua pele e no jeito de olhar que me intrigava e que sempre me trazia à recordação a figura imponente e misteriosa daquele outro Jesus… Ou melhor, Yehoshua…