Geralmente os ansiosos tendem à oncofagia, isto é, comem as unhas.

Geralmente os ansiosos tendem à oncofagia, isto é, comem as unhas.

Recebi um e-mail de uma jovem que me perguntava se ansiedade engorda. Ele explica que é pessoa muito ansiosa e que já lhe disseram, inclusive sua ginecologista, que este estado emocional é causa de obesidade. Ora, na internet há uma centena de sites a respeito do assunto. Por que a jovem decidiu vir a mim? Mesmo com esta interrogação, decidi responder aqui a pergunta que me foi feita.

Sim, ansiedade é um dos fatores que levam à síndrome da obesidade. E respondendo à segunda parte da pergunta da jovem, não. Não há como combater a ansiedade sem a ativa e bastante difícil participação da pessoa ansiosa. Não há remédio mágico, capaz de por si só “esvaziar o pote de ansiedade do indivíduo” sem requerer dele que participe ativamente deste esforço.

Finalmente, respondendo à terceira parte da pergunta da jovem, sim, a ansiedade é uma reação emocional e pode ser não somente estimulada como mantida por causas sociais, familiares e religiosas.

Nos dias de hoje é comum as crianças sofrerem de crises de ansiedade.

Nos dias de hoje é comum as crianças sofrerem de crises de ansiedade.

A ansiedade é a energia emocional mais básica do ser humano. Sem sua presença sadia em nosso sistema nervoso nós não conseguiríamos nem mesmo nos manter despertos. Sem ela ativando o Sistema Reticular Ativador Ascendente (S.R.A.), a coisa ficaria literalmente negra pro nosso lado. Mas preciso ressaltar que nem todo ansioso engorda. Eu mesmo, durante a maior parte de minha vida, vivi sob intensa carga de ansiedade. Quando trabalhava na EMBRATEL, na Presidente Vargas, Rio de Janeiro (hoje ali não existe mais nem a verdadeira história da empresa), desdo o primeiro dia que mergulhei num poço de estímulos altamente ansiogênicos. Eu tive nada menos que doze coronéis pedindo pelo amor do Diabo que eu fosse lançado no DOPS. E eles tudo fizeram para que tal coisa me acontecesse. Infelizmente para eles e felizmente para mim, tive padrinhos muito fortes que evitaram a catástrofe, caso contrário não estaria aqui, escrevendo o que escrevo, mas certamente eles já estariam do outro lado bem antes do tempo em que partiram naturalmente. Todos eles, ao que eu saiba, já se foram desta pra melhor (ou pra pior). Se algum ainda vive deve contar mais de cem anos, o que será um assombro, tendo em vista o modo de vida que levavam. Mas a luta, que durou 23 anos, se travou num palco de vida prenhe de adrenalina pura.

O obeso que é o mais gordo do mundo. Ele não é nada feliz com este recorde.

O obeso que é o mais gordo do mundo. Ele não é nada feliz com este recorde.

A fim de que haja tendência à obesidade é necessário que fatores genéticos estejam presentes. Por mínimos que sejam, por recessivos que sejam, eles podem ser ativados e com isto tomarem conta dos processos fisiológicos e, então, aquela banha incômoda começa a fazer pesar a barriga e a estragar a auto-imagem do infeliz (ou da infeliz). Não engordei. Passei toda minha vida sob alta tensão, mas sempre fui um magricela convicto. Um esmirrado, como dizem os de minha terra. E olha que eu comia feito um elefante. Minha ansiedade me estimulava ferozmente o apetite. Mas, também, tenho de confessar, eu praticava muitas artes marciais. Jiujitsu (a que menos pratiquei porque me desagrada rolar pelo chão agarrado com outro homem), karatê-dô, aiki-dô, Tai-Chi-Tchuen, boxe, aikijujutsu… Bom, todas estas artes marciais exigem muita caloria e acho que elas pesaram decisivamente na queima do excesso de energia que eu consumia na alimentação. Agora, aos 72 anos e com uma vida mais sedentária que ativa, tenho tendência a engordar. E isto é um problema, visto que sou um preguiçoso convicto. Detesto fazer exercícios e quando pratiquei arte marcial tive sempre uma razão muito forte que me levou a quebrar minha entropia, isto é, minha tendência ao comodismo.

Atualmente a Ciência já sabe que os fatores endógenos são responsáveis por somente 1% da tendência à obesidade. O restante está vinculado com o modo de a pessoa levar sua vida. Sedentarismo, ansiedade, desânimo para a atividade física de mistura com gulodice, isto sim, leva o organismo a se descontrolar. mas ainda há vários fatores silenciosos que, a rigor, se resumem numa só causa: as tensões psicossociais. É aqui que geralmente está o nó górdio da questão. E como o brasileiro é, quase em sua totalidade, tremendamente preguiçoso e relaxado com relação à saúde, tais tensões nadam de braçada no que toca ao terreno da obesidade.

O que fazer?

É engraçado, mas não o imite. Sua história (sua e dele) não vai acabar bem (rodrigoetc.blogspot.com)

É engraçado, mas não o imite. Sua história (sua e dele) não vai acabar bem (rodrigoetc.blogspot.com)

Bom, em primeiro lugar treinar-se para se convencer de que vai precisar agir sozinha em grande parte do esforço para emagrecer. Fechar a boca não é o mais importante. Praticar exercícios fortes, sim. E depois dos exercícios só tomar água. Nada de refrigereco nem de um hambúrguer para aliviar a fome. Não se sente fome depois de se exercitar saudavelmente. Além disto, separar cuidadosamente o que de fato interessa à sua vida daquilo que é somente uma resposta condicionada, como ir a determinado restaurante só porque foi aberto recentemente e toda a turma o freqüenta. A turma não é importante. Você é. Você é importante para si mesma. Então, dê a si a atenção que merece. Em segundo lugar, feche os ouvidos. Não dê atenção às opiniões sobre sua aparência. Se está gorda, ninguém precisa lhe dizer isto. Você é bem capaz de perceber que se encontra assim. Então, feche os ouvidos a tudo, principalmente aos “médicos” que compulsivamente indicam tal ou qual regime alimentar. O caminho não é bem esse. Em terceiro lugar, coma pouco e em horários fixos: café da manhã com preferência para frutas e biscoitos de água e sal; lanche às nove horas (magro; magérrimo mesmo); almoço (salada fria é muito bom, mas não substitua a alimentação toda por saladas que é desequilibrar sua homeostasia). Coma POUCO. Isto sim, é importante. Jantar, de preferência um lanche magro e rápido. Nada de gorduras, principalmente nada de derivados do leite. Se comer carne, que seja bem magra. Novamente um lanche às 21 horas,  pelo menos uma hora e meia antes de ir para a cama. E se de madrugada acordar com desejo de engolir a geladeira inteira, morda os cotovelos e coma o travesseiro, mas não vá visitar a “branquinha”, ou seus esforços irão por água abaixo. Tenha paciência, pois o corpo não demora muito a se acostumar com o novo modo de viver. Ah, sim, passe longe, bem longe do McDonalds e de semelhantes. Evite às carreiras os sorvetes, mesmo que o dia esteja fazendo suas banhas derreterem e saírem no suor. Nada de sorvete. Nada de doces, principalmente doce de leite.

Tá duro? Pois é. Mas emagrecer é dureza mesmo. Não vá na conversa de que tem tal ou qual comprimido que é uma maravilha. Reduz o apetite e coisa e tal. Remédios SEMPRE têm efeitos colaterais, pois nenhum deles deixa de ofender nosso organismo. DISCIPLINA E DETERMINAÇÃO, eis do que todo gordinho vai necessitar para dar combate àqueles quilinhos que o envergonham na hora da praia ou do “rala-e-rola”.

E é isso aí. No mais, vá a um especialista – ou dois, se precisar de auxílio psicológico. Mas de uma coisa tenha certeza: emagrecer requer um esforço estrênuo que é só seu e sem ele você não emagrece.

Bom esforço.