Ela está lá. Segundo nossos conceitos, imperial, majestosa, imponente. No entanto, ela apenas é o que é.

Ela está lá. Segundo nossos conceitos, imperial, majestosa, imponente. No entanto, ela apenas é o que é.

“Assim como ninguém pode ver a beleza sem admirá-la (embora alguns a olhem sem vê-la), nem ver a verdade sem reverenciá-la, assim todo o que sente o toque do Eu interno não pode deixar de ser zeloso sacerdote de seu santuário íntimo” (Ernest Wood, em “OS SETE RAIOS”, pg. 60 – Ed. Pensamento). Neste pequeno trecho de um dos livros mais lidos pelos aficcionados do Ocultismo e da Teosofia nós encontramos vários estimuladores do comportamento humano. Estes estímulos são puras abstrações, as quais, no entanto, considerando que o homem se mudou de malas e bagagens para seu Mundo Artificial, são indispensáveis para um viver humano sob total ilusão. Tais estímulos estão grafados em azul, para os colocar em destaque no trecho. O período conduz o leitor a um estreito foco percepto-cognitivo, onde sua “Mente” fica aprisionada e direcionada para o que o escritor deseja e no que acredita. “Beleza” é um conceito puramente humano que, no verdadeiro mundo objetivo e concreto, não tem existência. As coisas estão aí tal e qual devem estar. O modo como se arrumam ou o modo como se colorem ou se dispõem nos faz percebê-las como mais ou menos belas em comparação com as outras coisas do meio-ambiente em que se encontram. E em quê se baseia nossa função perceptiva para que tenhamos a apreensão de “beleza” em algo que vemos?

Um dicionário inteiro não conteria palavras suficientes para descrever o que a foto mostra (ohturismonobrasil.blogspot.com)

Um dicionário inteiro não conteria palavras suficientes para descrever o que a foto mostra (ohturismonobrasil.blogspot.com)

A função perceptiva nos capacita apreender formas, cores, densidades, relação claro-escuro, profundidade, altura, distanciamento ou proximidade, enfim, tudo o que há na foto ao lado. Mas todo este conjunto de atributos que supomos haver no mundo exterior, ao qual chamam de objetivo e concreto, requer um processo sensorial capaz de apreender coisas, seres e objetos e este processo sensorial acontece através do que chamamos de cinco sentidos. Sem estes sentidos não perceberíamos nada do que acima foi dito.

Os animais também apresentam a capacidade sensorial, sendo que em alguns uns sentidos são mais desenvolvidos que outros. Eles, então, apreendem o mundo concreto de forma bem diversa daquela com que faz o ser humano. Mas nenhum deles desenvolveu a capacidade perceptiva segundo padrões lingüísticos adredemente acordados em uma comunidade em que vivam. Assim, é lícito supor que os animais, por isto mesmo, vivem mais próximos da realidade que a todos cerca neste planeta. Um conjunto de flores cuidadosamente arranjadas para estimular o prazer visual na pessoa que as observe não desperta nenhuma percepção semelhante em uma abelha ou em um beija-flor. Eles não sabem o que é beleza ou feiúra. Então, eles não a admiram. Do mesmo modo na Natureza Natural o conceito verdade não tem qualquer realidade nem qualquer existência. Então, nenhum animal natural vai reverenciá-la como fará um ser humano. E este assim agirá porque está impregnado de conceitos que estruturam seu modo de sentir e perceber coisas, objetos, semelhantes e mundo em geral.

Esta obra de arte fotográfica de Marcos Estrella nos transmite uma sensação de grandeza que nos invade. Mas quem pode descrevê-la?

Esta obra de arte fotográfica de Marcos Estrella nos transmite uma sensação de grandeza que nos invade. Mas quem pode descrevê-la?

A rigor, todas as palavras de um idioma são conceituações que não vigoram na Natureza. São apenas formas imagéticas sem substância nem importância. Mas a estrutura da vida comunitária e social que o ser humano criou para si não pode se manter sem as palavras, sem os significados que a elas se atribui e sem a interpretação das supostas mensagens que trazem em seu conjunto, quando assim arrumadas intencionalmente para transmitir tal mensagem de um a outro indivíduo. Certa vez, na companhia de um Monge Shao-lin e a seu convite, sentei-me e procurei relaxar. Ele fazia a mesma coisa. Estávamos na Floresta da Tijuca, no Rio de Janeiro, no meio da Natureza serena e indiferente a todos os qualificativos que nós lhe atribuímos para poder entendê-la. Orientado por ele busquei não traduzir para mim mesmo minhas sensações através de palavras. Eu devia somente sentir. Bom, tive de repetir a experiência várias vezes, e nestas, sem sua companhia. Naquela primeira vez não fui capaz de apreender o que ele desejava que eu apreendesse. Mas com a insistência e a persistência que tenho quando algo me interessa segui tentando até que um dia a luz se fez em mim. Eu e aquele ambiente natural, cheio de árvores cujas folhas murmuravam alegremente quando tocadas pelo vento e cheio do som cantarolante da alegre água cristalina que corre sempre pelo riachinho que coleia por entre as pedras, entramos em harmonia; subitamente eu e tudo aquilo éramos um. Não dá para dizer mais que isto. Eu e o ambiente éramos um. Sem conceitos. Sem intermediários. Eu percebi o ambiente de modo totalmente diferente de quando o percebia através dos significados artificiais lingüísticos. Sua grandeza poderosa; sua harmonia plácida; sua força serena; sua perenidade em eterna mudança… Tudo estava em mim também. E pela primeira vez os mosquitos não me picaram como sempre faziam quando eu ia lá pra cima, pra dentro da esfuziante mata verdejante da Floresta da Tijuca. 

Floresta da Tijuca (que saudades...(www.corcovado.org.br)

Floresta da Tijuca (que saudades…(www.corcovado.org.br)

Procurei meu mestre e com os olhos brilhantes de excitação quis relatar minha vivência. Ele, impondo o indicador sobre os lábios, me proibiu falar. Fiquei frustrado, mas no dia seguinte compreendi. Não poderia jamais traduzir em palavras o que tinha vivido. Então, uma semana depois, ele se voltou subitamente para mim e disse: “Lá em cima você viveu a Natureza tal e qual ela é. E o que ela é de verdade não se traduz em simbologia falada. Por isso foi que não permiti que falasse. Você mataria sua vivência se tentasse submetê-la às palavras”.

O mundo que criamos é pobre. Os conceitos em que nos embasamos para formular nossos juízos e tomar nossas decisões são grosseiros e absolutamente ilusórios. Eles nos antolham a própria alma.

Somos seres totalmente errados. Errados no modo como estruturamos nossa vida em sociedade. Errados quando nos esforçamos para traduzir nossas emoções, atribuindo-lhes graus de valor nos eixos dicotômicos bom-mau ou bem-mal. Errados quando criamos conceitos que nos cerceiam e ditam o como o quando e o quê fazer segundo padrões adredemente aceitos pela comunidade. Comunidade que, em função de crenças religiosas, cria abantesmas conceituais que dificultam mais ainda o viver neste paraíso que nos concedeu o Criador. Errados quando inventamos a moeda e a ela cingimos nossa vida de tal modo que se ela nos falta, somos abandonados pelos nossos semelhantes como se sofrêssemos de um mal contagioso. Errados quando inventamos modismos aos quais nos escravizamos e pelos quais despendemos energias inutilmente. Errados quando classificamos nossos semelhantes segundo suas posses ilusórias. Em meio a todos estes erros e muitos mais, passamos nossa vida sem ver, sem sentir o que realmente tem valor.

É uma imagem amedrontadora. Terrível, diriam alguns. No entanto, é  algo natural (www.grupoescolar.com)

É uma imagem amedrontadora. Terrível, diriam alguns. No entanto, é algo natural (www.grupoescolar.com)

Nada é bonito e nada é feio. Tudo e todos apenas são. O viver pelos conceitos sociais mata a própria essência da vida de uma pessoa. Se a uma mulher se diz que é “fria no leito” comete-se um erro atroz para com ela. Ninguém é frio ou quente no leito. Todos somos o que somos e não somos iguais a ninguém. Nossos organismos, nossos corpos, embora na aparência geral pareçam idênticos, pois todos têm cabeça, tronco e membros, nas suas estruturas sutis todos são totalmente diversificados uns em relação aos outros. Todos são absolutamente singulares, únicos. No entanto, a massificação conceitual nos embrutece a sutileza da percepção e da compreensão das diferenças e isto nos torna broncos e rudes. Não foi à-toa que Rui Barbosa afirmou que a mais mortal arma do homem é a língua, assim como a mais angelical defesa do homem também é a língua. Não é à-toa que os praticantes verdadeiros do Ocultismo cobram de seus discípulos o SILÊNCIO. Só no silêncio é que podemos verdadeiramente enxergar a fantástica obra do Criador Inominado e Oculto.

Ao buscar conviver com nossos semelhantes nós criamos a Sociedade. E nesta, criamos infinitos sistemas estúpidos nos quais, depois, queiramos ou não, gostemos ou não, teremos de nos inserir. Entre estes sistemas estúpidos está o sistema de Leis. Com elas nós buscamos encontrar o equilíbrio da Justiça Social, uma utopia, pois quem cria as Leis teme fazê-las secas e duras porquanto sabem, lá no íntimo, que um dia poderão ser vítimas daquelas leis que criaram. Flexibilizam-nas e, com isto, facilitam a ocorrência do que chamam de CRIME ou de VIOLÊNCIA, coisas que não têm sentido na Natureza Natural. Nela nada é crime e nada é violência. Tudo é de conformidade com o momento transitório em que se vive. Apenas isto: tudo É.

Se andamos pela floresta como seres sociais, não estamos verdadeiramente na floresta. Não podemos senti-la senão como um ambiente hostil e ameaçador, perigoso. E uma vez que os infinitos sistemas que criamos para a vida Social é uma verdadeira floresta, andar por eles é andar sob constante ameaça, logo, é andar com medo. Por isto é que a Sociedade Humana é eminentemente um ambiente de Medo.

Costuma-se dizer que a melhor dádiva de Deus ao homem foi a capacidade de raciocinar e FALAR. A PALAVRA, dom único do animal humano, é tida como a bênção de Deus à Sua máxima criação na Terra. Mas eu entendo ao contrário. O maior desafio e o maior CASTIGO que Deus colocou para o Homem foi exatamente a capacidade de pensar, imaginar, criar e FALAR. Nós, após dominarmos a palavra e organizar nossos pensamentos segundo regras gramaticais para melhor os exprimir através da fala tornamo-nos capazes de influenciar a Mente dos outros e dirigi-los para caminhos que não seriam os seus, naturalmente. Criamos um mundo de conceitos quase infinitos e fizemos que as pessoas passassem a viver por eles. E elas perderam a si mesmas no emaranhado conceitual que, depois, nós não as podemos safar dali. E somos obrigados a ver nossos filhos se perderem convictos de que estão certos, no mundo de conceitos que, esvaziados de seus significados vazios para a Realidade mesma, não os leva a nenhum lugar.

Quando eu era criança e aprendia pela saudosa cartilha do BÊ-A-BÁ, nela eu lia titubeantemente um poeminha que dizia assim:

“DOIS OLHOS, DUAS ORELHAS,

SÓ A BOCA NÃO TEM PAR.

QUER DIZER QUE É MAIS PRUDENTE

VER, OUVIR, DO QUE FALAR”.

Eu já não recordo o nome do autor. Nem sei se havia esse nome lá, na minha cartilha. Mas o verso ficou em minha memória e acho que vai para o outro lado comigo. Sim, é muito melhor apenas silenciar. “Não julgueis para não serdes julgados” embasa-se justamente no SILÊNCIO. Silêncio da boca e silêncio da mente. Se a gente não pensa, então, não cria juízos de valor. E sem juízos de valor, não se julga. Mas, infelizmente, vivemos em uma sociedade que se rege total e absolutamente pela PALAVRA.

Uma lástima. Vamos batalhar por mais um manvantara até que, finalmente, aprendamos a esquecer de nossa capacidade de falar…