Embora nascido judeu, Ele tratava a todos como seus irmãos.

Embora nascido judeu, Ele tratava a todos como seus irmãos.

Era manhã. Na encosta do morro, sentado sobre uma pedra, o homem de pele amorenada devido aos intensos raios solares, olhos castanho-escuro, braços e tronco poderosos, cabelo acobreado também escuro, ombros largos, pernas musculosas, segurava o joelho direito com as mãos de dedos cruzados ao seu redor, perna levantada no ar, corpo reclinado para trás. Seu olhar mirava atentamente o aglomerado de seus conterrâneos que, logo abaixo e regidos por um rabino, entoava uma estranha oração, de ódio, de vingança, de puro egoísmo. Aquele olhar era de total reprovação, enquanto o pequeno grupo de pé, face voltada para o céu, olhos abertos e prenhes de uma fé absurda e braços estendidos para o alto, acompanhava em voz alta o que o rabi declamava: “Um rei santo virá e reinará sobre todo o mundo. E então sua fúria cairá sobre o povo do Lácio e sobre Roma. E ela será destruída até o chão. Dela não restará pedra sobre pedra, pois grande será a ira do Senhor.  Ó, Deus, envia uma coluna de fogo desde os céus e faz que os romanos pereçam, cada um em sua própria casa. Ó, quão pobre e abandonado estou! Quando chegará o dia do julgamento dos ímpios e da libertação da Terra Santa e Eterna do Grande Rei?” 

Centurião romano. Eles foram os guerreiros que os norte-americanos tentam imitar, sem sucesso.

Centurião romano. Eles foram os guerreiros que os norte-americanos tentam imitar, sem sucesso.

Um romano, trajando as vestes de um centurião, aproximou-se por detrás do homem que não se integrava ao grupo e permaneceu de pé, um pouco atrás e ao lado da pedra, braços cruzados sobre o forte tórax e olhar preso no grupo de fanáticos. O homem moreno e forte não se virou para o olhar. Continuou mirando desaprovadoramente o que acontecia logo abaixo e adiante dele.

O romano adiantou-se e se postou ao lado do solitário observador.

— Não oras com teu povo? — Perguntou e sua voz não denotava hostilidade. O homem sentado sobre a pedra desviou o olhar do grupo que observara até ali e mirou o centurião, em silêncio. Parecia analisá-lo até a alma e aquele olhar despertou a curiosidade do romano.

— Não. E meu povo não é somente este. Sou de todos os povos — respondeu o homem moreno, sempre com aquele olhar perscrutador. Então, relaxando a tensão no olhar, ele convidou.

— Vem. Senta-te a meu lado. Não é a qualquer um que convido a se sentar comigo.

O centurião sorriu levemente ao ouvir aquele convite petulante, mas se deixou sentar ao lado daquele estranho judeu, que lhe pareceu simpático, embora ele não gostasse de judeus.

Um rabi vestia-se como Caifás, nesta foto.

Um rabi vestia-se como Caifás, nesta foto.

— Se não convidas a qualquer um, por que, então, me convidas? — Perguntou, sorrindo divertido, o centurião, olhando dentro dos olhos castanhos-escuros do homem amorenado. Este o fitou em silêncio e sério por um tempo. O centurião pareceu ver naquele olhar uma profunda tristeza. Mas, depois de um tempo, sorrindo e batendo levemente a mão sobre a perna do militar, coisa espantosa para o romano, ele disse:

— Não és qualquer um. És especial.

— Tu és um judeu. Por que, então, me consideras especial? Somos inimigos, teu povo e o meu povo.

— Aos olhos de nosso Pai não há inimigos entre Seus filhos. Tu e eu somos irmãos.

O centurião entendeu Pai como sendo um designativo a seu Imperador, Tibério. Mas riu a bom rir quando ouviu a palavra irmão para designar romanos e judeus.

— Nem mesmo o poderoso Júpiter ousaria afirmar o que afirmas, judeu. 

— Meu nome é Yehoshua — falou o judeu. — E teu Júpiter não passa de uma ilusão tola. Não existe de verdade.

 O romano calou abruptamente seu riso e mirou sério o homem ao lado.

— Cuidado, judeu. Júpiter é poderoso e não gosta que se lhe falte com o respeito.

Foi a vez de Yehoshua soltar uma sonora gargalhada, que desconcertou o centurião e, ao mesmo tempo, o irritou.

— Ris de Júpiter? Pelos Deuses, homem imprudente, queres que ele pese sua divina mão sobre ti?

Zeus no Olimpo.

Júpiter no Olimpo romano.

— Quero. Aqui e agora — foi a resposta desconcertante dada entre risos. O romano permaneceu sério a olhar a face descontraída e divertida do judeu. A contragosto seu, aquele inimigo lhe era simpático e agradável.

— Acho melhor mudarmos de assunto. Eu não hostilizo o deus de vocês para que Ele não se zangue comigo, mas não quero que tu hostilizes os deuses romanos ao meu lado, pois não quero ser vítima da ira que isto neles despertará. Sou apenas um militar e acho prudente ficar em paz com todos os deuses de todos os povos. Com muita freqüência tenho de lutar contra outras gentes de outros deuses, compreendes? Posso e devo vencê-los no campo de batalha, mas não quero que seus Deuses me julguem e me condenem. Como militar, devo obedecer aos meus superiores e é o que tento fazer, defendendo-me da ira dos que não posso alcançar com meu gládio nem com meu pilo. 

Yehoshua calou-se e mirou, sério, a face do romano.

— Como te chamas, centurião?

— Arrius Tercius. Por que?

— Porque entre os romanos poucos há com esse senso de respeito pelas crenças dos outros povos. Quem te ensinou isso?

— Meus pais. 

— Mas és militar e os militares romanos são arrogantes e agressivos. Tu não te demonstras assim. Por que?

Arrius inspirou fundo, deixou o olhar passear sobre os crentes e, depois, viajou com ele até os picos dos morros que dali se divisava. Então, olhando na face de Yehoshua, respondeu.

— Quando mais jovem e mais inflamado, lutei com um ladrão judeu, da seita dos Zelotes. Estávamos em Roma e, como sabes, ali vivem muitos judeus dedicados ao comércio. Aquele zelote tentava matar uma autoridade romana… Um senador. Deves saber que os zelotes são muito hábeis com as facas que chamam de sicarii. Fui ferido, mas subjuguei o bandido. Isto atraiu sobre mim a atenção do senador e o resultado é isto que vês: tornaram-me um centurião romano. Comando uma centúria que foi designada para cá, para esta terra desagradável, como guarda especial do Procurador Pôncio Pilatos.

Yehoshua acenou afirmativamente com a cabeça e voltou seu olhar para o horizonte. Pareceu estar profundamente introspectivo e por um longo tempo esqueceu-se de seu convidado, que o observava atentamente.

— Tens tristeza no teu coração. Por que?

A pergunta pegou Arrius de surpresa. Ele se voltou para Yehoshua com expressão de espanto.

— Como sabes?

— Eu posso sentir o coração de meus irmãos e o teu está triste… angustiado. O que tem tua mãe?

Arrius engoliu em seco e se voltou totalmente para Yehoshua. Aquele judeu o impressionara de verdade. Tinha-se aproximado dele porque desejava conhecer o homem misterioso que estava causando rebuliço entre os judeus e, também, entre os romanos. Diziam coisas espantosas a seu respeito e, agora, ele mesmo estava vivendo um daqueles momentos assustadores.

— Ela sente muitas dores no ventre. Os médicos não conseguem descobrir o que é. Nenhum remédio fez efeito. Ela emagrece a olhos vistos e eu creio que… que…

As lágrimas assomaram aos olhos do centurião. Yehoshua penalizou-se dele e também seus olhos se umedeceram. Então, com carinho, pousou a mão nos ombros do homem e lhe disse, com voz mansa.

— Teu amor por tua mãe é tocante. Nosso Pai se condoeu de ti e de tua mãe. Vai. Ela já está curada. Não sofrerá mais e viverá ainda muitos anos junto a ti. Ela te consolará quando tua consciência te doer desesperadoramente.

O romano ouviu aquelas palavras enigmáticas, mas não apreendeu totalmente o que elas continham.

— Minha mãe… Tu a curaste? Então… É verdade que és um feiticeiro poderoso?

— Não me ouviste? Meu Pai a curou, não eu. Eu não curo. Eu não faço milagres. Ele, sim, o faz quando quer e se quem o receberá fez por merecer. Agora, vai. Ela te espera com muita alegria.

O romano permaneceu um tempo de olhos arregalados, ainda sem conseguir absorver aquelas palavras. Então, engolindo em seco, disse:

— Eu vou. E se ela estiver realmente curada, voltarei e serei teu servo por toda minha vida.

— É uma promessa? — Perguntou Yehoshua, rindo.

— Juro por Júpiter… ou pelo teu deus. Juro por quem quiseres que eu jure.

— Juras não valem nada se não são feitas de coração. E eu sinto que tu falas com ele. Então, eu aceito tua palavra. Tu trabalharás comigo, em breve, muito em breve.

 O centurião se pôs de pé junto com seu novo amigo judeu. Então, disse com o coração em festa:

— Eu voltarei. Me espera aqui. Vou ver minha mãe. Sinto, em meu coração, que tu falaste a verdade. Meu gládio estará para sempre a teu serviço.

Ele pregou os braços e os pés daquele que lhe tinha curado a mãe e não o reconheceu.

Ele pregou os braços e os pés daquele que lhe tinha curado a mãe e não o reconheceu.

— Não, meu amigo, não nos encontraremos senão quando tu estiveres com o cravo e o martelo nas mãos. Então, não me reconhecerás, mas desde já te digo: não te culpes. Não chores pelo que fizeres, pois eu já te perdôo desde agora.

O centurião permaneceu zonzo, olhando para Yehoshua, aparvalhado. Então, titubeante e sem atinar bem para o que tinha acabado de ouvir, rodou nos calcanhares e correu ladeira acima, com o coração aos pulos. O feiticeiro judeu disse que tinha curado sua mãe e isto era o que importava. Se assim fôra, voltaria para se tornar seu discípulo e o defender até com a própria vida.

Mas ele não voltou a ver o galileu até quando cravou os cravos nos seus pulsos e calcanhares, no Gólgota. Yehoshua estava tão desfigurado que ele não o reconheceu…

“É verdade. Eu vi. Eu sei. Eu estava lá”.