Há dias que o melhor é ficar à beira da piscina sem fazer nada que não jiboiar.

Há dias que o melhor é ficar à beira da piscina sem fazer nada que não jiboiar.

Jesus de Deus sentou-se e pediu um copo d’água. Faz calor e o ar está seco como carne ao sol. Coloquei a jarra d’água diante de nós e nos sentamos para conversar.

— Onde está Vera? — Perguntei, estranhando que tivesse vindo sozinho.

— Está ajudando o novo pároco na sua tarefa de recolher doações em alimentos para distribuir aos seus paroquianos pobres. A propósito, o senhor concorda com este tipo de ação?

— E por que eu discordaria? — Perguntei, olhando-o curioso.

— Porque eu já o ouvi dizendo que não se deve dar o peixe pronto e, sim, deve-se ensinar a pescá-lo. No caso em questão, o pároco está fazendo exatamente o que não é aconselhado neste dito popular.

Isto é África nos dias de hoje. Não é campo de concentração nazista.

Isto é África nos dias de hoje. Não é campo de concentração nazista (http://jacksonangelo.blogspot.com.br)          .

— Ninguém que esteja de estômago vazio aprende nada, assim como não tem ânimo para fazer nada. Mas isto não significa que eu não continue a defender a assertiva que você acaba de citar. Não dou esmolas, a não ser em casos muito especiais. Aliás, dentro da montanha de impostos que nós pagamos há uma parcela que, segundo manda a Lei dos Homens, deve ser destinada à ajuda e à caridade pública custeada pelo Estado. 

— Eu nunca ouvi falar disso — retrucou Jesus de Deus, olhando-me sério.

— Pois é. Nem você, nem mais de dois terços dos brasileiros. Mas há a Lei. E ela é devidamente escamoteada pelos Polititicas. Nem por isto eu devo assumir fazer a caridade pela qual pago ao Estado, mais bem equipado que eu e bem mais rico com o pagamento de toda a Nação. Eu só posso dar uns míseros trocados, mas colaboro com o tesouro público para que construa casas de abrigo e recuperação dos abandonados pelos homens. Se não o fazem, o crime é deles. A responsabilidade, também.

— Sei que o senhor concluiu que todos nós somos dois em um. O primeiro, o Espírito, não necessita de nada deste mundo. é perfeito e como tal nem mesmo de ajuda ele precisa. O segundo, o Elemental Físico, necessita de tudo deste mundo denso. É imperfeito, é fraco, é dependente de todos os demais e precisa de ajuda constantemente. Mas sei que o senhor também chegou à conclusão de que seu Elemental Físico, assim como o meu e o de todos os demais seres humanos, devem ajudar-se mutuamente…

"Você fala mal de nós porque não está aqui. Não vive a realidade desta casa"

“Você fala mal de nós porque não está aqui. Não vive a realidade desta casa”

— Pode parar. Sei onde quer chegar, mas adianto que todos os Elementais Válidos já colaboram com os inválidos através da estruturação social legal que criaram. O que não funciona nesta estrutura é que os Elementais escolhidos para cumprir com o que foi estabelecido em Leis não estão avançados civicamente para pensar no grupo, em vez de em si mesmo e em seus interesses particulares. É por isto que existem os polititicas.

— Ora, o erro de alguns não justifica a ranzinzice de outros — disse ele, sorrindo malicioso.

— O erro não é de alguns. É de todos, meu amigo. Quando escolhemos os que devem fazer cumprir com as Leis que foram sancionadas após demorados debates políticos, nós nos deixamos guiar não pela responsabilidade cívica, mas pela indiferença idiota dos que ainda não apreenderam o que é ser um cidadão. Muitos, no Brasil, dão seus votos a troco de um pé de chinela havaiana. O outro pé recebem depois que o crápula espertalhão estiver eleito. Eu vi isto aqui, no Centro-Oeste, há bem pouco tempo. Enquanto vivermos neste tipo de polititicagem, não sairemos da condição de país sub-desenvolvido.

— O senhor, então, acredita que ainda vivemos no passado? Todo o Brasil?

— Passado? Ora, isto não existe. Assim como não existe o tão cantado futuro. Na verdade, vivemos no agora que já não mais é praticado no mundo todo.

Jesus de Deus me olhou com uma interrogação no olhar.

— Vivemos num agora que já não existe? Isto não implica de imediato uma idéia de passado?

A Terra no Espaço. Tão grande e tão ínfima...

A Terra no Espaço. Tão grande e tão ínfima…

— Sim, subjaz na minha oração esta idéia, até porque ela faz parte de nossa natureza mesma, podemos dizer assim. Desde quando nascemos que somos condicionados a entender o Tempo como composto de três dimensões: passado, presente e futuro. Mas só existe o presente. Passado e Futuro são criações imagéticas para se compreender uma realidade que nos foge à apreensão intelectual. Veja, a Ciência descobriu que a raiz da linguagem está gravada nos genes humanos. Se isto não fosse assim, uma criança não conseguiria captar tão precocemente o sentido de posse nos adjetivos seu, sua, minha, dele etc…, assim como não conseguiria, em tão exíguo tempo, adquirir a capacidade de raciocinar e traduzir seu raciocínio em signos lingüísticos. E se tal fato acontece com relação à linguagem, também deve acontecer com relação à apreensão do Tempo como escorrendo num eixo que vai do passado ao futuro passando pelo presente. Compreendeu o que tento dizer?

— Perfeitamente. Mas como viver sem esta percepção conceptual?

— Bom, aí está o dilema mais difícil para o ser humano. Tudo, na Terra, conspira para que seu Elemental se veja aprisionado em uma dimensão ilusória chamada Tempo, o qual escorre eternamente de um futuro desconhecido para um passado irrecuperável. Mas veja, meu amigo. Projete-se no Espaço Sideral e de lá, bem longe da Terra, mas não tanto que não lhe seja permitido vê-la como uma gigantesca bola que gira sobre si mesma e se desloca no espaço ao redor do Sol, observe a si mesmo e tente perceber o Tempo segundo seu conhecimento aqui em baixo. Não é possível.

— Ué! O senhor já esteve lá fora? — Espantou-se Jesus de Deus.

Paraquedismo.

Paraquedismo.

— Não. Mas não é preciso saltar de pára-quedas para se imaginar a sensação que isto deve ter. Filmes conseguidos por astronautas ou por telescópios gigantescos, transmitem-nos a real percepção de como a Terra é vista do Espaço. Se uma pessoa se interessa por este assunto e vê tudo o que é possível ver e está disponível na TV, na Internet e no cinema, então, chega um momento em que lhe é fácil perceber-se imaginariamente fora da Terra. E o que verá? Verá aquilo que os olhos mecânicos dos grandes telescópios lhe mostram: a Terra gira no Espaço escuro e para o observador não há a sensação de dia e noite. Não há a percepção de que houve um dia que findou e outro que começou, raiz da percepção da dimensão ilusória de futuro, presente e passado. 

Jesus de Deus assentiu com um aceno de cabeça.

— Mas como viver e se comunicar sem a percepção intrínseca de um tempo que escorre num eixo temporal?

— Já estive pensando muito a respeito e, até agora, não consegui uma resposta para isto. O tempo tal e qual o compreendemos e aceitamos, é a maior das ilusões a que estamos irremediavelmente presos. E isto nos condena a viver sempre em uma grande ilusão. A viver totalmente mergulhado nela e, o que é pior, a só compreender nossa vida elemental dentro desta dimensão ilusória.

Jesus de Deus sorriu um sorriso enigmático. Com um suspiro ele observou que talvez esta ilusória realidade totalmente fora do alcance da pessoa modificar seja uma das maiores Vontades do Pai.

— Um dia, e o senhor também crê nisto, nosso Espírito será chamado a trabalhar numa dimensão que dispensa totalmente esta realidade transitória em que pensamos que vivemos. Tudo, então, se modificará e a Verdade do Cosmos nos será revelada.

— E por que esperar esse dia?

Aldebaran, que parecia grande, é ínfima diante de Betelgeuse e a gigantesca Antares. E a Terra? Onde está?

Aldebaran, que parecia grande, é ínfima diante de Betelgeuse e a gigantesca Antares. E a Terra? Onde está?

— Talvez porque nosso Elemental Físico não tenha aptidão de perceber a Realidade Mesma, pois ele próprio é uma grande ilusão. Este mundo, a Terra é, ela mesma, inexistente diante das dimensões de muitos outros astros dentro mesmo de nossa Galáxia. O senhor mesmo já chamou a atenção da gente diversas vezes sobre esta realidade espantosa. Se a Terra é menos que um milésimo da milionésima parte de um pixel e o Sol é menor que a milésima parte do mesmo pixel, a raça humana literalmente não existe na dimensão galáctica. Por que? Por que o senhor acha que o Pai colocou a raça humana tão diminuta e restrita a um sistema estelar que, a rigor, não tem importância dentro do sistema galático em que se encontra?

Novamente aquele olhar penetrante e aquela expressão de seriedade que incomodava a um leigo que o encarasse.

— Eu não sei. São coisas que só a Ele compete saber.

— Então, para o senhor, o Pai tem mistérios…

— E por que não? Ele nos deu esta dimensão e a liberdade de, dentro dela, agirmos como quisermos e fazer o que quisermos, sem restrições. Mas deve ter uma intenção que não nos é revelada. E se ainda acreditamos na Morte e a tememos é porque nosso Espírito, a centelha realmente imortal e perene, ainda não está senhora de si. Então, de algum modo vivenciar esta ilusão é necessária.

— Concordo com o senhor. E se Ele não quer revelar-nos tudo e nos aprisionou inexoravelmente no Hades…

— Hades?

— O tempo. Simbolicamente estamos no Hades, de onde não se sai, não é mesmo? Nascemos nele e nele vivemos até partirmos novamente. Por que? Só o Pai sabe. Então, concordo com o “seu” Benítez quando diz que meu xará dizia ao seu viajor do tempo: “confia”. Ele nos criou por uma razão e esta, só será revelada a nós quando chegar o momento certo.

Ele olhou ao redor. A luz solar era esfuziante e o calor abrasador. Ele se pôs de pé, terminou de beber a água que restava em seu copo, sorriu para mim e se despediu com um aceno de mão.

Fiquei a olhar em silêncio sua retirada a passadas rápidas, como era seu natural. Jesus de Deus continuava um desafio para mim…