Falar com os pés para convencer ou defender nossos direitos não é o melhor caminho.

Falar com os pés para convencer ou defender nossos direitos não é o melhor caminho.

Orozimbo chegou, entrou, sentou-se, acendeu seu cachimbo e tudo isto sem nem mesmo me dizer “bom-dia”. Escrutei-lhe a expressão da face em busca de alguma pista que me dissesse qual era seu humor, mas não consegui nada. Sua expressão era de pedra. Seus movimentos lentos, estudados. Depois de aceitar o café amargo que lhe servi e bebê-lo todo, falou.

— Meu netim me meteu numa imbruiada do capeta, home.

Sentei-me a seu lado e permaneci quieto, esperando que continuasse sua história. Não acreditei que o Edu tivesse feito alguma coisa de ruim, visto ser um garoto alegre, brincalhão, de boa índole e muito camarada. Mas era uma criança, portanto…

— Vancê qué sabê o qui foi qui o pestinha aprontô?— Estou esperando que você me conte. E estou curioso, tenho de confessar. O Edu sempre foi um menino bom, calmo e brincalhão. Não imagino que seja capaz de fazer alguma coisa má.

Falar com os punhos também não é legal. Só no ringue é mais ou menos aceitável esta linguagem violenta.

Falar com os punhos também não é legal. Só no ringue é mais ou menos aceitável esta linguagem violenta.

— E apois, né? O minino inté qui é cuma vancê diz, mas onte, na iscola, ele amaciô as fuças de um branquelo qui chamô ele de picolé de carvão.

Fiquei espantado. Tinha de ter havido uma provocação mais forte, pois se havia uma coisa que nunca tirava o garotinho alegre do sério eram os apelidos. Ele já fôra chamado de tição, meia-noite, escuridão, tição ambulante, beiçola e outras tolices que tais e nunca esquentara os miolos por isto. Tanto que os apelidos não pegaram. Por que, então, reagiria por mais um?

— Como foi isso? — Perguntei finalmente, visto que Orozimbo se calara e mergulhara nas baforadas nervosas de seu cachimbo.

— Ele conta qui tava cunversando cum uma garotinha, tombém nêga cuma ele, quando um minino branquelo, brigão qui só, gritou bem arto pra todo mundo uvi: “Óia lá dois picolé de carvão conversando!”. Meu netim num se incomodô, mas a minina cumeçô a chorá, comprende? Aí ele gritô pro atrevido: “Óia o qui vancê feiz. A minina ficô maguada. Pru qui é qui vancê é tão mau?” Aí o brigão, arrastando a turma de puxa-saco de valentão atrás, veio inté ele e lhe deu um empurrão nos peito, gritando: “Cala a boca, picolé-de-carvão! Cala a boca senão eu te dô uma voadora!”

— O garoto faz arte marcial? — Perguntei.

— Diz qui ele faiz um tar de tá-cum-dô ou coisa ansim, num sabe? É uma luta parecida cum nossa capoeira. Tombém usa os pé pra batê e sarta cuma perereca.

— E o que fez o Edu? — Perguntei, já desconfiando do que vinha a seguir.

Violência entre estudantes. Por que? Quais as causas?

Crianças brigam quando não lhe é ensinado como dialogar com a boca.

— Meu netim tentô evitá a briga, mas o garoto tava a fim de batê nele. É qui meu netim sempre tira notas mió qui ele, nos istudo e o minino branquelo tem uma bronca danada do meu netim pru causa disto. Entonce, aproveitô o momento pra puxá briga. Meu netim não reagiu ao empurrão, mas quando o minino brigão empurrou tombém a garota cum quem Edu cuversava, aí a coisa num prestô. A minina caiu no chão de mar jeito e as carcinhas dela aparecerum, num sabe? A mulecada feiz aquela baruiada mangando da carcinha da minina, qui se inborcô de costa e caiu no chôro, de vergõia. Meu netim avisô qui ia descê o pé no mulequi. Entonce cumeçô a briga. O minino parece qui é bom de chute, mas vancê sabe qui o Edu foi treinado pur este véio aqui nas cinco modalidade de capoeira e apelô logo pra cavalaria. Foi pé pra lá, pé pra cá e rodopios brabos. A fessora e um bando de gente tentô apartá os dois, mas num deu não. Os mulequi tavam qui tavam. Rodavam e sartavam no ar e num permitiam qui ninguém chegasse perto deles. Inté qui um corta-capim bem rasteirim pegô o branquelo de jeito e ele se esborrachô no chão. Antes qui pudesse se indireitá levou um martelo-de-corujinha bem na cara e desmaiô na hora.

O golpe "corta-capim" de capoeira. É uma rasteira baixa.

O golpe “corta-capim” de capoeira. É uma rasteira baixa, aplicada com o corpo girando para a frente. O “martelo de corujinha” parece-se com este, mas uma das mãos está no ar, o corpo está na horizontal e gira pelas costas. O pé que está no alto é que atinge o adversário.

“Martelo-de-Corujinha” é como os antigos capoeiras chamavam a um contra-ataque levado a efeito com o jogador deitado na horizontal, corpo esticado no ar e apoiado pela cintura em um cotovelo cuja mão apoiada no chão serve de eixo para o giro do corpo. Um movimento muito semelhante aos que fazem os dançarinos de rua. A diferença é que no “martelo-de-corujinha” o calcanhar do pé que gira bate violentamente na cabeça do oponente que está caído e tentando se pôr de pé. A pancada pode matar na hora. É de uma violência inaudita. E é muito difícil de controlar a violência do golpe, já que ele é aplicado com o corpo girando velozmente de costas. Depois do golpe, o capoeira salta no ar ainda com o corpo na horizontal e troca de mão e de sentido de giro e retorna chutando de frente. Vai pegar o seu oponente quer ele ainda esteja tentando se levantar, quer se tenha esquivado ou, mesmo, quer esteja desmaiado. A este novo ataque é chamado de “a bicada da corujinha” e visa selar de vez a morte do oponente. Mas Orozimbo me sossegou. Edu não completou o golpe com “a bicada da corujinha”. O garoto do “tar de tá-cum-dô” tinha desmaiado na primeira pancada. Orozimbo foi chamado e responsabilizado diante de um juiz pela agressão de seu neto. Agora, estava condenado a distribuir cestas básicas por três meses, uma por semana, para quatro abrigos de crianças abandonadas. Logo ele, que não tinha como comprar as tais cestas. Eu o sosseguei e lhe disse que lhe daria as cestas, desde que não surrasse seu neto.

— Ora, véio num vai batê nele, nhor não. Véio num é racista, num sabe? Mas num aceita racismo cum gente dele. Ah, isso não mermo!

— Bom, está tudo resolvido. Vamos passar adiante?

— Cuma ansim? — Espantou-se ele. — Vancê num vai querê falá cum meu netim, não?

— Não. Já fui uma criança como seu netinho e também já joguei muita capoeira em briga de rua. Acho que ele até que é mais calmo que eu. Não tenho nada a dizer que você já não lhe tenha dito.

— Bão, se é ansim qui vancê pensa…

Ele permaneceu calado por um tempo e, então, voltando-se em minha direção olhou-me nos olhos e perguntou:

— Vancê é fã do tar de Jesus de Nazaré, num é?

— Sou. Por que?

— E aquele sujeitim lá do passado num dizia pra num brigá? Ele num dizia qui se arguém batessa na cara da gente, a gente devia dá o otro lado da cara pra apanhá de novo?

Eu tive de rir da tirada dele.

— Ele disse algo mais ou menos assim, mas não foi assim como você está falando, meu amigo.

— Ah, não. Foi ansim mermo. Véio foi à missa e uviu o pade tombém contá essa históra dele tar e quá vancê me contô e tar e quá eu falei agora.

— Tudo bem. Não vamos discutir por detalhes sem importância. Mas por que você me faz esta pergunta?

"É isso mesmo, Orozimbo. Ele não tem dó da gente!"

“É isso mesmo, Orozimbo. Ele não tem dó da gente!”

— Ora, purqui véio tem visto qui vancê tá danado batendo nos pulíticu. Num é cuns pé, mas é cuns dedo no teclado desse seu computadô. Jesus de Deus tem lido seus iscrito pra véio, num sabe? E vancê tá qui tá! No intanto, home, num foi Ele qui dixe pra num se sê violento? Vancê é violento cum as palavra, né não?

— Sou. Como seu netinho, o Edu, eu também bato quando sou agredido.

— E desde quando os pulíticu agrede vancê? Qui véio saiba, vancês nem se cunhece!

— Eles são homens públicos e estão lá em cima para cuidar do bem-estar de todos nós. E entre estes TODOS estamos você e eu, Orozimbo. Não preciso conhecê-los pessoalmente para descer o malho nos que cometem crimes contra mim enquanto cidadão, compreende?

— Mas e eles lá tão ligando, home! vancê perde seu tempo, ora. Divia era de tá fazendo argo mió, num sabe?

— Eu estou muito bem fazendo o que faço, meu velho. Ao menos me irmano aos que vão para as ruas gritar ativamente contra os ladrões que estão no Poder e fazem o diabo com nossas vidas.

— Mas num arresorve, ora. Nem vancê, nem os besta qui tão pur aí, gritando à-toa. Num vão tirá os sujeitim lá de cima mas é nunca! Eles tão calejado, minino. Eles herdarum esta terrona de Deus desde os tempo da iscravidão. Tão acustumado a descer o relho no lombo dos otros, ora. Gritá num é uvido, pode tá certo.

E a grita do povo põe os cabelos dos polititicas em pé de tanto medo.

E a grita do povo põe os cabelos dos polititicas em pé de tanto medo.

— Aí é que você se engana. Eles ouviram a grita que continua firme e forte, meu amigo. Veja, diz-se que o que mais dói nos brasileiros é o bolso. Quer educar um brasileiro? Multe-o. Num instante ele aprende o caminho das pedras. Veja o que o Prefeito do Rio de Janeiro resolveu fazer. Agora, a cidade vai ficar limpa. Do mesmo modo, o que mais dói em um político é a urna. Se ele percebe que o povo está revoltado contra seus desmandos, compreende que a urna se fecha para si e sabe que isto é seu fim. Então, trata de acertar o passo com a vontade dos que o elegeu para não perder a teta, compreende?

— Craro. Mas num arresorve. Num vê cuma é qui eles tão tratando da históra da Saúde Púbrica? In veiz de mandá construí hospitá decente e cunsertá os véio, tão é mandando buscá médico na tar de Cuba. Isto num arresorve nada e num passa de imbromação. E os peste chegarum cum discurso sem-vegõia da mulesta, sô. Disserum qui concorda cum o dinhero deles sê inviado pro barburdão de lá. Êta que gentinha besta, sô! Inté qui merece o barbudão qui têm, num é não?

— Lá em Cuba o regime é ditatorial, Orozimbo. Ou eles falam o que foi mandado falar, ou, quando voltarem, vão sofrer o diabo. É claro que os discursos em prol de Fidel e do regime, que alguns médicos pronunciaram aqui, foi armado lá, antes de eles partirem. Mas fique certo de que muitos vão tentar permanecer por aqui, quando a fanfarronice do PT cessar. E isto vai acontecer depois de 2014, quando a Vovozona, se Deus quiser, tiver levado a breca.

— Vancê acha qui vão dá um pontapé na bunda da véia, é?

— Eu rezo para que sim. Não dá para aguentar mais quatro anos de burradas do PT. É demais até para a paciência de Deus.

— Entonce vancê num concorda cum seu Jesus la de Nazaré, num é?

— em quê?

— Naquela históra de dá a outra buchecha pra levá porrada, quando a gente apanha numa das duas buchechas.

Olhei para meu amigo, desconfiado. Ele estava falando muito a respeito da sentença de Jesus. Por que?

— Bom, na verdade, a  gente não pode tomar as palavras do Mestre ao pé da letra. Ele mesmo não agiu assim. Muitas vezes revidou com acrimônia aos ataques que sofreu de seus perseguidores. Não se serviu da força física porque em Sua missão na terra isto não tinha vez. Mas usou a língua e esta, meu amigo, quando bate, bate mais forte que qualquer punho.

Orozimbo permaneceu quieto, introspectivo. Então, pondo-se de pé, com um suspiro, falou.

— Bão, se é ansim, entonce meu netim tem todo dereito de falá usando os pé, né não? Só quando ele ficá adurto é que a gente pode exegi dele qui fale cum a boca e deixe os pé quieto, né mermo?

Aí eu entendi sua cisma e ri. Ele tinha razão. É preciso amadurecer para que uma pessoa abandone a pancadaria como meio de dissuasão. Mas isto, seu netinho ainda tinha muito que esperar. Talvez nunca aprendesse, como os americanos jamais aprendem que usar armas para resolver questões internacionais não é o caminho mais correto. .