Às vezes eu me distraio fazendo fotos de coisas das quais gostei.

Às vezes eu me distraio fazendo fotos de coisas das quais gostei.

Orozimbo voltou á tarde, depois do desabafo sobre a enrascada que seu netinho o havia metido. Vinha acompanhado de Vera, a namorada de Felício. Este, viajara para Roma. Sentaram-se e papeamos aleatoriamente. Em dado momento, Vera disse que se sentia mal consigo mesma porque não conseguia evitar a consciência de que tinha medo da morte, do desencarne, como dizem os espíritas. Orozimbo olhou para ela com cara de gozador. Questionado pela moça, riu e disse que era pura besteira alguém ter medo de morrer, pois a morte é a única coisa certa que se tem na vida, desde mesmo quando se é gerado no ventre materno. Vera concordou com ele, mas disse que ainda assim, tinha medo do momento de sua morte. Virando-se para mim ela me perguntou se eu também sentia este medo que lhe parecia arraigado no âmago mesmo da alma da gente. Eu estava atento ao papo dos dois, pois era um assunto sobre o qual eu vinha pensando e repensando há muito tempo, mas com mais intensidade desde o final de semana em Caldas Novas.

Se pensar com cuidado, vai descobrir coisa interessantes.

Quanto mais idoso, mais a gente se recolhe a repensar a vida em busca do que fez de bom e de ruim.

— Eu estava rememorando minhas posturas a respeito disso — respondi. — Na verdade, acho que passei por vários momentos relativamente ao medo à morte. Inicialmente, quando era adolescente, eu tinha pavor da idéia de morrer. Isto foi devido ao intenso condicionamento religioso que me fazia acreditar que, devido aos meus pecados incontroláveis, como a masturbação, por exemplo, eu era um condenado desde mesmo meu nascimento. Além disto, havia as constantes pragas que eu ouvia de minhas tias, que sempre afirmavam que eu era uma desgraça de menino e que ia direto pro inferno quando morresse. Tudo isto me fez ter um terror incontrolável à idéia da morte que, eu o sabia bem, era inevitável. Vivi sob este terror até idade avançada. Mesmo quando rompi de vez com toda e qualquer religião cristã por causa de seus dogmas idiotas, eu conservei aquele medo do qual não pude me livrar. E ele me acompanhou por toda a vida. Recentemente, conforme já registrei aqui, eu me vi num momento agoniado em que cheguei a ter quase certeza de que meu fim tinha sido decretado. Eu devia partir. Naquele momento percebi que eu ainda temo o desenlace. 

Orozimbo me olhou com o cenho franzido. Então, erguendo a mão para interromper o que Vera parecia querer dizer, questionou-me:

— Vancê tem medo da morte?

— Sim. Por incrível que isto lhe possa parecer, ainda há, em mim, certo receio do momento da partida.

— E por que? — Interessou-se Vera. — O senhor sempre me pareceu tão frio com relação a isto. Sempre tive a idéia de que, tendo passado por todos os centros ocultistas que passou, o senhor não desse qualquer importância ao ato da morte. Agora, estou surpresa.

— Vera, não sei se verdadeiramente alguém não teme o momento do desencarne. Quando a gente freqüenta Ordens Místicas, como o TAO e o Espiritismo, entre outras, que asseveram a ocorrência da Lei do Karma – coisa que a Teosofia também aceita e prega – não há como não se refletir sobre esse momento certo e tão desconhecido. Ele é único e só nosso, mas também é, ao mesmo tempo, a maior interrogação que qualquer pessoa tem, se ela é sincera o suficiente para consigo mesma, pois, no fundo, todas as seitas religiosas, da mais simplória até à mais sofisticada, falam a mesma coisa: o Karma existe e é inflexível. 

— Arre égua, home. Vancê num aquerdita qui este véio aqui num teme morrê?

— Não, meu velho, não acredito. Posso crer que você nunca deu grande atenção ao momento de seu final. Isto a gente tende a fazer exatamente por temor a pensar na finitude total. Claro que esta finitude não é de nosso Espírito, outra coisa que, para mim, ainda é duvidosa…

— Mas agora danou! — Exclamou Orozimbo, abrindo os olhos de espanto. — Vancê duvida da existença do Ispritu?

Uma Reunião de Espíritos Superiores, na visão Espírita, onde assuntos relativos às futuras reencarnações são debatidos pelos Instrutores Maiores. Na Teosofia, não são espíritos humanos, mas Devas (Anjos) que se encarregam desta árdua tarefa.

Uma Reunião de Espíritos Superiores, na visão Espírita, onde assuntos relativos às futuras reencarnações são debatidos pelos Instrutores Maiores. Na Teosofia, não são espíritos humanos, mas Devas (Anjos) que se encarregam desta árdua tarefa.

— Sim e não. Afinal, eu já me projetei além do corpo físico e tenho a prova de que há alguma coisa além dele. Alguma coisa muito diferente. Uma realidade indescritível, boa, maravilhosa mesma. Mas eu não me vi nesta outra dimensão, entende? Não vi um corpo meu nem vi, quando olhei para as pessoas vivas, nenhuma aura que as distinguisse enquanto espírito. Então, posso admitir o que dizem os cientistas céticos, que afirmam que a gente tende a sofrer alucinações quando se encontra em estados alterados de consciência. Remédios dessa farmacologia espúria, venenosa, também acarretam não somente alteração de humor, mas também alteração de estados de consciência. As Alucinações podem ser tomadas como verdades, mas não o são. A epilepsia tem muita formas de se apresentar e uma delas é justamente o acarretamento de estados alterados de consciência. Nós somos uma entidade extremamente complexa, meu amigo. Nada é tão simples quanto pode parecer. Sim, sim. Antes que você me lembre de que já freqüentei centros espíritas das mais diversas escalas de evolução espiritual e neles obtive ajuda objetiva, direta, comprovável e inquestionável, como foi o caso das operações físicas que foram verdadeiros milagres realizados por espíritos — e a cura de minha alergia intensa, que foi causa de desengano dos médicos alergologistas, é um destes milagres que se fez em mim através do espiritismo — eu ainda hesito em relação ao que se propala por aí sobre a existência do Espirito como entidade viva e independente da matéria. Somos todos UM e isto eu aceito como Verdade, pois aceito a idéia de um Criador Onipresente, Onipotente e Onisciente. Minhas dúvidas estão na separatividade, compreendem? Sou um com a matéria, em qualquer plano de densidade material considerada. Mas se sou um com a matéria, Deus também o é, pois sendo meu Espírito uma emissão d’Ele, então, é cópia em miniatura de Sua Seidade mesma. E sendo assim, a distinção dicotômica entre matéria e espírito causa um vácuo inadmissível no continuum da Criação. Então, quando sinto receio do meu final material é o meu Espírito quem teme com toda razão esta perda? Eu acho que sim. E se é sim a resposta, então, o medo à morte é intrínseco ao ser humano e negá-lo só nos diz que aquele que nega tem mais medo do fim do que aquele que o admite. Não sei se me fiz compreender.

— Foi complexo o que o senhor disse, mas creio que alcancei sua colocação e ela me parece muito válida — disse Vera com certa admiração — No fundo, doutor, para o senhor, a matéria é uma estrutura intrínseca do espírito de qualquer um e só assim se explica que ele, o Espírito, possa aprender através da sensação que é atributo material mais do que espiritual. Então, quando chega a morte para o corpo, o Espírito sente que também morre um pouco junto com ele… Não é assim?

— É, você colocou a coisa de modo mais objetivo — concordei, satisfeito.

— Orozimbo uviu tudo, mas num intendeu nada. O qui véio sabe é qui vê e cunversa cuns ispritos e é pur isso qui pode afirmá que eles exéste, ora.  Véio tombém já visitô muntas veiz o além e inté já levô vancê inté lá. Inda ansim vancê tem dúvida?

Céu ou Inferno? A escolha nós a fazemos a todo momento, durante nosso dia de atividade. Então, à noite, os sonhos nos revelam que opção fizemos...

Céu ou Inferno? A escolha nós a fazemos a todo momento, durante nosso dia de atividade. Então, à noite, os sonhos nos revelam que opção fizemos.

Eu me lembrei das duas mulheres que tinham vindo-se consultar com o velho e que, juntamente com elas, ele nos levou, a mim também, a um lugar deliróide, estranho, amedrontador mesmo, mas não quis expressar minha dúvida sobre se aquilo não teria sido uma ilusão coletiva causada por um estado hipnótico resultante de um momento emocional diferenciado onde, por não estar previamente prevenido, todos embarcamos juntos. E se esta hipótese fosse verdade, só a ocorrência de uma Lei Psíquica ainda não descoberta poderia explicar a alteração coletiva de nossos estados de consciência. O fenômeno da empatia é o melhor exemplo que posso dar para que se compreenda do quê estou falando. Para os que não entendem o que é empatia dou o seguinte exemplo: uma pessoa anda pela calçada de uma rua movimentada. A seu lado há umas dez outras pessoas que também transitam por ali, cada qual voltada para seus objetivos e apenas quase subliminarmente consciente da presença das outras. De repente, aquela pessoa que citei solta um grito de medo e dispara a correr. Imediatamente as dez pessoas ao seu redor também soltam exclamações de susto e também correm sem que tenham um motivo real para isto. A reação destas pessoas ao grito e corrida da primeira acontece porque houve empatia, isto é, todas sentiram a mesma reação de medo que a primeira. Mas não fui adiante com meu pensamento. Preferi ficar calado.

— Bom, estamos fugindo do tema principal: o medo à morte. Vamos retornar a ele? — Pediu Vera, vendo que uma querela estava-se armando entre mim e Orozimbo.

— Véio num teme a morte. Ela é naturá, ora.

No fundo de todos os corações, principalmente dos que já viram a "Magra" gargalhando bem perto, há o medo. E o Medo açula a Fantasia...

O mais temido fantasma neste mundo – a Morte. Curiosamente, ela não existe…

— Eu não creio que o senhor não tema a morte. Acho que foge ao pensamento sobre ela. Quero dizer, ao pensamento sobre o como será o desligamento do corpo físico. Haverá dor? Como e o quê acontece com a mente da gente? Ela fica confusa? É verdade que os bons vêem um túnel de luz belíssima e os maus vêem um poço escuro no qual sentem que vão cair e nada pode impedir que despenquem lá dentro? Qual é a intensidade do medo que uma pessoa má sente, quando percebe espiritualmente que vai despencar num lugar ruim e não tem como evitar? Será que grita por socorro, mesmo que somente no pensamento? E o pensamento, nestes momentos, não estará ele mesmo confuso, conturbado, delirando e recebendo imagens descontroladas da mente e que são fruto, por exemplo, de filmes de terror ou coisas similares as quais, naquele momento, a Mente em agonia libera e vão invadir o pensamento do moribundo? Nós todos sabemos que nossa memória não deleta nada que foi visto e sentido. Mesmo que estas lembranças sejam varridas para o inconsciente, elas estarão lá. O que vimos na TV ou no cinema, assim como o que lemos nos jornais e revistas está fixado em nossa memória e o doutor já nos explicou que a percepção periférica é infinitamente mais detalhista que a focal e por ela a gente grava na memória dados que podem jamais virem à consciência, à recordação, porque não terão qualquer importância nos fatos que se seguem no nosso viver. Mas estarão lá até nossa morte, não é, doutor? E se estão lá, quando liberados, podem criar uma realidade virtual, imagética, aterradora… O que o senhor diz disso?

Cérebro, este mistério desconhecido pela Ciência e que gera uma infinidade de teorias

Cérebro, este mistério desconhecido pela Ciência e que gera uma infinidade de teorias.

— Isto é o que afirma a Ciência, Vera. Mas é somente uma tese. Alguns experimentos para comprovação já foram realizados e deram resultados positivos com um percentual de 0,85, o que indica uma altíssima probabilidade de ser verdadeira a tese pesquisada. Mas há sempre aquele 0,15 de dúvida. Sem que ocorra cem por cento de acerto, a gente pode estar laborando em erro. A hipótese é válida, eu penso assim, desde que comprovadamente nosso cérebro registra um detalhe milhões de vezes, isto é, sempre que ele se apresente dentro de um cenário perceptivo que se repita milhões de vezes diante de nossos sentidos. Aqueles detalhes com certeza não serão usados para nada e desaparecerão com a morte, ao menos em tese. Mas certamente que a obnubilação da consciência no momento da morte física pode liberar um verdadeiro vendaval de rememorizações atabalhoadas, as quais são descritas pelos espíritas como o fenômeno da revivescência de toda a vida da pessoa numa fração de minuto, no momento mesmo do final. Asseveram alguns espíritas que esta rememorização intensa ocorre carregada de fortes reações emocionais de medo, culpa, arrependimento, enlevo, saudade etc… e isto se torna o verdadeiro “juízo final” para o moribundo. Daí que esta corrente espírita não acredite num “dia de juízo final” coletivo, como o crêem católicos, protestantes e evangélicos.

— Véio num intende nadica de nada desse negóço de ixperimento, sabe, mas intende qui se uma pessoa num tem remorso de nada qui feiz em sua vida, num tem motivo pra senti medo da morte ou do momento dela acuntecê.

— Remorso? — Estranhou Vera.

— Remorso, sim sinhora, ora. Remorso é a consciência de que se feiz arguma coisa contra a Natureza de Olorum e contra nosso irmão. E se arguém, na hora da partida, sente remorso por arguma coisa má qui feiz, então, sim, vai ficá apavorado, pois sabe qui vai parti com uma dívida pra pagá. E aí vem o premero castigo: o arrependimento tardio. Num adianta se arrependê do erro na hora da morte, pois num há mais tempo pra consertá o qui se feiz de errado.

A Estrada Final pode se apresentar assim, segundo o Karma. Tudo depende das ações da pessoa durante sua vida.

A Estrada Final pode se apresentar assim, segundo o Karma. Tudo depende das ações da pessoa durante sua vida.

— E para onde vai o devedor? — Perguntou Vera, enquanto eu me limitava a ouvir.

— Depende. Se o mar feito dele num foi feito de pensamento pensado, mas em função de situação donde num pudia iscapá, entonce, num vai prum lugá ruim, não. Mas se o qui feiz de errado foi de pensamento pensado, aí vai-se daná. Vai caí num lugá munto ruim.

— Então o senhor acredita no Karma?

— Véi num se incomoda cum esse negóço, não, Vera. Véi pensa e véve todo momento da vida cum munto cuidado. A vida é cuma andá num caminho istreito e cheio de preda sôrta, num sabe? Se a gente não olhá bem onde põe o pé em cada passo qui dá, termina caindo e se ferindo todo. Entonce, é mió andá devagá, mas atentando pras predas do caminho, intendeu? Quem anda correndo na vida, passa pelas pedras sem percebê qui a carqué momento vai caí e se machucá um bucado.

Vera me olhou, pensativa e buscando apoio. Eu não disse nada nem fiz qualquer sinal de aprovação ou desaprovação que a incentivasse a contra-argumentar. Então, ela mirou o chão, pensativa.

Aqui o Elemental Físico Humano termina definitivamente.

Aqui o Elemental Físico Humano termina definitivamente. Mas será que o Espirito não sente isto?

— Óia, moça, vancê, se tem dúvida, pense ansim: se não há nada depois da morte e ela é inevitáve, entonce, num há motivo pra ficá preocupada. Tudo acaba ansim qui se fecha os óio. É cuma um sono sem sonho. Só qui pra eternidade. Mas se vancê aquerdita ou inté mermo discunfia de qui há arguma coisa além desta vida, entonce, num se preocupe cum a morte. Ela é somente uma porta por onde vancê e todo mundo terá de passá. O que vai incontrá depois dela é fruto do qui vancê feiz aqui, nesta vida. Se feiz coisas boas, vai incontrá lugar bom. Entonce, pru qui é qui se preocupa? Se feiz mardade, entonce vai incontrá um lugá ruim e num tem cuma iscapá dele. Mas há o consolo. Mermo lá, nada é pra sempre. Um dia tudo acaba e vancê muda novamente de lugá.

— Então os livros ditados por espíritos que já estiveram nesses lugares ruins são verídicos? O que o senhor acha, doutor?

— Esse home aí num presta pra esse assunto não, dona. Ele é discrente, mermo aquerditando. Véi num intende ele, nhora não.

A Mitologia cristã tende a exagerar na santidade de Míriam, a !nossa" Maria e o Espiritismo livresco embarca na canoa sem pensar..

A Mitologia cristã tende a exagerar na santidade de Míriam, a “nossa” Maria e o Espiritismo livresco embarca na canoa sem pensar…

— Li alguns livros espíritas. Não muitos, mas o suficiente para perceber que há uma indústria que explora a inocência dos crentes — disse eu. — Livros há que são invencionice, apenas para fascinar e cooptar a mente do leitor. Assim como fazem os evangélicos, os espíritas também buscam atrair o máximo de seguidores para sua doutrina. No entanto, há livros que parecem realmente serem de autoria de um Espírito. O modo como narram as suas realidades são impressionantes e coerentes. Geralmente não apelam para aquela linguagem melada que caracteriza os livros ditos espíritas. Ma não sei se  se pode atribuir ao medo do purgatório, do inferno ou sei lá de que coisa seja que nos espera do lado de lá, o temor que todos temos da morte. Eu, particularmente, acredito que este medo não é tão-só do corpo, mas também é do Espírito pelo que já disse anteriormente.

— Ao qual o senhor chama de Elemental Físico — complementou Vera, toda atenta.

— Exato. Ele sabe com toda a certeza que vai terminar. Se há o Espírito, este sabe que ele mesmo não tem fim, logo, não morre. Mas esta afirmação que endosso, ou tento endossar com convicção, não tem fundamento científico, objetivo, claro, concreto, entende? Eu confesso que sinto receio do fim. Não é somente porque tema o que vou encontrar do outro lado, embora minha consciência não me acusa de nada, o que, pela lógica, não justifica que eu sofra de nenhum remorso que me venha aterrorizar na hora da partida e isto, segundo a visão de Orozimbo, devia ser motivo para eu estar calmo e tranqüilo com relação à morte. No entanto, como já o disse, antes, creio que Espírito e Corpo são um continuum e, assim, o fim deste último atinge em cheio o primeiro. Mas não é a morte em si que me preocupa e, sim, a expectativa de como será o outro lado, pois existe de fato. É isto que me desperta apreensão. Irei para um lugar bom ou vou cair num lugar desagradável?

— E pur que vancê acha qui pode caí num lugá ruim? — Quis saber Orozimbo.

Há situações na vida que se assemelham com a gente se deparar com um bandido armado no caminho pelo qual temos de passar. Encarar ou fugir? Eis a decisão crucial a ser tomada.

Há situações na vida que se assemelham com a gente se deparar com um bandido armado no caminho pelo qual temos de passar. Encarar ou fugir? Eis a decisão crucial a ser tomada.

— Não tenho um porquê, e isto é o mais curioso. Muitas vezes tenho passado a noite em claro, pensando em minha vida e recordando dos momentos mais angustiosos, em que tive de optar pelo caminho mais duro e mais amedrontador para não fugir à minha consciência. Podia ter aceitado a opção mais fácil, mas ficaria mal comigo mesmo. Por isto, ainda que apavorado ou muito angustiado, tomei a decisão contrária, a mais difícil e a mais amedrontadora. E, passada toda a turbulência que tive de enfrentar pela opção feita, o que me restou foi uma paz gostosa. A paz de quem nada tem para se auto-acusar. Quando estive naquela aflição que descrevi aqui, lá em Caldas Novas, vi claramente que sou dois em um. Um, medroso, temeu a morte. O outro, corajoso, tratou de dominar o medroso e dirigir o que eu pensava ser meus últimos momentos com mão de ferro. Este outro eu, meu Espírito, talvez, não tinha medo do momento crucial. Estava, contudo, expectante para descobrir como seria a tomada de consciência logo depois que o corpo cessasse todos os sinais vitais. Seria imediata ou demoraria um tempo para eu finalmente acordar do lado de lá? E como será o lugar? Quem estará a meu lado, se alguém realmente estiver nos esperando, como asseveram os que defendem a vida depois da morte? Como serei eu, lá, do outro lado? O que vou querer? O que vou desejar fazer? Espero sinceramente que, em havendo o tal Karma, eu não esteja nem um tiquinho assim disposto a retornar para cá. Mesmo que me prometam uma vida terrena cheia de benesses e alegrias, não quero. Vou dar trabalho, tenho certeza. O “imprinting” desta vida vai-me acompanhar pela Eternidade. Chega. Não quero mais voltar e vou resistir até as últimas conseqüências, se alguém tentar me convencer de que tenho de aceitar a tal volta.

— E se seus fios, ou pelo menos um deles, percisá de qui vancê retorne para ajudá ele? Vancê num vai querê, não?  — perguntou Orozimbo, olhando-me carrancudo.

— Não —  respondi sem hesitar.

— Arre, home. Qui coração duro é esse qui véio num cunhece? — Exclamou Orozimbo, espantado.

Com freqüência quase diária nós nos deparamos com situações em que só a nós cabe decidir em uma luta feroz e silenciosa.

Com freqüência quase diária nós nos deparamos com situações em que só a nós cabe decidir em uma luta feroz e silenciosa.

— Não é questão de coração, meu amigo. É que eu aprendi que quando a gente não conta com ninguém para ajudar, encontra a saída e sempre, se é forte, segue o caminho certo. Um forte não cai. Se um filho meu cair, é porque não era meu filho de verdade. Não era forte. Então, terá de encarar a dificuldade como puder. Eu encarei, ora. E venci. Logo, ele terá de fazer a mesma coisa. Comigo este negócio de Karma não vai funcionar. Se eu voltar vou carregar a cruz que é dele e isto não é certo. A cruz que era minha eu carreguei por estes setenta e dois anos sem reclamar. E talvez ainda tenha de levá-la por mais algum tempo. Tenha a certeza de que a levarei com o mesmo estoicismo que aprendi na vida. Cobrarei de meus filhos que sejam fortes como eu fui e sou. Não vou voltar para socorrer a ninguém, esteja certo disto. Eu creio firmemente que esta minha encarnação atual eu a dediquei toda à ajuda aos que precisava ajudar por alguma razão que desconheço. Fiz o que pude por todos os que de minha ajuda necessitaram. Não tenho nada a me pesar na consciência sobre isto. Não valem os pensamentos ruins. Não valem os desejos mesquinhos. Valem, isto sim, as ações concretas, objetivas, que redundaram numa ajuda preciosa a alguém numa hora de desespero, solidão e desorientação. Eu cumpri com minha missão aqui em baixo. Agora, chega. E este chega é definitivo.

Orozimbo permaneceu me olhado carrancudo. Depois, com um suspiro, disse olhando para longe:

— É cuma vancê mermo diz: cada terra com seu uso e cada doido sem seu parafuso… Mas creia, home, nem vancê nem ninguém dá um basta no caminho do aperfeiçoamento ou Evolução, cuma vancê diz. Se tivé de vortá, cum certeza vancê vortará.

— É… Pode ser. Mas como não creio na imposição a ferro e fogo no mundo dito “espiritual”, o que quero dizer é que vou dar muito trabalho para ser convencido de que devo voltar para este mundo que já está no final ao menos para a humanidade tresloucada que aqui está — rebati decisivo.

— Em resumo — disse Vera — posso compreender que todos tememos o desencarne, exceto, claro, nosso amigo Orozimbo.

— e véi num teme não, ora.

— Está certo, está certo. Eu acredito. Mas está ficando tarde e eu tenho muito o que fazer. Vamos?

Orozimbo se levantou com um profundo suspiro. Lançou-me um olhar de censura e ambos se foram depois de um abraço caloroso de parte de Vera. O velho apenas se limitou a me lançar aquele olhar pesado e se foram

Eu pressentia que ainda voltaríamos ao assunto.