Mesmo tendo sido surrado à exaustão pelo chicote da vida, ainda assim gosto dos raros momentos de alegria que ela me dá.

Mesmo tendo sido surrado à exaustão pelo chicote da vida, ainda assim gosto dos raros momentos de alegria que ela me dá.

Jesus de Deus chegou acompanhado de um homem forte, já entrado em anos, moreno e de olhar duro, penetrante. Sentaram-se em minha sala e Jesus de Deus sem preâmbulos, me disse:

— Ouça a história de vida deste homem. É importante. É rica e tem muito que ensinar.

Olhei para o homem. Nenhum dos dois me dissera seu nome. Ele inspirou profundamente e me olhando com aquele olhar penetrante começou a narrar uma história impressionante. Eis o que me contou:

— Tenho cinco filhos. Três vivem no Rio de Janeiro e com eles quase não tenho contato. Por isto, não sei como vivem, como sentem o viver e como são seus conflitos emocionais e suas angústias, pois todos as temos. Eu não os vi crescer nem acompanhei o desenvolvimento psicoemocional deles. Sei que são boas pessoas e agradeço à mãe deles que, em que pese ter enfrentado uma vida duríssima, enfrentando um desequilíbrio psicoemocional da qual poucas mulheres conseguem sair ainda que com auxílio psicológico, venceu a batalha sozinha e conseguiu dar-lhes meios de formar Identidades bonitas. Eu a admiro muito, por isto. Ela mostrou que realmente a pernambucana é “muié macho, sim sinhô”. Os outros dois eu acompanhei desde o nascimento até hoje. Eu os vi crescer, individualizarem-se e “criar penas para voar”. A propósito do que venho observando em um destes dois filhos, a moça, meu coração se entristece profundamente. Principalmente porque não sei como ajudar, em que pese ser psicólogo. Mas é como diz o ditado: santo de casa não obra milagre. E este aforisma eu vivi intensamente em várias épocas de minha existência, portanto, sei que ele é verdadeiro. Aliás, como todo “dito popular”.

É a partir deste momento dito "magico" que os dois começam a descer a ladeira...

É a partir deste momento dito “magico” que os dois começam a descer a ladeira…

Sentados à mesa do café, hoje, eu observo sua expressão facial e corporal. É a mesma desde há meses: tensão no corpo; face “fechada”, expressão de raiva contida, que explode à menor tentativa de se entabular qualquer conversa com ela. Suas palavras são SEMPRE de pessimismo, de derrotismo, de revolta raivosa, de nenhuma crença na bondade do outro nem, muito menos, em que qualquer pessoa tenha boa intenção e possua em si um impulso para o bem, para a construtividade. Vê o mundo através de lentes pretas. Não se sente bem consigo mesma e só consegue enxergar o lado ruim dos outros. Acho que a única exceção é seu namorado. Apenas nele, ao menos nos momentos em que posso observá-los juntos, tudo parece que é cor-de-rosa para ela. Que lástima! A felicidade e a alegria de ninguém está em outro. Este erro todo jovem comete. O relacionamento apaixonado consegue fazer que pessoas amargas vejam o mundo, ainda que por pouco tempo, através de lentes cor-de-rosa. Isto, aprendi a duras penas, é uma fuga de si mesmo. A pessoa coloca no outro toda expectativa de alegria e felicidade. E quando vem a decepção a dor é imensamente maior do que seria se não tivesse feito tal projeção nem alimentado uma expectativa irreal, ilusória e tão batida no ente humano desde mesmo quando a humanidade surgiu na Terra.

Encarar o mundo com birra apenas porque ele não é como se quer é caminhar direto para a Dor.

Encarar o mundo com birra apenas porque ele não é como se quer que seja é caminhar direto para a Dor.

Como expressar o que vejo sem conseguir uma reação de oposição determinada, firme, calcada na experiência de apenas poucos anos de vida vivida na dura batalha do dia-a-dia? Ela só entrou na vida para valer há apenas sete anos. Até seus 21 anos viveu protegida pela sua casa, pelo seu lar. O mundo e tudo o que de ruim tem a nos oferecer estava” lá fora”, longe… Mas mesmo antes de seus 20 anos ela já havia mergulhado neste estado de decepção e de revolta e eu culpo isto ao Direto, à faculdade que escolheu para nela se formar e se preparar para enfrentar a guerra mortal e desapiedada que é o sobreviver nos ferozes dias de hoje.

A partir de terceiro ano de faculdade minha filha mudou. Tornou-se pessimista, desconfiada do outro, maliciosa e extremamente tendente ao pessimismo. Sua revolta aumentava à medida que os semestres passavam. Cada vez mais ela via o que é o DIREITO por dentro e não o aceitava. Via como é que o DIREITO apenas protege o erro e é feito justamente para safar os bandidos, os errados, os que infringem a Lei. E seu coração, que era alegre, feliz; seu sorriso que iluminava qualquer ambiente onde estivesse; seu sorriso espontâneo e luminoso foi-se apagando e dando lugar a uma expressão dura, feia, com olhar malicioso e desconfiado. E isto me machucou o coração como jamais alguma coisa, antes, o fizera. Ela entendeu que a OAB é um antro de corruptos, que visam tão-só levar vantagem, sem ética, sem moralidade, sem honra. O objetivo é um só : enriquecer a qualquer custo. Se não se é absolutamente corrupto e sem dignidade nem moralidade ali não se tem vez. Desistiu de prestar as provas daquela Ordem imoral porque de modo algum comunga com o caminho que o Direito abre diante dos que querem vencer na vida e que devem estar dispostos para o pior dos sacrifícios: vender a alma ao diabo.

Mas, ainda que fugindo à armadilha mortal da alma humana, ela não escapou ao veneno que o DIREITO injeta nos que se arriscam pelos seus caminhos escuros e traidores, venais e corruptos. Ah, se eu pudesse voltar no tempo teria feito tudo para impedir que ela estudasse essa maldita ciência, dentre todas a que me parece ser a pior.

Minha filha adoeceu na alma. O que vejo, agora, é uma mulher estranha que a cada dia se afasta mais da mulher que sua mãe e eu vimos se formando sob nossos cuidados e nossos carinhos. O que aí está é apenas um arremedo do que criamos. Por que? Que diabo de Karma é esse, que mata a alma ainda antes de ela voar? É normal e natural que as pessoas cantem alguma vez durante o dia. Em todos estes anos de vida de minha filha eu só a ouvi cantar de modo natural, espontâneo, duas ou três vezes, apenas. E ela estudou canto e teclado. Era para gostar de cantar. Tem boa voz e a treinou em canto-coral. Mesmo assim, o passarinho que nós criamos o DIREITO emudeceu.

Dizem que brigas são normais em um casal. Mas brigas que são definitivas.

Dizem que brigas são normais em um casal. Mas há brigas que são definitivas.

Nós, minha mulher e eu, nos desentendemos feio e cheguei até a ir embora de casa determinado a não mais retornar. Mas, ainda que este meu comportamento me seja estranho até hoje — pois jamais voltei a um relacionamento depois de ter saído, cedi aos chamamentos deles dois e voltei. Não “entrei” em casa nunca mais, até porque o clima entre nós dois azedou pra valer e nunca mais voltou a ser o que era. Não era bom, pois cedo descobri que tinha entrado em mais uma fria, mas dava pra levar sem esforço demasiado. Mas, pelos dois, eu busquei relevar os insultos, as provocações e o comportamento odioso que minha, agora, ex-companheira não cessou de externar contra mim e voltei, quebrando uma regra de vida que jamais, antes, eu violara. Fui acusado de ser o responsável pela mudança de humor de minha filha. A acusação foi feita com raiva pela “companheira” enfurecida. Não aceitei isto totalmente. Não assumi a responsabilidade integralmente. Não fui que dei início à bancarrota, portanto, meu comportamento fui uma resposta a estímulos acumulados anos e anos a fio. Eu, segundo as acusações, quebrara sua segurança; violentara sua bolha de sabão. Minha saída violenta e repentina, depois de uma briga cheia de mútuas acusações, teria quebrado o delicado sonho em que ela vivia. Pode ter sido, não vou negar que a separação dos pais, ainda que sejamos jovens adultos, abala as nossas estruturas. Eu perdi meus pais tinha somente 13/14 anos e sei o quanto o abalo é violento. Mas não creio que minha filha tenha sofrido o abalo que se choca brutalmente contra os que têm seus pais separados para sempre e se vêm jogados à rua da noite para o dia. Ainda que numa situação tão cruel, a gente sempre encontra um meio de recompor a vida e os choques nos servem para amadurecer, não para derrubar. Quem cai no primeiro embate está fadado ao fracasso retumbante e melhor seria que não tivesse vindo para a guerra que é a existência “aqui em baixo”. Minha filha apenas teve o navio de sua vida balançado por uma onda mais forte, mas não o viu virar de borco, como eu vi e vivi. Como seus três irmãos cariocas viram e viveram. Aprendi, muito cedo na vida, a fazer uma limonada dos limões com que a Vida me brindou ao longo de meus 73 anos de vida. Assim, muito rapidamente criei um paredão ao meu redor e os ataques de minha companheira frustrada ficavam lá fora. Isto a irritava profundamente e ela se acirrava em me atacar mais e mais. Sei que é um meio psicológico de querer ser novamente notada, querida e aceita. É um grito de “eu quero meu trono de volta!”. Isto, porém, comigo não funciona, pois o trono foi jogado fora. Mesmo que fosse possível, para tanto, seria preciso mudar e mudar radicalmente todos os vícios maus de relacionamento que se cultivou e do qual não se abre mão por nada, nem pela “salvação”. Quem não cede, não ganha. Por isto, a amargura, o rancor, a mágoa foram as tintas que passaram a colorir este nosso viver familiar. Mas, tendo voltado, busquei amenizar o máximo possível o choque e procurei agir sempre como um amortecedor, que enfraquece as pedradas e suaviza as lutas. Não por mim, que já estou entupido de lutar pela vida a fora. Mas pelos dois.

Fingir é o pior insulto aos outros. Não faça, se não quer. Mas não finja.

Fingir é o pior insulto aos outros. Não faça, se não quer. Mas não finja.

Não sou de curvar os joelhos nem de pedir perdão, nem mesmo quando estou errado. Por isto, ajo de modo a que se veja que estou colaborando com tudo o que posso. É meu modo de dizer “eu me desculpo pelo que fiz”. Não se espere de mim mais que isto. Não dá. Também não se espere de mim que vá dobrar meus joelhos diante de quem quer que seja que isto nunca farei. Eu continuo sendo o homem que sempre fui. Gosto de cantar e canto; gosto de ser alegre e sou; gosto de ajudar os outros e ajudo; gosto de ser gentil e companheiro e sou; gosto de fazer o que quero e, não, o que me obrigam, ainda que, por amor aos meus filhos, tenha cedido em fazer muita coisa que, antes, não faria, como ser o cozinheiro, ser o dono-de-casa; ser tomador de conta de cães etc, etc, etc…

Ceder, ter jogo de cintura, arrumar sempre um cantinho para ser só da gente, onde a gente possa se recolher a si mesmo e ser feliz e sorrir e cantar a despeito das amarguras do dia-a-dia é a regra geral para ricos e pobres nesta vida. Não se pode querer que o mundo seja somente de músicas e flores. Ele não é. Não foi construído para isto. O mundo é um lugar de DOR e apenas de DOR. Dor moral, dor física, dor emocional, mas DOR. É tolo os que pensam que o dinheiro espanta a dor do  mundo. Não espanta. O dinheiro traz mais dor à vida de quem o possui. Escraviza-o e o torna desesperado e sem auxílio. Fatalmente quem tem dinheiro passará a vida literalmente correndo atrás dele. Sei que quem não o tem também sofre a dor do mundo. Mas a dor tem vários coloridos e vários modos de atuar. Nunca é igual para todos. Mesmo a dor da fome não é igual de um para outro ser humano. Tudo é singular, único, pessoal. Ao menos quem não tem o dinheiro como seu senhor é livre para chutar o pau da barraca e mudar radicalmente de vida. Eu sei disto. Fiz isto várias vezes na vida. Quem é prisioneiro do dinheiro só tem um caminho e este nunca é florido.

Um riso destes só se encontra em quem tem a alma serena. É um exemplo a ser seguido. Mas alguns jovens nem notaram o exemplo que por aqui passou.

Um riso destes só se encontra em quem tem a alma serena. É um exemplo a ser seguido. Mas alguns jovens nem notaram o exemplo que por aqui passou.

Minha filha nem de leve sabe o que é DOR. Mas se continuar trilhando este caminho, cedo irá conhecer o riso macabro do Sofrimento e a gargalhada terrível da Dor. Como pai que a ama eu sofro antecipadamente. Talvez quando os momentos mais amargos e desesperadores lhe chegarem, eu já não mais esteja ao seu lado para ajudá-la, como faço sempre, agora. E sei que lá onde estiver, não mais estarei voltado para ninguém aqui em baixo, pois sei que cada um tem de carregar a cruz que construir para si. Mesmo assim, fico triste, agora, em saber que ela se encaminha para uma senda cheia de espinhos e sem sombra à margem para descansar.

— Diga-me, senhor — interrompi. — O senhor é Teosofista?

— Não. Sou membro da Ordem de Saint Germain. Mas Jesus de Deus me disse que o senhor é teosofista, portanto, entende o que quero falar e estou falando, não é?

— Sim, entendo. Prossiga, por favor.

— Bom, em síntese é isso aí. Não sei como tirar minha filha do atoleiro em que se meteu. Ela está convicta de suas certezas. O Espelho do Mundo só lhe mostra uma face, dentre as inúmeras que tem para nos enganar. E para mim, a pior, para a idade dela.

O ódio entre irmãos levou à morte milhares de pessoas em guerras horrendas. Mas no nosso país, o Brasil, mata-se no trânsito muito mais do que se matou nas últimas guerras. Falta AMOR nos motoristas e motociclistas. A que leva nosso Espírito esta gana de competição e violência comunitária?

As guerras de hoje são motivadas pelo Mercado e são tão ou mais impiedosas que as de outrora.

— Não é a pior para a idade de quem quer que seja — disse eu. — No momento, o Mundo só tem a oferecer mais desgraças do que alegrias. Mas é forçoso que assim seja, afinal, como o senhor deve saber, estamos entrando em um momento de grande transição para o Planeta em que vivemos. Certo que não cooperamos muito para que esta travessia seja menos árdua. Nosso mundo artificial, dentro do Mundo Natural, está caótico. No nosso Brasil o que mais se vê e se ouve nos noticiários televisivos são os desmandos e os desrespeitos à Ética e à Moral seja em que campo seja. Mas temos de notar que, graças a Deus, não temos a índole guerreira e destrutiva dos outros povos, que logo apelam para o fuzil e os gases venenosos. Aqui, a gente tenta resolver as coisas de modo menos violento e mais racional e isto é infinitamente melhor que o que acontece pelo mundo. Não somos preguiçosos nem desleixados. Somos, sim, lerdos em reagir, mas quando reagimos não o fazemos pelas armas nem pelo derramamento de sangue. A humanidade não é feita apenas de gente má. Onde há o Mal também há o Bem que se lhe opõe. Este é um mundo antagônico por natureza. Podemos ver, na internet, que há organizações poderosas, aqui mesmo no Brasil, onde advogados, médicos, físicos, químicos e milhares de outros cidadãos se unem com o firme propósito de combater o erro constituído e sacramentado no Poder. A luta é silenciosa, mas é feroz e nenhuma das duas partes bate em retirada, pois lutar é o desígnio-mór do destino humano. Nós, brasileiros, pessimistas ou otimistas, quando entramos numa briga não a abandonamos até chegar a um bom termo. Isto acontece, agora. O panorama está caótico, mas dentro do caos podemos encontrar uma ordem, sim. A gente tende a acreditar que o Mal está vencendo, mas não é verdade. Ele perde embates importantes. Neste momento mesmo, seus êmulos na Política estão enfrentando uma batalha de vida ou morte. Os corruptos já não têm sossego. Ganham batalhas, mas a Guerra não vão ganhar e isto fica patente a cada dia que passa. Sua filha devia ser orientada para este enfoque. Ela devia, por iniciativa própria, buscar descobrir onde estão os combatentes do Bem. Devia consultar, por exemplo, sites como http://www.mcce.org.br/site/ ou http://www.cgu.gov.br. Estes são dois sites que nos mostram que o Bem também é forte e se organiza para dar combate ao Mal. Que tal incentivar sua filha a…

— Se eu tentar indicar a ela esses endereços ou outros quaisquer, receberei a resposta imediata: conheço todos eles e tudo é besteira. Aqui, pai, não tem mais jeito. Vai tudo pro inferno, mesmo. Este povo é preguiçoso, desorganizado, falso e mentiroso. Todos só gostam de viver de trambiques e de jeitinho. Este país é uma merda. Ela não entende que se isto é verdade para a maioria dos ignorantes, iletrados e não instruídos, não é verdade para aquele punhado que foi além do lixo e pôs a cabeça para fora do poço de lama em que no momento nos debatemos.

— Bom, eu também passo por situação semelhante. Não há como mudar a proa de um barco que se lança sobre os escolhos no leito do rio. A gente só pode ao menos mostrar onde estão as bóias e os salva-vidas e avisar o perigo de se deixar levar pela correnteza. Lutar é a Lei. Em qualquer terreno, a qualquer momento. E as lutas da vida não avisam quando vão chegar. Pegam-nos de surpresa, como ladrão escondido em uma esquina na noite escura. Então, ou lutamos para vencer, ou perdemos e morremos.

O homem permaneceu quieto, pensativo. Então, com um suspiro, pôs-se de pé, estendeu-me a mão em despedida e com um aceno de cabeça convidou Jesus de Deus a acompanhá-lo. Este, levantou-se, apertou-me a mão e se retirou com seu companheiro, do qual fiquei sem saber o nome…