Jerusalém. Por aqui Ele passou e até hoje ninguém O viu.

Jerusalém. Por aqui Ele passou e até hoje ninguém O viu.

Nas terras palestinas, como, aliás, em todo o império romano, a primeira hora do dia começava a ser contada a partir do aparecer do Sol, de manhãzinha cedo, aproximadamente às 6 horas no nosso horário, assim como a primeira hora da noite era contada a partir do momento em que a escuridão se fazia sobre a terra, o que corresponde, a grosso modo, às nossas dezoito horas. Aquela era, então, a terceira hora da manhã na contagem deles. Se somarmos esta terceira hora após o amanhecer ao horário nosso, isto significa que eram mais ou menos as 9 horas da manhã.

Sentado sobre uma pedra junto ao poço no sopé do monte Gerizim e debaixo de frondoso arvoredo, um homem de trajes simples, mas de porte naturalmente altivo, pele amorenada pela intensa luz solar que apanhava nos vários trabalhos em que se empregava a fim de conseguir dinheiro para sustentar a família numerosa composta de sua mãe e mais sete irmãos — um deles tinha falecido ainda muito jovem  o judeu conversava com dois outros homens. Estes lhe eram inferiores em estatura e no porte majestoso. O mais velho era forte, atarracado, barbas densas, pretas, sobrancelhas bastas e olhar duro, penetrante. Tinha os dentes pretos e cariados, como, aliás, era comum entre os povos daquela época. Dava a impressão de estar sempre raivoso. O outro, pelo contrário, era mais franzino, olhos caramelados, cabelos acobreados, barba bem aparada e olhar um tanto infantil. Seus dentes também tinham cáries, mas estavam mais conservados que os de seu companheiro.  Os dois jovens eram irmãos de Yehoshua. O mais atarracado chamava-se Thiago e o de compleição mais franzina, ma não menos forte em força física, era conhecido por Judas.

Até hoje os que exibem quepes acreditam haver inimigos entre seus irmãos...

Até hoje os que exibem quepes acreditam haver inimigos entre seus irmãos…

— Yehoshua — dizia Thiago — tu nos dizes que não devemos matar nossos inimigos. Mas todos os rabinos pregam a Lei do Dente por Dente e Olho por Olho. Só assim, eles argumentam e me parece claro, poderemos conservar viva nossa tradição desde o tempo de nosso pai Abraão. Olha, eu penso que se apenas nos deixarmos matar pelos kittins, logo, logo, não sobrará nenhum de nós vivo sobre a Terra. E a Terra é nossa. Jeovah nô-la deu. É nosso dever defendê-la de nossos inimigos. Mais do que isto: é nossa obrigação pugnar para que todos os goins curvem seus joelhos diante de nós, o povo eleito de Jeovah. Por que discordas dos ensinamentos ministrados nas Sinagogas? Até no grande templo de Jerusalém esta é a orientação dada a todos pelos grandes sacerdotes.

— Tua fala, meu irmão — complementou Judas — nos diz que não aprovas o comportamento de nossos guerreiros, os Zelotes. Mas eu também acho que eles estão certos. Eles são quem sustém a pesada mão dos legionários sobre nós. Estes, têm medo das sicarii brandidas por nossos conterrâneos.

— Somos, todos, filhos de um único Pai, queridos irmãos — disse Yehoshua, sorrindo com benevolência. — E não é certo que irmãos matem irmãos. Ou como vos sentiríeis se nós oito nos virássemos uns contra os outros?

— Isto não vai acontecer nunca! — Exclamou Judas, avermelhando-se todo de brios. — Judeu não deve matar judeu. Esta é a ordem.

— Mas que devia ser complementada pela Lei Maior que ordena “não matarás”. O Pai não disse “não matarás judeus, mas goins”. Está bem claro no Livro do Gênesis que a ordem é bem explícita: “Não matarás”. Isto quer dizer que independente de raça, de religião ou da cor da pele, da forma do corpo e da língua que falem, o homem não deve matar, nem a seus semelhantes, nem aos animais. Se o fizer, como fazem e incentivam a fazer os rabis do Templo em Jerusalém, está indo contra a Vontade do Pai. E não se vai contra Sua vontade sem conseqüências, ficai sabendo disto.

Estudos gráficos computadorizados concluem que a face de Jesus era assim...

O Amor era Sua palavra. A outra vida, seu ensinamento.

— Mas, Yehoshua, como não matá-los? — Protestou Judas, o mais exaltado de seus dois irmãos. — Eles, quando querem treinar a pontaria, pegam qualquer criança judia e a fazem de alvo. Nós, crianças ou adultos, nada somos para eles. Não passamos de animais. As lágrimas e os gritos de dor das mães judias aterrorizadas por tamanha maldade não desperta neles senão zombarias e risos de mofa. Eles são inumanos. São maus. Muito maus. Gente assim tem mais é que ser assassinada por todos nós, homens, mulheres e crianças. Eu defendo o pensamento Zelote: todos os que já podem andar devem aprender a manejar a sicarii. Deve aprender a matar kittim. Não numa luta justa, frente a frente. Eles não merecem esta honra. Devem ser mortos como matamos nossas ovelhas: degolados. Pegados de surpresa e degolados. É assim que penso. 

O semblante de Judas estava carregado e sua face avermelhada de ira. Seus olhos faiscavam e toda aquela raiva parecia estar dirigida a Yehoshua, que o mirava descontraído e com um leve sorriso bailando nos lábios de uma boca bonita e bem feita.

— Judas, os kittins vivem em agonia. Dormem com um olho aberto. Não relaxam. Não descansam. Assustam-se com uma sombra na curva do caminho. Saltam de medo ao ouvir o farfalhar das folhas dos arbustos à margem das estradas que palmilham. Só encontram um pouco de paz nos eflúvios do vinho, mesmo assim seus sonhos são agoniados e quase sempre são pesadelos que os fazem acordar suando e tremendo de pavor. Não mais confiam nem mesmo em seus irmãos ou pais. Vêem traição por todos os lados e têm seus estômagos sempre doendo pelo medo e pela tensão constante. A morte, eles sabem, é a companheira invisível, mas sensível a cada momento de suas vidas miseráveis. Como viver relaxado se sabem perfeitamente que a morte os espreita a cada curva do caminho, nas sombras do entardecer e na escuridão da noite? Estupidamente temem-na porque não a compreendem. Em cada esquina das cidades que conquistam a ferro e fogo há alguém escondido, tramando sua morte, que pensam que é o fim. Não há um kittin que viva em paz. A arrogância, a prepotência, a exibição de exércitos supostamente poderosos nada mais é que o grito de desespero daquele que pressente o leão a espreitá-lo e pronto ao bote no momento azado. Os poderosos, meu irmão, não têm paz. É este tipo de vida que desejais para os judeus? Por que ansiais, vós dois, por trocar de lugar com eles?

— Ora, Javé está conosco. O Profeta Samuel diz, em seu livro, citando o hino de nosso Rei David ao Deus Eterno quando Ele o salvou de Saul e de todos os seus inimigos: “Viva Javé, o Deus Eterno! Louvai nosso poderoso protetor! Anunciai Sua Grandeza, pois Ele nos dá a vitória sobre os nossos inimigos. Ele põe os povos debaixo de nossas ordens e os faz nossos escravos para que nos sirvam e reconheçam nossa grandeza sobre todos eles. Ele nos livra de nossos adversários. Ó, Deus de infinito Poder e terrível ira, dá-nos a vitória sobre nossos inimigos e nos protege dos homens violentos“. Está lá, no capitulo 22, versículos 47 a 49.

O Profeta Isaías, segundo Aleijadinho.

O Profeta Isaías, segundo Aleijadinho.

— Eu sei disto, Thiago, eu sei disto — disse Yehoshua com um riso de divertimento. — Conheço bem os Profetas antigos. Mas não devemos permanecer parados no tempo, meu irmão. Não vês que as estações não se repetem, embora assim pareça? Cada uma traz nova roupagem e apresenta nova face, novas nuances. Se assim é com o que O Pai celeste criou, quanto mais será com o homem, seu filho predileto. A raça humana avança em tudo, irmãos. Nas vestimentas e nas descobertas que faz, ela modifica o mundo em que vive e, em assim fazendo, necessariamente tem que se modificar também, ou não sobreviverá. Os tempos dos antigos profetas eram tempos bem diferentes destes que ora vivemos. Embora pareça que nada mudou, tudo mudou. Basta que prestemos atenção no que sucede ao nosso redor. Então, se devemos mudar nossa roupagem externa, devemos, com mais razão e acerto, modificar também a vestimenta de nossos espíritos. Jogar fora aquelas que já não mais condizem com seu crescimento.

— Ora, Yehoshua, a maldade dos goins não tem limite e não se modifica ao correr do tempo. Eles são agora, como já foram antigamente. Vivem de armas nas mãos conquistando, mantando, abusando de mulheres e crianças…

— E não houve reis nossos, no passado, que também agiram do mesmo modo, quando tiveram o Poder em mãos? Não é isto o que pregam os rabis em Jerusalém, que este povo está pagando pelos crimes do passado, sendo, pois, este momento de escravidão aos goins seu castigo? Como podemos julgar os kittins se não formos diferentes deles? O homem, meu irmão, de modo geral, não percebe que vive num moto perpétuo eterno. Quem está com o Poder torna-se invariavelmente tirano; quem está na servidão anseia, sempre, em derrubar o tirano e lhe tomar seu lugar. Até quando credes que se deve viver assim? 

Antes que um dos dois irmãos de Yehoshua pudesse contestar suas palavras uma voz sonora, ainda que um pouco arrastada, ecoou no ambiente.

Um rabi vestia-se como Caifás, nesta foto.

Um rabi vestia-se como Caifás, nesta foto.

— Não devias ensinar a covardia a teus irmãos, Yehoshua. Yoseph, teu pai, não era covarde, ainda que não pegasse em armas. Era defensor de nossas tradições e o dizia em qualquer lugar que estivesse. Ele foi um bom judeu. Nós, judeus, jamais fomos covardes, desde os tempos de Abração, Isaac e Jacó. E até mesmo antes deles.

A voz era de um idoso, mas soara firme e sonora. Yehoshua voltou-se para observar o ancião que, apoiando-se em um cajado veio sentar-se numa pedra diante deles. Yehoshua o conhecia. Era o rabino da vila, Hamaliel, que não lhe votava simpatia. Sorrindo, Yehoshua mergulhou a mão nas límpidas águas do poço, que escorriam cantarolantes por entre as pedras antes de desaparecerem a alguns metros sob as densas folhagens e seguir seu caminho rumo ao caudaloso Jordão, a algumas milhas dali. Por um momento ficou olhando a água na palma da mão, sempre com aquele sorriso divertido e alegre, como se tudo ao seu redor fosse felicidade.

— O que entendeis como coragem, rabi? — Perguntou, depois que a água escorreu totalmente de sua mão e sem voltar os olhos para o ancião.

— Lutar. Defender nossos valores, nossas mulheres, nossas crianças, nossos bens, nosso Templo e nossa Pátria. Tu sabes que as Escrituras ensinam que Jeová é o Senhor dos Exércitos. Nossos exércitos, principalmente. E quando Ele está em paz conosco, não perdemos guerra para nenhuma nação no mundo. Ele nos abandonou devido aos tremendos pecados que temos cometido. Tu sabes bem que uma grande parcela de nosso povo vem adotando os costumes dos gregos e dos romanos. Alguns até passaram a adorar seus deuses, um insulto a que Jeová jamais poderá tolerar. Esqueceram da ordem explícita, narrada em Êxodos, capítulo 20, versículos 1 a 3: “Eu sou IEVE, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito, da casa da servidão. Não tereis outros deuses diante de mim”. Mas nossa gente, Yehoshua, tem-se deixado fascinar pelas crenças pagãs, imundas diante do Senhor. Por isto, Ele nos abandonou e a nós, rabis, cabe o esforço de trazer estas ovelhas tresmalhadas ao redil do nosso Deus Todo Poderoso. Então, não é correto que ensines os teus irmãos a serem covardes. Nós não precisamos de fracos nos exércitos de Ieve. Precisamos de homens fortes e decididos, que empenhem até mesmo a própria vida em defesa de nossas tradições mais caras. Está próximo o dia em que o Ungido de Deus virá nos conduzir na grande guerra em que Ele fará com que todas as nações se curvem sob o Poder de Israel. Ao pregares a covardia tu, Yehoshua, cometes crime contra o Templo e te candidatas à ira do sumo sacerdote, Caifás. Cuidado. Tua vida pode ser-te tomada de modo nada agradável, nem para ti, nem para teus familiares.

O Maior dos Avatares, Sua história foi tão deturpada que, hoje, grande parte dos povos não lhe dão mais valor que o que atribuem às suas crenças mundanas e, vez por outra, esta suplantam aquela.

Não havia nem nunca haverá ódio em seu olhar. Mas, mesmo que doce, ele pode causar remorso nos que erram por apego à ignorância.

Yehoshua parou de sorrir e encarou seu interlocutor. Seu olhar, agora, era penetrante e constrangedor. O rabi, mal grado seu, sentiu-se altamente incômodo dentro das roupas e se perguntou onde poderia ter deixado brecha para que aquele rebelde o atacasse, pois sabia que Yehoshua era perito em argumentar servindo-se da Lei, o que era sumamente embaraçoso para os que com ele se batiam. Pigarreando e olhando disfarçadamente para as sandálias, o rabi continuou a falar com a intenção de calar o temido rebelde.

— Vede, vós todos, se estamos sob o tacão dos kittins foi porque erramos diante dos santos olhos de Ieve, bendito seja seu nome. Agora, temos um usurpador sentado no trono que devia ser ocupado por um descendente do Rei David. Somos humilhados e explorados pelos goins porque pecamos e isto é dito até mesmo pelo Sumo Sacerdote. No entanto, sabemos, porque assim ensinam as escrituras, que um verdadeiro rei virá tomar de volta o que é seu por direito divino. Ele conduzirá nosso povo à guerra contra os kittins e sairá vencedor. Ele é o ungido de Ieve, bendito seja seu nome, e fará todas as nações curvarem seus joelhos pecaminosos diante de Israel. Mas para que possa vencer esta guerra violenta que se avizinha, Ele precisará de homens fortes, guerreiros imbatíveis, dispostos a morrer por Sua causa e pela nação judaica. Ele precisará de guerreiros, Yehoshua, não de covardes.

— Rabi — e o tom da voz de Yehoshua fez o ancião tremer de susto. — Os deuses dos kittins e de outros povos exigem sangue, exortam à guerra e às conquistas. E o que resulta disto? Dores, sofrimentos, viúvas e filhos sem pais. Resulta no solo empapado de sangue humano, em governos desorganizados e povos desorientados. O resultado é sempre o mesmo: um tirano é derrubado e substituído por outro tirano mais malvado que o anterior. Resulta na perda estúpida de vidas humanas, vidas que, como sabes bem, foi dada ao homem pelo Supremo Criador, nosso Pai que está no céu. Vida que, por ter sido dada por Ele ao homem, só a Ele cabe cobrar de volta, porque só a Ele pertence verdadeiramente. E quando nosso Pai o faz, fá-lo com cuidado e porque é chegado o momento do filho retornar à casa do Pai. O Criador jamais incentiva, nem jamais incentivou a guerra fratricida entre nações, pois todas as nações são d’Ele e somente d’Ele. Ele criou todas as nações e todos os povos, portanto, todos os demais deuses de pedra ou de qualquer outro material, não passam de brinquedos criados por mentes infantis. E sendo Deus o Pai supremo de todos os homens, Ele não puniria seus filhos porque brincam com imagens, pois é brincando que a criança aprende e se torna verdadeiramente um adulto sábio.

O ruído de ferros e de passos de muitos homens que desciam a senda que trazia até onde eles estavam fez que todos se voltassem para olhar para a estrada. E viram um grupo de trinta mercenários, armados de lanças, pilum, arco e flecha que traziam sob os ombros de doze deles uma gaiola de ferro. Dentro dela, alguns homens maltratados estavam aprisionados. O grupo aproximou-se a passos firmes, enquanto as poucas pessoas que se tinham ajuntado instintivamente ao redor de Yehoshua, de seus irmãos e do rabi, os olhava com olhar de raiva. Tiago e Judas se puseram de pé quase num salto, obrigando a que Yehoshua também se levantasse e com um gesto de mão impusesse calma a eles dois.

Os mercenários trajavam-se com uniformes muito parecidos com os dos romanos.

Os mercenários trajavam-se com uniformes muito parecidos com os dos romanos.

O comandante do grupo de mercenários, um gaulês tremendamente musculoso e alto, que montava o único cavalo entre eles, ergueu a mão e ordenou em latim que parassem. Como se fossem um só, todos cessaram a marcha e se perfilaram, pilum com as perigosas pontas voltadas para o alto. O comandante mercenário estudou em silêncio o pequeno grupo constituído de cinco mulheres, Yehoshua, seus irmãos e o rabi idoso. Então, com voz forte, ainda falando em latim, ordenou:

— Mulheres, sirvam-nos água. Agora!

As mulheres se entreolharam firmes, com olhar raivoso. Ninguém se moveu. Yehoshua previu uma carnificina sem propósito. Então, movendo-se com firmeza, mas lentamente, aproximou-se de uma das mulheres e lhe tomou das mãos o cântaro que trazia apoiado na cintura. Encheu-o d’água e encaminhou-se para os prisioneiros. Diante da jaula, meteu a colher no cântaro, tirou água e serviu os sedentos prisioneiros que beberam sofregamente. Vendo aquele desaforo, o comandante mercenário saltou célere de sua montaria e, desembainhado a espada longa e de folha larga com fio afiado, avançou decidido contra o insolente Yehoshua. Mas este voltou-se para o homem e o fitou com olhar penetrante, nos olhos assassinos. Nada disse e não seria necessário. Seu olhar dissera tudo. O homem estacou de supetão. A seus olhos, o judeu de repente pareceu enorme e aquele olhar, que ele não sabia definir, o paralisou.

— Não há motivo para que fiqueis irritado contra mim. Estes homens estão nas últimas forças e a continuar assim, morrerão ou adoecerão antes de chegar ao destino. Vosso senhor certamente não gostará de receber cadáveres ou doentes devido ao vosso desleixo para com eles. Estou certo?

E antes que o aturdido mercenário pudesse responder, Yehoshua, com muita serenidade e com uma impressionante majestade, aproximou-se de cada soldado e lhes colocou água nas canecas que eles estendiam respeitosamente. Assim, com paciência e altivez, Yehoshua deu a beber a todos eles. Depois, voltou até à jaula e perguntou aos presos:

— Por que fostes enjaulados?.

— Somos do Ludus de Helvécio Quintus — Respondeu o comandante mercenário em lugar do preso. — Esses homens foram escolhidos para serem treinados para a arena.

Yehoshua o olhou demoradamente e havia censura em seu olhar, o que fez o comandante pigarrear e se balançar sobre as fortes e musculosas pernas, sem saber bem o que fazer. Depois, o judeu se voltou para os prisioneiros e lhes perguntou:

— Sois homens de armas?

— Não, senhor — respondeu o mais atarracado dentre eles. — Em minha terra eu era carpinteiro. Os outros, cada qual trabalhava na terra ou na construção de casas. Não sabemos lidar com o gládio.

— E querem aprender isso? Querem se tornar assassinos para o prazer de homens tresloucados?

O mercenário olhou para seus homens, incomodado, mas sem conseguir mover-se. Havia como que uma força muito forte que prendia seus pés no chão.

— Não, senhor. O que nós queremos é recuperar nossa liberdade e retornar para nossas famílias.

O comandante pigarreou e abriu a boca para falar, mas a mão de Yehoshua, imperiosa, impôs-lhe silêncio e ele, a contragosto, obedeceu.

— Então, não pegai nas armas. Não aprendei a matar. Não é algo digno de um ser humano. 

— Senhor, seremos mortos! — Exclamou o prisioneiro, arregalando os olhos.

— E por acaso, não o sereis na arena? Quem vos garante que o dedo malvado de um romano não apontará para baixo, mesmo tendo vós lutado com bravura, mas perdido o embate? Em verdade, em verdade, vos digo: é mais honroso deixar-se matar para não se tornar assassino, que ser aplaudido por dementes sanguinários que, terminado o espetáculo, voltarão ébrios aos braços de suas concubinas, esquecidos de vós, que retornareis à miséria da prisão do ludus. Um homem não deve ter senhores, senão um único Senhor: o Pai que está no céu. Não temais a morte, pois ela é somente um adormecer. Ela cessa todas as dores, todos os sofrimentos. Ela traz a paz e transporta o Espírito para lugares paradisíacos como igual não há na terra que conheceis. Por isto, ansiai por serdes mortos, mas jamais por matar. Compreendeis?

Os prisioneiros o olhavam como que hipnotizados. Então, suas cabeças assentiram lentamente num “sim” silencioso. E eles sorriram. E em seus semblantes havia uma paz que até então lhes tinha sido desconhecida. Yehoshua sorriu de leve e retornou ao seu lugar, sentando-se e voltando a se entreter com a água, totalmente ignorante do que se passava, agora, ao redor.

Os mercenários se foram, apressados, enquanto todos os olhares se voltavam para ele, admirados e sem compreender bem o que tinha acontecido ali. Aquele judeu, desarmado, pacífico, pusera freio a homens violentos, arrogantes e assassinos. Como tinha sido possível?

— Yehoshua — soou a voz de Judas, titubeante. — Tu os condenaste à morte. Tens consciência disto?

Yehoshua ergueu os olhos para seu irmão e havia tristeza naquele olhar.

— Não entendeste nada, não é? Eles já estavam condenados ao fim de suas vidas carnais. E não por mim. O fim de todos já fôra decretado pelo Pai. Ele já decidira mandar buscá-los para Sua Morada. Fiz somente que não temessem o que acham que é o fim. Não há fim para a Vida, meus irmãos. Compreendei isto, por piedade.

Então, desconcertando todos, Yehoshua pôs-se de pé quase num salto e sem explicação lançou-se senda acima. Tinha pressa. Suas passadas largas logo deixaram para trás seus irmãos que se atabalhoavam correndo para o alcançar…

É verdade. Eu estava lá. Eu vi.

Para onde ia o Grande Mestre?

Contar-lhes-ei em outra ocasião. Até lá,

NAMASTÊ.

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