Yehoshua não distinguia nacionalidades. Para Ele, todos eram seus irmãos.

Yehoshua não distinguia nacionalidades. Para Ele, todos eram seus irmãos.

Ele caminhava apressado, como sempre. Suas passadas largas e firmes dificultavam a qualquer um segui-lo e foi assim que seus dois irmãos ficaram para trás. Já estava quase na quarta hora do dia quando viu, muito à frente, numa curva que se avistava um pouco abaixo do caminho que percorria, um vulto estranho, que caminhava apressado. Trajava-se com roupas bem diferentes das que comumente eram trajadas pelos viajores que andavam por aquelas estradas.

Ali passavam viajantes das mais diversas partes do mundo, até da longínqua índia ou da mais distante ainda China. Mas a figura que vinha caminhando com passadas firmes e decididas não parecia ser de nenhum daqueles países. Yehoshua parou e apertou os olhos para apurar a visão. O estranho trajava uma vestimenta militar. Era um Yoroi, mas Yehoshua desconhecia aquela vestimenta. Por isto, permaneceu atento ao homem que caminhava em sentido contrário ao que ele seguia. Notou que o estranho trazia uma espada de cabo esquisitamente longo, às costas, um modo muito estranho de portar uma arma. Mas o mais estranho era a firmeza com que o homem pisava o solo já bem quente àquela hora do dia. E o mais estranho ainda: sentia que aquele homem e ele se tornariam amigos por algum motivo que só ao Pai cabia conhecer.

O Maior dos Avatares, Sua história foi tão deturpada que, hoje, grande parte dos povos não lhe dão mais valor que o que atribuem às suas crenças mundanas e, vez por outra, esta suplantam aquela.

O Pai não tinha segredos para Ele, mas às vezes, não lhe contava tudo o que pretendia.

Yehoshua sabia que o homem vinha em busca de si. Por isto, decidiu ir ao seu encontro. Seu olhar voltou-se para um pouco mais à esquerda, por uma segunda estrada que cruzava com aquela por onde o estranho vinha. Ele mirou preocupado um grupo de dez legionários romanos que caminhavam em direção ao estranho. Logo, logo, ver-se-iam frente a frente e Yehoshua temeu pelo adventício. Sabia o quanto os romanos eram intolerantes com gente de outras partes do mundo. Encarava-os sempre com desconfiança e sempre beligerantes. Por isto, tratou de estugar o passo. Desejava encontrar-se com o estranho antes da patrulha romana.

Mas uma pedra solta o fez cair e rolar pela ribanceira, atrasando o encontro que ele tanto desejava acontecesse antes da patrulha. Quando, novamente, chegou à estrada, viu que não adiantaria nem mesmo correr, pois a patrulha e o estranho já se tinham visto. Ambos, os cavaleiros romanos e o viandante estrangeiro estavam parados e se olhavam. Talvez falassem, mas àquela distância não lhe era possível ouvir o que diziam. Ainda assim, estugou o passo.

— Mas quem diabo é você, estrangeiro? De onde vem? — Impacientou-se o decurião diante da linguagem esquisita que lhe chegava aos ouvidos.

O samurai, pois era um, não entendeu nada do que ouvia o romano falar, mas compreendeu que estava diante de um comandante militar. Em nihondin tentou comunicar-se, sem resultado. Seus modos altivos e sua voz tonitruante soaram como ameças ao romano que desembainhou o gládio e ordenou aos seus comandados que prendessem o estranho.

Ao perceber os gestos agressivos o samurai recuou e sacou de sua kataná. Levou-a ao ombro esquerdo, segurando-lhe o cabo com as duas mãos e se posicionou para o embate. Yehoshua viu a cena e acenou freneticamente para os homens, numa tentativa de ser visto. Não alcançou sua intenção, pois naquele momento os soldados romanos apontaram seus pilum para o estranho e carregaram sobre ele dispostos a trespassá-lo com as armas. Yehoshua ficou pasmo ao ver a velocidade com que o estranho brandiu a kataná. Movia-se como num bailado sem música e suas mãos agitavam a arma em golpes certeiros, velocíssimos e únicos. Ao mesmo tempo em que o aço tinia ao se chocar com o ferro das lanças romanas, estas voavam estilhaçadas, tornando-se inúteis como armas. Os soldados sacaram de seus gládios e partiram para o confronto mortal. Mas a kataná não perdoava. A cada zunido rapidíssimo um corpo era decepado pela metade ou uma cabeça caía ao solo macabramente. Em menos de um minuto só havia cadáveres onde, antes, existira dez arrogantes combatentes romanos. O comandante não se intimidou e saltou do cavalo, gládio em punho. Ele enfrentou galhardamente o samurai, mas sua arma era por demais primitiva diante do aço azulado da kataná e logo estava reduzida a cacos de ferro. Pasmo, segurando somente o cabo, o decurião romano jogou fora aquela parte inútil do que fôra um gládio e, sacando de um punhal, lançou-se sobre o samurai. Este, no momento em que a luta ficara suspensa enquanto o romano se desfazia do cabo inútil de seu gládio, guardara a kataná de volta na bainha e, de pé, atento, observava o que seu adversário fazia. Não sacou da sua naginata. Esperou firme o ataque do homem. O embate foi rápido, mas decisivo. Apenas o estranho permaneceu de pé. O comandante romano caiu com o abdômen cortado de lado a lado. Enquanto estrebuchava no solo, o estranho permanecia parado, braços abertos, totalmente imóvel, a naginata segurada firmemente na mão direita com a lâmina voltada para fora. Ele só voltou a se mexer quando o corpo do romano parou de se contorcer.

Centurião romano. Eles foram os guerreiros que os norte-americanos tentam imitar, sem sucesso.

Centurião romano. Eles foram os guerreiros mais violentos e invencíveis da Europa.

Yehoshua curvou a cabeça sobre o peito e soltou um longo e profundo suspiro. Então, agora mais devagar, voltou a caminhar em direção ao estranho.

Encontraram-se cerca de vinte minutos depois. Pararam diante um do outro, o samurai observando o estranho que não portava nenhuma arma e não aparentava beligerância em sua altivez.

— Quem és? —Perguntou em nihondin. Recebeu a reposta no mesmo idioma.

— Sou aquele a quem vens procurar. O que desejas comigo?

O samurai permaneceu parado, olhar perscrutador escrutinando cada milímetro da face de Yehoshua.

— Não vejo nem sinto beligerância em ti. Não pertences ao mesmo povo dos que acabei de matar, ali atrás. De onde és?

Yehoshua suspirou e respondeu.

— Estás na Judéia. Eu sou judeu. Portanto, sou desta terra. E tu, de onde vens?

— De um país muito distante e bem diferente em costumes e no trato com as pessoas. Os daqui são violentos, agressivos e mortais. Passei trinta e sete dias no mar, numa sampana, navegando para cá. Depois, caminhei por vinte e três dias através de solo escaldante e me deparando com gente as mais estranhas que já vi na vida. A maioria, desconfiada, rústica, agressiva, beligerante. Fui obrigado a matar para me defender e cumprir com a missão de que fui incumbido. Vim atrás de um homem que se diz que ressuscita os mortos. Vim buscá-lo a mando de meu Kōshaku (príncipe). Sabes dizer onde posso encontrar o feiticeiro? Tu és o primeiro que encontro e que sabe falar minha língua. 

— Estás diante de quem procuras — respondeu, tranqüilo, o homem de Nazaré. — Agora, vem comigo. Viajaste muito e deves estar precisando de um bom descanso. 

— Não tenho tempo para isto. Tu precisas vir comigo. E já que te encontrei, vamos voltar pelo caminho que vim. Agora!

Yoshua viu a determinação daquele homem de aço. Sentia seu poder, que não era das armas, mas de uma Identidade trabalhada em conceitos sólidos, treinamento férreo e crenças inflexíveis. Mas sua voz tonitruante não lhe fez qualquer efeito. Com tranqüilidade encarou o japonês e por um momento apenas guardou silêncio. Então, com calma, firmeza e determinação, retrucou.

— Não tenhas pressa. Aquela que fez chorar teu Kōshaku  ainda vive e viverá por muito tempo. Tu necessitas de descanso. Vem, segue-me.

Exemplos de Yoroi, a armadura dos samurais.

Exemplos de Yoroi, a armadura dos samurais.

E o judeu rodou nos calcanhares, encetando a volta pelo mesmo caminho por onde viera. O samurai hesitou, mas logo se decidiu e se pôs a caminhar atrás do estranho. Com passadas firmes e rápidas logo se colocou ao lado de Yehoshua que lhe ordenara que o seguisse. Ele era um samurai e comandante de tropas. Não seguiria atrás de ninguém, exceto de seu senhor. Desceram o morro por onde serpeava a estrada romana e se dirigiram à vila logo abaixo. Yehoshua observava o estrênuo esforço que seu acompanhante fazia para se manter a seu lado. Notou que o homem estava no limite de suas forças, mas teimosamente esforçava-se para não ficar para trás. “É muito orgulhoso”, pensou, mantendo-se calado, contudo. Entretanto, arrefeceu as passadas, para conceder ao estrangeiro algum tempo a fim de se recuperar do esforço que fazia. O samurai notou que seu acompanhante desacelerara o passo e intimamente lhe agradeceu por isto. Já pensava que desmaiaria, pois seu cansaço era demais. Cansaço, sede e falta de alimentação, pois estava sem beber e sem comer nada há mais de vinte e quatro horas.

Chegaram à vilazinha à hora sexta, ou seja, ao meio-dia. No ar havia o cheiro de peixe assado e de ervilhas cozidas. Yehoshua dirigiu-se a uma casa baixa, pintada de branco, com cobertura de folhas de palmeira e barro amassado. Entrou ali sem cerimônia e foi recebido por uma jovem hebréia que era toda sorriso para ele, mas que ficou espantada e séria tão logo seus olhos caíram no estranho acompanhante do rabi.

— Quem é esse homem? — Perguntou em koiné, o grego vulgar falado comumente pelos hebreus.

— Um viajante de terras distantes. Está cansado, tem fome e sede e precisa urgente de um banho. Vou levá-lo ao poço dos homens para que se lave. Não sei se trouxe roupas para substituir as que veste. Se não, providencia um haluk para ele, Sara.

Voltando-se para o samurai, Yehoshua lhe perguntou sobre a muda de roupas.

— Perdi-as durante a caminhada. Tenho somente as que visto.

— Ele não tem roupa de muda. Traz-lhe um haluk de teu marido, Samuel. Deve servir. Ele é muito forte, mas tem a mesma estatura que Yoseph. 

Sem discutir, a jovem mulher foi buscar a muda de roupa. Yehoshua tomou-a nas mãos e com um aceno de cabeça chamou o guerreiro do Sol Nascente. Este o seguiu sem fazer perguntas.

Nos tempos de Jesus a Palestina possuía florestas e era rica em riachos.

Nos tempos de Jesus a Palestina possuía florestas e era rica em riachos.

O Poço dos Homens era um lugar no meio da mata. Ali o riacho se alargava e formava como que um tanque com profundidade de mais ou menos metro e meio. Yehoshua explicou ao samurai que ali os homens da vila se banhavam ao final do dia. Naquela hora não havia perigo de algum deles vir banhar-se. Ele próprio despiu-se e se meteu na água, observado atentamente pelo japonês. Então, este despiu-se por sua vez e mergulhou satisfeito no tanque. Era seu primeiro banho depois de 21 dias de marcha a pé. Estava cansado e tinha emagrecido muito. Yehoshua ria e mergulhava alegremente, e sua alegria descontraiu por completo o samurai. Ele entendeu que tinha um amigo naquele estranho homem de cabelos levemente acobreados.

— Como te chamas? — Perguntou, quando seu novo amigo sossegou um pouco.

— Yehoshua bar Yoseph. E tu, qual é teu nome?

— Omaru. Sokai Omaru.

— Em quê trabalhas?

— Sou da guarda especial de meu Kōshaku (príncipe).

— Então, és um militar.

— Sim, sou. E tu, o que fazes para viver?

— Bom, de profissão eu sou construtor de barcos, mas também trabalho como pedreiro, como vendedor de empório, como marceneiro, como limpador de fossa… Enfim, trabalho no que me aparece. Por aqui, o trabalho é um tanto difícil e tenho de sustentar sete irmãos além de mim e de minha mãe.

— Por que não te tornas um militar? Ao menos terias trabalhos dignos, não esses que me citaste. São indignos de um homem de bem.

Yehoshua riu, descontraído. Depois, sério e mirando os olhos amendoados e faiscantes do japonês, respondeu.

Jesus era exímio construtor de barcos como este (fundodetela.com.br)

Jesus era exímio construtor de barcos como este (fundodetela.com.br)

— Não é o trabalho que põe distinção no homem, meu amigo. É o homem que dignifica o que faz. Tu, por exemplo, és um assassino, como aqueles que mataste lá atrás, na senda. Mas tu emprestas à tua profissão uma dignidade que eles não tinham. Mesmo assim, matar não é profissão que dignifique uma pessoa. O assassinato sempre traz conseqüências. Aqueles homens serão encontrados por seus companheiros e eles buscarão descobrir quem os matou. Se outros olhos que não os meus tiverem visto o que fizeste quando fizeste, então corres sério perigo. Os kittins não vão sossegar até que te pendurem no patíbulo.

— Patíbulo?

— Crucificação — simplificou Yehoshua. — É um modo muito doloroso de se morrer.

O samurai sorriu um sorriso zombeteiro.

— Se os guerreiros daqui forem do tipo dos que encontrei e fui obrigado a matar, então, não corro perigo. Posso enfrentar uma centena deles durante um dia inteiro e vou sobreviver. A mesma coisa não posso dizer sobre eles. Mas… Não há julgamento, aqui? Simplesmente o guerreiro é feito prisioneiro e crucificado?

— A Justiça de Roma é venal. Não confies nela.

O samurai silenciou e permaneceu olhando atentamente para Yehoshua que mergulhou e sumiu debaixo d’água para aparecer junto às pedras da beirada do poço.

— Vem — chamou. — Creio que tens fome e o alimento já deve estar pronto. Ah, sim, tu vestirás este haluk. Tuas roupas Míriam lavará para te entregar, depois. Vem que eu te ajudo. Não deves ter experiência com o haluk.

Exemplo de haluk trajado por um judeu safardita.

Exemplo de haluk trajado por um judeu safardita.

O samurai deixou-se vestir, observando cada movimento que Yehoshua fazia. Eram poucos, mas eficientes. Yehoshua apanhou a armadura do guerreiro e sobraçando-a, encetou a caminhada de volta à casa  de Míriam. A kataná e a naginata ficaram no chão. O samurai as apanhou sem comentários e as cingiu ao corpo.

Em casa foram recebidos por Sara que portava uma bacia e uma toalha. Ela aproximou-se solícita dos dois homens e lhes indicou um banco. Yehoshua sentou-se e com a mão indicou o outro banco ao samurai. Ele sentou-se, olhando com curiosidade de Sara para Yehoshua e este resolveu explicar o que estava acontecendo.

— Entre os judeus é costume os anfitriões mandarem serviçais lavar os pés dos visitantes para lhes aliviar do pó do caminho e do cansaço da caminhada. É o que Sara, agora, está fazendo contigo, Omaru. É uma distinção, pois ela mesma decidiu te honrar lavando ela própria teus pés.

Imediatamente o samurai levantou-se e tomando a assustada Sara pela cintura colocou-a em seu lugar. Depois, abaixou-se e começou a lhe lavar os pés. A mulher quis reclamar, mas ao olhar para Yehoshua viu-lhe um leve sorriso no rosto e um aceno de mão impondo-lhe que não reagisse.

Ao terminar de lavar e de enxugar os pés de Sara, Omaru cumprimentou-a à moda de sua terra. Fez o sankaku (triângulo feito com os indicadores e os polegares de ambas as mãos postos juntos) e curvou-se colocando a testa no triângulo. Então, erguendo-se, lavou também os pés de Yehoshua cumprimentando-o do mesmo modo. Justo no momento em que estava com a testa no chão, chegou o marido de Sara. Samuel. Este olhou surpreso para Yehoshua, que lhe impôs silêncio com um dedo sobre os lábios e lhe indicou a cadeira onde Sara estivera sentada. Sem compreender bem o que se passava, Samuel sentou-se e, pasmo, teve seus pés também lavados e enxugados pelo samurai, que fez para ele o mesmo cumprimento que fizera para Sara e Yehoshua.

Então, quando se pôs de pé, a jovem judia, titubeando nas palavras, perguntou-lhe porque fizera aquilo. E Omaru lhe respondeu.

— Eu sou um samurai. Esta palavra, em minha terra, quer dizer servidor. Então, eu sou aquele que serve. Vós me recebestes com toda a amizade de irmãos. Trataram-me sem discriminação. Então, sou eu quem tem o dever de lhes lavar e enxugar os pés, não vocês a mim. Gostei deste modo de receber que vós tendes, mas eu é que sou o servidor.

O casal de judeus se entreolhou atrapalhado. Aquilo era inédito e não sabiam o que fazer. Nenhum deles notou que todos se entendiam, embora falassem idiomas bem diferentes. Yehoshua, notando o embaraço de seus conterrâneos, falou.

— Mais uma vez, Omaru, tu me mostras que és um homem digno. Aceitamos com o coração em festa tua demonstração de humildade. Deste uma lição a todos nós, aqui presentes. Agora, é com alegria que eu tomo a palavra ao meu irmão Samuel e à sua esposa, e te convido ao almoço em nossa companhia.

— Hai! — Desse Omaru, curvando-se com as mãos postas sobre as coxas e os olhos fixos no chão. — É uma honra para mim participar de vossa refeição. 

Sentados no chão veio uma jovem moça com uma bacia e uma pequena toalha nas mãos. Os homens lavaram a mão direita e a enxugaram na toalha. Omaru prestava atenção a todos os movimentos de seus anfitriões. Ninguém lhe explicou nada e ele, por atenção ao silêncio que observou naquele estranho ritual, não fez perguntas. Após o rito de lavagem da mão direita, os pratos foram servidos. Havia peixe frito, uma pasta de cereais com muito azeite de oliva, pão, azeitonas no molho e muitas frutas secas. Também havia quatro pombos assados. Eles foram distribuídos entre os comensais.

Hoje, sofisticados. Outrora, com algumas exceções, raras, eram feitos de bambus.

Hoje, sofisticados. Outrora, com algumas exceções, raras, os hashi eram feitos de bambus.

Omaru notou que ali não havia arroz e que o peixe vinha cozido. Também notou que todos comiam com a mão direita. Prestou atenção ao modo como se alimentavam e, então, com um curvar de cabeça, levantou-se e foi até onde estava sua armadura. Ela ainda não fora lavada. Pegou o largo cinto e o abriu de um dos lados. Dali retirou dois hashi feitos de um metal muito brilhante e totalmente desconhecido dos seus anfitriões. Voltou a se sentar e começou a separar a carne do seu peixe das espinhas. Os outros pararam de comer e o observaram, boquiabertos. Nunca, antes, tinham visto alguém comer que não fosse com a mão direita. Aquele homem de olhos esquisitos e pele amarelada, no entanto, usando aqueles palitos de metal, comia sem tocar nos alimentos. Para ele, não era necessário lavar a mão direita, visto que não pegava nada com os dedos. Em silêncio e sempre observando maravilhados o modo de se alimentar do samurai, os anfitriões terminaram a refeição. Novamente lavaram a mão direita e passaram às frutas e ao suco. O samurai trazia os frutos na ponta de seu estranho instrumento e os colocava na boca. Não pegou em nenhum alimento com as mãos.

Acabada a refeição e retirados os pratos, todos se levantaram e foram sentar-se à sombra de uma grande árvore que Omaru não conhecia. Só então, Sara perguntou que instrumentos eram aqueles que Omaru usara para comer. Todos estavam ardendo de curiosidade sobre aquilo, mas só ela teve a coragem de perguntar. O samurai explicou-lhes o que era o hashi e lhes contou sua história. Disse que em seu país ninguém comia pegando a comida com as mãos, apenas com o hashi. Falou-lhes do arroz e de quanto ele era importante na alimentação dos nihondins (japoneses. Os habitantes de Nihon). 

A conversa se estendeu por toda a tarde, os homens maravilhados com as narrativas de Omaru, exceto Yehoshua que se tinha afastado sem ser notado.

Só Omaru percebeu sua saída de leve, mas não demonstrou perturbar-se com isto…