Ele não expulsava demônios, pois estes não são mais que fantasmas criados pela ignorância das gentes.

Ele não expulsava demônios, pois estes não são mais que fantasmas criados pela ignorância das gentes.

Yehoshua passeou pela pequena vila, com nada mais que oito ruelas sem calçamento e tortuosas. Notou, preocupado, que pelo menos seis soldados romanos estavam vistoriando as ruas. Buscavam, com toda a certeza, qualquer estranho que por ali estivesse, talvez em função dos mortos que Omaru havia deixado na estrada. Seu amigo oriental estava em sério perigo. Parecendo despreocupado, Yehoshua subiu pela ruazinha que levava à estrada e de lá desceu escondendo-se por detrás das árvores até chegar à casa de Samuel. Ali entrou calmamente e veio sentar-se ao lado de Omaru.

— Como eu suspeitava, já estão dando buscas em toda a vila atrás de um estranho. Seja qual seja a pessoa, será arrastada para interrogatório.

Omaru ouviu-o sem nenhuma expressão de preocupação. Depois que Yehoshua parou de falar, ele respondeu:

— Se vierem aqui e tentarem me levar, mato a todos.

— Por que pensas de imediato em matar? — Questionou Yehoshua.

Todo militar, samurai ou cruzado, desenvolviam um tremendo senso de responsabilidade e lealdade.

Todo militar, samurai ou cruzado, desenvolvia um tremendo senso de responsabilidade e lealdade.

— Pelo Código de Bushido, tenho que decidir sem hesitação. Se vierem aqui e tentarem me prender, não haverá espaço para diálogo. Então, eu os mato. Não vou ser aprisionado por ninguém. E não me permito entrar em batalha e perder, pois se isto acontecesse eu teria de praticar o sepuku, coisa que não posso fazer sem levar a cabo integralmente a missão de que fui encarregado. Se tu não queres que eles morram, então, vamos embora. Como já disse: vim buscar-te. Só estou esperando que proves que realmente és quem disseste ser. 

— Eu já disse que não posso ir em tal viagem, Omaru. Tenho família para sustentar e é inviável ficar quase oito meses fora daqui. Também já te disse que a princesa ficará curada. Ela já apresenta sinais de recuperação, acredita em mim. Antes que para lá retornes, ela já se terá casado.

Omaru olhou sério para Yehoshua. Não acreditava no que ele lhe dizia, mas sendo um samurai, não contestaria seu amigo até que pudesse comprovar ou não, a veracidade do que acabava de ouvir.

Samuel e Sara estavam totalmente atentos aos cochichos entre os dois e foi ela quem perguntou primeiro.

— O que se passa? Por que vocês dois cochicham? O que estão querendo esconder de nós?

Amai-vos uns aos outros como eu vos amei... E ainda vos amo.

Amai-vos uns aos outros como eu vos amei… E ainda vos amo.

Yehoshua resumiu o que tinha acontecido desde que ele e Omaru se tinham encontrado na estrada. Samuel riu, satisfeito, quando soube da morte da patrulha romana, mas Yehoshua o repreendeu. Disse-lhe que não era motivo de alegria o assassínio em massa de tantas pessoas. Os romanos também eram filhos de Deus e o que tinha havido era, a rigor, um crime entre irmãos. Omaru havia matado seus irmãos romanos e isto era errado aos olhos do Criador.

Omaru franziu o sobrecenho e encarou Yehoshua, surpreso. Samuel negou-se a admitir ser irmão de romanos e acusou Yehoshua de cometer blasfêmia diante dos olhos de Jeovah. Yehoshua preferiu não entrar em discussão sobre isto. A vida de Omaru ou dos kittins estava em perigo. Era preciso agir e agir rápido.

— Vamos, depressa! Troquem o haluk de Omaru. Dêem-lhe um outro, de cerimônia. Escondam sua trança sob o capuz da vestimenta. Rápido! Não temos muito tempo.

Às carreiras e contra a vontade do samurai, ele teve de trocar de vestimenta e sua armadura e armas foram escondidas em um buraco atrás da casa. Sobre o buraco jogaram uma porção de lixo, inclusive de fezes de porco e galinhas. Assim, os kittins não mexeriam ali.

Mal tinham terminado e pancadas violentas soaram. Um kittin batia na porta, escandalosamente. Sara foi abri-la e se manteve fria e calma, olhando séria para o miliciano.

— Mulher, tem mais alguém em tua casa?

Eles eram temidos e odiados pelos judeus. E faziam jus à fama de cruéis.

Eles eram temidos e odiados pelos judeus. E faziam jus à fama de cruéis.

Yehoshua, Samuel e Omaru saíram um pouco da penumbra que havia no pequeno cômodo e se deixaram vislumbrar pelo soldado. Este os olhou atentamente, procurando ver melhor suas faces.

— Venham para fora. Quero ver a todos, melhor. Aí dentro está escuro.

Todos saíram. Já outros dois milicianos chegavam e sem pedir licença entraram na casa e foram revirando tudo. Omaru olhou com o cenho franzido para Yehoshua e, depois, para Samuel. Mas nenhum dos dois homens esboçou qualquer movimento no sentido de impedir aquela invasão. Em seu país, os intrometidos seriam duramente punidos. E se fosse em sua casa, seriam mortos incontinenti.

O que ficara fora voltou-se para Omaru com olhar inquiridor. Samuel tratou de intervir.

— Ele vem do Oriente. Chinês. Não fala nossos idiomas. Parece que veio atrás de ajuda médica para uma pessoa importante em seu país. 

O soldado pareceu não escutar o que o judeu dizia. Lentamente deu a volta em torno de Omaru. Parou de frente para ele e o mirou nos olhos.

— Sim, é oriental. Mas por que se veste como um de vós? Nós sabemos que eles são guerreiros perigosos… O que faz este, aqui, convosco?

— Ele chegou ontem e foi assaltado na estrada. Levaram-lhe até as roupas. Chegou aqui trajando apenas as roupas de baixo. Minha mulher lhe emprestou o meu haluk que ele veste, agora. Estamos tentando nos entender, por gestos e sinais — mentiu Samuel, mas com firmeza na voz e na postura. Foi escrutinado pelo legionário, mas este pareceu convencer-se de que o judeu falara a verdade.

Os outros soldados vieram juntar-se ao pequeno grupo. O que tinha ficado de fora deu as informações que recebera sobre o estrangeiro.

— Vamos levá-lo — disse o que parecia chefiar o grupo. — Se é verdade o que dizem dele, então, nossos superiores descobrirão.

Se ele entrasse em combate, com certeza seu adversário corria sério perigo.

Se ele entrasse em combate, com certeza seu adversário corria sério perigo.

Aquilo era o perigo dos perigos. Yehoshua observou seu amigo e viu que ele estava pronto para reagir. Embora não portasse armas, Yehoshua o vira em ação e sabia que em pouco tempo os soldados estariam mortos. Então, interveio. Segurando o braço do soldado que comandava o grupo, falou. E sua voz soou profunda e imperiosa.

— Não. Os senhores não têm tempo a perder com um homem que nem mesmo fala qualquer dos idiomas que se fala por aqui. Aquele por quem buscais já deve estar distante, na estrada por onde passou.

O miliciano olhou com raiva para aquele atrevido que ousava segurar-lhe o braço. Mas quando seu olhar cruzou com o de Yehoshua algo mudou dentro de si. Ele ficou como petrificado. A voz lhe sumiu e não pôde se mexer por um pequeno espaço de tempo. Tempo em que sua vontade arrefeceu e se curvou à daquele homem estranho.

— O judeu tem razão. O oriental não nos interessa. Vamos!

Omaru olhou surpreso para Yehoshua. Começava a desconfiar que aquele homem que negava ser feiticeiro era-o de verdade. Curvando-se para o ombro do nazareno, murmurou: “quero falar contigo, a sós”.

Sara e seu marido discretamente se afastaram e Omaru puxou Yehoshua para debaixo da árvore onde tinham estado sentados. A noite começava a se anunciar nas sombras que devagarinho se adensavam. Quando os dois estavam um diante do outro, Omaru perguntou, olhar fixo nos olhos de Yehoshua.

— Como explicas que de manhã eu não entendesse nada do que os kittins falavam e, agora, compreendi tudo o que disseram? E como é que converso com teus amigos e eles comigo, se não falamos a mesma língua?

Yehoshua riu, divertido, mas nada disse.

— E então? — Impacientou-se Omaru. — Em quê língua nós estamos realmente falando?

— Todos falamos em nossas próprias línguas, meu irmão. Mas quem está, durante todo este tempo, ouvindo e compreendendo são vossos Espíritos e para eles não há distinção de línguas. O que eles apreendem são os pensamentos. No presente caso, tenho a dizer, que tive de manter controle para que os pensamentos ruins de vós todos não se vos revelassem. Houve muitos, eu te garanto.

— O que tu chamas de pensamentos ruins?

— Os que foram gerados por vós a respeito uns dos outros. Neste quesito, tenho de parabenizar-te. Tu não geraste nenhum pensamento depreciativo quanto aos teus irmãos que vivem aqui.

— O Bushido me impõe que seja sempre polido e cortês e que aja para com os outros com amabilidade. Eu não teria seguido os preceitos do Bushido se tivesse pensado mal, sobre qualquer aspecto, de qualquer um de vós. Mas, se tu tens o poder de controlar até nossos espíritos, então, tu és realmente um grande feiticeiro.

— Eu não sou feiticeiro. Não faço feitiços. Isto é para os ignorantes. Sou filho de Deus, assim como todos vós. A diferença entre mim e vós é que eu sou muito, mas muito mais velho que todos os que vivem neste mundo, nesta época. Vim para trazer uma mensagem para a humanidade. Em breve começarei meu ministério.

— Já o começaste, não? Eu estou tão impressionado contigo que nem sei o que falar. Teu poder é incomensurável. Nem os mais adiantados monges xintoístas de Nihon se aproximam de ti. Vejo que não poderei levar-te à força, como pretendia. Então, só me resta praticar o sepuku.

— E qual seria a vantagem espiritual para ti, se te suicidasses por tão pouco?

— Nós, samurais, se não cumprimos com uma ordem recebida, então, estamos em desgraça. E para este estado só a morte é possível, pois só ela nos liberta da vergonha.

— Isto é válido para o homem, para a pessoa. Mas o que dizer quanto ao teu espírito imortal? Por acaso, não pensas nele? O que ele realmente deseja?

— Como posso saber? Ele e eu não conversamos, eu creio.

— Erras. Ele fala contigo a todo momento. Vê se não estou certo. Olha para teu íntimo e me respondes: matar-te é algo que teu íntimo aceita com prazer?

Omaru pensou um momento, olhar perdido diante de si mesmo e, então, com vagar, respondeu:

— Não. Eu sinto que não quero morrer…

— Isto é teu espírito dizendo que não aceita que finalizes tua vida carnal antes do tempo, apenas porque alguém escreveu regras estúpidas a respeito de vergonha, honra etc… Vê, Omaru, é fácil conversar com nosso próprio espírito. Basta um momento, por curto que seja, de sincera introspecção. Ele está sempre disposto a nos dizer o que quer. E crê-me: ele sempre diz o que é melhor para ele mesmo e para a pessoa que todos somos enquanto vivos aqui na Terra.

— Mas a princesa precisa de ti e se eu não te levar comigo, cairei em desgraça diante de meu Kōshaku.

— Confias em mim?

— Sim.

— Então, aguarda até o primeiro canto do galo. Veste tua armadura e enceta tua viagem de volta. Não encontrarás nenhum empecilho no teu caminho de regresso. A viagem será menos longa que a que fizeste para chegar até mim. E quando chegares diante de teu Kōshaku diz-lhe que eu lhe mandei dizer que foi a fé que ele teve em mim e o amor sincero pela filha que a salvou. Dize, também, que eu peço desculpas por não poder ter ido pessoalmente para conhecê-lo, pois ele é merecedor de minha admiração. Um amor tão grande pela filha a ponto de enviar seu mais bravo guardão em busca de alguém desconhecido em terras distantes apenas porque tem no coração a firme esperança de que esse alguém possa curar a desditosa jovem merece o meu mais profundo respeito.

Omaru permaneceu diante de Yehoshua, mas seu olhar estava perdido alhures. Ele estava profundamente mergulhado em seus pensamentos. Quando voltou a si e procurou pelo nazareno não mais o viu. Queria dizer-lhe que, depois de cumprida a missão, retornaria para segui-lo e ser seu servidor para o que desse e viesse.

Antes do galo cantar pela primeira vez, Omaru trajou sua indumentária de guerreiro e perscrutou a escuridão. Não, para sua contrariedade, Yehoshua não estava ali. Tinha ido embora desde quando o deixara entregue aos próprios pensamentos. Mas estava decidido. Voltaria para o servir.

Ele nunca mais voltou.

Depois que deu o recado de Yoshua a seu Kōshaku, ele faleceu. Estava galopando através de uma floresta comando um ataque quando um enorme galho subitamente caiu sobre si e sua montaria. Foram esmagados tão rapidamente que com toda a certeza seu espírito prosseguiu galopando ainda por um tempo, antes de perceber que tudo ao redor havia mudado e se tornado maravilhosamente belo…