A belíssima Via Láctea, local onde está o planetinha em que vivem e evoluem  os seres humanos.

A belíssima Via Láctea, local onde está o planetinha em que vivem e evoluem os seres humanos.

Orozimbo chegou trazendo seu netinho pela mão. O moleque estava bem crescido e começava a botar um corpo admirável para sua  idade. Não negava a herança que seu velho avô lhe dera. Recebi-os com muito carinho, pois gosto imensamente dos dois. Após servir  bolo ao garoto e café ao meu velho amigo, sentamo-nos para conversar.

— Você tem andado sumido, meu velho. O que houve?

— É qui véio arranjô um servicim de ajudante de pedrero, num sabe? Entonce, tem sobrado munto pôco tempo pra eu vim aqui. Mas num m’isquici de vancê, não, home. Ité tava cum sôdade, ora!

— Eu também, eu também estava com saudade de vocês dois. O que andam aprontando? Quero dizer, a dupla dinâmica, avô e netinho?

— E entonce, o mulequi aqui apareceu cumas novidade difirce de véi aquerditá, num sabe? Tão insinando coisa qui num pode sê verdade pr’êle lá na iscola. Umas babozera qui nem na tv de vancê tem iguá.

— Não, tio — cortou o garoto, rindo. — É meu vô que ‘tá velho e não entende o que eu quero explicar a ele.

— E o que é que você anda explicando para seu avô que ele não compreende e não concorda?

Uma linda foto do Oceano batida do espaço.

Uma linda foto do Oceano batida do espaço.

— Eu contei a ele que o homem já foi à Lua e que lá em cima não é a morada de Olorum, não. Aí ele ficou bravo comigo. Ele não acredita que alguém possa chegar à qualquer lugar fora da Terra.

Uma querela sem fim se travou entre Orozimbo e seu neto. Meu velho amigo defendia a idéia de que lá em cima, no céu, só Olorum podia viver. Lá era Sua casa e ninguém poderia chegar lá a não ser que tivesse morrido aqui na Terra. Isto, para ele, era tão claro quando água de nascente. Quando, finalmente, os dois fizeram uma pausa, eu falei.

— Eu sei que é difícil de crer, meu amigo. Mas realmente o ser humano já anda passeando pelo Espaço. Claro que é como você sair de dentro de sua arucaia e dar uma volta em torno dela à distância de um metro. Mas já é alguma coisa. E quanto ao Hubble, seu netinho fala a verdade. Um telescópio enorme já foi lançado no Espaço e está lá, fuçando até os confins desta galáxia em que vivemos. é o grande telescópio flutuante que nos tem trazido conhecimento de quão grande é o trabalho do Criador. Ele dá à humanidade a dimensão de sua pequenez diante da imensa e maravilhosa obra de Olorum. 

Orozimbo me olhava com olhar cético e face com expressão pesada, censurosa. Talvez não estivesse gostando que eu desse asas às “fantasias” do garoto. Então, trouxe-os para diante do computador e abri, no Google, uma série enorme de galáxias Durante quase meia-hora falei a respeito do que são as galáxias e qual a finalidade de suas existências. Orozimbo continuava cético. 

Sandra Bullock em cena do filme Gravidade.

Sandra Bullock em cena do filme Gravidade.

— Tudo aí é invencionice dos home pra inganá troxa, ora se é! Ninguém pode sabê o qui tá lá na morada de Olorum, será qui vancês num intende isso? O home inté pode avuá aí in riba, cun’s avião qui eles inventô. Mas isso é bem aí, num sabe? Agora, saí da Terra e entrá no Ispaço, a casa de Olorum? Véi num aquérdita mermo!

Tomei uma decisão radical. Está em exibição no cinema o filme GRAVIDADE, com Sandra Bullock, de quem sou fã. Então, resolvi levar a dupla para assistir à película. Era em terceira dimensão, o que certamente daria mais realidade ao que se veria. Eu sabia que Orozimbo apenas tinha assistido a alguns filmes em TV aqui em casa, único lugar em que se permitia certas “liberdades”. No início ficara assustado e ressabiado. Mas aos poucos foi compreendendo que aquilo era somente uma imagem fantasma, formada pelo choque de bilhões de pixels na tela preparada para isto. Ele apreendeu a idéia, mas não compreendeu muito bem aquela história de bilhões de pixels piscando “adoidado” para formar as imagens. E as vozes? Aí foi que a encrenca foi maior. Mas ele terminou aceitando que a voz também vinha junto com a imagem fragmentada e já via a TV com naturalidade. Entretanto, só vira alguns filmes das séries de assassinatos da AXN e da SONY. Depois disto, perdera o interesse — meu velho amigo detesta a violência — e passara a pedir filmes da DISNEY. Ele se diverte com os cães, os gatos e os ratos falantes dos delírios dos produtores da Disney. Fora disto, meu velho gosta muito é de desenho animado.

Saímos para o cinema. O garoto ia tão feliz que cantarolava o tempo todo. Orozimbo, cético, olhava tudo circunspecto. Era sua primeira vez em um shopping e ele estava admirando tudo, mas sem comentários. Comprei os ingressos e fomos andar e tomar um “milque sheique(*). Orozimbo gostou e pela primeira vez fez um comentário.

— Ese negóço aqui é danado de frio, mas é bão mermo, home. Véio gostô munto! — disse. Eu lhe comprara um copo de 500 ml que ele saboreou devagar. Finalmente, entramos no cinema. Orozimbo não gostou da escuridão, principalmente porque tropeçava muito nos degraus. Eu escolhera, como sempre faço, uma das últimas fileiras. Acho melhor para ver o filme. Há os que gostam das filas de cadeiras no meio da sala de projeção e outros de cadeiras nas filas do “gargarejo”. Definitivamente este não é meu caso. Até aceito sentar-me em cadeiras no meio da sala, mas prefiro as que ficam mais afastados da telona.

Orozimbo se maravilhou com o tamanho das imagens durante as propagandas, mas quando o filme começou e ele pôs os óculos para enxergar em terceira dimensão sua exclamação de espanto soou por toda a sala.

— Caramba, ome, o qui diabo é aquilo? Onde é qui aqueles dois dismiolados tão?

— No espaço, vô — respondeu Arthur, excitado. — Eles estão fora da Terra. Eu não lhe disse que isto é possível?

— E onde tá Olorum qui num puxa as ureias deles pur istá invadindo sua casa?

Arthur soltou uma risada cristalina, mas eu lhe dei um toque no braço. Ele se segurou.

— Meu velho é assim que se vê a Terra lá de cima. Eles não estão nem perto da Casa de Olurum. É por isto que O Criador não se incomoda com a travessura dos dois. Na verdade, se a Terra fosse a sua arucaia, eles estariam apenas a um metro de distância dela, compreende?

— Boquiaberto, Orozimbo apenas acenou com a cabeça. Estava maravilhado. Mas o filme, eu não esperava isto, é de uma tensão terrível. E mostra a sujeira que nós, humanos, temos espalhado pelo espaço ao redor da Terra, coisa que eu já lera em dezenas de publicações, desde as científicas às leigas. No entanto, ler sobre o lixo espacial é uma coisa. Ver o que ele pode causar é outra bem diferente. As cenas de desespero vão num crescendo e os nervos do expectador ficam tensos até o limite. Orozimbo tinha os olhos arregalados e a respiração opressa. Suas mãos apertavam nervosa e tensamente os espaldares da cadeira e seu corpo estava todo inclinado para a frente. Vez por outra engolia em seco e soltava exclamações de espanto. 

Espaçonave americana no filme "gravidade".

Espaçonave americana no filme “gravidade”.

Finalmente, quando a Bullock fica de pé e começa a andar à beira de um grande lago onde a cápsula que a trouxe de volta da terrível aventura e o filme acaba, nós saímos em silêncio. Orozimbo mal se viu fora da sala de projeção, caminhou apressado para uma das inúmeras mesas que há no grande salão da praça de alimentação. Deixou-se cair na cadeira, olhar perdido à frente e sem fazer comentários. Eu respeitei seu silêncio e obriguei Arthur a fazer a mesma coisa. Para isto foi necessário que premiasse o moleque com outro milque sheique. Finalmente meu velho amigo falou.

Ome, aquilo lá é mermo possíve? A gente pode mermo ir lá fora da Terra? E o Espaço é tão imenso daquele jeito, mermo?

— É, meu velho. E o que o filme nos mostra é que nós estamos muito longe das fantasias que Hollywood, a terra do cinema, nos mostra quando cria filmes sobre viagens interplanetárias. Somos, no Espaço, desengonçados como pintos recém-nascidos. Soltos no Espaço, não temos quase nenhum controle da situação onde nos metemos. Mesmo assim, esta criação de Olorum, chamada Homem, Gente, Bípede humano etc… tem o arrojo e a coragem suficientes para ousar. Isto é que nos faz diferente dos demais animais. Nós ousamos. Nós nos arriscamos. Nós nos lançamos incontrolavelmente à busca do Conhecimento, custe o que custar. Por isto é que somos Deuses, também.

— Mas… Mas onde é qui véve Olorum? Ele num apareceu nem uma veiz no firme…

Fiquei calado. Como explicar-lhe(**) que Olorum não tem existência na Terceira Dimensão? Como lhe dizer que esta dimensão que a ele e a qualquer um parece maravilhosa não passa de uma grande ilusão, um grande sonho, o Pensamento de seu Olorum?

— Olorum não vive na dimensão em que nós, os planetas e as estrelas existem, meu velho. Sua Casa está muito além disto tudo. A dimensão Espacial onde Ele tem existência é feita de… de… bom, é como se fosse feita de ar. Mas um ar tão fino, tão fino, tão fino que a gente nem percebe sua existência. Deu pra entender?

Orozimbo ficou meneando a cabeça, meditativo.

Espaçonave americana no filme “gravidade”.

— Bão… Véio acha qui vancê tem munto a expricá sobre a Casa de Olorum, num sabe, home? Esse firme aí qui véio viu deu um nó na cabeça de Orozimbo… Os home andando pelo ar fora da Terra… Véio só aquerditô pru qui viu, sinão…

Arthu me olhou, atento, mas eu lhe fiz um aceno negativo. Não, não era preciso sobrecarregar mais ainda a cabeça de meu velho amigo com explicações complicadas demais para ele. E logo ele, que fazia “viagens” astrais que ninguém mais podia realizar, não conseguia alcançar a Grandeza d’Aquele a quem chamava Olorum. 

A mente humana é mesmo o maior mistério do ser humano.

(*) NOTA 1: A Gramática Portuguesa manda que se evite uso de palavras estrangeiras quando houver termos de nosso idioma que expressem exatamente o que se quer dizer. É o caso do vocábulo DESENHO que, lamentavelmente, vem sendo substituído sem qualquer razão pela palavra correspondente em inglês DESIGN. Eu não sigo o modismo e uso sempre DESENHO.  O som é até mais bonito que o do vocábulo inglês. Quando em nosso idioma não houver palavra que corresponda àquela, estrangeira, então deve-se aportuguesar-lhe a pronúncia e, então, escreve-se a forma aportuguesada. Escolhi aportuguesar milk shake, que, se traduzido ao pé da letra, daria “leite batido” em português.

(**) NOTA 2: Embora haja a conjunção COMO antes do verbo EXPLICAR, este possui maior força de atração sobre qualquer variação pronominal que se lhe agregue, pois está no infinitivo. Portanto, tanto faz a construção COMO LHE EXPLICAR como a construção COMO EXPLICAR-LHE. No primeiro caso, a variação pronominal LHE vem na posição PROCLÍTICA (antes do verbo) devido à atração da conjunção COMO anteposta ao verbo, preferida pelo redator do texto; no segundo caso, a variação pronominal LHE vem posposta ao VERBO, na posição ENCLÍTICA, devido à força atrativa deste no infinitivo.

A explicação é dada a pedido de um leitor que estuda meus textos para prova de vestibular. Em tempo: prometo retomar as lições que vinha dando sobre a Gramática. Obrigado pelo elogio.