Ele não escolhia amigos. Todos eram bem-vindos.

Ele não escolhia amigos. Todos eram bem-vindos.

Próximo do Monte das Oliveiras, no tempo de Yehoshua, havia um afloramento maciço conhecido pelo nome de Ha-Zoafim, ou seja, O Observador. Era uma colina que dominava a vista para o lado leste de Jerusalém e exatamente porque permitia boa visibilidade desta parte movimentada e sempre bem vigiada pelas patrulhas dos kittins, assim como pelos soldados a serviço do Templo, recebera esta designação dos que por ali viviam ou transitavam – a maioria. Era naquela colina que o rei judeu Manassés sacrificava crianças para aplacar a ira do deus pagão Moloque. Por isto, o lugar não era bem-visto e havia muitas histórias de maldições e aparições de sofredores, o que afastava os crentes e religiosos. Para piorar as coisas, uma colônia de leprosos se estabelecera entre os grotões. Nada além de oito famílias, mas o suficiente para espantar quem por ali passava. Os doentes eram obrigados a gritar ou gemer alto para avisar os passantes de suas presenças, quando saíam dos grotões para buscar a comida deixada na margem das estradas. Mesmo os militares romanos ou templários não gostavam de transitar pelo local. O sol quente esquentava a brisa e esta fazia homens e animais suarem mais do que o necessário e o odor do suor pairava incomodamente no ar. Além disto, as subidas eram íngremes  pedregosas e cheias de pó e fezes de mulas e camelos. O odor nem sempre era agradável às narinas dos transeuntes. Era a terceira hora depois do nascer do Sol e a colina já estava movimentada. Salteadores, assassinos, vendedores, mendigos, tudo ali se misturava numa babel de línguas diferentes, odores diversificados de suor, fezes, comida e frutas, que dava tontura e náusea aos não acostumado àquilo. As pequenas caravanas de comerciantes que por ali transitavam faziam-no aos grupos e bem armados. Geralmente pagavam mercenários gauleses para os proteger, pois eles eram muito temidos devido ao manejo exímio da acha de guerra e a violência com que agiam. Mesmo assim, vez que outra havia tentativa frustrada, quase sempre, de assalto aos mercadores mais ricos e portadores de mercadorias bem valiosas, como os perfumes e as sedas orientais. Em tais casos o odor do sangue humano ficava por horas de mistura com o já habitual e desagradável que empestava aqueles caminhos.

Judas, irmão de Yehoshua e que tinha uma estatura bem similar ao de seu líder, embora o gênio fosse totalmente diferente, caminhava carrancudo passos atrás. Sempre armado, Judas nunca dispensava o gládio nem, muito menos, o cajado. Sabia manejá-los como ninguém numa luta. Seus olhos sob sobrancelhas espessas escrutavam os arredores sempre atentos, sempre vigilantes. Se algum engraçadinho tentasse atacar o irmão, sentiria no lombo o pesado cajado de Judas e devia agradecer aos céus ele não sacar da espada, pois então…

Yehoshua não levava nada, ou quase, pois sempre tinha uma bolsa onde portava todos os seus bens: um rústico pente para cabelo e barba; uma pequena faca afiada para raspar os pelos da face, sabão para banho, um par de sandálias sobressalentes e uma muda de roupa. Era só. Este era todo o bem daquele gigante. E ele se virava muito bem com seu “tesouro”.

Passavam justo pela ravina de onde vinham os leprosos. Yehoshua deitou um rápido olhar para dentro das pontiagudas rochas, mas não vislumbrou ninguém. O calor era sufocante e certamente eles não surgiriam até quando o Sol estivesse bem inclinado rumo ao seu descanso diário. Yehoshua voltou-se para seu irmão, que o seguia religiosamente a somente quatro passos atrás. Judas meneou levemente a cabeça num sinal de que estava alerta. Yehoshua sorriu de leve e acelerou o passo, espantando seu irmão que teve de também aumentar o ritmo da marcha para o seguir.

Uma patrulha de guardas do tetrarca descia em sentido contrário àquele por onde os dois irmãos seguiam. Judas franziu o cenho. Era muito raro ver soldados andando por ali. De onde estariam vindo aqueles? Saiu para o lado a fim de dar passagem aos carrancudos e apressados patrulheiros. Estes o ignoraram e seguiram em frente, desaparecendo rapidamente numa curva do caminho que os dois tinham deixado para trás.

Já passava da quinta hora quando, finalmente, Yehoshua abrandou as passadas largas e se retirou da pista principal. Encaminhava-se para um dos raros poços que havia à direita, descendo um caminha acidentado, cheio de pedras afiadas e poeira fina, amarelada. Mais vinte minutos de marcha forçada e logo estavam dentro de um bosque de oliveiras, onde a temperatura abaixava e a brisa era suave. Adiante eles ouviram o rumorejar de água. Era de uma nascente que ficava entre as pedras. A água ali era fresca e límpida. Os irmãos se aproximaram da nascente e do pequeno poço com os cantis prontos para serem enchidos, mas dois homens mal-encarados e com disposição de briga se interpuseram entre eles e a água.

— Querem água? — Perguntou o maior e mais musculoso dos dois.

— Sim, queremos. Temos sede — disse Yehoshua, parando e mirando os olhos negros e maldosos do estranho.

— Paguem. Dois denários.

— O que? — Exclamou Judas, espantado. — Dois denários por dois cantis d’água? Mas onde diabos pensas que nós conseguimos dinheiro? — Judas avançou até se postar ao lado de Yehoshua.

— São assaltantes, já se vê. Ninguém anda por aqui à-toa. Ou comerciante, ou mendigo, ou assaltante. Vós ambos não pareceis mendigos e não sois, com certeza, comerciantes. Tu tens um gládio e pela carranca dizes bem de teu gênio. Então, sois assaltantes e assaltantes têm dinheiro. Ou pagam ou vão adiante. Aqui não bebem.

— Ao diabo… — Urrou Judas elevando o cajado, pronto para a luta. Mas Yehoshua elevou a mão, tocou na perigosa arma e fez que seu irmão a descesse, ainda que a contragosto. 

— Não somos assaltantes. Apenas dois viandantes que têm sede. O poço não vos pertence. Então, por que vos arrogais o direito de cobrar pela água que Deus nos dá de graça?

O bandoleiro mirou Yehoshua de cima a baixo. Não viu nele nenhuma disposição beligerante, como via em seu irmão, e por isto falou sem agressividade na voz.

— Vejo que sois judeus. Pelas vestimentas  e por tuas palavras. Mas nós não somos de vosso povo. Não acreditamos no vosso Deus. Então, não nos interessa que digais que vosso Deus vos dá água de graça. Aqui, quem manda somos nós e este poço é nosso por direito de conquista. Agora, ide em frente se não podeis pagar.

Judas avançou dois passos e se colocou adiante de Yehoshua. Trazia seu cajado atravessado diante do corpo, segurado com as duas mãos.

— Se eu estivesse sozinho e não acompanhado pelo boboca de meu irmão, tu já estarias morto, ladrão sem-vergonha. Mas estando ele aqui, vou-me limitar, ainda que contrariado, a te aplicar apenas uma boa surra.

E mal acabara de falar Judas atacou. Mas não o fez visando a cabeça, conforme era o que esperava o ladrão de estradas. O cajado lhe acertou o joelho da perna esquerda, fazendo que ele saltasse para trás com um grito de dor. O joelho partido não lhe permitiu firmar-se na perna e ele caiu. Quase como que por mágica seis outros salteadores surgiram de dentro do olival e vinham armados com espadas. Não se fizeram de rogado e voaram sobre os dois irmãos. Yehoshua recuou dois passos, deu as costas ao grupo, que não conseguiu passar por Judas, tal era a rapidez com que este manejava o cajado, e sentou-se sobre as pedras que cercavam o poço. Calmamente retirou o saco d’água, feito de couro de cabra, encheu-o do líquido fresco e sorveu bons goles, ignorando totalmente a refrega em que seu irmão se esforçava. Os gritos de susto e dor lhe chegavam aos ouvidos. Os corpos rolavam pela ribanceira, derrubados pelas cacetadas certeiras de Judas, que se movia furiosamente como num bailado estranho.

Em pouco tempo só ele restava de pé. Os oito assaltantes estavam no chão, gemendo ou desacordados exibindo vultosos galos nas cabeças quebradas. Judas, ainda bufando de raiva, aproximou-se do poço, meteu a mão n’água e bebeu. Repetiu a manobra por mais de uma dúzia de vezes. Então, lavou a cabeça, os braços e as pernas e se sentou ao lado de Yehoshua.

— Vês como eu tenho razão, quando insisto para que aprendas a te defenderes? Se não estou aqui, certamente eles te teriam ferido seriamente.

Yehoshua olhou-o com olhar penalizado.

— Judas — falou, depois de um profundo suspiro — Nosso Pai não nos deu mãos para esmurrar ou bater nos outros; também não nos deu pés para que chutássemos nossos semelhantes e irmãos.

— Nosso pai? A quem te referes? Que eu me lembre, nosso pai sempre nos aconselhou a auto-defesa. Ele mesmo era muito bom no manejo do cajado.

— Sim, sim. Nosso pai carnal era-o mesmo e sei que foi ele quem te ensinou esta arte vil.

— Vil? — Interrompeu Judas quase gritando. — Como chamas de vil algo que te salva de bandidos e assaltantes? É a arma de nosso povo desde os tempos do Egito — e ele agitou o cajado no ar. — É o símbolo de Jeovah, bendito seja seu nome. 

— Não me consta que alguma vez Jeovah tenha aparecido aos mortais humanos apoiando-se num cajado, Judas. Isto é um apoio para velhos ou se torna uma arma em mãos de jovens de cabeça quente, como tu. O cajado que manejas tão furiosamente foi de nosso pai carnal. Mas eu jamais o vi usá-lo como arma de ferir o próximo. Ele preferia dialogar. E conseguiu viver sem ferir. Por que não podes ser como ele foi? Olha ao teu redor e vê o que fizeste. Eles estão com os joelhos quebrados. Alguns, com suas cabeças rompidas graças às tuas bordoadas. Quem vai tratar de seus ferimentos? Quem vai dar-lhes água, comida, abrigo?

— Ninguém e é muito bem feito! — Gritou Judas, revoltado. — Eles nos teriam matado sem dó, se eu não nos defendesse, Yehoshua. Não se trata com essa laia usando luvas de seda. Com eles é no cajado, na funda, no punhal ou no gládio. Esta é a linguagem que entendem.

— Então compete a nós ensinar-lhes outra linguagem — disse Yehoshua calmamente e se levantando. Judas permaneceu sentado, olhando espantado para seu irmão. Era incrível sua ingenuidade. Bandido salteador de estrada sabe muito bem que enveredou por uma vida onde só vai encontrar a morte. Ou na escuridão da noite, nas mãos de um sicarii, ou dependurado de uma cruz romana, ou apedrejado pelos guardas e pelo povo de Jerusalém. Como tratá-los de modo diferente?

Yehoshua, que tinha desaparecido por entre as oliveiras, retornou com um frasco de barro. Colocou algumas gotas do conteúdo daquele estranho frasco em um pedaço de pano e se aproximou do primeiro homem que se retorcia no chão, agarrado à perna, de onde o joelho sobressaía roxo e muito inchado. Yehoshua olhou o homem com doçura, sorriu e devagar pegou-lhe a perna. Lavou bem o ferimento aberto e nele deixou pingar algumas gotas da água. O homem careteou, mas Yehoshua lhe disse que logo a dor cessaria e se ficasse quieto por algumas horas, o inchaço também cederia. Ele poderia voltar a andar normalmente dentro de dois ou três dias. Fez a mesma coisa com os outros. Então, chamou  seu irmão para ajudá-lo a juntar os feridos sob a copa densa de uma velha oliveira. Uma vez todos ali, Yehoshua colocou-se diante deles e falou.

— Eu vim especificamente, hoje, encontrar-me com vocês. E peço perdão por ter trazido o cabeça quente de meu irmão em minha companhia, mas era necessário que vocês me ouvissem e sei que ele é convincente, ainda que um tanto bruto. Agora, que tenho a atenção de todos, quero que me ouçais e mediteis, depois, no que eu vos digo agora.

Vós vos dizeis diferentes de nós, apenas porque nos reconheceis judeus. No entanto, diante dos olhos de nosso Pai Celestial, somos todos irmãos. Não há diferença entre gentios e judeus, assim como não há diferença entre vós e romanos ou quaisquer outros povos. As pessoas se dividem em nações porque têm hábitos diferentes e cultuam deuses também diferentes. Mas em verdade, em verdade eu vos asseguro que há somente um Deus e este está no céu tanto quanto nos corações de todos nós. Se fizermos silêncio nós o ouvimos murmurando o que deseja de cada um. Também podermos receber Sua Paz, ainda que estejamos dependurados na cruz romana. Aos filhos do Pai ninguém pode ferir, pois os filhos d’Ele existem em Espirito, não na carne. neste momento vós existis na carne, por isto é que sofreis. Mas eu vos assevero que quando passardes a existir em Espírito não mais sofrereis.

— E como dia… perdão, como é que se vive em Espírito? — Perguntou o que parecia ser o chefe do bando, lançando um olhar rancoroso a Judas.

— Não odiando… Não matando… Não ferindo… Não roubando… Não dando falso testemunho… Não mentindo… Não desejando o que é de seu irmão e, acima de tudo, amando ao seu semelhante e lhe servindo, ainda que ele se mostre mal-agradecido… Como vós, agora.

O bandido engoliu em seco e baixou a cabeça. Com ela ao peito, falou sufocado pela postura.

— Isso que dizes é muito difícil, homem. Como não odiar os que nos espoliam e nos despojam do que temos?

— E o que tendes? — Perguntou Yehoshua e sua pergunta ficou no ar. O homem lançou um olhar sobre seus companheiros, que estavam de olhos fixos em Yehoshua. Eles tinham muita coisa que haviam rapinado aos transeuntes. Tinham bastante dinheiro escondido entre as pedras da ravina dos leprosos, pois sabiam que poucos seriam os que se arriscariam por ali. No entanto, nenhum fez qualquer menção ao tesouro.

— Tendes as dores, os sofrimentos e as angústias daqueles que assaltastes e roubastes; tendes o ódio dos guardas e dos romanos; tendes o desassossego de quem sabe que é perseguido; tendes a agonia de uma consciência pesada pelas vidas que ceifastes por tão pouco; tendes o perigo como uma espada sobre vossas cabeças; tendes vossos corações desassossegados. Tu mesmo, tens o fantasma de tua mãe a te censurar a vida que levas. Isto é tesouro que se deseje? Dormes com a sombra da cruz romana sobre tua cabeça. Acordas assombrado pelas pedras que um dia poderão chover sobre ti lançadas por mãos furiosas e vingativas. Andas sempre com medo do apedrejamento. Pensas meter medo nos outros, mas o medo habita teu coração dia e noite. Isto é sossego? Isto é paz?

O olhar bondoso de Yehoshua passou de um a outro dos bandidos abatidos por Judas. Este, cabeça baixa, escutava atentamente as palavras de seu irmão. Sempre se maravilhava quando ele começava a falar.

— Quem assim vive, como vós viveis, vive pela carne, meu irmão. E a vida na carne é dura, amarga e sofrida. Deixai-a, pois. Voltai às vossas terras; voltai às vossas famílias; encontrai um trabalho justo e não mais façais o mal aos que lutam por viver em paz, ganhando com seu suor honesto o pão para si e para suas famílias. À noite, olhai o céu e maravilhai-vos com o belíssimo espetáculo das estrelas. E pensai que homem nenhum pode criar a menor delas. Ouvi o cantar do grilo e pensai que homem nenhum pode dar vida a qualquer deles. Matar na carne é fácil, e vós sabeis disto. Mas ninguém pode ser morto no espírito. Então, vivais pelo Espirito. Em silêncio. Em paz com os vossos semelhantes e com a Terra. Orai ao Pai que está em toda parte, inclusive em vossos corações. Ele vos ouvirá, eu vos garanto. E quando o ruído do Mal cessar em vossos corações, vós O ouvireis sussurrando em vossos íntimos: sois meus filhos amados e eu vos darei a beber do melhor vinho na mais rica e farta mesa, a de minha casa, que também é vossa.

Yehoshua parou de falar e ficou observando a face de cada um daqueles homens rústicos. Todos o olhavam embevecidos. Inclusive seu irmão Judas. E ele prosseguiu.

— Não vos apegueis aos bens que não possais carregar convosco, como os dinares que tendes escondidos entre as pedras da ravina dos leprosos. Comprai alimento com esse dinheiro e distribuí com eles. Dai uma destinação mais digna ao dinheiro que indignamente ganhastes, pois isto é de agrado de vosso Pai e ele vos diminuirá a carga que carregais em vossos corações. Sedes piedosos para que possais ser dignos da Piedade, pois quem espalha a dor e o Mal receberá fatalmente tudo isto de volta. Pensai bem: se dando o Mal tendes a certeza de que o recebereis de volta, e vossa vida toda tem sido, até agora, a comprovação do que vos digo, por que não estais seguros de que ofertando o Bem o Bem vos retornará? Em verdade, em verde vos digo: recebereis em dobro o que derdes, hoje, aos vossos irmãos. E do tesouro que virão vossos prêmios ninguém pode conseguir um cêntil se não fizer por merecer. Vivai em Espirito para que possais ser digno deste tesouro. Que a Paz de nosso Pai Celestial, o Criador de tudo e de todos, fique convosco. 

E voltando-se para Judas, que o ouvia espantado e maravilhado, Yehoshua acenou com a cabeça para que o acompanhasse. Em seguida, sem esperar mais nada, ele se pôs a andar com aquelas passadas elásticas, obrigando Judas a correr atrás dele.

— Espera, Yehoshua. Para onde pretendes ir, agora?

— Vamos ao Monte Hatim. Há alguém à minha espera ali e não devo decepcionar a nenhum irmão nosso.

— Por Deus, Yehoshua, que mania tu tens de chamar os gentios de irmãos! Eu não sou irmão de nenhum deles, por mais bonitas que sejam tuas palavras em defesa do contrário. 

Yehoshua apenas sorriu…