Uma plantação de tamareiras.

Uma plantação de tamareiras.

Yehoshua caminhava animado para Jerusalém. Como sempre, suas passadas eram elásticas. Suas pernas longas, de músculos muito fortes, obrigavam os que o seguiam a quase correr para acompanhá-lo. Era graças a isto que ele quase sempre estava só em suas andanças. Em dois dias ele calculava chegar à cidade santa. Queria pregar ali, mesmo sabendo que era caçado pelos seus adversários. Mas, conforme dizia aos seus discípulos, sempre com ele preocupados, sua hora ainda não era chegada.  Yehoshua tinha a simpatia dos fariseus e isto dificultava a ação de seus inimigos, Caifás e Anás. Além do mais, ele contava também com a grande simpatia do povo e atacá-lo à luz do dia era muito temerário. Yehoshua sabia disto tudo e era justamente por ter este conhecimento que não se preocupava com o ódio que despertava nos dois sumo pontífices toda vez que ia ao Templo.

À nona hora, o sol já declinava no horizonte, chegou à casa de seu antigo patrão. Era o dono de uma fazenda de criação de tamareiras. Yehoshua tinha trabalho ali, subindo nas altas palmeiras para cortar os grandes cachos do fruto. Foram dias alegres, embora muito cansativos. À noite, na roda que se fazia, eles ouviam histórias contadas por um velho e resistente grego sobre as aventuras fantásticas de seus heróis. Yehoshua adorava a Mitologia Grega.

Naquela fazenda os empregados chegavam cedo. Colocavam os apetrechos de trabalho, entravam na plantação e se entregavam à dura labuta. Yehoshua estava entre eles. Tinha o emprego de cortador, o que significava que diariamente, enquanto durasse a colheira, cabia-lhe subir nas palmeiras para, apoiado apenas nos pés de grossas solas, graças às suas andanças pelas trilhas pedregosas e segurando-se com uma das mãos enquanto a outra manejava o facão, cortar os cachos que outros, os coletores, apanhavam no chão e transportavam para os debulhadores fazerem seus trabalhos. 

Yehoshua parou e olhou para as palmeiras. Sorriu alegremente e se encaminhou para a casa do dono da plantação. Tão logo o viram e já o reconheceram como o melhor cortador de todos que por ali tinham passado. Foi recebido com alegria por Mirtha, a mulher de Simão, o dono da plantação.

Os fartos cachos de tâmaras ainda na plameira.

Os fartos cachos de tâmaras ainda na plameira.

A filha de Mirtha e ela própria lavaram os pés do viajor. Fizeram aquilo alegremente, papagueando sobre os tempos em que ele ali trabalhara como cortador de cachos de tâmaras. Agora, já famoso por seus feitos e mais ainda por sua palavra, sempre voltada para o combate à corrupção que grassava entre romanos e os serviçais do Tetrarca; e sempre pregando a vinda de um reino maravilhoso, onde a paz finalmente reinaria entre os filhos de Deus, ele era recebido com muita alegria pela mãe e pela filha.

Samara, a filha de Mirtha, era bonita. Tinha pele levemente amorenada, lábios finos e boca bem feita. Mãos pequenas e mimosas, era de estatura mediana, algo em torno de um metro e cinqüenta e cinco. Seus olhos eram castanhos claros, quase amarelos, e por serem grandes sobressaíam no rosto de curvas suaves e doces. Aqueles olhos sempre tinham um olhar travesso que deixava adivinha certa malícia em sua dona. As ancas de Samara sobressaíam de sob as vestes e ela secretamente gostava disto, pois notava os olhares furtivos dos homens para aquela parte de sua anatomia. Seus seios pequenos eram, não obstante, empinados e cheios. Também eles chamavam a atenção dos machos da espécie humana. Mas ela nunca entendera a razão de Yehoshua jamais ter-lhe lançado olhares cobiçosos como faziam todos que a viam de perto. Agora ele estava ali. Bem mais forte, bem mais homem do que quando trabalhara para a família. E tinha uma beleza cativante, misteriosa, principalmente no olhar sempre meigo e terno que lançava sobre todos. Samara não conseguia segurar a aceleração de seu coração…

As tâmaras na palmeira. Fartura sem preocupação com o Mercado...

As tâmaras na palmeira. Fartura sem preocupação com o Mercado…

Yehoshua aceitou o convite para pernoitar na fazenda, visto que se prosseguisse em sua marcha logo seria engolfado pela noite e não era bom ser pegado nas estradas pela escuridão que sempre trazia em seu bojo assaltantes e assassinos. Estava cansado e não se fez de rogado quando lhe ofereceram uma esteira para se deitar um pouco e descansar enquanto o jantar não ficava pronto. Logo dormia tranqüilo, tendo ao lado do corpo a pequena trouxa em que levava seus pertences. Samara ficara quase uma hora olhando aquele corpo perfeito cuja respiração suave tornava provocativamente excitante.

Já na décima segunda hora depois do nascer do Sol, quando a luz do Astro-Rei começava a adotar aquele tom avermelhado característico de sua retirada do céu, Yehoshua despertou. Estava muito bem disposto e faminto, mas conteve-se porque sabia que naquela casa o jantar nunca era servido antes da décima terceira hora, quando as estrelas já se tinham despido de seu manto de luz para se revelarem soberanas na escuridão da noite.

Samara trouxe um prato cheio de tâmaras secas para o hóspede, pois sabia que ele gostava muito daqueles frutos. Yehoshua comeu com prazer. E enquanto comia, sentado em um tronco do lado de fora da casa, as mulheres foram-se chegando e se juntado a ele. Todas o conheciam e todas gostavam muito de seu modo desprendido de ser. Ele nunca se mostrara mesquinho para com elas e, o que mais lhes agradava, não as discriminava por serem mulheres.

A roda cresceu. Eram, agora, umas quinze, todas envolvidas na conversa fácil e fluente de Yehoshua que lhes contava como eram as estradas por onde havia andado. Tinha sempre um modo todo seu de narrar os detalhes, ressaltando-os de tal modo e os enquadrando dentro dos Salmos ou em epístolas da Torá, o que fascinava sobremodo as mulheres. Elas riam, felizes e alegres. Os homens começaram a chegar. Simão foi o último e tão logo seus olhos deram com o hóspede, correu a abraçá-lo com alegria. Nunca escondera que gostava muito do galileu, embora, àquela altura, ser amigo de Yehoshua não era coisa que se devesse alardear, principalmente se por perto houvesse algum esbirro do Templo a mando de Caifás ou de seu genro Anás. Mas Simão era fariseu e não gostava nem um pouco dos dois saduceus. Visto que Jesus era muito simpático aos fariseus e que, quando fôra seu empregado, tinha sido o melhor dentre todos, ele não escondia sua amizade e sua admiração pelo outrora rapaz e, agora, homem feito.

— E então, Yehoshua — contaram-me que andas fazendo milagres. Isto é verídico? — A pergunta fez que todos se calassem e a atenção tornou-se quase densa ao redor do galileu. Este sorriu um sorriso cristalino e respondeu.

— Eu não faço milagres. Isto, só nosso Pai que está nos céus pode fazer.

— Mas me disseram que tu fizeste um coxo andar e um cego, ver. E não só estes. Há uma grande boataria a respeito de teus feitos. Muitos estão certos de que és o Messias. Se é verdade, ficarei orgulhoso porque tive o Messias como meu empregado aqui em casa. E olha que até hoje ninguém se igualou a ti. Foste sempre o melhor. Subias naquelas palmeiras com a rapidez de um primata e tinhas uma resistência admirável.

Uma mulher estendeu a mão timidamente para Yehoshua e com voz trêmula pediu:

— Mestre, tu podes curar-me este ferimento? Ele me dói muito…

Yehoshua tomou a mão da mulher entre as suas e, rindo, lhe respondeu:

— Zuleide, tua mão sarará de conformidade com o que é natural na Natureza. Não te preocupes. E tu bem que podias ficar alegre, pois esta mão ferida te afasta de um trabalho pesado, que é o desbulhamento dos cachos de tâmara. Como vês, este ferimento te proporciona descanso. Então, por que reclamas dele? Mas, vai. Mergulha a mão em água quente com mel de abelha e a própolis colhida nesta casa e que será derretida por ti na água quente junto com o mel. A inflamação logo irá diminuir. E mantém tua mão limpa e livre das moscas. Assim fazendo, eu te prometo que logo, logo, ela estará curada. O milagre desta cura é obra de “papai” que está no céu. Este milagre é extenso a todos. Como sabes, o Pai é misericordioso e farto para com aqueles que respeitam Suas Leis.

— As Leis da Torá? — Perguntou um homem de barba densa, negra, e olhos acerados como punhal.

A Natureza contém em si tudo o de que o homem precisa para viver bem na Terra. Mas o homem a ignora e a ataca com virulência.

A Natureza contém em si tudo o de que o homem precisa para viver bem na Terra. Mas o homem a ignora e a ataca com virulência.

— Não. Eu me refiro às Leis que Ele criou para que houvesse harmonia e equilíbrio nas coisas e no Espaço. Do mais menor dos seres vivos até o maior dentre eles, há leis que o Pai criou para serem obedecidas. Não transgredi-las é orar pelo Seu Livro e este vós conheceis como NATUREZA. A Natureza, meus irmãos, é o maior milagre que nosso Pai colocou à vossa disposição aqui na terra.

Houve um movimento de inquietação entre os presentes que não passou despercebido a Yehoshua.

— Por que vos inquietais? — Perguntou ele, levando um punhado de tâmaras secas à boca e mastigando-as com prazer.

O homem de olhar acerado pigarreou e respondeu por todos.

— Há pouco tu negaste as Leis da Torá como não sendo as mais caras a Jeovah, bendito seja seu nome. Tuas palavras têm irado os rabis e eles, todos sabemos disto, andam buscando alguma coisa que justifique te prederem e te lapidarem ou coisa pior.

O olhar de Yehoshua cruzou com o do homem e este não pôde sustentá-lo. Curvou a cabeça para o solo e, disfarçando, começou a traçar desenhos no pó do chão. Então a voz de Yehoshua se fez ouvir forte e clara. 

— Os que se tornam meus inimigos tornam-se, também, inimigos de meu Pai. E quem cair neste pecado mortal sofrerá muito quando chegar sua hora. 

— Tuas palavras beiram a blasfêmia, galileu. Se eu fosse tu, pensaria melhor antes de falar — disse um ancião que se tinha aproximado e sentado entre os do grupo sem se dar por perceber.

— Blasfema quem diz a verdade? Então, o que direis daquelas víboras que, bem vestidas e cheias de empáfia, pontificam tolices em nome de ninguém, visto que meu Pai não os reconhece nem ao que dizem supostamente em Seu santo nome?

Fez-se pesado silêncio e os homens se entreolharam, pasmos e assustados. O jovem que os tinha deixado, anos atrás, era, agora, um homem perigoso, que dizia coisas perigosas e que, ainda por cima, era muito imprudente. Alguns homens discretamente se levantaram e se afastaram do grupo. As mulheres, contudo, menearam as cabeças em aprovação às palavras de Yehoshua.

— Que as mulheres nos deixem. Elas não são dignas de ouvir este debate que versa sobre o Poder da Torá e a obediência que ela exige de todo judeu…

— NÃO! — E a voz estentórea de Yehoshua espantou os presentes. As mulheres que diligentemente já se levantavam ao ouvirem a ordem de Simão,voltaram a se sentar apressadamente e temerosas. Simão voltou-se espantado para Yehoshua, cujo grito imperioso lhe pegara de surpresa. E, então, a poderosa voz do Messias se fez ouvir claramente por todos.

— Meu Pai… Nosso Pai, não discrimina entre homens e mulheres. Mas se fosse fazê-lo, discriminaria os homens, não as mulheres.

— O quê? — O grito de surpresa foi quase uníssono entre os homens. — Como ousas dizer tamanha tolice, Yehoshua? — Perguntou Simão, exarando o pensamento de todos os homens ali presentes.

— No que tange às suas mulheres, os homens judeus são hipócritas e mesquinhos. Vi muitos gentios que sabem o valor de suas mulheres e, por isto, tratam-nas com o respeito e a delicadeza que merecem.

Um burburinho de revolta cresceu entre os homens. As mulheres se encolherem, temerosas da reação dos ofendidos.

— A Torá ensina…

— Eu sei  o que a Torá ensina  — cortou Yehoshua com um sorriso divertido. — Mas na Torá estão pensamentos de homens que são inferiores a vós, pois não são pais de famílias. São eunucos físicos, mentais e emocionais. Como é que gente que sofre desta triste condição doentia pode ditar leis em nome de nosso Pai? Ele é o Supremo. Ele é Amor. Puro Amor. E nós todos, eu, vós, os gentios de quaisquer partes do mundo, todos somos seus filhos, logo, todos somos irmãos. E de onde viemos? Através de que porta nosso Pai nos coloca na Terra? Dizei-me, vós que sabeis pensar.

Houve um silêncio incômodo entre os presentes. Os homens se entreolharam, agastados. As mulheres abaixaram as cabeças, ruborizadas.

— Se não tendes a coragem de dizê-lo, digo-o por vós todos. Nós, eu inclusive, nascemos do ventre de uma mulher. Qual homem pode gestar um corpo para um Espírito enviado pelo nosso Pai Celestial?

O silêncio tornou-se pesado.

— Nenhum homem tem este poder, mas as mulheres, sim. O Pai as ama tanto que as premiou com esta dádiva invejável. Ela recebe o germe da vida física que o homem lhe dá, mas é só isto o que ele pode fazer. O corpo da mulher, então, começa seu trabalho afanoso na formação do corpo de que a Centelha Divina necessita para se apresentar entre os vivos da Terra. E seu ventre cresce. Ela sabe que irá sofrer quando tiver de parir sua cria, mas ainda assim a ama mesmo dentro de seu ventre. Quem de vós, tendo uma cria em vosso ventre, acariciá-lo-ia com ternura?

Houve um movimento de inquietação entre os homens e muitos pigarrearam desconcertados.

— Nenhum de vós faríeis isto, mas a mãe de cada um que aqui está, inclusive a minha, o fez. Que mais bela demonstração poderia haver de que o Pai se compraz com a gravidez da mulher? Ela ama independentemente do que seja aquilo que há em seu ventre. Não lhe importa que seja homem ou mulher. Que seja belo ou feio. Que nasça perfeito ou aleijado. Isto é Amor. Amor semelhante àquele que o Pai Celestial nutre por cada um de vós, ainda que cometais injustiça contra aquela que a Ele merece todo carinho e toda atenção. A Torá dos homens maus diz que a mulher que dá à luz torna-se impura. E sua impureza é mais pesada se de seu ventre nasce outra mulher… Como e por que ela seria impura por isto? Vós, homens estúpidos, correis atrás daquela “impureza” e com ela vindes a casar e formar uma família. E então, hipocritamente, tereis vossas mulheres por “impuras” porque gestou vossos filhos… Mas eu vos pergunto: quem de vós realmente conseguiu colocar no ventre feminino uma Vida Perene e Eterna? Quem?

Aquele ser no ventre da mulher é realmente filho daquele homem? Eu vos digo: NÃO! Ele é Filho de Deus; ele é Filho do Criador e somente d’Ele. O ventre da mulher foi criado para abrigar aquele Filho do Altíssimo e este filho é cada um de vós e cada um de qualquer outro que viva na terra. O ventre da mulher o Pai criou com todo carinho e cuidado para que nele, e somente nele, fosse gestado o corpo da Centelha Divina que ele envia à vida terrena. Quem, dentre os homens da terra, recebeu tamanha distinção do Altíssimo? Se sabeis de alguém dizei-mo, porque eu desconheço.

Silêncio. Todos tinham as cabeças abaixadas.

Alguns de vós estão pensando que eu blasfemo contra a Lei, mas não o faço. Ao contrário: eu defendo a Verdadeira Lei e esta é uma só: AMOR. Amor incondicional por todos os seres vivos e entre estes estão as mulheres, vossas mães e irmãs, primas e sobrinhas. O Pai Celestial, ó homens broncos, é puro Amor. Vós nascestes pela Vontade de Seu Amor, então, respeitai com devoção tudo o que Ele criou para que pudésseis viver aqui onde pensais virá a ser o Paraíso. Não. Eu vos digo que o Paraíso, o Verdadeiro, não será jamais instalado na Terra e cometem grande engano os que esperam renascer no final dos tempos para, então, tomar posse da Terra e de tudo o que nela há. Isto é fantasia de mentes desvairadas. Meu Pai, vosso Pai, jamais restringiria sua imensa bondade à dimensão deste mundo. O Paraíso que Ele nos reserva, a todos nós, fica muito além da Terra, do Sol e das Estrelas. Fica em uma de suas incomensuráveis moradas e cada um de nós irá para o Paraíso que merece ganhar. Tendes isto em vossos corações e em vossas mentes, para que não ajais de modo a merecer um paraíso tenebroso, pois eu vos digo que ele há.

Fez-se silêncio. Yehoshua por um tempo passeou os olhos inflamados sobre as cabeças de todos ali, mas nenhuma se levantou para que os olhos pudessem olhá-lo. Então, com um suspiro, levantou-se e se dirigiu para dentro de casa. Caminhou até a esteira e ali se estendeu a fio comprido. Ignorando totalmente os cochichos que lhe chegavam aos ouvidos, adormeceu como o justo que era…