O Maior e o Melhor dos Professores mostrou que ser humildo não implica perder a majestade.

O Maior e o Melhor dos Professores mostrou que ser humildo não implica perder a majestade.

Yehoshua levantou-se cedo. Quando se sentou na enxerga onde tinha repousado encontrou, no chão, ao lado da cama improvisada um desjejum bem provido: mel, frutas secas, leite de cabra e bolos vários. Ele se levantou e foi até a casinha reservada para as necessidades fisiológicas. Urinou e, depois, foi até um vaso d’água de onde retirou um caneco cheio para lavar a boca e o rosto. Fazia frio, mas mesmo assim ele lavou toda a cabeça, os pés e o poderoso tronco, friccionando-se vigorosamente. De repente sentiu que era observado disfarçadamente por alguém, mas não se voltou para o local de onde lhe vinha o aviso. Não queria inibir quem estivesse ali. Voltou ao quarto estranhando o silêncio. Sentou-se, deu graças ao Pai que lhe concedia aquele alimento e pediu que Ele abençoasse seus hospedeiros. Só depois é que se entregou com apetite ao desjejum.

Ele, o senhor desta galáxia, deliciava-se alimentando-se do fruto da tamareira.

Ele, o senhor desta galáxia, deliciava-se alimentando-se do fruto da tamareira.

Quando terminava de comer surgiu Simão, o cananita dono da fazenda de tâmaras. Ele veio em silêncio e se sentou sem pedir licença. Yehoshua limpou a boca e mirou nos olhos de seu amigo.

— Se não estou enganado, há um vínculo de preocupação em tua face. De que se trata? — Perguntou o Mestre, depois de um longo tempo de espera para que seu anfitrião falasse.

— Eu não tenho boas novas para ti, infelizmente — disse Simão, depois de pigarrear.

— Não? E do que se trata? — Não havia preocupação na voz de Yehoshua.

— Ontem, se tivesses bebido, eu teria lançado à conta da embriaguez o que disseste. Talvez a reação dos homens não fossem tão… tão…, bom, eles se sentiram muito ofendidos pelas tuas colocações, Yehoshua. Tu atacaste de modo muito forte os preceitos da Torá. Agora, os que já foram teus amigos há alguns anos, aqui mesmo, nesta casa, voltam-se contra ti, rancorosos e magoados. Os que riam contigo e contigo se divertiam, tornaram-se teus inimigos. Estão raivosos contigo. Tua posição de defesa da mulher contra o que estabelece a Torá foi a gota d’água. E até onde sei tu andas angariando muitos inimigos entre os religiosos, sejam eles fariseus, sejam saduceus ou zelotes. Até onde queres ir?

— Até onde me manda ir a Vontade de “Papai” (Abba).

— E quem é esse “papai” a que te referes?

— Tu o sabes. Chamas-lo de Jeovah, mas na verdade Jeovah é somente um seu servidor. “Papai” é muito superior a Jeovah ou a qualquer outro que seja igual em Poder e Glória a Jeovah.

— Pelos céus, Yehoshua, ouve o que estás dizendo! É pura blasfêmia! Só por isto o Sinédrio poderia te prender e mandar matar. Toma cuidado, homem de Deus, com o que falas.

— Nada acontece antes do tempo nem depois dele. Tudo está estruturado para seguir conforme Sua Vontade. Então, não te preocupes. Os que aqui me ouviram, com exceção das mulheres, um dia que não está muito longe, voltar-se-ão furiosamente contra mim. Atenderão ao chamado de Caifás e pedirão aos gritos minha morte. Mas desde já eu os perdôo, pois eles não sabem o que fazem. No entanto, não perdoarei aos rabis que os têm envenenado desde séculos passados.

Os dois homens saíram para o pátio. Yehoshua estava pronto para reencetar sua viagem quando Zuleide, a mulher de mão machucada, veio correndo até ele.

— Rabi! Olha! Minha mão não dói mais. Está desinflamada e eu já posso mexer meus dedos. É um milagre teu!

Yehoshua encarou-a sério e censuroso.

— Vossa fraqueza é acreditar que tudo de bom que vos sucede é algum milagre, alguma intervenção de Deus. Não sejais tão dependentes que não foi para isto que Ele vos criou. Estais aqui, nesta vida terrena, para aprenderdes a sobreviver por vossos próprios meios ou, então, suportar as conseqüências de vossas opções conscientes de que os resultados são os que deveríeis ter esperado, quando fizestes a opção. Vedes, Herodes fez a opção pela luxúria e pelo que chamais de “pecado”. Sua opção o colocou em confronto com todo o povo judeu, mas não com seu Criador, nosso Pai Celestial. No entanto, ainda que não tenha ofendido a “papai”, receberá conforme fez por merecer, pois o ódio acumulado por tantos corações tem força para engendrar os acontecimentos funestos que podem abater um irmão. Herodes será abatido por vosso ódio, assim como os kittins também o serão pela carga de ódio que semearam pelo mundo a ferro e sangue. O império vai cair e não está distante este dia, pois quem vive pela espada certamente será abatido por ela. Entretanto, os que insuflaram o ódio nos corações de seus irmãos, inventando regras e leis inúteis com tal objetivo, receberão em dobro a pesada carga do retorno de suas ações, pois cada uma implica intenção e propósito. Assim como é com o tetrarca, também é convosco, pois vossa posição social é indiferente para o Juiz Natural que é constituído pelas Leis do Equilíbrio. Aquele que joga uma pedra para o alto, na mesma direção de sua face, recebê-la-á de volta na face. Então, não atireis pedras. E não espereis mais milagres além do que “papai” já vos dá de sobejo com o amanhecer do dia, o nascer dos grãos com que fazeis o pão e das frutas com que fortificais vossas refeições. Não esperai mais milagre além daquele das estações do ano, das chuvas benfazejas e dos ventos frios que abrandam o calor dos dias e das noites de vossas existências. Não esperai mais milagre que o Equilíbrio que “papai” colocou em tudo o que vedes e comportai-vos sempre cuidando para não abalar este equilíbrio que é muito delicado, senão havereis de chorar lágrimas de sangue por vossa incúria. E agradecei, de coração, ter tido a felicidade de ver e viver tudo isto por anos e anos seguidos e por somente a Vontade d’Aquele que nos criou, a vós e a mim também. Estes são os milagres da vida. E a ti, Simão, lembro-te do grande Rabi, Hillel. que vos ensinou toda a Torá nesta sentença: “Não façais ao vosso próximo aquilo que não quereis que vos façam”. Ele disse que aqui estava toda a Torá e tudo o mais não era senão comentários. Eu concordo plenamente com ele. Não te deixes enredar pelas estúpidas regras inventadas por mentes doentias ou más, que têm em mira tão-só dominar e explorar a credulidade do homem simplório e ignorante. Agora, eu vos deixo com a Paz de “papai” em vossos dias, em vossas casas e em vossos corações.

Deixando seus anfitriões de boca aberta e cabeça zonza, Yehoshua reencetou sua viagem a pé rumo a Jerusalém. Ele sabia que lá começaria a caminhada para sua morte cruel e injusta, mas não vacilou.

Foi em frente e cantarolava despreocupado enquanto levantava com os pés calejados o pó da estrada que o levava a Jerusalém.

Foi assim. Eu estava lá. Eu vi.