Caifás preparava o bote. Tudo o que o Nazareno dizia e fazia era por ele anotado e estudado para o momento do bote mortal.

Caifás preparava o bote. Tudo o que o Nazareno dizia e fazia era por ele anotado e estudado para o momento do bote mortal.

Ele caminhava apressado, subindo uma ladeira que parecia não ter fim. O caminho, uma senda muito pedregosa, serpeava por entre azinheiros e urzes. Aqui e ali uma árvore de grande copa lançava sua sombra, aliviando o calor da luz solar, cada vez mais furiosa na medida em que se aproximava o meio-dia. Ia só, mas trazia em sua mente, firme, a imagem de seu apóstolo mais querido, João. Ordenava-lhe que fosse encontrar-se com ele em Emaús dentro de dois dias. Era uma vilazinha pacata, cuja proximidade com um vale escondido entre as pedras dos morros ao redor e onde as patrulhas romanas eram mais freqüentes devido à importância da estrada que passava próximo fazia que fosse evitada pelo grosso dos viajantes que pelas estradas da região transitavam. Yehoshua não pensava uma ordem oral, exarada sob a forma de palavras. Ele criavam a imagem de João à frente dos demais, caminhando decidido para Emaús. Via-o durante todo o trajeto, firme em seu propósito. Via-o chegando ao poço de Seraphim e vindo alegre em sua direção. Era assim que o Mestre ordenava a alguém fazer sua Vontade.

Eis um dos muitos mapas que nos mostram a Palestina no tempo de Yehoshua.

Eis um dos muitos mapas que nos mostram a Palestina no tempo de Yehoshua.

Entretanto, agitado como seus companheiros e fugindo apressado junto com eles, João não sentia as vibrações das imagens mentais criadas por Yehoshua. Todo o grupo caminhava justamente em sentido contrário àquele para onde seguia seu Mestre. E quando se viram fora dos muros de Jerusalém e longe do alcance da turba enfurecida, que ainda esbravejava raivosa contra Yehoshua e, agora também, contra Pedro, começaram a deixar escapar suas frustrações e suas raivas em comentários cheios de revoltas. Pedro, esquentado como ele só, não hesitara em descer o cajado em uma dúzia de cabeças quentes e até sacara do gládio quando dois guardas espadaúdos a serviço do Templo tentaram prendê-lo. Fui Judas Iscariotes que, com rapidez, pusera os dois fora de ação, acertando-lhes duas pedradas com uma funda muito bem manejada. Mas aquilo só fazia que também eles se tornassem alvo da ira estúpida dos homens ofendidos em seus valores religiosos e familiares pelas palavras do Mestre. Agora, já também fora dos muros de Jerusalém, o grupo enveredou pela estrada que rodeava o lado Oeste da grande muralha do Templo, mas caminhavam por dentro da profunda ravina onde o povo jogava todo tipo de lixo que não era queimado na Geena. Simão e André confabulavam em voz baixa.

— Eu não entendo o que deseja o Mestre — dizia André. — Ele perdeu todas as oportunidades com os Zelotes e, agora, perde também o apoio do povo. Por que faz isto? Parece até que deseja ser odiado. 

— Embora eu o admire muito — rebateu Simão — estou preocupado com seu comportamento. Também não compreendo porque parece desejar comprar toda a antipatia do mundo. Isto não se coaduna com o Messias que nosso povo espera. Será que ele não é esse?

— Ele já disse centenas de vezes que é o Enviado. E também tem reafirmado insistentemente que sua missão não é de guerra, mas de paz. Por isto é, parece-me, que recusou todos os convites para liderar nosso povo numa guerra contra os kittins.

Assim a Igreja imagina que fosse o Apóstolo Tomé.

Assim a Igreja imagina que fosse o Apóstolo Tomé.

— Tudo bem que não queira ser guerreiro — disse Tomé que ouvia interessado a conversa de seus dois companheiros. — Eu até o compreendo. Mas não concordo é que não pense em nós e aja de modo a nos colocar também neste saco de gatos em que anda se metendo. Afinal, a maioria aqui tem família. Eu, por exemplo, ando muito preocupado com o que poderá acontecer com minha mulher e meus filhos. Se forem atacados deixarei o Mestre e irei em defesa deles.

— Não podes fazer isto — protestou Simão, apoiado por Tiago. — Ele nos tem mostrado com clareza que defende um Deus bem diferente do que os rabis do Templo apoiam. Seu Deus não é rancoroso; não é vingativo; não cobra senão que nos amemos mutuamente. Já o Deus de Caifás e Anás é vingativo, rancoroso, cobrador e ganancioso. Parece-se muito com os deuses pagãos…

— Ainda bem que não estás sendo ouvido pelos que estavam lá no Templo — cortou Bartolomeu, até ali calado e prestando atenção na conversa dos outros. — O que acabas de dizer merece a pena de lapidação imediata. Eu te aconselho a não expressares teus pensamentos assim, de modo tão claro.

— Estamos apenas nós, aqui — rebateu Simão, irritado —, e creio que entre nós temos a liberdade de dizer o que pensamos. Senão, por que seríamos um grupo de Apóstolos de Yehoshua?

— Não briguemos entre nós — disse Judas, até ali calado. Ele era o que mais se concentrava no que tinha ouvido e visto no Templo. Em seu peito uma dúvida atroz se instalava cada vez mais forte: “Ainda devo prosseguir na companhia desse incompetente? Ele definitivamente não é o Messias que eu e meu povo esperávamos. Então, por que diabos ainda não fui embora? Por que ainda permaneço aqui?”

Assim se imagina Judas Iscariotes.

Assim se imagina Judas Iscariotes.

Judas tem razão — concordou João, elevando a voz para que todos o ouvissem. — Temos muitos questionamentos a nos queimar o coração e creio que é chegada a hora de pedir ao Mestre que seja mais claro em seus propósitos. Sabemos que ele não deseja liderar uma revolução política, mas sim religiosa. No entanto, em nossa terra, não há como separar as duas vertentes. Uma é obrigatoriamente complemento da outra e isto, pelo menos a mim, confunde muito. Então, concentremos nossa atenção nos caminhos que devemos percorrer evitando aqueles mais patrulhados pelos kittins e, agora, principalmente os que são vigiados pelos guardas de Herodes. O que o Mestre fez no Templo, hoje, colocou-nos, a todos, na mira do sanguinário tetrarca.

Um pesado silêncio caiu sobre o grupo. Todos se voltaram para suas preocupações íntimas e a tensão só aumentou na medida em que suas recordações aumentavam suas dúvidas quanto à escolha que tinham feito. seguir o Nazareno teria sido o certo?

Agora, depois de duas horas de dura caminhada, subiam em direção ao sul, rumo à vila de Zorá, onde havia nascido o famoso Sansão da história daquele povo. Bartolomeu tinha parentes distantes ali e pretendia que o grupo se refugiasse junto a eles até que a poeira baixasse. Tinha partilhado esta idéia com os demais e recebera a aceitação de todos, desorientados sobre o que fazer para fugir à fúria dos hierosolimitanos. A caminhada era dura, pois a maior parte do tempo estavam subindo ou descendo encostas de morros, sempre evitando as estradas patrulhadas e buscando as sendas mais afastadas e menos freqüentadas. Se por um lado isto os protegia de possíveis dissabores, por outro os lançava a um perigo que, talvez, fosse maior. O solo por onde caminhavam era coalhado de escorpiões venenosos e de víboras não menos peçonhentas. Um descuido e qualquer deles poderia ser picado por um ou por outra e a morte seria tão certa quanto o entardecer. Como se não bastasse, a região era território de caça de leões e leopardos. Não havia senão árvores esparsas num terreno seco, pedregoso e poeirento. Mesmo assim, por ali vagavam lebres, veados e outros pequenos animais que eram caçados pelos grandes predadores. Abaixo, a uns trezentos ou quinhentos metros, havia uma floresta que se estendia a perder de vista rumo à montanha Hebrom, de cujas geleiras desciam riachos de águas geladas, a maioria indo desaguar no rio Jordão.

Andaram em silêncio e com toda atenção à trilha que palmilhavam quando, de repente, João parou e ergueu a mão. Todos sustaram o passo, apreensivos, olhos varrendo ansiosos o espaço ao redor. Nenhum sinal de perigo pôde ser percebido.

Esta seria a aparência do apóstolo Bartolomeu.

Esta seria a aparência do apóstolo Bartolomeu.

— O que foi, João? — Perguntou Pedro, acercando-se do irmão de Yehoshua.

— Meu irmão. Ele nos chama para Emaús.

— Mas como assim? Onde está ele que não o ouvimos? — Perguntou Tomé, olhando interrogadoramente para João.

— Aqui — e o irmão de Yehoshua tocou a cabeça com o dedo indicador da mão direita — e aqui — e tocou o peito com os dedos fechados em ponta. — Yehoshua dirige-se a Emaús e quer que nós vamos para lá. É ali que nos encontraremos.

— Em Emaús vive o grego Teófilo, comerciante que é amigo de Yehoshua desde quando o Mestre vendia coisas na loja de sua família, no tempo de sua adolescência. Ele foi um dos professores de grego do Mestre. Faz sentido o que João diz — falou Bartolomeu para os demais. Por uns instantes eles confabularam entre si. Seria válido retornar pelo caminho já percorrido, mais de nove quilômetros, para irem a Emaús? Finalmente, após pequena discussão, acederam. E o grupo retornou sobre os passos já andados.

Era quase noite quando, cansados e famintos, chegaram à loja de Teófilo. Foram recebidos com alegria pelo comerciante que, como seus patrícios, era muito falador e muito chegado a um bom vinho. Serviu a bebida a todos e um bom jantar, o que os deixou bastante felizes. Dormiram ali, mas o grego não tinha recebido a visita de Yehoshua e não sabia dizer onde ele se encontrava.

O sol nascia cedo naquela época do ano, mas já encontrou os discípulos de pé e tomando o desjejum em companhia da família de gregos. Após, conversaram um pouco, evitando contar o que tinha acontecido no Templo, em Jerusalém. Finalmente, despediram-se de seu hospitaleiro amigo e saíram a andar a esmo pela vilazinha, de não mais que dezesseis ruas.

— E agora, João, para onde? — Perguntou Bartolomeu, descoroçoado.

— A mata. Meu irmão está em uma gruta debaixo de um grande lajedo e à margem de um riozinho aqui perto. Coisa de uns três ou quatro quilômetros.

Sem o questionar, o grupo se pôs a caminho. Descansados e bem alimentados, o humor de todos estava mais otimista. Até o sisudo Judas mostrava-se alegre e sorridente. Chegaram à floresta e se deixaram levar por João, que caminhava firme e parecia saber exatamente para onde se dirigir. Ali dentro a temperatura mudara. Fazia frio naquela manhã, mas sabiam que não ia demorar para o calor da luz solar se impor. Andaram cada vez mais mergulhando por entre a mata fechada e, agora, reinava o silêncio entre eles. Aquela mata era perigosa. Havia muito animal selvagem ali dentro e o pior deles, o leão, não dispensava a água fria e o ambiente de sombra para descansar das caçadas noturnas. Na Palestina daquele tempo abundavam leões e outras feras nada amistosas com os humanos.

Riozinhos como este havia muito nas montanhas e morros da Palestina.

Riozinhos como este havia muito nas montanhas e morros da Palestina.

Então, chegaram às margens de um rio estreito, mas profundo e caudaloso. Vadearam por ele até que encontraram uma grande pedreira. Ao seu redor, enormes blocos de pedra se espalhava por dentro da mata. João se dirigiu com passo firme para um grupo daquelas pedras enegrecidas pelo musgo e o bando o seguiu, curioso. Sim, lá no alto havia uma gruta e de dentro dela um fio de fumaça azulada subia alegremente por entre a folhagem densa. Chegaram à entrada e ao fundo viram a figura de Yehoshua agachada. Ele estava fervendo água agachado sobre a grande laje do chão. Não se virou para os olhar e continuou no que fazia, mesmo quando todos os discípulos se aproximara e respeitosamente se acocoraram ao seu redor. Todos viram que o Mestre preparava um chá. Havia muitos biscoitos espalhados sobre grandes folhas, no chão. Formavam um como que semicírculo e quase por instinto cada um dos recém-chegados postou-se atrás de uma daquelas folhas. Yehoshua, quando o chá ficou pronto, colocou-o em copos de barro queimado, treze ao todo, e os distribuiu entre eles.

— Sei que já estão alimentados, mas o meio-dia está chegando e andaram muito. Já devem começar a ter fome novamente e a fome é má companheira para uma conversa séria que pretendo tenhamos aqui e agora. Portanto, comam e bebam.

Yehoshua não costumava comer carne de espécie alguma, embora, vez por outra, aceitasse peixe assado. A exceção era na Páscoa. Nesta data ele acedia em comer do carneiro pascal. Não muito. Apenas um pequeno naco da carne assada. Mas era a única vez em que se dispunha a ingerir carne de animal de sangue quente. Fora isto, era um bom devorador de gafanhotos fritos e de larvas de coco assadas no óleo de oliva.

Comeram em silêncio. Era estranho, mas toda a vontade de questionar o Mestre cessava, por mais forte que fosse, tão-logo se viam diante de sua autoridade.

Findo o repasto, saíram da gruta para perto do remansoso rio. Judas olhava desconfiado para a mata, mas Yehoshua observou-lhe o receio e riu um riso cristalino.

— Não temas. Eles não gostam de lugares que cheirem a seres humanos. Estão longe daqui, eu to asseguro.

Judas avermelhou-se e baixou os olhos, disfarçando a vergonha de ter sido pegado em flagrante pelo seu desconcertante Mestre.

Quando todos estavam assentados, Yehoshua os olhou, sério e perguntou:

— Muito bem. Quem começa?

Silêncio. Olhares desconcertados entre os apóstolos.

— Seja, então — Disse Yehoshua, após esperar por um tempo sem obter resposta. — Quando vínheis para cá muitas dúvidas e muitos questionamentos vos surgiram. Gostaria que fôsseis mais honestos comigo e mo dissésseis frontalmente o que vos incomoda e acicata vossos corações.

Com um rápido olhar para seus companheiros, Judas pigarreou e foi o primeiro a falar e o fez com firmeza na voz e no olhar. Não era de demonstrar temor nem mesmo diante de Yehoshua.

— Pois bem, que seja. Eu começo. E começo perguntando o que desejais, senhor? O que fizestes lá no Templo foi uma grande estupidez, se me permite expressar minha opinião sincera. Eu me recordo que vós mesmo dissestes que não tínheis vindo trazer a paz, mas a espada. No entanto…

Mateus cortou Judas e falou.

— Judas está certo. Sou capaz de citar palavra a palavra o que vos ouvi dizer, Senhor.

— Dize-o, então — instou Yehoshua, sério. E Mateus fez a citação: 

— Não penseis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada. Vós me vereis lançar o filho contra seu pai, a filha contra sua mãe, a nora contra sua sogra, o genro contra seu sogro. E vereis que os inimigos do homem serão os da sua própria casa. Vim causar a discórdia entre os homens, pois aquele que ama seu pai ou sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim; aquele que ama seu filho ou sua filha mais do que a mim, não é digno de mim; e aquele que não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim. O que lutar para achar a sua vida, perdê-la-á; mas o que perder a sua vida por minha causa, achá-la-á no reino de Meu Pai, que também é meu reino”. Isto foi o que vós dissestes, senhor. No entanto, nenhum de nós vos viu jamais segurar uma espada ou mesmo uma sica (punhal). Também nenhum de nós jamais vos viu inserir a desunião na casa de qualquer pessoa a quem visitastes. Por que nos dissestes tal coisa?

Yehoshua tomou de um galho e riscou um desenho invisível sobre o limo escuro da pedra, antes de falar. E quando ergueu os olhos eles pareciam umedecidos.

— Estais comigo há tanto tempo e ainda não percebestes que vos falo por parábolas? Quando eu disse isso, não me referia ao gládio ao qual vós dais tanto valor. Vistes o que fiz no Templo e não compreendestes? Eu lancei marido contra mulher, irmão contra irmã e filhos contra filhas. E tudo em umas poucas palavras. Naqueles poucos momentos eu não bajulei os poderosos; eu não lancei a união entre os fracos, os covardes, os servis e os espertos ali presentes, mas sim, a divisão; porque daquele momento em diante, haverá numa casa de cinco pessoas, a divisão; três contra duas, e duas contra três; as pessoas daquele lar estarão assim divididas: o pai contra seu filho, e o filho contra seu pai; a mãe contra sua filha, e a filha contra sua mãe; a sogra contra sua nora, e a nora contra sua sogra. Pelo que disse e fiz serei perseguido, mas é necessário que assim seja, pois que é a Vontade do Pai que me enviou. Minha espada, que deve ser a vossa, é a língua, meus diletos amigos e mensageiros. Com a língua podeis abalar qualquer império em qualquer tempo e em qualquer parte do mundo. A palavra tem mais poder que qualquer gládio, e mais força que qualquer arco ou funda. E sua força vem da Verdade que deve expressar, pois a palavra mentirosa é fraca como um paralítico e não deve fazer parte de vossas bocas, assim como não faz parte da minha. O que fazem os rabis no Templo de Jerusalém, senão servirem-se da má palavra para manter a todos submissos às suas vontades corruptas? é preciso que este poder maldoso seja quebrado, sim; é preciso que sejam abalados em suas próprias raízes  os Templos de onde os criminosos pontificam a falsidade em nome de meu Pai. Em verdade, em verdade vos digo que a má palavra passará pelos séculos como uma víbora imortal enquanto houver homens pusilânimes, que criarão famílias de pusilânimes e nelas cevarão seus filhos podres e seus servos estúpidos. No futuro minha Verdade continuará a se chocar com a Falsidade dos que darão seguimento ao mau comportamento dos rabis de agora. E a responsabilidade deste embate, para que seja firme, verdadeiro e inquebrantável na luta contra o Mal que se aninha no coração dos homens é vossa. Vós sereis minha voz ecoando através dos milênios. Ai daquele que torcer o que digo neste tempo em que me encontro presente entre vós. Melhor seria que jamais tivesse nascido na Terra. 

Fez-se silêncio entre os presentes. Um silêncio pesado, como se as palavras de Yehoshua lhes tivesse pesado como chumbo nos corações. Então, com um pigarro, Mateus perguntou:

— Rabi, por que dissestes que aquele que não tomar a sua cruz e não vos seguir não é digno de vós?

Yehoshua o olhou demoradamente. Então, soltando um profundo suspiro, respondeu:

— Ninguém que nasceu na Terra deixou de receber sua cruz. Mas a maioria tenta por todos os meios se livrar dela. Ninguém aceita o que lhe foi dado, embora, como eu já vos tenho dito várias vezes, ninguém recebe senão conforme seu merecimento. Os que nascem pobres lutam por todos os meios para se livrar desta condição material e social. A maioria esmagadora, contudo, o faz buscando meios fáceis de enganar, corromper e roubar o direito dos outros. Estes, Mateus, não pegam suas cruzes e me segue. Eles as jogam fora e procuram construir para si mesmos cruzes menos pesadas. Mas não conseguem, pois não lhes cabe decidir sobre a madeira com que será feita tal construção. O Pai não dá fardo pesado além das forças de seu filho, mas o faz na justa medida; o Pai não dá pedra a quem tem fome, nem areia a quem tem sede. Entretanto, estando o filho doente, o Pai lhe dá o remédio, por mais amargo que este possa ser, pois é justamente o remédio amargo que lhe salvará a vida. Se assim faz o homem que é pai, quanto mais fará o Pai de todos nós. Eu também vos disse que sou o caminho, a verdade e a vida e que ninguém vai ao Pai senão por mim. Mas para que eu receba aquele que me procura e seja seu caminho, esse tem de ser justo, fiel e sincero. Tem de ter abandonado toda esperança vã, todas as verdades mundanas, todas as crenças tolas e todos os tesouros que amealhou na Terra, principalmente seus tesouros mais caros – a cobiça, a ganância, a usura e a mentira. Vós tomastes vossas cruzes aos ombro quando abandonastes vossas vidas para me seguir. E o fizestes de todo coração, embora, vez por outra, vacileis, como é o caso agora. Mas eu compreendo que vossa fraqueza vem de um medo que não devíeis sentir. E não sentireis, pois providenciarei para que vossa fé seja maior do que podeis imaginar.

Novamente fez-se silêncio entre os apóstolos. Eles pensavam profundamente no que tinham ouvido e na recordação do que fora dito e era, agora, discutido e aclarado pelo Mestre. Então, com um pigarro, Tadeu fez a pergunta que lhe queimava o coração.

— Mestre, dissestes que aquele que ama ao pai, à mãe, ao filho e à filha mais do que a vós não é digno de vós. Ora, nós aqui estamos em vossa companhia e vimos o que tendes feito e que nenhum profeta jamais o fez. Ainda assim, muitos de nós ainda ama mais aos seus familiares do que a vós, como é o caso de Tomé. Ele deixou bem claro que se sua família for atacada, deixará de vos seguir e voltará à casa para defender os seus. Então, Tomé não é digno de vós?

Tomé remexeu-se inquieto e fuzilou Tadeu com um olhar assassino. Yehoshua, entretanto, suavizou sua face com um leve sorriso de divertimento diante do embaraço de seu discípulo mais cético, mas nem por isto menos fiel à sua causa.

— Em verdade te digo, Tadeu, que até que vejais o que vos farei ver no devido tempo, nenhum de vós ainda alcançou a fidelidade que exijo dos que me devem seguir.

Tadeu arregalou os olhos, espantado, e com a boca seca e voz rascante, perguntou:

— Senhor! Isto quer dizer que também eu não sou digno de vós?

— Tu o disseste, meu irmão. Mas não te preocupes, pois o entardecer nunca precede ao amanhecer

Novamente um grande silêncio se fez entre os presentes, e todos se entreolhavam agastados. Yehoshua esperou que alguém voltasse a falar, mas como isto não aconteceu, falou ele.

— Vejo que por hoje vossas mentes já estão cheias o suficiente para que percais o sono desta noite. Então, visto que aqui vamos permanecer por alguns dias, sugiro que comecemos a trabalhar para ajuntar galhos para a fogueira. Também sugiro que busqueis, na vida de onde viestes, alimento para nosso jantar. Dividi-vos e ponde-vos a trabalhar. Eu vou-me retirar para orar ao meu Pai, pois preciso dialogar com ele sobre algumas coisas que estão por vir.

E foi assim que findou o primeiro diálogo direto entre Yehoshua e seus discípulos.