Quando Yehoshua pregava, não eram somente os homens que o ouviam.

Quando Yehoshua pregava, não eram somente os homens que o ouviam.

Era manhã cedinho quando João se levantou e, pé-ante-pé, saiu de manso para não perturbar o sono dos outros. A mata ainda estava escura e a neblina adensava o frio por entre as folhagens úmidas. João buscou uma pedra acima da entrada da gruta e ali se sentou para meditar. Quase não pregara olho a noite toda. As palavras de seu irmão o tinham impressionado muito. “Minha espada é a palavra”. Então, Ele veio para nos trazer a palavra. De quem? Só pode ser a palavra de Yevé. Não há outro Deus acima ou mais poderoso que Yevé. Então, meu irmão tem de estar falando de Sua palavra. Só que há um contra-senso nisto. A palavra de Yevé está nas escrituras e é totalmente oposta às que Yehoshua transmite. E como Yevé não pode se contradizer, ou não seria O Supremo Criador, meu irmão fala de outro Deus… Mas que Deus é esse?”

Ele era simples e amoroso.

Ele era simples e amoroso.

Alguém sentou-se suavemente a seu lado. Voltou-se e viu Yehoshua que lhe sorria. Com infinito carinho a poderosa mão daquele que se afirmava Filho de Deus deu-lhe tapinhas carinhosos no braço.

— Sem sono, João?

O discípulo apenas acenou com a cabeça. A proximidade de Yehoshua trazia-lhe imensa tranqüilidade ao coração. Uma paz serena e gostosa sempre o invadia e, embora adorasse isto, ficava curioso da razão pela qual acontecia.

— João — disse Yehoshua —, nosso Pai não é Yevé, como todos os judeus pensam e pregam. Yevé, e eu já vos disse isto, a todos vós, é tão-só um de Seus empregados, ao qual coube o povo hebreu para cuidar e levar ao bom caminho. Está em Deuteronômio e eu já citei isto a vós em várias ocasiões.

— E como é o nome desse Deus de que tu falas, meu irmão?

— Não posso revelar-te Seu Nome porque nem mesmo eu o sei — respondeu Yehoshua, sorrindo. — Ele nunca o dirá aos humanos até que todos estejam… salvos — e o Mestre acentuou a palavra. Agora, vem. Vamos descer até à vila e solicitar alimento para o nosso grupo.

Chegaram à casa de Teófilo ainda na primeira hora e foram recebidos efusivamente pelo amável grego. Ele adorava conversar com Yehoshua que, quando rapazinho, deliciava-se com as histórias sobre os deuses do panteão Olímpico. Agora, adulto, Yehoshua não mais mostrava interesse sobre os deuses e até os desprezava. Mas Teófilo não se incomodava com isto. “Ele é judeu e como todo judeu, um dia aprende a adorar esse misterioso Javé. Mas vai notar que o tal deusinho deles é tão cruel e sanguinário quanto os de nosso Olimpo”.

Por um tempo, em sua adolescência, Yehoshua foi comerciante e atendeu a muitos caravaneiros dos quais ouviu histórias que lhe impressionaram a imaginação.

Por um tempo, em sua adolescência, Yehoshua foi comerciante e atendeu a muitos caravaneiros dos quais ouviu histórias que lhe impressionaram a imaginação.

Teófilo não só lhes deu alimento como, ainda, emprestou uma mula para que carregassem as provisões. E foi assim que retornaram ao acampamento. Agora, todos estavam de pé e já se haviam lavado nas águas geladas e límpidas do riozinho. Sentaram-se respeitosamente para o desjejum. Reunidos, seguiram Yehoshua na recitação da segunda bereka do dia, o agradecimento obrigatório pela refeição. A primeira cada um tinha feito quando viera lavar-se nas águas frias do riozinho. Os judeus recitavam berekas até para agradecer ao Criador o ter feito o corpo humano com entrada e saída. Tudo era sagrado para eles. Então, tudo merecia uma bereka de agradecimento. Yehoshua não criticava isto e seguia o ritual sem resistência. Reconhecia que realmente tudo na Terra era Sagrado, visto que ela mesma era criação de seu Pai.

Após se terem alimentado, foram convidados a se sentar em pedras, formando um círculo ao redor de uma porção de areia. Yehoshua, então, pediu a Pedro que empunhasse seu gládio. Pedro pôs-se de pé e assim o fez. Estava orgulhoso de que finalmente Yehoshua demonstrasse interesse pela arma. “Quem sabe, hoje, ele finalmente se decida por mudar de atitude?”

Mas não foi isto o que aconteceu. Yehoshua apontou para o gládio e falou.

— Vede, irmãos, o gládio elevado ao alto, acima da cabeça, é a palavra enquanto pensamento. Nesta condição, ela é somente potência, não ação. E enquanto potência, não tem poder sobre os homens. É como pura fantasia. Ressoa apenas dentro da cabeça daquele que pensa.

Houve um silêncio atento. Olhares foram trocados entre os discípulos e alguns acenos afirmativos de cabeça disseram que todos compreendiam o que Yehoshua fazia. Ele continuava seu ensinamento do dia anterior.

— Pedro — ordenou o Mestre —, coloca teu gládio sobre a pedra diante de ti.

O gládio romano, a mais temida arma do tempo de Yehoshua.

O gládio romano, a mais temida arma do tempo de Yehoshua.

Pedro assim o fez e todos fixaram os olhos na arma sobre a pedra.

— Agora, meus irmãos, a palavra que é calada na boca por medo, ardilosidade ou covardia, é como o gládio sobre essa pedra: não serve para nada. Sua mensagem é como a semente que não caiu em terreno fértil. Não vinga. Morre antes mesmo de nascer. 

Os discípulos se entreolharam, sérios. Estavam compreendendo a mensagem profunda que Yehoshua lhes demonstrava de modo irrefutável.

— Pedro, toma de teu gládio e o enfia na areia até onde te seja possível — ordenou Yehoshua sob os olhares atentos de todos. Pedro assim fez e o gládio afundou até à metade de sua lâmina na areia molhada.

— Vede, irmãos, a má palavra, aquela que é usada para enganar, mentir, trair, roubar, corromper a moral e os bons costumes é como esse gládio: fere o coração e o mata. A mãe terra foi atacada e ferida pelo gládio de Pedro. Assim faz a má palavra: ela fere o coração puro e mata sua liberdade sagrada, pois meu Pai, que também é vosso Pai, deu-vos liberdade total para aprenderdes, mesmo que erreis ao tentar. O erro faz parte da aprendizagem do Caminho. Se todos nascêsseis sabendo tudo sobre o que é Certo e o que é Errado, para quê, então, teríeis sido enviados à Terra?

Houve silêncio entre a assistência atenta.

— Pedro, embainha teu gládio — ordenou o Mestre e o discípulo assim o fez.

A Mente Humana é pura energia. Mesmo a resultante da Aprendizagem natural ou escolástica.

A Mente Humana é pura energia. Mesmo a resultante da Aprendizagem natural ou escolástica.

— Agora, a má palavra deve ser mantida guardada, aprisionada dentro de sua bainha, a Mente Má. E está, deve ser deixada de lado, de modo a que suas produções erradas não se transformem em entidades vivas, pois assim como o Pai vos dá a vida, vós também podeis dar vida às más ações através da má palavra. Nunca as deveis pronunciar. Silenciai-as sem piedade dentro de vossos peitos. Sufocai-as antes que, tal víboras, saiam e façam estragos irreparáveis. Em verdade, em verdade eu vos digo: os rabis do Templo são hábeis em usar da má palavra e com ela cerceiam a liberdade sagrada que nosso Pai vos deu. Através da má palavra eles obrigam toda a nação judaica a curvar suas cabeças diante de mentiras e fantasias exageradas. Por isto foi que eu disse que eles são como túmulos caiados: brancos e bonitos por fora, mas podres e fétidos por dentro. Assim como vossos rabis de agora, no futuro haverá milhares deles, pois, devido a que inverterão por má intenção tudo o que eu vos digo e vós escrevereis para a posteridade, tresmalharão as ovelhas que meu Pai espera para seu redil. Mas ai dos que, no futuro, usarão de minhas palavras para auferir lucro e enganar seus irmãos. E ai daqueles que, por preguiça e descuido, entreguem às mãos criminosas seu direito a pensar e experimentar para descobrir. Eu disse, e vós o ouvistes: batei, e se vos abrirá; pedi, e vos será dado. Mas só pode bater, aquele que errar buscando; só pode pedir aquele que, errando, descobrir a porta certa para bater. No entanto, esse direito inalienável, agora como no futuro, espertalhões procurarão retirar dos homens. Mas ai deles. Ai dos que se apresentarão aparamentados como os rabis de agora, dizendo-se meu representante entre vossos irmãos. Melhor seria que jamais tivessem nascido na Terra.

Os discípulos se entreolharam, assustados.

— Meus irmãos — disse Yehoshua — eu vos peço que não me transformeis em Deus e não induzais os homens a me renderem adoração. Há somente um Ser que a quem se deve adorar: O Pai Celestial. O Criador de todos e de tudo. Ele, e somente Ele merece a adoração dos homens. Mas ensinai-os a adorar não com falsas orações nem com representações ridículas de arrependimento daquilo que a que chamais de “pecado”. Em verdade, em verdade, vos digo que diante de nosso Pai Celestial não há pecado nem erro. Há aprendizagem e esta é uma dádiva que Ele prazerosamente concedeu a seus filhos na Terra. Não vos esqueçais deste meu pedido.

Os discípulos curvaram suas cabeças, atarantados. Pensamentos desencontrados se atropelavam em suas mentes, até que Pedro, impulsivo como sempre, rebateu o que ouvira de seu Mestre.

— Mas tens demonstrado que és filho de Deus. E se és filho de Deus tu também és um Deus. Por que, então, negas-te a adoração dos homens?

Fantasiosamente se acredita que Jesus nasceu do Espírito quando foi batizado.

Acima de mim está o Criador…

— Simples: porque não fui eu que os criei. Não fui eu que lhes dei o sopro da Vida. Não sou eu quem pode fazer isto. Apenas o Pai tem este poder e, por isto, somente Ele merece a adoração dos homens. Tudo o mais que se criar em Seu nome não passará de ilusão. Inclusive a adoração a mim. Por isto, não deixeis que minhas palavras e meus ensinamentos sejam transformados em Igrejas. A palavra deve ser transmitida dentro da família, como fazeis. E é bom que seja escrita e preservada para que fantasias maldosas não lhes sejam inseridas com a finalidade de alterar-lhes os significados, que, ao final, é bem simples: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.  Não vos assombreis quando eu vos digo que esta sentença não é de minha autoria, como constará no futuro. O autor da Sabedoria é o Pai. O homem apenas a descobre após ingentes esforços. Eu, por mim, pouco vos digo de meu, mas repito o que já consta nas Escrituras. E vos digo mais: se agora elas já estão conspurcadas a ponto de necessitar que eu venha retificá-la, que dirá no futuro, quando a Mentira será o galardão dos homens de poder?

— Então, Mestre, voltarás para corrigir a Lei novamente? — Perguntou Mateus secundado por acenos de cabeça.

— Não. Não mais retornarei ao vosso meio para vos mostrar novamente o Caminho, a Verdade e a Vida. Meu Pai e Eu não nos repetimos. Sei que a humanidade se transviará do Caminho e, por isto, imporá a si mesma muita dor e muito sofrimento. Mas recordo-vos que o Pai Celestial vos deu, a todos indiscriminadamente, o direito de experimentar, de tentar, de explorar todas as possibilidades. Mas também vos deu um forte senso de Moral e de Ética. Se, porém, preferirdes o Erro, então, palmilhareis sozinhos os caminhos que tiverdes escolhidos. Só vos peço encarecidamente que não cometais o erro de criar igrejas em meu nome, pois é daí que virão os descaminhos maus, criados por espertalhões para os homens tolos, inocentes ou incapazes.

— Nosso Pai, então, não terá cometido um erro ao generalizar este direito a todos indiscriminadamente? — Perguntou Pedro, no que foi entusiasticamente secundado por todos os demais.

A neblina do amanhecer fazia a mata muito fria...

A neblina do amanhecer fazia a mata muito fria…

Yehoshua levantou -se e entrou na gruta, deixando a todos expectantes. De lá retornou com três velas feitas com cera de abelha. Elas vinham acesas. Ele as havia envolto em uma folha, de modo que somente suas chamas pudessem ser vistas.

— Olhai as chamas das três velas que tenho em minhas mãos. Dizei-me, vendo as chamas, como são as velas: lisas? Ásperas? Grossas? Finas?

— Ora, só pela chama não nos é possível dizer como são as velas — disse Judas, buscando apoio com os olhos em seus companheiros.

— Correto, Judas! Tu acertas-te. Pois as chamas das velas são como vossos espíritos: absolutamente iguais diante dos Olhos de Vosso Criador. Sois perfeitos em tudo, espiritualmente, pois o Espírito é d’Ele e Ele não produz imperfeição. Agora, vede: esta vela — e Yehoshua retirou uma das velas de dentro da folha que as ocultava aos olhos dos discípulos — é grossa, é forte, é robusta. Ela contém mais cera, logo, demorará mais a queimar. Esta outra, ao contrário, é fina. Contém menos cera, logo, queimará mais rapidamente. Esta terceira é torta, tem muita cera em alguns lugares e pouca, em outros. Nos lugares finos ela queimará depressa, mas nos lugares grossos queimará mais lentamente e terá maior possibilidade de quebrar pelo peso da carga extra que traz em pedaços de seu corpo. Assim são os homens, meus irmãos. Os que se igualam à vela grossa são o que eu chamei de ricos de espírito. Arrogantes, gananciosos, crêem-se os donos de tudo o que os rodeia e, ainda assim, querem mais e mais. Estes, permanecerão longo tempo na mó das almas a fim de que todas as suas impurezas sejam escoimadas. Outros homens são como a vela fina. Não se prendem aos bens materiais e não se deixam engabelar por palavras mentirosas. Têm fé no que devem realmente crer e seguem suas vidas firmados nesta fé inabalável. Eles não precisarão de tempo demais para se livrarem de suas impurezas. Finalmente, há os que são como a vela torta. São fortes na matéria, mas muito fracos no que diz respeito ao Espírito. Por isto, viverão em agonia, ora crendo, ora descrendo, guiados por seu egoismo e seu egocentrismo. Se as coisas saem bem e de conformidade com o que desejam, crêem que foram agraciados pelo Pai. Mas se as coisas acontecem ao contrário do que esperavam, fraquejam em sua já esquálida fé, e dobram, e quebram, e caem. Estes, conforme as vossas palavras, não encontrarão a salvação, pois ficarão pelo caminho.

Yehoshua fez um silêncio proposital. Sabia que seu exemplo estava causando confusão naquelas cabeças simplórias. Então, depois de um tempo que julgou suficiente, prosseguiu.

— Nosso Pai vos deu o Espírito. Ele não se incomoda com os corpos com que estes Espíritos se revestem. Os corpos são função direta daquilo que chamais de Karma. Os corpos são da Mãe Terra e a ela forçosamente terá de retornar, assim como o Espírito, sendo do Pai, a Ele forçosamente terá de retornar. Mas os Espíritos, sendo perfeitos, são iguais perante Seu Criador. Assim, o Pai não poderia conceder maior direito a uns e menos, a outros. Compreendeste, Pedro?

O discípulo sorriu e acenou que sim, com a cabeça.

— Creio que por hoje vossos espíritos estão bastante bem alimentados com a Palavra da Sabedoria. Então, ponhamos-nos em ação, pois em breve terei de descer à vila para cumprir com uma missão que me é sagrada.

Contrariados os discípulos se levantaram. Oraram uma bereka em agradecimento pelos ensinamentos recebidos e outra em agradecimento pelo dia que começava.

Isto aconteceu, mas não ficou registrado por mão humana…