Eis uma de minhas filhas. Ela é linda e me faz lembrar muito de sua mãe, quando jovem.

Eis uma de minhas filhas. Ela é linda e me faz lembrar muito de sua mãe, quando jovem.

Eu estava profundamente cismador, mergulhado em um passado distante, quando ouvi o toque da campainha. Fui ver quem era. Era Felício. Vinha acompanhado de  Jesus de Deus e de Orozimbo.

— Podemos entrar?

— Vocês são muito bem-vindos. A que devo a visita?

Felício apontou com o polegar para Jesus de Deus e respondeu.

— Ele apareceu lá em casa com um casal que está em crise. Conversamos muito e, finalmente, tomamos a decisão de vir até aqui pedir conselhos ao senhor.

— Entrem, entrem. Eu estava mesmo de bobeira. Do que se trata?

Depois que todos estavam sentados e eu lhes tinha servido biscoitos salgados e guaraná — Jesus não bebia Coca-Cola — este mesmo deu início à conversa.

— Eu creio que o senhor tem condições de explicar ao nosso amigo o que está acontecendo em sua casa. Ele anda à beira de um colapso de nervos. Poderia ouvi-lo?

Era um homem de no máximo 35 anos. Estava muito tenso, mas se controlava bem. Sentou-se, aceitou o copo d’água e devolveu-me o copo com um apagado “obrigado”. Jesus de Deus e Orozimbo se aprontaram para ir embora, mas o homem pediu-lhes, com um gesto, que se sentassem.

— Vocês sabem tudo de meu problema. Não quero ficar só.

Os dois acederam e se sentaram. O homem, então, resumiu seu drama.

Break down psicótico em casais "grávidos" é uma das grandes causas das separações dolorosas.

Break down psicótico em casais “grávidos” é uma das grandes causas das separações dolorosas.

Doutor, sou casado e pai de três crianças. Uma de seis meses, um de três anos e uma de cinco anos. Depois do nascimento de nosso filho, minha mulher aloprou. Durante a gravidez mesma ela já vinha mostrando uma estranha mudança de comportamento. Tornou-se ciumenta a um ponto intolerável. Veja o exemplo do absurdo. Estou dirigindo e ela está no banco do carona. Se olho para o retrovisor levo um tremendo beliscão no braço e ela grita comigo: “Para quem você está olhando, desgraçado?” Só porque eu olhei para o retrovisor para ver se podia fazer uma manobra. Isto parece conto de carochinha, mas não é, eu juro!

Havia desespero na voz do homem. Eu pigarreei e lhe pedi calma. Disse-lhe que compreendia seu dilema e que sabia que não estava inventando nada. Eu mesmo já passara por algo bem semelhante. Ele parou e me olhou espantado.

— O senhor…? Sua esposa também aloprou?

— Não a atual. A anterior. Mas não é de mim que vamos falar. E pelo que me contou, já sei do que se trata.

— O senhor também teve problemas com… com… com o sexo?

— Todos os casais que entram neste dilema terrível, fatalmente se dão muito mal no coito sexual. À medida que a psique da mulher se aprofunda na psicose, torna-se intolerável para ela até mesmo ser tocada pelo marido.

— Isto! É isto o que está acontecendo comigo, doutor! Minha mulher, que era fogosa e muito participativa, agora se contorce como uma cobra, faz caretas e empurra minha mão se eu toco seu corpo. É como se… se… se minha mão estivesse suja ou… ou… ou muito quente, como se fosse ferro em brasa. Aconteceu isto com o senhor, também?

— Exatamente assim como está descrevendo. Os sintomas são padrões, eu creio. Continue, por favor.

Traumas infantis podem causar dramas terríveis no futuro da pessoa.

Traumas infantis podem causar dramas terríveis no futuro da pessoa.

— Pois é, como eu dizia, se estamos na cama, ela não consegue aguentar nem mesmo meu toque. E diz coisas como não quero assim! Você desaprendeu a me tocar! Tira a mão daí! Eu não gosto… não quero… Ultimamente eu desisti de fazer sexo com ela. Mas o pior é que descobri, na terça-feira passada, que ela anda me corneando com um rapaz que nem emprego tem. Ele só conta 18 anos, doutor. Mas minha mulher religiosamente vai pro motel com ele toda segunda, quarta e sexta-feira. Às vezes inventa uma desculpa esfarrapada e desaparece também nos fins de semana e, agora, já sei que sai com o pirralho. Estou desorientado e quase não me controlo pensando em matar os dois. É um desrespeito a mim, à nossa família, o que ela está fazendo. E na cara de pau! Se enfeita bem debaixo de meu nariz, diz que vai para a casa da mãe, da irmã ou do irmão e se manda sem me dar qualquer explicação. Se eu tentar perguntar alguma coisa ouço um monte de desaforos e ela sai porta-a-fora como um rodamoinho. O padre Felício, em quem busquei ajuda, me aconselhou a vir falar com o senhor. Talvez o senhor consiga explicar o que está acontecendo com minha mulher e… e… e comigo também. Estou numa confusão tão grande que corro  o perigo de perder meu emprego. E não posso, doutor!

Fiquei em silêncio. O amigo de Felício talvez esperasse que eu tirasse coelho de cartola, mas Psicologia não é mágica. Eles permaneceram tensos, aguardando que eu falasse. Como o silêncio já se prolongava incomodamente para eles, o homem resolveu falar.

— O senhor disse que viveu este drama com sua esposa anterior. Como foi que resolveu? Afinal, o senhor é Psicólogo Clínico, segundo me disse o padre Felício…

— Seu dilema, que já foi meu também, é complexo e se fosse uma doença física eu o compararia com carcinoma maligno, para que você veja a gravidade da situação — disse eu, olhando o homem dentro dos olhos. Ele se remexeu inquieto na cadeira.

— Mas como o senhor resolveu a situação?

— Eu era estudante de Psicologia. Ainda não estava estudando as psicopatologias, o que só era feito nos dois últimos anos do curso. Então, eu estava tão perdido, ou mais, que o senhor. Diga-me, o senhor é explosivo ou é comedido? Quero dizer, reflete muito antes de tomar uma decisão? Ou decide o que fazer no impulso do momento?

— Acho que eu penso muito antes de agir. Por que?

— Porque vai precisar de uma dose cavalar de paciência e compreensão, se quiser manter seu casamento. E lhe asseguro que ele ficará abalado para o resto da vida de vocês dois. O que sua mulher está fazendo, dificilmente um homem perdoa.

"Ninguém pode adivinha que este momento é o início de um drama amargo e doloroso. Só o Criador, mas Ele não conta..."

“Ninguém pode adivinha que este momento é o início de um drama amargo e doloroso. Só o Criador, mas Ele não conta…”

Ele abaixou a cabeça e inspirou fundo. Com a cabeça acenou um sim, lentamente.

— Eu… Eu estou repudiando minha mulher. Já não sei se aceitaria fazer sexo com ela, novamente… Estou… Estou… Estou num inferno, compreende, doutor? Às vezes eu tenho um impulso danado de ir atrás dos dois, descobrir onde se enfurnam e matar a ambos sem dó nem piedade. mas penso nos meus filhos. O que dizer a eles, quando tiverem idade para compreender? Será que me perdoarão eu ter matado minha mulher, a mãe deles?

Eu sorri.

— Por que o senhor ri?

— Porque eu também me fiz esta pergunta, meu amigo. E estive a menos de cinco segundo de cometer o crime. Custou-me um esforço dantesco abdicar de tudo o que tinha planejado. Meus filhos é que me deram força para sustar minha mão no momento mesmo do ato…

Novamente se fez silêncio e notei que Jesus de Deus se remexeu inquieto, na cadeira.

— Mas, agora, passado tudo, tendo compreendido o que o Destino nos tinha armado, fico aliviado de não ter agido movido pela raiva. Afinal de contas, eu nem sei se o que sentia por ela era mesmo amor. E ainda hoje eu não sei o que é isto entre duas pessoas…

— O quê? O senhor… O senhor não sabe…? — O homem olhou com olhos esgazeados para Felício e para Jesus de Deus.

— Deixe-me explicar — pedi eu. — O que nós chamamos amor em um casal, na verdade, em 95%  ou mais dos casos trata-se tão-só de desejo. E desejo não dura senão por pouco tempo. 

— Mas eu sei que amo minha mulher! — Exclamou o homem recostando-se raivoso na cadeira.

Eu o olhei, sério, e rebati.

"Eu sou você e você é eu"

“Eu sou você e você é eu”

— Não creio. Creio que há forte desejo libidinoso entre vocês. Agora, devido ao desequilíbrio psicoemocional em que ela se encontra, o desejo é somente seu. O senhor confunde isto com amor. Desejo é posse, está entendendo? E quando nós nos apossamos de algo, tornamo-nos agressivos contra qualquer coisa que nos pareça disputar aquilo conosco. Quem ama não se enfurece. Quem ama compreende e perdoa. Sempre. Isto não acontece com um casal que entra na situação em que nós dois entramos. Hoje, posso assegurar que entre um homem e uma mulher o que predomina enquanto existe a libido sexual coital é o desejo e não o Amor. Só depois, quando a libido arrefeceu e o casal ainda permanece unido e um para o outro, sem aceitar qualquer interferência de terceiros é que se pode concluir que o Amor se fez entre eles. Até este  momento, quem dominou a relação foi o Desejo, a fase mais dura da vida a dois. E isto é a Lei da Vida, meu caro amigo. Ninguém escapa a ela. O Amor só se firma quando o Desejo viveu exaustivamente sua experiência de posse, seus arroubos de ciúmes, suas agruras pelas incertezas, enfim. NO relacionamento a dois, primeiro o casal enfrenta um mar revolto e traiçoeiro: o mar da inter-relação social. O terreno, aqui, é sempre minado. Mas se o casal consegue sobreviver aos embates das tentações e das incertezas, então, vem o amadurecimento da Emoção entre eles. O companheirismo se torna mais sólido e a confiança cresce. Um não mais se sente inseguro em relação ao outro e vice-versa. E cada qual dá de si ao outro sem cobrar nada por isto, pois lhe é prazeroso dar, muito mais que receber. 

Agora, se me permite, vou tentar explicar-lhe o que sucede com o senhor e sua esposa. Mas explicar não é curar, que fique bem claro. O tratamento desse desequilíbrio de que estamos tratando requer tempo, renúncia, compreensão e dinheiro, muito dinheiro. Se o par “sadio” não tem isto, então o melhor é a separação, ou um desastre maior corre o perigo de acontecer.

Vamos saltar no tempo e ver como a Psicanálise explica o que acontece durante o amadurecimento psicoemocional da psique humana. Inicialmente, a criança é totalmente dependente da mãe, visto que seu sistema neuronal não está amadurecido para diferenciar o mundo em que se insere. Para a psique infantil existem o peito e ela. Só isto. Melanie Klein, um dos luminares da Psicanalise, diz que a psique do infante faz duas diferenças emocionais com relação ao peito da mãe. Ela tem só duas percepções do peito materno. Uma, ele é bom, sexual, quando sacia a fome tão logo ela surja. É a imagem ideal do peito e, por extensão, da figura materna que adiante ela construirá. Outra, ele é mau, anti-sexual, quando não atende imediatamente a exigência de saciedade da fome, o que quase sempre é o que acontece. Dando um grande salto na complexa teoria psicanalítica, vamos passar à fase em que a criança já faz diferença entre ela mesma e o mundo ao seu redor. Neste mundo estão duas pessoas que ela aprende a diferenciar. A mãe e o pai. Cada qual lhe proporciona experiências deliciosas e distintas entre si. A menina se identifica com a mãe e deseja o pai para si. O menino se identifica com o pai e deseja a mãe para si. Mas isto não acontece como as palavras colocam. é um processo além do verbo. É um processo emocional puro e o senhor tem de se esforçar muito para compreender isto além do pensamento concreto, aquele que só raciocina em cima de imagens representadas pela palavra, está entendendo?

Ele assentiu com um aceno de cabeça.

"Eu te odeio! Eu te detesto! Não põe tuas mãos imundas em mim!!!!"

“Eu te odeio! Eu te detesto! Não põe tuas mãos imundas em mim!!!!”

— Bom, avançando mais ainda na teoria, chegamos ao estágio em que aparece um conflito básico na formação da Identidade da criança: é o tal complexo de Édipo, de Sigmund Freud, para o menino; e complexo de Electra, de Carl Gustav Jung, para a menina. Simplificando, o menino sente atração sexual pela mãe e a menina sente a mesma coisa pelo pai. Ela se identifica com a mãe e deseja o pai; ele se identifica com o pai e deseja a mãe. Saltando centenas de hipóteses de doutos psicanalistas, resumamos mais um pouco a Teoria e chegamos a que a Psicanálise explica a atração do homem pela mulher e vice-versa através destas duas identificações profundas no inconsciente de cada pessoa. Porque procura sempre seu PAI IDEAL, a mulher sente atração intensa pelos homens que tenham “sinais” psíquicos que sua psique identifique como pertencentes àquele pai internalizado. Por isto, porque naquele homem específico a sua psique descobre “os alimentos paternos para suas carências” é que a mulher se fixa em um determinado homem em detrimento de outros. E o vice-versa acontece com o homem. O senhor está entendendo? Estou resumindo ao máximo e simplificando ao máximo uma Teoria que ninguém conseguiu derrubar, embora haja milhares de críticos que não param de malhar o Judas. 

— Sim, senhor, eu estou entendendo bem. E isto me parece até coerente…

— Bom, agora vamos para o seu dilema atual. Ao engravidar toda mulher em qualquer parte do mundo regride psicologicamente e se identifica com a criança dentro de si. Eis o motivo pelo qual ela se apega intensamente à criança que está gerando. Não fosse isto, ela rejeitaria a criança e com os meios abortivos de que dispomos atualmente, a humanidade logo desapareceria, creio eu. Veja se consegue entender: a psique da mulher grávida se reduz ao feto; passa a ser ele. Isto explica a fragilidade que a mulher grávida apresenta e seus “desejos” às vezes absurdos.

Ciume. Desconfiança. Insegurança. Auto-estima reduzida. Tudo e isto e muito mais.

Ciume. Desconfiança. Insegurança. Auto-estima reduzida. Tudo e isto e muito mais.

Uma vez identificada com o feto, a psique da mulher tem, idealmente falando, condições de reeditar emocional e vivamente os traumas porque passou em sua infância e que não foram solucionados a contento. Se há algum trauma muito forte, que foi reprimido à força para o inconsciente da mulher quando criança, agora aquele trauma se manifesta. A psique aproveita que há uma estrutura oniróide, isto é, que só acontece em terreno fantasioso interno da psique, onde ela encontra a si mesma como criança (no feto), o pai ideal (na pessoa do marido) e a mãe ideal (a mulher mesma). A psique regredida, então, deseja o pai idealizado no marido da mulher, mas entra em ansiedade aguda porque este desejo se consubstancia no ato censurado do incesto. Se o marido copula com a mulher, a psique desta, regredida, vota para com ele um ódio infantil acéfalo e irreal, mas violento. Por isto, a esposa daquele homem se nega a ele até de modo raivoso, violento. Quando, depois, se entrega “ardentemente” a outro homem é porque a psique infantil está-se vingando do pai incestuoso. O senhor está compreendendo? Estou fazendo um grande esforço para lhe colocar bem claramente o dilema que o senhor está enfrentando. 

— Embora esteja assustado, estou acompanhando bem sua explicação e, Doutor, francamente, estou estarrecido. Jamais imaginei que esse negócio de Psicanálise tivesse validade e, pior, nunca pesei que eu me veria envolvido com isto.

— O senhor sabe de algum choque emocional que sua esposa tenha sofrido e que tenha sido muito intenso, na relação dela com o pai?

Ele ficou calado durante um longo tempo. Olhar perdido diante de si parecia ter mergulhado em sua própria mente em busca de alguma recordação perdida. Então, com um profundo suspiro, disse:

— Certa vez ela me falou que, quando tinha algo em torno de quatro ou cinco anos, entrou no quarto do casal (de seu pai e de sua mãe) e os viu nus. O pai estava em pé ao lado da cama e ela viu seu púbis pela primeira vez. Chamou-lhe a atenção o pênis dele e como toda criança, avançou com a mãozinha pronta para tocar naquilo. O pai era evangélico e ficou muito envergonhado. Descontrolado, deu uma tremenda bofetada na criança, gritando-lhe que não fosse uma endiabrada. Ela caiu ao solo assustada e sentindo dor no lugar da batida. E se lembra que chorou muito, com muita raiva de seu pai. Eu não dei crédito ao que ela me contou, visto que a lembrança era de uma idade na qual a gente não costuma recordar do que nos acontece…

— A menos que seja algo muito traumático, meu amigo — disse Felipe, com voz suave.

— É, Felício está certo — confirmei.

— Pois é. Este fato ela me contou umas três ou quatros vezes, mas eu sempre ri dela, o que a deixava muito zangada. Ela insistia dizendo que quando seu pai ou sua mãe tentava falar do “pecado” que era tocar nos genitais dos pais, ela berrava danada de raiva e esperneava a ponto de a mãe perder a paciência e lhe aplicar palmadas, o que só piorava sua crise de raiva. Uma vez eu perguntei a minha sogra sobre isto, mas a velha ficou zangada e disse que tudo era invencionice de minha mulher. Eu fiquei desconfiando de que ela sentira vergonha de eu ter ficado sabendo daquele “pecado” de sua filha, minha esposa.

— Bom, o senhor entendeu perfeitamente o tremendo dilema em que ambos, o senhor e sua esposa, se encontram.

Ele assentiu com um aceno de cabeça.

— E o que o senhor lhe aconselha fazer, doutor? — Perguntou Vera, até ali calada e atenta a tudo.

— Procurar um bom psicoterapeuta para a esposa e outro, para si mesmo. Tem que ser tratamento separado. E para a esposa eu não recomendo um psicanalítico tradicional, não. Há várias ‘linhas” psicanalíticas mais ativas, atualmente. Creio que nosso amigo deve buscar um profissional destes. E para ele, recomendo um terapeuta de linha cognitivo-comportamental. É o que há de mais avançado no momento.

— Por que o senhor não trata dele, doutor? — Perguntou Vera.

— Porque já estou fora do trabalho há mais de vinte anos, minha jovem. Não tenho mais o “feeling” que tive para enfrentar uma psique em rebeldia. Eu estaria no princípio, novamente, mas sem o arrojo de minha juventude. Seria perigoso para ela e para mim também. Estou desatualizado no que tange às novas abordagens desenvolvidas, compreende? 

Ela olhou de um para outro e todos acenaram afirmativamente com as cabeças.

— Como o senhor resolveu seu dilema? — Voltou a perguntar Vera. Ela era danada. Quando pegava um fio da meada não largava fácil.

— Eu saí de casa. Fui embora. Deixei tudo para trás. Mulher, filhos, apartamento… Tudo. E nunca mais voltei, como, aliás, sempre aconteceu quando eu saí de um relacionamento.

— E foi o certo? — Insistiu Vera.

— Não. Na verdade, eu devia ter procurado ajuda – e até o fiz junto aos meus professores, mas todos eles tiraram o corpo fora. Então, vendo que não ia suportar aquela tensão por muito tempo, já pensando em matar a mulher e seu amante, resolvi sair e deixar o campo livre para outro. 

— E seus filhos?

— Foram as vítimas desse drama terrível. 

— O senhor sente culpa, por isso?

— Não. Nem eu nem ela fizemos o que fizemos por vontade própria, de sã consciência, com uma maldade premeditada. Fomos envolvidos num drama que eu reputo como uma armadilha do Karma. Espiritistamente isto se explica do seguinte modo: ela e eu tínhamos pendências não resolvidas em alguma vida anterior. Ela passou para o outro lado me odiando e quando veio nesta encarnação foi com o propósito de me lançar na maior desgraça possível. No caso, na cadeia por assassinato. Lembrem-se “não cai uma folha do galho de uma árvore que não seja pela Vontade do Pai”. 

— Mas… E seus filhos? Eles foram muito prejudicados, não? Será que eles também tinham karma a quitar?

— Certamente, ou a Justiça Divina seria falha. Mas os três vencem seus dramas psíquicos com galhardia. E sei disto porque nenhum deles se perdeu nos caminhos da vida. Todos estão adultos e são responsáveis. Não se drogam, têm um firme código de ética e de moral e não aceitam enveredar pela marginalidade da vida. Nisto, eles nos compensaram bem.

— Como o senhor se comporta com sua ex-esposa, atualmente?

— Como amigo. Eu gosto muito dela. Depois de tudo passado, costumo rir de nossas brigas idiotas e, às vezes, me pego com lágrimas nos olhos recordando nossos bons e belos momentos de aventura, juntos. Foram tantas e tão intensas… Arrostamos tantos perigos juntos… Mas não quero me alongar nisto. Chega, certo?

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