O Mar da Galiléia, também chamado de Mar Morto.

O Mar da Galiléia, também chamado de Mar Morto.

A descida aconteceu com todos animados. Em duplas ou em trios, os apóstolos discutiam os últimos ensinamentos que haviam recebido. Muitas dúvidas surgiam entre eles, na medida em que caminhavam por entre as pedras e os galhos das moitas, sob a sombra densa da mata. Como sempre, Yehoshua ia à frente, calado e andando rápido. Foi quem primeiro chegou à casa do grego Teófilo. Como sempre, foi recebido em festa pela esposa do homem, visto que ele já se encontrava na dura lide da fazenda de tâmaras. Era a época da limpeza das palmeiras e do plantio de novas mudas. Yehoshua esperou que seus discípulos chegassem e se sentassem. Aceitaram a água e como os gregos não tinham o ritual de lavar os pés dos viajantes, foi ele mesmo, o Mestre, que dispensou a mulher de tentar realizar o rito. “Não faz parte de vossos costumes, portanto, não tendes que fazê-lo apenas para nos agradar”. Satisfeita a esposa de Teófilo dispensou as servas que, aliviadas, retornaram para seus afazeres. Yehoshua notou algumas expressões de contrariedade entre seus amigos e aprendizes, mas nada comentou. Pediu que o esperassem ali e encaminhou-se para o terreno das plantações.

A plantação de tamareiras dava muito trabalho para ser rentável.

A plantação de tamareiras dava muito trabalho para ser rentável.

Teófilo o recebeu com alegria. Yehoshua gostava imensamente da sinceridade daquele homem. Ele não fingia em nada. Se gostava de alguma coisa, fazia-o com todo seu ser. Mas se algo não lhe agradava, repudiava-o francamente, doesse a quem doesse. Era sincero e franco. Abraçaram-se com carinho e o grego lhe deu dois beijos, um em cada lado da face, como era costume entre os seus. Yehoshua correspondeu à saudação retribuindo-lhe os ósculos. Então, convidou seu anfitrião a ir com ele até a casa. Teófilo não perguntou a razão do convite. Simplesmente se pôs a andar, sempre tagarelando.

— Já tomaste conhecimento da refrega entre uma patrulha romana e um grupo de sicários? — Perguntou Teófilo. Yehoshua lhe respondeu com um meneio negativo de cabeça.

— E então. Contou-me um de meus empregados, que costuma vir pela estrada patrulhada, que ontem, de madrugada, os sicários atacaram e feriram uma das patrulhas romanas. Meu empregado passou pelos homens feridos. Parece que só dois do grupo não tinha ferimento, mas nenhum tinha sido morto. Quanto aos sicários, estes não se deram tão bem assim. Havia três corpos estirados no chão, segundo me informou Nayir, o homem que viu a cena.

Yehoshua meneou a cabeça, com tristeza. Estavam chegando à casa. Timóteo abraçou um a um os discípulos de Yehoshua, indiferente às resistências que encontrou em alguns deles, como em Pedro, Tomé, Judas e Bartolomeu. Estes, não retribuíram o abraço nem os ósculos. Seus corpos endureceram quando foram abraçados pelo grego, mas este pareceu não ter tomado conhecimento da recusa velada ao seu amplexo.

— Sois seguidores de meu amigo e irmão, Yehoshua — disse Teófilo passando os olhos de um para outro dos quatro que o repudiaram. — Por isto, sois bem-vindos à minha humilde casa. E o sereis sempre, mesmo quando não acompanhados por vosso rabi.

As palavras de Teófilo soaram estranhas no silêncio que se tinha feito quando de seu cumprimento efusivo. Yehoshua tinha um sorriso misterioso na face. Então, quanto todos estavam sentados e tinham diante de si um copo com chá, pão, mel e frutas secas, o Mestre falou.

O desespero que Deus dispensa...

O desespero que Deus dispensa…

— Tendes sido muito generoso conosco e não retribuir tão grande hospitalidade seria grosseria de nossa parte. Assim, viemos aqui colocar-nos à vossa disposição. Sei que é o momento da limpeza do terreno e das palmeiras. Também sei que é a época de plantar novas mudas, em substituição às palmeiras que morreram ou foram derrubadas pelos ventos. Então, meus discípulos se oferecem com toda alegria de seus corações para vos ajudar em vossa faina cansativa. Com exceção de Bartolomeu, cuja perna esquerda tem sérios problemas com as veias dilatadas, todos os demais são candidatos à labuta convosco. Ah, sim, sem remuneração. E não insistais, pois temos comido de vossa comida e bebido de vossa água à vontade por dois dias. Somos 13 ao todo. A despesa foi grande. É mais que justo que a paguemos com nossos braços, nossa boa-vontade e nosso esforço sincero.

O silêncio era denso. Todos os olhos estavam pousados em Yehoshua, cuja autoridade era tão palpável que ele subitamente parecia ter mais de dois metros de altura. Zebedeu, Pedro, André, Tiago, Judas e Bartolomeu respiravam profundamente, parecendo querer dizerem alguma coisa, mas a palavra encontrava-se presa na garganta de todos eles. É que nenhum admitia servir a um goin, a um impuro comedor de carne de bode e carneiro e adorador de deuses pagãos.  Ele é que tinha a obrigação de servir aos hebreus e não o contrário. Yehoshua estava afrontando as Escrituras e isto os atingia em cheio. Mas o que fazer? A situação era tão inopinada que os pegara a todos de surpresa e os deixara sem ação.

— Quando quiserdes, meu caro irmão Teófilo, podeis levá-los convosco. Fique certo de que vos servirão com a humildade que devem ter. Aprender a servir é a primeira e mais importante das lições que têm de exercitar.

Com um sorriso maroto e divertido na face morena e franca, Teófilo olhou nos olhos de Yehoshua. Divertia-se à grande, pois sabia perfeitamente que aqueles judeus estavam queimando por dentro por ter que trabalhar para um impuro. Com um aceno de cabeça, pediu licença a Yehoshua para se retirar com os discípulos fulos de raiva, mas impotentes diante da autoridade do Mestre que seguiam relutando sempre. Quando ficou só, na companhia de Bartolomeu, Yehoshua chamou por Aisha, a esposa árabe do grego, e lhe indicou Bartolomeu.

Quem foi este homem? Nasceu Divino ou tornou-se Divino ao longo de uma grande caminhada através de inúmeros Manvantaras e Pralayas? Há aficcionados de ambas estas teorias...

Ele bem que se esforçou para que o compreendessem…

— Querida irmã — disse Yehoshua com um sorriso a lhe iluminar o rosto —, este é Bartolomeu. Ele não pôde ir com vosso marido para a lide com as tamareiras, mas se oferece, de todo coração, para ajudar-vos com algum trabalho que tenhais para lhe oferecer. Bartolomeu insiste — e Yehoshua elevou a voz para calar o protesto que seu discípulo ia começar a fazer — em que lhe seja dado um trabalho que dispense alguma de vós de esforços penosos. O que tendes para ele?

Os vivos e espertos olhos de Aisha estavam fixos nos olhos pacíficos e autoritários de Yehoshua. Ela compreendeu a mensagem e com um sorriso luminoso na face, convidou o revoltado Bartolomeu a segui-la. Engasgado e titubeante, o judeu praticamente se arrastou para a cozinha. Estava a ponto de ter um infarto de tão indignado com aquela situação. Na cozinha, Aisha lhe indicou uma grande bacia de barro onde havia muitas batatas e algumas cenouras.

— Por favor, irmão de Yehoshua, descascai estas batatas e estas cenouras. Depois, tende a bondade de moer na pedra de mó, os grãos de trigo para que possamos fazer os pães que ides comer assim que os outros chegarem da labuta na fazenda. Eu vos garanto que virão ávidos por alimento. Tudo o que ides ajudar a fazer é também para a comida de vossos irmãos. Eu vos fico muito grata pelo vosso oferecimento para tão humilde tarefa.

E a esperta mulher se retirou antes que o discípulo de Yehoshua explodisse de ira. Com os olhos injetados de sangue e respirando com dificuldade pela revolta que lhe ia no peito, Bartolomeu permaneceu de pé por um longo tempo, olhando cheio de ira a grande bacia prenhe de batatas e cenouras no chão, a seus pés. Então, com forçada resignação, decidiu-se sentar. Orou uma bereka pedindo a Jeovah que lhe desse paciência e sabedoria e, a Yehoshua, desse juízo e humildade para não cometer mais insultos como aquele às Leis do Senhor. Com vagar tomou da faca e se pôs a realizar a tarefa, olhos cheios de lágrimas de um pranto de raiva que ele fazia esforços inauditos para conter. A vontade de jogar fora aquela faca e sair correndo dali para não mais voltar era um tormento que teve de suportar enquanto fazia aquele trabalho humilhante.

Yehoshua, de pé, encostado no umbral da porta, mirava ao longe os homens trabalhando. O sol já começa a queimar as costas curvadas de todos eles. Sentia a revolta de cada um e seu coração se nublava de tristeza. Era muito fácil dizer “sim” com a cabeça às suas palavras de ensinamento. Mas era muito difícil agir com Amor e Servir com Bondade e Gratidão, quebrando todos os preconceitos mundanos. Eles estavam longe do ponto em que desejava que ficassem, quando tivesse partido…

Aisha chegou a seu lado e lhe perguntou se desejava alguma coisa mais.

— Sim, querida irmã, eu desejo que me tragas óleo de salgueiro e goma do pé de hissopo. Sei que teu marido tem sempre estes ingredientes em sua farmácia. Junto com estes ingredientes, traz-me, por bondade, o mel branco que as abelhas produzem.

— Vós vos referis à própolis?

— Exatamente.

— Vais tratar de algum ferimento, Yehoshua?

— Sim, vou. Mas não te preocupes. Não é em mim. São irmãos nossos que devem chegar dentro em pouco à vila.

Aisha não fez mais perguntas. Retirou-se e quando retornou trazia o que lhe fôra pedido. Yehoshua entregou-se pacientemente a macerar tudo aquilo em uma pequena vasilha de barro queimado. Quando terminou o Sol estava a pino e todos regressavam da faina. Vinham famintos. Cumprindo o ritual judeu, seus discípulos lavaram a mão direita e se sentaram para o almoço. Para sua surpresa, entre as mulheres deram de cara com Bartolomeu que os servia com feição totalmente fechada e olhar coruscante. Era o cúmulo da humilhação um judeu servir o repasto em companhia de mulheres. E, pior, mulheres que nem judias eram. Eles procuraram com os olhos alguma explicação de Yehoshua, mas este em nenhum momento os olhou. Conversava animadamente com Teófilo sobre o dia de trabalho. Este, tecia elogios aos esforços de seus discípulos em aprender a dura tarefa de limpar as tamareiras e retirar o entulho do solo. E Yehoshua, para surpresa de todos, pôs-se de pé assim que terminou a refeição, e falou.

— Teófilo, peço-te que me desculpes o pedir que liberes meus discípulos esta tarde. Eu prometo que amanhã todos estarão de volta para dar continuidade ao que faziam, hoje. 

— Como queiras, Yehoshua. Amanhã ou depois ou depois, não importa. Há muita coisa a ser feita e a mão-de-obra deles será muito bem-vinda…

— Inda mais quando é gratuita — rosnou Judas Iscariotes por entre os dentes e com o olhar abaixado.

— Isto é o melhor — respondeu Teófilo, sem perder a pose. E sorrindo de bom-humor, disse, voltando-se para o rancoroso discípulo. — Do mesmo modo como vos alimentastes de nossa comida sem ter plantado nem um grão de trigo nem o ter colhido no campo e triturado na mó para fazer o pão, como Aisha e suas criadas o fazem e fizeram ontem e hoje, para vos alimentar, a todos vós.

Yehoshua soltou uma sonora gargalhada e abraçou o grego com efusividade.

— Gostei de vosso humor, meu irmão. É assim que ensino a eles a humildade e o servir com amor. Vós o fazeis por desprendimento. Eles, por obrigação, o que é uma lástima. Mas aprenderão, tenho certeza de que o Pai cuidará para que assim seja.

Cabisbaixos e envergonhados, os discípulos se despediram do sorridente árabe, que a todos fez questão de abraçar e de cada um se despediu com um “até amanhã, cedinho, com a graça do Pai de Yehoshua”.

Rindo, o Mestre saiu em direção à praça. Ela distava apenas duas quadras mal medidas e não passava de um grande largo ao redor de um olmeiro já bem entrado em anos, mas cuja copa dava boa sombra. O largo tinha sido calçado com grandes lajes para diminuir os estragos das enxurradas que desciam furiosas dos morros, nas épocas de chuva. Yehoshua sentou-se sob a árvore e em silêncio continuou a maceração dos ingredientes que tinha trazido consigo. Seus discípulos sentaram-se ao seu redor, atentos e curiosos. Então, meia-hora depois, se tanto, ouviu-se o bater de cascos de cavalo sobre as pedras da estradinha que descia da estrada mais acima. Todos olharam para o lugar de onde lhes chegava aquele barulho, menos o Mestre. Ele continuava concentrado no que fazia.

Uma decúria romana.

Uma decúria romana.

Eram os kittins. Vinham em petição de miséria. Era uma patrulha de dez soldados. Uns seis vinham deitados, quase caindo, nas selas. Dois vinham a pé e cada qual sustentava outro que era praticamente arrastado pelo companheiro exausto. Os discípulos os olharam com desdém e desprezo. Yehoshua, contudo, não olhava nem para os romanos nem para eles. Estava todo concentrado no que fazia.

A patrulha aproximou-se exausta do poço, nas pedras ao redor do qual os apóstolos e o Mestre se sentavam. Os romanos pararam e um deles, com uma grande careta de dor, pediu, falando grego, que lhes dessem água. Ninguém se moveu. Yehoshua, então, colocou de lado o pote onde macerava a mistura, levantou-se, pegou o cantil que o soldado lhe estendeu com grande expressão de exaustão na face e o encheu de água. Com delicadeza devolveu-o ao homem, tomando seu lugar na sustentação do ferido. Com cuidado e diante dos olhares atônitos de seus discípulos, ele deitou o ferido com muita delicadeza a fio comprido. Aproximou-se do outro homem e tomando o companheiro ferido que ele praticamente arrastava sustentando-o com inaudito esforço, também o deitou delicadamente no chão. Depois, pegando os cantis dos demais soldados encheu-os e os entregou a eles, que beberam sofregamente. 

Yehoshua ajoelhou-se ao lado de um dos feridos. Era o mais atingido e estava praticamente agonizando.

— Ele… ele é… é nosso… nosso decurião… — murmurou um dos que tinham chegado em pé. Trazia o braço direito caído estranhamente ao lado do corpo. Seu ombro tinha sido deslocado violentamente e o úmero havia sido arrancado de seu encaixe. O homem estava à beira da exaustão. Yehoshua pediu licença e tomou aquele braço pendente. Esticou-o devagar, segurando-o pelo cotovelo e pelo pulso. Então, com um movimento brusco, encaixou-o de volta no ombro. O soldado soltou um grito de dor e caiu desmaiado, mas Yehoshua amparou-o evitando que tombasse na lage e sofresse uma concussão. Devagar depositou-lhe o corpo sobre a pedra, sob os olhares assustados dos demais soldados e desnorteados de seus discípulos. Então, tomando um pedaço da roupa do homem fez uma tipoia e meteu o braço ferido dentro dela. Voltando-se para Bartolomeu ordenou-lhe peremptoriamente:

— Traz-me o unguento. Rápido!

Desconcertado o discípulo percebeu que nenhum deles fizera nada até ali. Pressuroso tomou o pote onde estava o ungüento que seu Mestre vinha preparando há tanto tempo e correu a lho entregar. Yehoshua entregou-se ao trabalho de aplicá-lo sobre os ferimentos. Depois, deu a beber algo que também tinha preparado e trazia num pote de barro cedido pelo grego. Quando todos tinham bebido aquilo, ele entregou ambos os recipientes ao que ainda estava em melhores condições.

— Toma, continua aplicando o ungüento a cada três horas. Lava os ferimentos antes de fazer a aplicação e espanta as moscas, para que não ponham ovos nos feridos. E tem especial atenção ao decurião que vos comandava. Ele será muito importante em minha história e não deve morrer.

O romano permaneceu olhando-o atônito. Jamais esperaria em sua vida que um judeu cuidasse com tanto esmero de romanos feridos. Quem era aquele homem?

Yehoshua aproximou-se do grupo e olhou censurosamente para cada um, nos olhos. Não disse nada, nem era preciso. Havia uma muda repreensão naquele olhar que fez que todos se sentissem ínfimos e altamente desconfortáveis por estar ali. Rodando nos calcanhares o Mestre se encaminhou para a mata e todos se dispuseram a lhe seguir, mas erguendo a mão imperiosamente ele falou.

— NÃO! Hoje vós vos mostrastes indignos de mim. Voltai para a casa de Teófilo e sejais humildes o bastante para servi-lo sem essa capa repulsiva de rancor, ódio e desprezo, pois isto não me agrada nem a meu Pai. Vós, hoje, fostes indignos de nós.

Ele sumiu na mata e seus discípulos se entreolharam sentindo-se péssimos. Mais ainda quando, voltando-se para os romanos, viram que eles os observavam sérios. Pareciam concordar com Yehoshua…