"Eu vim para fazer a Tua Vontade e, não, a minha!"

“Eu vim para fazer a Tua Vontade e, não, a minha!”

Yehoshua caminhava rápido e concentrado. Entrou pela mata já era bem escuro, mas ele não demonstrava temor. Ouviu o esturro de alguns leões, mas longe dali. Continuou subindo a senda totalmente concentrado em algum pensamento. Caminhava com segurança, embora sua visão fosse muito limitada pela escuridão. Escorregou algumas vezes e caiu umas duas, sendo obrigado a se apoiar nas mãos para não dar de cara no chão. Finalmente, chegou à gruta. Juntou galhos às apalpadelas, entrou na caverna e abriu tateando sua sacola. Retirou lá de dentro duas pedras de pederneira.  Juntou um monte de folhas e galhosinhos secos e atritou as pedras até que dispararam chispas e estas provocaram fogo no montículo. Ele soprou com cuidado até obter chamas altas. Então, alimentou a fogueira com mais galhos secos, mais grossos. Logo tinha diante de si uma boa fogueira que lhe aliviou o frio. Sentou-se um pouco e permaneceu quieto, olhando as chamas dançando como fadinhas na escuridão do local.Seus pensamentos foram até o grupo de homens e entre estes destacaram seus discípulos. Yehoshua suspirou profundamente e sem se dar conta um vinco de preocupação lhe sulcou a testa.

“São tão primitivos… Tão atrasados… Tão demasiadamente hebreus… Como conseguirei abrir-lhes as mentes toscas e rudes sem os violar?”

Cremos na existência de seres que vivem em Universos Paralelos. Por que não podemos crer que naquele Universo há um lugar para nós, também?

Gabriel vinha do Reino ao qual Ele pertencia.

Levantou-se, jogou mais madeira seca sobre o fogo e apanhou uma acha em chamas. Saiu da caverna e trabalhou afanosamente juntado mais galhos de dentro da mata. Então, chegou a eles o tronco em brasa que trazia e trabalhou com cuidado e persistência até conseguir uma grande fogueira que iluminava grande área ao seu redor. Aquele fogo, além de lhe esquentar a noite, espantaria qualquer animal selvagem mais afoito. Sentou-se perto do fogo, abriu uma pequena sacola que tinha trazido a tira-colo e dela retirou um punhado de tâmaras secas. Descuidadamente e sempre perdido em seus pensamentos introduziu uma tâmara na boca e ficou mastigando a fruta sem prestar atenção ao que fazia. Só voltou a se centrar no exterior quando a fogueira era somente um braseiro. Então, levantou-se e se voltou para a mata, mas sobre a pedra, atrás de si, viu um vulto alto, mais alto que ele. Era forte e trajava um balandrau brilhante como se feito de prata. Tinha uma longa cabeleira esbranquiçada e suas feições eram alvas e bonitas. Testa larga, olhos separados e olhar direto e firme. Queixo comprido e um pouco quadrado, o que lhe emprestava um aspecto de dureza à expressão facial. Lábios finos e bem delineados. Os braços caiam ao longo do corpo naturalmente. Não trazia nada nas mãos.

— Tu, aqui? O que desejas? — perguntou Yehoshua, convidando o estranho a se aproximar com um gesto natural de sua mão direita. O homem desceu da pedra com segurança e se aproximou. Cumprimentou Yehoshua com um beijo na face e foi por ele também beijado.

— Aceitas umas tâmaras? — Perguntou o Mestre com naturalidade. O homem o olhou surpreso e sorriu. Com um aceno de cabeça declinou do oferecimento.

— O que desejas, Gabriel?

Os dois se olharam por um momento.

— Vi que tu estavas preocupado com teus discípulos. Por que? 

— Tu o sabes, Gabriel. Eles estão muito aquém do que eu desejo e preciso. 

— Então, por que não os auxilias? Tu podes interferir com suas mentes toscas e podes limpar seus corações pejados de emoções baixas. Por que não o fizeste, ainda? O que esperas?

— Não desejo forçar suas naturezas, até o último momento. Prefiro que se esforcem para mudar o que são por suas próprias vontades. É mais árduo, mas o resultado será mais duradouro e firme. A fruta deve amadurecer naturalmente para que seu sabor seja mais intenso e mais aprimorado.

— Apesar de tuas palavras serem sábias, sei que teu coração está agitado. A hora se aproxima, não é?

— Ainda falta muito, Gabriel.

— Não para o senhor do Tempo-Espaço. Sinto tua agonia desde meu mundo e me preocupo contigo. Por que não desistes? O Pai Celestial não te obriga a nada.

— Se eu não for até o fim, como serei lembrado, depois? Como será lembrada minha mensagem, que é a do nosso Pai, nas gerações futuras?

— Bem podes sê-lo por outros meios. A Mente Humana é muito lenta em evoluir, meu irmão.

— Só pelo Amor e pela Caridade poderei ser recordado através dos séculos, Gabriel. A mente humana é como aquele fogo, vês? Seu combustível, a fé, exaure-se rapidamente. Então, eles esquecem do que é importante e se voltam à procura de algo que acabaram de perder. Querem o que é imediato; querem o prazer e o alívio de suas dores. Desejam somente o prazer. Qualquer aborrecimento os faz entrar em ansiedade por retomar o equilíbrio perdido, ainda que momentaneamente. Vivem ganhando de graça tudo o de que precisam, mas também vivem perdendo tudo o que se lhes dá.

— Eles vão-te perder, com certeza — e o recém-chegado sentou-se diante de Yehoshua que se sentara numa pedra arredondada.

— Mas quero que fique a lembrança bem forte de mim em cada um deles. Não posso… quero dizer, tal como estou, homem nascido de uma mulher, não posso forçar a Obra do Pai. Ela tem de progredir com dor e cansaço, trabalho e esforço. Tem de construir em si e por seus próprios meios uma Consciência sadia, sã em todos os sentidos. 

— Isto vai levar tempo demasiado e tu o sabes.

— Tempo? O que é isto?

— Na dimensão deles, é muito. Na nossa não existe.

— Estou na deles. Vivo como eles. Sinto como eles. Aqui, tudo é pesado, denso, difícil. Embora me contrarie a lentidão que levam para aprender o que desejo, não posso censurá-los por isto. Estão sob o domínio da Matéria, não do Espírito. Eu falo ao Espírito, não à Matéria. E o Espírito, neles, está… Como direi? Sonolento. É isso: sonolento.

— Eu sei. Estou sempre por aqui, ainda que não goste. Quanto à sonolência espiritual, creio que mais cedo ou mais tarde terás de lhes dar um choque para que acordem.

— Farei isto, se não houver outro modo e o momento estiver próximo demais para aguardar mais tempo.

Os dois se calaram e Yehoshua tornou a mastigar um punhado de tâmaras. Gabriel apenas o olhava.

— Sinto que teu coração se desanuviou. Então, posso ir-me, não é?

— Podes. Eu te agradeço pela visita.

— Até breve, então.

Desde há muito tempo eles são chamados de homens azuis.

Desde há muito tempo eles são chamados de homens azuis.

O visitante se levantou e encaminhou-se para a mata, sumindo na escuridão justamente quando outro ser aparecia na direção oposta àquele em que ele se fôra. Era o tuaregue. Yehoshua o olhou com o cenho franzido.

—Ouvi que faláveis, Mestre. Mas não vejo ninguém aqui. Quem era? — O árabe perscrutava os arredores com olhos atentos e olhar perscrutador. 

— Vós me seguistes. Por que? — Perguntou Yehoshua, ignorando a pergunta do homem do deserto.

— Posso sentar-me convosco e vos contar minha história?

Yehoshua permaneceu olhando atentamente para o homem e, então, com um leve sorriso, estendeu a mão e indicou a pedra onde há pouco se sentara Gabriel. O tuaregue desceu lépido e com um cumprimento característico dos de seu povo, com a mão direita tocou o coração, os lábios e elevou os dedos acima da testa, dizendo: que a Paz esteja em vosso coração, em vossas palavras e em vossos pensamentos. Yehoshua riu e repetiu o cumprimento do recém-chegado, acrescentando ao final convosco também. Então, ambos se sentaram, um de frente para o outro. O tuaregue deu início à narrativa.

— Sou membro da tribo mais guerreira do deserto e filho de seu sheik, Mohamed al-kalil Akibhar. Mas meu pai me chamou à sua tenda e me ordenou que saísse pelo mundo para aprender a Sabedoria, pois, quando ele se for, serei eu aquele que governará nosso povo. E, segundo ele, terei de ser senhor da Sabedoria para não causar sofrimento à minha gente. Eu o obedeci porque um filho não pode desobedecer ao pai, mas achei aquela ordem descabida. A Sabedoria, pensava eu, aprende-se nos campos de batalha e eu era já bem experiente com a cimitarra. E sei que aprendi muito sobre as estratégias das guerras no deserto e entre os nômades. Aprendi muito sobre liderar guerreiros e se fazer obedecer. Aprendi o valor incomparável da honra e a responsabilidade da palavra empenhada. Aprendi o respeito pelo meu inimigo e aprendi a ser cuidadoso com as mulheres e as crianças, sejam elas ou não, de minha tribo. Mesmo assim, como disse, um filho de minha tribo nunca questiona seu pai. Faz quase um ano e meio que perambulo pelo mundo que desconhecia e para ser sincero, não aprendi senão que entre os homens que não vivem no Saara o que há é muita insolência, muita arrogância, muita prepotência e muita ganância. Entre os judeus, vosso povo, encontrei um ódio assombroso. E me pergunto como pode um povo viver em paz com tanta raiva no coração. Nós, nômades do deserto, não odiamos nossos semelhantes. Se os combatemos, em alguma disputa, não o fazemos menosprezando-os ou odiando-os. Nós temos respeito pelos nossos inimigos e, vencendo-os, não os humilhamos. Lutamos, eles e nós, pelo que acreditamos ser certo. Não nos move a ganância nem a arrogância. Mas vosso povo me ensinou, neste mês e meio em que tenho vivido entre eles, que sempre há um degrau a mais para se descer na escala da mesquinhez e do ódio. E eis que ouço falar de um homem judeu que é totalmente diferente de todos. Estava curioso sobre este homem e me perguntava como fazer para o encontrar. E eis que ele me surge e me demonstra com clareza o que é humildade e caridade. Mas aqueles que o seguem não compreenderam nada do que ele fez. Então, vim até vós, pois sois vós o homem de quem falo, para conhecer mais, para saber mais, para, enfim, aprender a Sabedoria.

Yehoshua tinha gostado do homem azul e depois de o ouvir gostou mais ainda dele.

— O que, para vós, é a humildade? — Perguntou, depois de um momento de silêncio durante o qual estudou atentamente a aura do tuaregue.

— Por que me perguntais isto? O que fizestes foi pura humildade. Vós ignorastes as inimizados entre vosso povo e os romanos e, vendo-os feridos, deu-lhes o tratamento e a atenção de que tanto necessitavam.

— Pelo que dissestes, tuaregue, vosso povo também faz o que fiz com os romanos, quando o vosso inimigo se encontra ferido e abatido. Então, praticais a humildade por isto?

— Eu creio que sim — respondeu o homem azul olhando firme nos olhos de Yehoshua. Este, a cada momento, mais e mais gostava do homem do deserto.

— A humildade verdadeira vai além da ação caridosa, tuaregue. Um guerreiro, como os de vosso povo, pode perfeitamente socorrer o adversário ferido, mas nem por isto o perdoa das ofensas que julga que ele lhe fez. Tão logo aquele adversário esteja curado, o guerreiro de teu povo está pronto para matá-lo sem sentir qualquer dó por ele. E o fará ainda que o tenha vencido em combate limpo e ele esteja caído a seus pés. Segundo aprendi de ouvir, os tuaregues não ofendem o guerreiro vencido deixando que viva com a vergonha da derrota. Isto não é humildade.

— É respeito à honra dele e do guerreiro tuaregue, Mestre hebreu. A honra é algo sagrado para os povos do deserto, sejam ou não,tuaregues como eu.

—Honra? O que é isto? Vós sois capaz de defini-la para mim?

Pegado de surpresa com a pergunta inesperada o tuaregue fechou o senho e se concentrou na resposta. Ela, a princípio, parecia-lhe fácil, mas quanto mais se esforçava para encontrar as palavras certas para defini-la, mais tomava consciência de que a Honra se tornava inalcançável para tanto.

— E então? — Instou Yehoshua, olhar fixo na face do tuaregue.

— Eu não sei definir a honra… Não é estranho?

— Por que?

— Porque fiz tantas coisas em função dela… Até matei muitos homens por ela… E acabo de descobrir que nem sei o que ela seja realmente.

— E a Caridade, o que é ela? — Perguntou Yehoshua.

— É… é ser generoso com o outro, como vós o fostes com os romanos, sem esperar agradecimento nem paga em troca.

— E a humildade?

— É reconhecer que somos iguais e não diferentes. Isto faz que desejemos aos outros o que desejamos para nós mesmos. Vós, quando acudistes aos romanos feridos, não os distinguistes de si mesmo. Fazíeis a eles o que certamente desejáveis que, em situação inversa, eles fizessem convosco. E mais, conforme nos dissestes lá no grupo, alimentais a esperança de que eles, depois, em mudo agradecimento pela vossa ação, ao encontrar outros judeus não os machucassem como certamente o fariam se não tivessem recebido ação tão meritória de vossa parte. Compreendi, Mestre hebreu, que além de humilde e caridoso, fostes também Sábio.

Yehoshua sorriu. O tuaregue arregalou os olhos com sua tomada de consciência.

— Eu… Eu vim perguntar-vos…

— O que já sabíeis, mas não tínheis consciência disto. Agora tendes e, em conseqüência, tendes a paz convosco. Sois suficientemente sábio para dirigir vosso povo, príncipe do deserto. Estou contente convosco por isto.

— Mestre hebreu, então… a Sabedoria é…?

— É ser humilde; é ser caridoso; é não desejar ao próximo o que não deseja a si mesmo. E é agir nunca pensando em si, mas no bem-estar de vosso próximo, pois quem semeia o bem nunca colherá o mal para si, por mais que assim não pareça.

O tuaregue quedou-se pensativo por um longo tempo, durante o qual Yehoshua dedicou-se a alimentar a fogueira. Então, pondo-se de pé, curvou-se diante daquele a quem chamava Mestre hebreu e afastou-se de costas, sempre curvado. Quando finalmente foi encoberto pelos arbustos pôs-se de pé, sorriu e açulou o passo.

Estava pronto para retornar à sua tribo.

Yehoshua permaneceu olhando para o lugar por onde o tuaregue havia-se ido e, então, meneando a cabeça com tristeza, disse de si para consigo:

“Eu gostaria de ter doze tuaregues comigo, em lugar deles. Mas não sou quem decide isto e, sim, meu Pai”.