Os monturos foram-se sucedendo e a fumaça tomando conta do espaço aéreo da casa...

Os monturos foram-se sucedendo e a fumaça tomando conta do espaço aéreo da casa…

Cheguei a minha casa em Caldas Novas, depois de dois meses sem ir lá, e tomei um susto danado. Eu já esperava por aquilo, mas quando vi o quintal de minha casa coalhado de folhas, galhos de mangueira e bananeira, tudo molhado e apodrecendo, gelei. Só de manga no chão devia ter uns quarenta quilos ou mais. A chuva chegou e, com ela, os fortes ventos e com este a queda das mangas e das jacas de roldão com folhas e galhos podres. Tudo no chão, juntado aquele exército de mosquitos. Respirei fundo. Ia dar um trabalhão danado.

Chamei um sujeitinho (danado de esperto no quesito dinheiro) e lhe propus limpar o terreno (uma área de 740m2) e ele já saiu que nem carro de fórmula 1: Duzentos reais. Eu o olhei sério e fulo da vida lhe disse: NÃO. Ele ficou por ali, pisando nos calos e tentando negociar. Comigo, não é não. Principalmente quando o sujeito tenta me tomar dinheiro. Eu tinha um caseiro, irmão dele por sinal, que ganhava R$ 50,00/mês para rastelar o quintal uma vez por semana. E era um bom pagamento, visto que o terreno é limpo, plano e fácil de rastelar. Mas o “zoiudo”, calculando minha “riqueza” pelo tamanho da “mansão”, não titubeou e tentou meter a mão no meu bolso. Não deu. Decidi eu mesmo fazer o trabalho.

O sujeito calculou que levaria dois dias, trabalhando das 8 às 17h, com uma hora para descanso. Era as 15h do sábado quando eu o mandei embora. Tirei a camisa, vesti um short, peguei o rastelo, uma pá e o carrinho de mão e pus mãos à obra. Minha parceira também se atirou à dura tarefa.Logo de saída eu gelei. Em uma área menor que um metro quadrado já enchi um carrinho com folhas molhadas, galhos quebrados e muita manga podre.

A fumaça logo inundou as copas das mangueiras e da enorme goiabeira. Tudo ficou azul.

A fumaça logo inundou as copas das mangueiras e da enorme goiabeira. Tudo ficou azul.

Parei para respirar e olhei ao redor, descoroçoado. Quantos carrinhos eu teria de carregar lá pra fora? Fiquei pensando em que o esperto poderia estar com a razão. Levei o primeiro carrinho para fora, para um de meus terrenos baldios, à esquerda do muro de minha casa, 36 metros à esquerda, para ser mais exato. Despejei as folhas, os galhos e as mangas podres lá e voltei dando tratos à bola. Tornei a encher o carrinho e lá fui jogar fora o entulho. Na volta, parei e fiquei olhando o monturo que estava espalhado sob as frondosas e bojudas mangueiras e jaqueiras. “Como diabo vou racionalizar isto?” Era a pergunta que me queimava o cérebro. Então, estudei o solo. Sim, grande parte das folhas estava molhada e as mangas podres infestavam o solo. Mas havia uma parte daquelas mesmas folhas que estavam secas…

Fiz um primeiro monturo, colocando as folhas secas por cima das molhadas e das mangas podres. E fiquei dez minutos tentando fazer que as secas pegassem fogo. Finalmente, consegui. As labaredas logo se espalhavam pelo monturo. Enquanto o fogo consumia o que podia, eu ia fazendo mais e mais monturos. Minha companheira enchia os braços com as folhas e galhos secos e arrumava sobre os monturos, de modo a poder queimá-los. E assim fomos fazendo, ela correndo o risco de ser picada por centopéias (lacraias) que, para meu desgosto, desde que me roubaram as galinhas, agora se multiplicam à vontade.

Quando o fogo baixava restavam alguns galhos secos teimosos (galhos de manga não são bons para fogo) e as mangas secas devido ao calor. Então, era minha vez de colher tudo com a pá, colocar no carrinho de mão e ir jogar lá fora.

Depois da faxina, o solo ficou uma beleza. Limpinho que dava gosto.

Depois da faxina, o solo ficou uma beleza. Limpinho que dava gosto (detalhe).

E foi assim que passamos nossa tarde de sábado até às 18:30h (17:30, na hora verdadeira). Finalmente, o lado esquerdo de nossa casa, algo em torno de 460 m2, o espaço mais amplo e o mais aprazível, estava limpinho, sem nem uma única folha no chão.

Ou seja: em apenas 3 horas e 30 minutos, nós dois, sem qualquer experiência em rastelar um chão prenhe de sujeira, limpamos o que o “esperto” queria fazer em dois dias a R$ 200,00.

Mas restava o lado direito da casa e sua frente, onde está uma frondosa goiabeira. O lado esquerdo é estreito, não tem mais que dois metros de largura. Ali, naquele espaço, há uma jaqueira enorme, plantada para dar sombra, já que no verão o sol bate exatamente deste lado da casa e não fosse a árvore o calor seria insuportável. Aliás, Caldas Novas é notória no Centro-Oeste brasileiro pelo grande calor com que assa seus cidadãos e os que desavisadamente vêm dar com os costados aqui. A frente da casa, recuado em 5 metros conforme manda a Lei, há uma jaqueira e uma grande goiabeira. Ambas também plantadas para quebrar os raios solares da parte da manhã, pois se ele é “bonitinho” entre 5 e sete horas, se dana a queimar feito pimenta depois das 8 e seus raios pegam de frente nossa casa. Assim, para driblá-los, plantamos a jaqueira e a goiabeira. Deste modo, até mais ou menos às 10 horas, o Sol não nos castiga a frente da casa e esta se mantém fresca.

Na frente da casa o lixo das folhas da goiabeira com as folhas da jaqueira era denso e a fumaça, espessa.

Na frente da casa o lixo das folhas da goiabeira com as folhas da jaqueira era denso e a fumaça, espessa. Na foto, o terreno já estava limpo e o monturo em chamas era o último de cinco.

A frente, devido à goiabeira, estava coalhada de goiabeirazinhas com não mais que 10 cm o pezinho mais alto. No entanto, a peste da goiabeira lança um raizão daqueles terra-a-dentro. Se acima do solo o pezinho não vai além de cinco centímetros, abaixo a história é outra. A raiz se aprofunda entre 15 e 20 centímetros e quando o solo está seco duvido que alguém consiga arrancar a goiabeirazinha. Para nossa sorte, o solo estava encharcado, mas eu ia aprender, no dia seguinte, que aquela porção de terreno, que me parecia ínfima, daria um trabalhão maior que toda a grande área já limpada.

Bom, no final do sábado eu tinha tomado dois comprimidos de Flancox (que não ataca o estômago nem os rins e combate as dores de quaisquer origens) e, ainda assim, estava moído. Meu bico de papagaio cantava todas as canções que os papagaios silvícolas sabem cantar e gritava a toda a mata a tortura a que eu o submetera. Literalmente, eu estava desancado. Andava como andam os velhos com mais de 100 anos e que não trabalham no cabo da enxada. Estes, não estão nem aí para a idade.

O garnizé. Pequeno, mas danado de brigão. Ele consegue matar galos de raça, enfezando-os até o infarto.

O garnizé. Pequeno, mas danado de brigão. Ele consegue matar galos de raça, enfezando-os até o infarto.

À noite, mais ou menos à meia-noite, em Caldas Novas acontece um fenômeno que, aliás, parecer ser característico de todo o Centro-Oeste. De repente sobe aquele calorão do solo e o quarto em que a gente se encontra “pega fogo”. A gente acorda suando em bicas. E foi o que nos aconteceu. Eu levantei com o coração aos pinotes e uma sede danada. Um garnizé fazia serão porque durante o dia um carcará passara ameaçando atacá-lo. Então, traumatizado, o pobre galinho cantava sem parar, alertando para a presença do assassino alado que, àquela hora, dormia placidamente em algum lugar. Para ele, o garnizé podia esperar até o domingo…

No domingo, logo cedo, às 8 horas, a gente atacou o solo debaixo da goiabeira. Pensávamos que ia ser moleza, mas logo entendemos que ele nos daria mais trabalho que toda a imensa área que tínhamos limpado na tarde de sábado. É que arrancar goiabeirazinha a alicate cansa pra danar. Ficar acocorado por mais de duas hora pra quem tem “bico-de-papagaio na coluna é um exercício digno das torturas medievais. Mas eu não arredei pé. Arranquei todos os pezinhos de goiaba, enquanto minha parceira juntava as folhas secas, as mangas podres e as jacas caídas, em monturos nos quais punha fogo. Assim que um monturo ficava somente na fumaça, eu entrava em ação. Pegava o carrinho de mão e, com a pá, juntava o resto da fogueira ainda fumegante e com fogo aqui e ali, e jogava dentro do carrinho. Com o lixo em chamas também iam pedras de todos os tamanhos. E lá ia eu jogar tudo fora. Mais de oito carrinhos foram retirados dali até que o chão ficasse como queríamos.

Gosto muito de dormitar na rede ouvindo o sussurro das folhas das mangueiras...

Gosto muito de dormitar na rede ouvindo o sussurro das folhas das mangueiras…

Ao meio-dia restava a estreita faixa na lateral esquerda, mas nenhum de nós tinha mais ânimo nem tempo para ir cuidar dali. Talvez que em uma hora, se tanto, a gente tivesse feito a limpeza, mas como quase não se anda por aquele lado da casa, decidimos não nos dar ao trabalho. Pelo menos, não agora.

Já às 16:30h (no horário mentiroso) nos pusemos na estrada. O sol estava tinindo, o asfalto aquecia o ar e tudo crestava. Felizmente o carro tem ar condicionado. Mas na entrada de Goiânia, pela BR-153, há a obra de um viaduto que já começa a cair os dentes de tão velha. E a desgraçada provoca aquele engarrafamento, mesmo no domingo. Eu não sabia, senão não tinha voltado por ali. Mas agora era tarde.

Estava cansado, zonzo, com dificuldade até de respirar. E do lado direito do carro uma fila deste tamanho de jamantas com até duas carrocerias com mais de 26m de comprimento cada uma. Um absurdo. Disputando o atalho com aqueles monstros, automóveis de todos os tamanhos. Inclusive o nosso, miudinho, miudinho.

Senti tontura e perdi o senso de realidade. De repente me pareceu que o carro da frente estava andando de ré. Atrapalhei-me e pisei no acelerador, em vez do freio. Quase que me choco violentamente com a traseira do automóvel adiante de mim, que estava paradinho, paradinho.

Foi uma agonia que durou por quarenta e cinco minutos de muita poeira e muitos sustos.

Chegamos a casa comigo com dificuldade até de respirar. Uma mal-estar generalizado; um cansaço que parecia vir da própria alma. E foi assim que, quase meia-noite, acordei com uma sensação de morte muito incômoda. Eu não sei como dizer diferente, mas estava realmente com a estranha sensação de que não ia ver o dia amanhecer. E sabem do quê mais? Eu tive MEDO.

Fui até à cozinha e tomei um copo d’água. Estava tremendo muito e sufocava. Mas passei a prestar atenção no meu MEDO. De quê? E descobri que ele me vinha, e de modo muito intenso, quando eu parava a expiração e ia recomeçar a inspiração. Naquele pouco tempo, algo em torno de meio segundo, todos ficamos com a respiração suspensa. Pois era ali, naquele tão diminuto espaço, que eu era invadido por uma intensa ansiedade. Medo de que a respiração parasse e eu SUFOCASSE. Meu medo não era da Morte, em si, mas vinha pela expectativa de uma morte por sufocamento. Mas de onde isto me vem? Eu não sei.

Não temo morrer a bala. Não temo morrer em acidente de carro. Não temo morrer com uma punhalada, em uma briga com um “cabra safado”. Não temo morrer na mesa de cirurgia… Enfim, não temo morrer de várias causas. Mas tenho um medo mórbido de morrer sufocado. Será que em alguma vida pretérita eu aprontei a ponto de ter sido obrigado a ir daquela vida para o além através da agonia da sufocação?

Bom, hoje passei o dia dando tratos à bola sobre isto. E ainda não cheguei a uma conclusão que me agradasse…