Dias nublados são como nossas almas pensativas ou tristes...

Dias nublados são como nossas almas pensativas ou tristes…

A manhã veio com muito vento, nublada e com um chuvisco que estragava tudo. As sendas estavam transformadas em riozinhos de lama que as tornavam extremamente escorregadias e de difícil trânsito. Mesmo assim, o sol ainda não havia saído, o sofar ainda não soara anunciando o início do dia e o homem já andava decidido enlameando-se todo até o meio das pernas. Suas passadas eram decididas e em sua face havia um vinco de profunda preocupação.

Era Judas Iscariotes. Deixara os outros ainda dormindo e vinha em busca de Yehoshua. Precisava conversar com o Mestre em particular e o assunto era preocupante.

A água do riozinho era muito fria, mas a paisagem valia a pena.

A água do riozinho era muito fria, mas a paisagem valia a pena.

Yehoshua abriu os olhos e permaneceu quieto, enrolado no lençol feito com lã de ovelha que o protegia parcialmente do frio. Olhava fixamente o teto de pedra da pequena caverna onde estava. Algum tempo depois uma sombra se delineou na entrada. Yehoshua sentou-se e se espreguiçou, ao mesmo tempo que dizia:

— O que te traz tão cedo até mim, Judas? E por que sinto que tu estás tenso? Que é que te preocupa?

Iscariotes aproximou-se e retirou de dentro das vestes um embrulho que abriu e depositou diante de seu Mestre.

— Trouxe-te alimento, Yehoshua. Come e, depois, conversemos. Creio que tu tens de me esclarecer verdadeiramente tua posição. O Templo está agitado; Herodes está furioso contigo e os zelotes querem uma resposta minha. Até o Procurador anda com a atenção voltada para nós e isto é péssimo. Tu sabes que sou zelote e estou contigo porque acredito que sejas verdadeiramente nosso libertador. Mas teu comportamento é confuso para mim. Há dois dias estive no Templo, mais precisamente no palácio de Anás. Ele e Caifás estavam confabulando sobre tuas declarações altamente insultuosas contra os rabis e eles o são. Conversei com ambos e é sobre o que falamos que desejo conversar contigo. Então, vou esperar que te laves e te alimentes.

Ele não escolhia amigos. Todos eram bem-vindos. Todos eram seus irmãos.

Ele não escolhia amigos. Todos eram bem-vindos. Todos eram seus irmãos.

Yehoshua ouviu tudo com expressão séria, olhar fixo na face do discípulo. Conhecia-o bem e o sabia homem de temperamento impulsivo, mas que também era decidido e inteligente. Talvez até o mais instruído de todo o grupo. Sua honestidade estava acima de qualquer prova e fôra por isto que o tinha escolhido para tesoureiro. Só havia um ideal para Judas Iscariotes: expulsar os kittins das terras judaicas. O Mestre nada disse quando seu discípulo silenciou e saiu para o esperar lá fora, sob o beiral que a pedra oferecia por cima da entrada da caverna. Yehoshua saiu, lavou o rosto e esfregou os dentes com umas folhas colhidas na mata. Depois, voltou à caverna, sentou-se e comeu o alimento trazido por seu discípulo: frutas secas, bolos, mel e leite de cabra. Terminado o desjejum Yehoshua estendeu a mão, convidando o Iscariotes a se sentar diante de si. Quando o discípulo lhe obedeceu, falou.

— Se há algo de que eu gosto muito em ti é tua sinceridade e tua honestidade, Judas. És o melhor dos que me seguem, embora não me entendas porque tentas me traduzir para teu anseio, que é o do povo hebreu em geral.

Ele era rebelde, decidido, valente e totalmente convicto do que acreditava.

Ele era rebelde, decidido, valente e totalmente convicto do que acreditava.

— E este não é teu povo, também? Seu anseio não é o teu anseio? — Perguntou Judas, tratando Yehoshua sem a deferência que lhe dispensava quando estava junto com os demais ou em público.

— Não. Eu não tenho povo, mas tenho todos os povos, Judas. E quanto ao anseio hebreu, eu não me incomodo com a ocupação dos kittins como todos os demais o fazem. Isto não tem qualquer relevância para mim. Até porque tudo acontece de conformidade com a Vontade de nosso Pai. Ele determina e assim se faz. No entanto, Ele dá aos homens o direito de escolher como desejam viver. Se os hebreus fizeram opções que os colocaram onde estão, então, não é problema meu nem de meu Pai.

— E esse teu Pai, não meu, deseja tanta dor e tanto sofrimento para nosso povo? Só posso concluir isto, pelo que tu acabas de me dizer. E se assim é, se tudo o que nos acontece é por Sua Vontade, então, desculpa-me se sou sincero, eu não O respeito. Ele não me merece mais consideração que Baal, Júpiter, Osíris ou outro deus pagão semelhante.

Yehoshua olhou sério e durante um tempo para o Iscariotes. Não gostara do que tinha acabado de ouvir, mas reconhecia que o homem lhe falava de coração, com toda sua convicção. E a isto tinha de respeitar.

— Querendo ou não, Judas, tu és filho do mesmo Pai que eu. Somos irmãos. Assim como sou irmão de todos os homens, independentemente de nação, cor de pele, religião ou qualquer outra distinção que usem para se diferenciarem entre si.

— É isto que causa grande confusão entre os rabinos do Templo, Yehoshua. Tu és a esperança deles também. Tens feito muita coisa que confirma o que foi profetizado sobre o Messias. Tens curado doenças; tens feito cegos verem; tens feito aleijados andarem; tens realizado prodígios sem o auxílio de mágicas ou apelos a demônios. Eu sou testemunha disto e tenho crédito junto aos rabinos. Tu preencheste todas as profecias do passado. Mas não te comportas como um hebreu, que, queiras ou não, tu és. Até tua mãe se desgosta com teu comportamento. Ela mesma não sabe explicar a razão pela qual tu não nos lideras na guerra de libertação. És o Libertador pelo qual todos esperávamos. Mesmo Caifás e Anás tinham suas esperanças em ti e aguardavam ansiosamente que fosses ao Templo para seres finalmente revelado e adorado. Então, toda a Nação Judaica te seguiria, ainda que fosse para a morte. Sob teu comando, nós expulsaríamos para sempre os malditos kittins de nossas terras e nos veríamos livres dos abusos deles. E mais: expulsaríamos o maldito Herodes, um idumeu que se atreve a sentar no trono que é teu por herança e por direito. Tu és descendente direto do rei David e só tu tens o direito inalienável de seres nosso rei. Sob teu cetro, todas as nações do mundo deveriam curvar os joelhos diante de nós, o Povo Escolhido do Senhor, bendito seja Seu nome. Mas até agora tu tens ignorado nossa gente, ao menos em seus anseios mais profundos. Caifás e Anás me pediram que conversasse contigo sobre isto. Eles tentaram, mas não conseguiram se aproximar de ti conforme é o desejo de ambos.

Eis o Temido Caifás, numa representação cinematográfica da atualidade.

Caifás, Anás e todos os rabis do Templo não foram registrados com justiça, pelos que escreveram sobre a História do Rei dos Reis.

— É interessante — disse Yehoshua, quando o discípulo parou de falar. — Tenho estado no próprio Templo, em Jerusalém. Tenho falado às gentes lá no Pátio dos Gentios. No entanto, Caifás e Anás não conseguiram vir a mim? O que os espanta tanto assim?

— Tu. Tu os assusta. Tu os acusa de vários crimes. Tu dizes em voz alta e para todos ouvirem que eles são guardiães de regras inúteis, estúpidas, que não são ditadas por esse Pai a quem fazes constante referência. Por exemplo: tu exiges que alguém explique a razão pela qual a Torá determina que não se ajude a alguém durante o sábado nem se ande mais que duzentos metros de distância da casa onde se esteja; que explique porque é permitido comer a comida, mas não prepará-la no sábado; ou beber a água, mas não retirá-la do poço aos sábados. Tu questionas a Lei que manda que se apedreje a adúltera, mas não manda que se faça a mesma coisa com o adúltero. Tu te insurges até no que diz respeito ao pagamento do dízimo, instituído nas próprias Escrituras. O dízimo foi fixado no Gênesis, por Jeovah, logo, no início da Criação. Não tens autoridade para questioná-lo, mas tu o questionas e dizes a bom som que ele só serve para que os rabis do Templo e das sinagogas se sevem e enriqueçam à custa dos fiéis. Isto é uma blasfêmia difícil de se perdoar e tens dado trabalho aos chefes do Templo, pois eles não desejam tua lapidação. Acreditam que sejas mesmo o Messias. Só que ages de modo muito estranho e muito confuso. Tudo o que se contém na Torá, Yehoshua, são regras que devemos obedecer, não discutir. Tu combates as oferendas e dizes em voz alta que o odor do sangue derramado e das carnes queimadas não agradam às narinas desse teu Pai esquisito. E ousas dizer, pelas sinagogas onde pregas, que ao homem não cabe oferecer a Deus o que a Ele já pertence desde o princípio e, por isto, condenas a matança dos animais. Dizes que se o homem não é capaz de dar a vida a qualquer coisa, nem mesmo a uma simples formiga, como ousa tomá-la às criaturas de Deus? E mais: para o estarrecimento de todos os rabis que te ouviram, tu disseste que se eles querem oferecer uma vida ao Criador Supremo, então, que ofereçam a própria e, não, a de outros que certamente não a perdem por vontade. E tomaste o balir desesperado da ovelha ou o berrar do boi no Templo como o grito do inocente cruelmente assassinado. Não vês que chamas aos rabis pura e simplesmente de assassinos? No entanto, eles cumprem fielmente o que está na Torá. A Jeovah sempre agradou o odor das carnes sacrificadas em seu Nome. Está na Torá, que tu bem conheces. Está no nosso livro sagrado. O que disseste, Yehoshua, foi pura blasfêmia, mas parece que não compreendes isto. Afinal, Yehoshua, quem és tu? O que desejas entre nós? Por que nos enganas fingindo ser o que não és? Vim buscar as respostas para estas perguntas, pois são as que atormentam Caifás e Anás. E se queres saber, a nós, eu e meu partido, os zelotes, também.

O chamado injustamente de Apóstolo Maldito falava de igual para igual com seu Mestre e não lhe tinha medo.

O chamado injustamente de Apóstolo Maldito falava de igual para igual com seu Mestre e não lhe tinha medo.

O silêncio pesou sobre os dois. A mata parecia com seus galhos mais pesados que o normal em dias chuvosos. A névoa que pairava preguiçosamente por entre as folhagens subitamente ficou em suspenso, parecendo temer pelo insulto de Judas. Então, com voz pausada, clara e profunda, Yehoshua falou.

— Eu sou quem sou, Judas. Eu não finjo. Eu não minto. Eu não pertenço a ninguém nem a nenhuma religião. Sou de Meu Pai Celestial e só a Ele obedeço. Não me entendeis, todos vós, porque estais por demais impregnados por crenças infundadas e leis estúpidas. Olho em vossos corações e só o que vejo é ódio, ganância, desejo de vingança e mentira. Tudo o que meu Pai abomina. Vós, zelotes, também mentis, Judas. Nenhum de vós é respeitador das regras ditadas pelo Templo através de seus representantes. Todos vós, zelotes, sois contra a corrupção que brilha como uma ferida fétida à luz do sol no Templo e nas sinagogas espalhadas por todo o território que dizeis vosso. E a corrupção é imoral, indecente e até insultuosa dentro daquela construção que tendes a arrogância criminosa de dizer ser a Casa de Meu Pai. Estúpidos! Meu Pai é o Senhor e Dono de tudo o que vossos olhos míopes podem enxergar quando olhais à vossa volta ou para o infinito dos céus, à noite. Lá, naquela escuridão, tanto quanto na escuridão daqui de baixo, há mundos que nem de leve podeis suspeitar. E tudo foi Ele Quem criou. E a tudo Ele preside e concede a Vida. Nada acontece, em nenhum deles, que não seja por Sua Vontade. Questionas-me sobre as dores e os sofrimentos que caem sobre os hebreus e te revoltas contra teu Pai porque a teus olhos míopes te parece que Ele é perverso e mau. No entanto, Judas, eu já disse a todos vós e a quantos puderam-me ouvir, que vossa fé vos cura, mas agora te digo que também vossa falta de fé vos adoece. Quando a Fé desaparece de um povo, Judas, sobrevém-lhe a dor e o sofrimento. Isto, porque a Mentira, a Falsidade, a Ganância, a Gula, a Corrupção de Costumes, de Valores, de Ética e de Moral; o Egoísmo, a Prepotência, a Arrogância, a Falsidade, a Concupiscência e todos os maus vícios dos homens se assenhoreiam do espaço que devia ser da Fé. A Fé, Judas, implica necessária e suficientemente a prática da Bondade, da Caridade, do Perdão, da Justiça, da Humildade e do Desprendimento, tudo isto no comportamento, na emoção e no pensamento daquele que a cultua. Nada disto há entre vós, judeus. Cultuais em primeiro lugar o Egoísmo, em segundo, a Mentira e em terceiro, a Ganância. Em quarto lugar cultuais a mais mesquinha das dádivas negras do coração humano: o desejo de vingança. Mas eu te digo que quando abris espaço para que os maus vícios de vossos corações e de vossas almas mortais dominem vosso meio, o Pai vos dá espaço para que vivais as dores que tantos desejais, pois assim como nada acontece que não seja por Sua Excelsa Vontade, também assim nada vos acontece que não seja por vosso explícito desejo. E o Pai respeita o desejo de todos os seus filhos e de toda sua Criação. É por isto que é Pai. Ele a nada obriga e mesmo vendo que vos atirais de cabeça às experiências mais mesquinhas e mais estúpidas, Ele vos permite que assim façais. Não Lhe cabe a responsabilidade pelas dores que sofreis, mas sim a vós mesmos. Vós vos mentis; vós vos enganais; vós buscais gulosamente o que não tem valor, senão passageiro, senão terreno. Então, que vivais como desejais, pois a Ele isto não importa. Importa o que possais aprender com vossas experiências. Bem podíeis viver sem o sofrimento e a dor, mas não quereis que assim seja. Então, Judas, que vivais como é vosso desejo. O Pai é o Senhor do Tempo e do Espaço. Tereis todo o tempo de que necessitardes para exaurir vossas taças de dores e de decepções. Quando, alquebrados, chorosos e arrependidos vos voltardes para Ele, com um sorriso terno Ele vos abrirá seus magnânimos braços e vos acolherá com o mesmo Amor com que vos criou, pois nosso Pai, Judas, não acolhe em Seu coração senão o Amor.

Zeus imperou por uns tempos entre os judeus. Depois, travestido de Júpiter, também mandou e desmandou entre os romanos. Os judeus o detestavam.

Júpiter não deixa de retratar também ao sanguinário e impiedoso Jeovah tão temido pelos hebreus do tempo de Jesus.

Judas estava com o cenho franzido e se esforçava para acompanhar aquelas idéias que lhe eram totalmente novas e totalmente desconhecidas. Ele só conhecia a Jeovah, tirânico, vingativo, cobrador, exigente e impositivo. Jeovah que se deliciava com o odor do sangue dos animais sacrificados para sua glória e com o cheiro acre de suas carnes queimadas nos rituais do Templo. Jeovah que detestava todos os povos, exceto os judeus, por Ele eleito como seus escolhidos dentre os homens. Jeovah que tinha ditado as Leis a Moisés e todas as outras a seus profetas. E, agora, seu Mestre lhe falava de outro Deus totalmente diferente e todo poderoso, absolutamente todo poderoso. Ele estava zonzo com aquelas novas idéias e não conseguia articular palavra, no momento.

Yehoshua, calado, observava não somente o semblante físico de seu discípulo, mas a aura que o envolvia e que derivava de seu Corpo Astral. Ela estava cheia de cores vivas, que relampejavam como coriscos, em todas as direções. Não eram cores sujas, mas vivas. No entanto, a maioria era de tonalidades derivadas do vermelho, a cor da raiva. Seu discípulo estava raivoso e confuso. Yehoshua entristeceu-se quando percebeu que naquela aura não havia qualquer laivo de azul ou de verde, as cores do Amor e da Alegria, respectivamente. “Ao menos a sua raiva é limpa” pensou o Mestre, meneando a cabeça, tristemente. Ele via que a impregnação doutrinária do Templo e das Sinagogas sofrida por seu discípulo tinha sido demasiadamente forte, mas era necessário para que perdesse completamente a memória espiritual com que se tinha preparado para descer junto com ele.

— Yehoshua — disse Judas, retomando sua presença —, quem és tu, de verdade? Acabas de me dizer que és de Teu Pai Celestial. Tudo bem, que sejas d’Ele. Mas quem és tu, de verdade?

— Eu já vos disse, a todos vós, meus discípulos, em outra ocasião, não me ouviste? Eu sou o Alfa e o Ômega. Sou o Princípio e o Fim. Sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Se não vierdes por mim, que sou vosso princípio, jamais chegareis ao Pai, que é vosso Fim Último. Onde está a dificuldade em compreender isto que já disse a todos vós, antes?

— Tu me dizes que és nosso princípio. Que princípio é esse, se quem a tudo criou, logo, é corretamente o Princípio de Tudo, não foste tu, mas o Teu misterioso Pai?

— Ele não é meu Pai, somente, Judas. Ele também é teu pai e o pai de todos. Por que não entendes isto? E eu sou vosso princípio, não somente de vós, judeus, mas de todos os homens em todas as partes, porque se não for por meus ensinamentos; pela prática do que eu vos ensino a cada dia e a cada momento em que estais comigo, a prática da Caridade, do Amor, da Bondade e do Perdão, jamais chegareis até Ele. Por isto tenho dito que ninguém vai ao Pai senão por mim.Onde está a dificuldade em me entender? 

— Se apenas tu és esse… Caminho, então, por que nos arrebanhastes como teus seguidores?

Judas não queria se dar por rendido, embora estivesse com seus pensamentos a mil por hora. Conversar com Yehoshua era deveras muito difícil para qualquer um. Talvez por isto os demais companheiros seus não se atrevessem a questioná-lo. Ele tinha as respostas na ponta da língua e seus argumentos eram, sempre, aparentemente perfeitos, quando não de uma ferinidade desconcertante e humilhante. Os esbirros a serviço do Governador romano, disfarçados de emissários do Templo, que o dissessem. Yehoshua lhes devolvia as armadilhas melífluas sem qualquer dó nem qualquer piedade. Era duro com eles e os humilhava sem remorso. A reposta do Mestre tirou-o de seus devaneios.

— Porque preciso muito de vossa colaboração para firmar minha doutrina nos corações dos homens, não somente dos judeus. Preciso que os habitantes dos mais longínquos rincões da Terra conheçam meus ensinamentos e aprendam a Lição e a Mensagem que lhes trouxe: Humildade, Caridade, Amor, Perdão. Vós sereis minha voz depois que eu me for deste mundo. 

— Crês, inclusive, que eu serei também um arauto de tua mensagem? Se crês nisto, então eu te decepciono aqui e agora. Não vou sair pelo mundo pregando esta história absurda de que há um Deus Supremo, maior que Jeovah, e que é o Pai de todos e, por isto, nos tem como iguais. Nem que leves mil anos jamais me convencerás que nós, judeus, somos iguais aos malditos kittins, Yehoshua. E se não serei teu arauto, então, é melhor que eu me vá. Escolhe outro para meu lugar. Volto para o meio dos zelotes que é àquele grupo que pertenço de corpo e de coração.

— Não vais a lugar nenhum, Judas! — Bradou Yehoshua e sua voz de tom imperioso e peremptório sustou os passos ao surpreso zelote, que se voltou para olhar com espanto para a face dura de Yehoshua. 

— Como dizes? — Questionou ele a seu Mestre, também com voz dura e de tom ameaçador.

— Digo que não me deixarás por mais que assim desejes. Tens uma missão dura a cumprir e cumpri-la-ás gostando ou não! — e o olhar de Yehoshua era duro; seus olhos faiscavam de indignação. Desagradava-lhe a arrogância do discípulo diante de si. Gostava dele, mas não podia suportar seu desrespeito e seu comportamento insultuoso. Se se curvasse à arrogância e à violência de Judas com toda a certeza perderia o respeito dos demais que o seguiam ainda relutantes. Judas, certamente, iria contar-lhes o que tinha acontecido ali e isto seria um contratempo que não podia acontecer.

Os dois homens permaneceram de pé, olhando-se com olhares duros. Uma vontade divina se confrontando com uma vontade humana que, ainda que sendo isto, nem por menos se dava.

— O que vais fazer para me deter, Yehoshua? Não quero mais estar a teu serviço. E se não quero algo, não há quem me possa forçar. Nem mesmo tu ou esse Teu Pai que não reconheço como meu também — desafiou o discípulo, segurando o cabo da sica que trazia à cinta. Yehoshua fixou a mão do discípulo crispada na arma e compreendeu que estava enfrentando um momento decisivo, que poderia mudar toda sua História adredemente planejada para acontecer.

— Por que seguras o cabo de tua sica? Por acaso, pensas em me matar? — Questionou o Mestre, sempre olhando com olhar duro, de reprovação, para seu discípulo rebelde.

— Tudo depende de como tu te comportares de agora em diante, Yehoshua. Não mais me considero teu discípulo. Aliás, pouco aprendi contigo. Falas muito, mas tudo fora do que devia ser falado. Não quero ferir-te, mas eu o farei sem remorso se tentares me deter por quaisquer meios que seja.

— Não preciso de violência para te segurar a mim, a fim de que cumpras com o que tens de cumprir. Não o farás consciente, mas assim como eu vim para cumprir uma missão, assim também tu vieste justamente para me ajudar a cumpri-la. E terás de desempenhar tua tarefa até o fim, por mais amarga que ela, depois, venha a te parecer.

Judas deu dois passos lentos em direção ao Mestre. Tinha o cenho franzido e seu olhar, agora, era uma interrogação. As palavras de Yehoshua o tinham pegado de surpresa. Agora mesmo é que não estava compreendendo nada. Aproximando-se até quase tocar o corpo de seu Mestre e mirando-o com olhar duro e inquisidor nos olhos, com voz rouca Judas perguntou:

— O que queres dizer com isso? Vamos, fala!

— Quero dizer que morrerei de modo humilhante devido a uma decisão tua, Judas. Tu me entregarás aos meus algozes. E é necessário que assim seja, para que se cumpra Minha Vontade e tua missão, pois só por isto vieste a este mundo comigo.

Judas permaneceu calado, olhando perscrutadora e escrutinadoramente a face do Mestre.

— Não te entendo. Explica-te melhor. Estás dizendo que eu… eu vou-te trair? Estás me dizendo que sou um traidor???

A raiva explodiu em Judas. Ele poderia aceitar qualquer acusação, mas não aquela. Yehoshua acabava de se candidatar a defunto.

— Sim. Estou. Tu me trairás, mas não és um traidor conforme o conceito vulgar. Vais agir levado por tuas sinceras, mas errôneas, convicções. Mas não te preocupes, pois desde já tu estás perdoado pelo que vais fazer. Agora, volta ao meio dos outros e cala-te sobre o que conversamos e principalmente sobre o que te revelei.

A voz do Mestre não mais estava dura nem imperiosa. Estava serena e toda a sua postura era de pura serenidade e calma. Uma calma augusta, superior, que fez a mão do discípulo revoltado abandonar o cabo do punhal. Aquelas palavras lhe reverberavam no íntimo, mas a postura doce e altiva de Yehoshua o inibiu de dizer o que mais fosse.

— Eu não vou trair-te, Yehoshua. Posso até matar-te com minha sica, mas com certeza, pelo sagrado nome de Jeovah, bendito seja ele, eu não cometerei tamanha baixeza. Entregar-te aos kittins? Logo a eles? Jamais. Fica sossegado quanto a isto.

Yehoshua sorriu com doçura e pousou a mão suavemente no poderoso ombro de seu discípulo.

— Entre todos os homens que escolhi para me seguir, de ti é que mais me orgulho, Judas. És sincero e tens convicções fortes. Erradas, mas fortes. Por elas, tu farás o que vieste fazer. Tu me auxiliarás como nenhum outro, no duro caminho que terei de enfrentar. Nenhum dos outros discípulos teria coragem nem força suficientes para cumprir com esta missão cruel. Mas não te esqueças jamais: os homens vão condenar-te pelos séculos adiante, mas eu te perdôo desde já e te agradeço pelo desprendimento que tiveste, quando decidiste vir exatamente para fazer o que todos recusaram. Tua memória será detratada pelos que se seguirem aos discípulos de agora. Eles te farão o maior e mais abjeto criminoso de todos os milênios. Mas tu os perdoarás, pois aonde vais estar, comigo, compreenderás que eles continuarão sem saber o que fazem…

Judas permanecia calado e olhando sem compreender o que ouvia. Sua ira tinha arrefecido, mas sua decisão de não mais seguir aquele Mestre de idéias tão diferentes das suas não mudara. Afastar-se-ia daquele louco, antes que sua loucura o contaminasse.

— Não mudes o caminho, Judas. Segue de volta ao meio de nossos companheiros. Quando for chegada a hora, tu e eu saberemos. Mas somente nós. Agora, vai e que nosso Pai te ilumine e te esclareça a Verdade.

“És um louco se pensas que vou-me juntar àquele grupo de estúpidos que tu juntaste ao teu redor. Eles são teu problema, não meu. Adeus, Yehoshua. Por um tempo estive enganado contigo, mas acabou”.

E assim pensando, sem dizer uma única palavra, Judas rodou nos calcanhares e se embrenhou mata a dentro. Não, ele não voltaria ao grupo. Estava decidido: ia direto ter com os Rabis. Buscaria neles a orientação certa sobre o quê fazer. Yehoshua era um dilema cruciante. O Templo não poderia nem de leve atentar contra sua vida, pois o levante do povo seria certo. Embora grande parte dos hebreus não estivesse ao lado de Yehoshua e até discordasse dele, nem por isto deixavam de reconhecer e admirar seus feitos milagrosos. E se tivessem de escolher entre dar apoio às rapinas do Templo e a Ele, que pregava e agia com toda humildade e sinceridade, além de realizar prodígios que nenhum rabi jamais realizara, certamente que optariam sem hesitar em ficar a seu lado.

Os únicos que não hesitariam em dar fim à vida de Yehoshua seriam os romanos, mas ele, Judas, jamais se poria ao lado dos desgraçados…

O discípulo rebelde não vira, mas durante todo o tempo Gabriel estivera com as mãos estendidas sobre sua cabeça, dominando suas recordações espirituais para que não tomasse consciência do que tinha decidido fazer antes de descer ao mundo dos encarnados. Esta tomada de consciência poderia pôr por terra todo o cuidadoso planejamento feito pelo Mestre antes de encarnar como Yehoshua. Após a partida impetuosa do discípulo rebelde, Gabriel deixou-se ver por Yehoshua, que tinha os olhos cheios de lágrimas e olhava desconsolado para o caminho por onde Judas tinha-se ido.

— Eu não te invejo, Michael — disse o Arcanjo, sentando-se numa pedra acima da cabeça do Mestre.

— Nem eu — disse Yehoshua com voz apagada. — Ele me ama e eu a ele, mas este drama tem de acontecer a qualquer custo...

Judas, no mundo Espiritual, era um dos mais apaixonados seguidores e trabalhadores que serviam ao Rei dos Reis…