Ele era rebelde, orgulhoso e mais que todos, JUDEU. Por isto, por ser convicto de que pertencia ao Povo Escolhido, não curvava os joelhos diante de ninguém.

Ele era rebelde, orgulhoso e mais que todos, JUDEU. Por isto, por ser convicto de que pertencia ao Povo Escolhido, não curvava os joelhos diante de ninguém.

Judas parou de chofre, olhando a patrulha que, agora, dirigia-se a passo rápido em sua direção. Permaneceu de pé, estudando suas possibilidades que eram, na verdade, nenhumas. O decurião sustou o cavalo bem diante do judeu e por um momento permaneceu calado, enquanto Judas era cercado por seus dez comandados. Todos apontavam a afiada ponta de seu “pillum” para o discípulo de Yehoshua.

— Quem és, judeu?

— Sim, sou judeu com muito orgulho e me chamo Judas Iscariotes — respondeu o discípulo, com olhar assassino para o comandante. Este fixou a sica na cintura dele e sorriu.

— Zelote, hein?

— E se eu for? — desafiou o impulsivo discípulo de Yehoshua.

— Estás preso em nome do Procurador Pôncio Pilatus — rugiu o decurião diante do que sentiu como insulto à sua autoridade. Judas compreendeu, tarde demais, que agira errado

— Esperem! Eu não fiz nada! Estou indo para Jerusalém encontrar-me com os sumos sacerdotes…

— Não nos interessa teu destino, judeu. De agora em diante és prisioneiro de Roma e cabe ao Procurador decidir sobre teu destino. E já que és zelote, creio que terminarás teus dias em uma das muitas minas de Roma…

— Eu sou judeu! Devo ser julgado pelas leis judaicas!!! — bradou o Iscariotes, enquanto três homens lutavam com ele para dominá-lo e amarrar-lhe os braços. Judas não se entregou facilmente e os romanos tiveram muito trabalho para o subjugar. Então, furiosos, arrastaram-no por mais de três quilômetros até chegarem a um bosque. Lá, amarraram o prisioneiro ao tronco de uma árvore e procuraram um galho grosso que cortaram. Trabalhando com afinco logo tinham uma canga grotesca que puseram sobre os ombros do Iscariotes e nela prenderam-lhe os pulsos. Curvado sob o peso do galho ainda verde, Judas foi estugado a caminhar. Se afrouxava o passo dois ou três “pillus” logo o faziam acelerar a marcha. Suava em bica e já sentia muita sede, mas sabia que os kittins jamais se incomodariam com sua sede. Teria de se aguentar até chegar ao palácio de Pôncio Pilatus. Ali, talvez, lhe dessem de beber. 

Uma decúria romana a pé. Ela também fazia a ronda montada a cavalo.

Uma decúria romana a pé. Ela também fazia a ronda montada a cavalo.

Os romanos não se dirigiram diretamente a Jerusalém. Ao contrário, sua patrulha se estendia por Acarão, Betsames, Belém e só então, Jerusalém. A marcha forçada foi quebrantando as forças ao iscariotes que, estoicamente, não emitia nenhum gemido, mesmo quando caía e era estugado a se levantar sob os pontaços desferidos pelos romanos impiedosos.

O sol já estava bem declinado quando a patrulha chegou a Acarão. Judas mal se mantinha de pé. O decurião que comandava o grupo ordenou que lhe dessem água, depois de dessedentarem os cavalos, e o amarrassem a um tronco para ali passar a noite. Ao relento, Judas compreendeu que ia sofrer muito frio, pois as noites naquela época eram geladas. Mas por mais que tentasse, não vislumbrava meio de se safar das amarras. E foi assim que a escuridão desceu sobre ele e os animais. Os odiados kittins estavam bem abrigados em uma casa que tinham invadido sem cerimônia nenhuma.

Meia-noite. A fome superava o cansaço e Judas não conseguia dormir. O frio era intenso. A temperatura beirava os 15 C e ele tiritava e sentia dores em todos os seus músculos. Curvado sobre si mesmo tentava por todos os meios aquecer-se inutilmente. A noite lhe parecia infinita, interminável. Lembrou-se de Yehoshua e de que ele dormira dentro de uma caverna, em situação muito parecida com a dele, exceto que não estava amarrado nem tinha sido obrigado a caminhar mais de quarenta quilômetros a pé e em marcha forçada. Mesmo assim, dormir dentro da mata, em uma gruta, sobre uma lage e embrulhado com uma manta simples feita com pelo de carneiro não era muito diferente de sua situação. “Como ele podia suportar o frio e o desconforto?”  pensou, enrodilhando-se como pôde no chão gelado.

Não sabia dizer se tinha sido um sonho ou apenas um delírio, mas o certo é que em dado momento um vulto se esgueirou por entre os animais e veio até ele. Segurou-lhe a cabeça e lhe deu a beber uma caneca de vinho bem quente e muito forte. A bebida desceu aquecendo-o por dentro e o calor se espalhou rapidamente por todo o seu corpo. Com dificuldade tentou abrir os olhos cansados, mas só viu um vulto que lhe pareceu conhecido. Desmaiou.

Acordou com uma dolorosa espetada nas costelas. Era a ponta de uma lança manejada por um gorila romano gigantesco. Um kittin que parecia divertir-se com o ferir. Sentou-se e se admirou de que não sentisse nem cansaço nem dores, como sentia quando ali tinham chegado.

O legionário romano e seu temido pillum.

O legionário romano e seu temido pillum.

— Estás pronto, judeu? Terás uma dura marcha pela frente, hoje. Ah, sim. Se fraquejares e caíres serás arrastado até que teus ossos se desprendam de teu corpo. Não pararemos para te socorrer. Então, trata de ficar de pé.

O romano aplicou uma tremenda pancada com a lança na cabeça do discípulo de Yehoshua, fazendo-o entontecer por um momento. Restou uma grande dor de cabeça, depois, quando cambaleando ele se pusera de pé. Não lhe deram o que beber nem o que comer. Simplesmente amarraram-no à sela de um dos soldados e o arrastaram atrás dos cavalos que trotavam estrada a fora.

Seus captores se divertiam e faziam apostas entre si sobre quanto tempo o prisioneiro aguentaria de pé. “Vai cair antes de chegarmos à metade do caminho para Betsames” dizia um. “Não, ele é durão. Aposto que vai aguentar até Besames, mas de lá não passa”. Um terceiro, contudo, apostava que Judas chegaria a Belém, mas findaria ali. Somente seus ossos chegariam a Jerusalém. E apostavam moedas entre si. Apenas o decurião não dizia nada nem participava das apostas. Mantinha-se à frente, calado, atento ao caminho, pois sabia que os sicários não brincavam e bem podiam atacar de surpresa. E se levavam um deles prisioneiros, a possibilidade de serem atacados era de mil a uma. Era difícil saber de onde surgiriam. Exímios conhecedores daquelas paragens, eles atavacam com rapidez e sumiam como fumaça. Os kittins não o confessavam, mas todos sentiam medo de se deparar com os guerrilheiros judeus. Além de hábeis no manejo das malditas “sicas”, também eram aguerridos e vigorosos. Lutar corpo a corpo com eles era bater-se contra um tigre. Mesmo sendo soldados treinados na arte do combate corpo-a-corpo, muitos tinham perecido no confronto e o decurião sabia disto.

Judas corria para poder acompanhar o trote dos cavalos. O medo de que eles mudassem de idéia e dessem nas ilhargas das bestes pondo-as a galope o preocupava. Não teria como acompanhar a corrida e logo estaria despedaçado. Mas os romanos não tinham pressa. Era uma patrulha e esta necessitava de andar devagar, atenta aos detalhes da estrada e a seus viandantes.

Foi assim que adentraram Belém e foram vistos por Tiago Menor. Ele reconheceu de imediato seu colega, Judas Iscariotes, e correu angustiado à procura de Yehoshua. Quando se viu diante do Mestre, arfante, quase sem fôlego, conseguiu dizer o que tinha visto. Mas para sua surpresa, Yehoshua apenas o escutara, acenara um “sim” com a cabeça e retomara a conversa com as mulheres. Tiago Menor permaneceu de pé, esperando angustiado que seu Mestre fizesse alguma coisa por Judas. Mas Yehoshua continuava indiferente à sua expectativa. Então, o apóstolo correu até os fundos da casa onde estavam os demais companheiros. Narrou-lhes o que vira e alvoroçou a todos. Pedro foi o mais afoito e conclamou o grupo a ir libertar Judas Iscariotes, mas quando já se aprontavam para a empreitada Yehoshua chegou até eles. Parou e os observou atentamente.

— Aonde pensais ir? — Perguntou e sua voz dominou a balbúrdia e o buliço agitado de seus seguidores.

— Prenderam o Iscariotes. Vamos…

— Não ireis a lugar nenhum sem minha autorização. O Iscariotes não será ferido. Ele está em missão e sua missão é necessária para minha história. Sentai-vos e esperai. Onde está vossa Fé no Pai Eterno? Ele sabe o que é melhor para seus filhos e, certamente, dará a Judas o que ele fez por merecer.

Petrificados pelo pasmo, os discípulos permaneceram de pé, mirando sem compreender a face de Yehoshua.

— Mas o Iscariotes é um dos nossos… — Balbuciou Simão, olhando para os outros discípulos do Mestre em busca de apoio.

— E continuará sendo, em que pese seu desejo em contrário — sentenciou Yehoshua, convidando a todos a se sentar à sua volta. Relutantes, eles o obedeceram.

Ele pregava uma mensagem que as mentes humanas daquela época não tinham como assimilar.

Ele pregava uma mensagem que as mentes humanas daquela época não tinham como assimilar.

— Escutai, vós que me seguis para aprender. Os acontecimentos que vos parecem desastrosos e assombrosos não são mais que incidentes, fruto mesmo de vossas tomadas de decisão. Judas está zangado comigo e desertou do grupo, mas se esqueceu de considerar que eu não não desertei dele, assim como não deserto de nenhum de vós. Por decisão exclusiva sua, Judas marchou ao encontro dos kittins. Agora, tendo mudado seu caminho de vida, terá de enfrentar sozinho a nova senda que se lhe foi apresentada pelas injunções do ódio que cultivais estupidamente entre vossas nações. Mas não temais por sua vida. Ele não será punido com a morte, pois tudo o que fazeis, vós, homens, o Pai aproveita para usar em favor de Seus planos, seja no sentido da evolução individual, específica, seja no alavancamento da evolução de todo um grupo humano. Nada se perde de vossas produções. O Pai aproveita tudo e busca redirecionar os resultados em benefício vosso. Seus caminhos, aos olhos humanos, pode parecer confusos e desconexos, mas em verdade, em verdade vos digo que o Pai jamais erra. Vede que os resultados das carnificinas com que vos premiais a vós mesmos, as guerras estúpidas entre nações, sempre redundam em posteriores melhoras para todas as comunidades envolvidas. Foi assim, é assim e assim será por todo o vosso futuro. Esta melhora não é alcançada pelo homem por somente seus esforços, que nunca são dignos, ainda quando arrependidos da estupidez que cometeram. Esta melhora é resultante dos esforços do Pai para vos reconduzir ao Bom Caminho, o da Fraternidade, do Perdão e o da União Amorosa a que chamais de Colaboração. É isto que leva as nações inimigas a, passada a estupidez das batalhas e a fúria das guerras, cooperarem no sentido de encontrar um meio de conviverem em paz. Vós escolheis, sempre, o pior caminho, mas isto é escolha vossa. O Pai respeita a escolha, mas não vos entrega às mãos vossos destinos, pois sois muito crianças para cuidar de tão complexo dilema. Então, aceitai a escolha feita pelo Iscariotes. Ele nos retornará. Foi para esperar por ele que aqui eu vos trouxe. Ele é o homem com quem vim encontrar-me. Infelizmente…

Yehoshua interrompeu o que ia dizer e permaneceu absorto, olhando sem ver alguma coisa diante de si. Então, com um profundo suspiro, pôs-se de pé e se retirou, deixando os demais desorientados com o que tinham acabado de ouvir e não entender e, agora, com aquele comportamento estranho.

A parada em Belém foi só para que os cavalos e os soldados se dessedentassem. Judas não teve direito a beber água, mas, estranhamente, ainda que estivesse coberto de suor e arfasse pelo esforço quase sobre-humano de ter corrido o tempo todo para acompanhar as montarias romanas, não sentia sede. 

O soldado aproximou-se dele com um sorriso perverso na face, mas aos poucos o riso se desfez, dando lugar a um olhar de confusão e perplexidade. O kittin esperava encontrar Judas caindo aos pedaços, mas diante dele estava um judeu que o olhava com olhar injetado de ódio e nem um pouco cambaleante. Como podia ser? Nenhum homem normal teria aguentado aquela corrida com a canga sobre os ombros. Ela era pesada, muito pesada. Faria o mais forte dentre eles, romanos, dobrar os joelhos já nos primeiros 60 mil côvados (60.000 X 45 cm = 2.700 m), se fosse obrigado a correr ao passo do trote do cavalo. O soldado permaneceu olhando, pasmo, para o judeu que o assombrava. Então, rodando nos calcanhares foi ter com o decurião.

— Comandante — disse, perfilando-se militarmente. — Aquele judeu tem parte com Hades.

O decurião olhou-o com o sobrecenho levantado.

— Ele… Bom, é melhor que venha vê-lo com seus próprios olhos.

Curioso e intrigado, o decurião dirigiu-se até onde estavam as montarias. Lá, de pé, encontrou Judas Iscariotes. Estudou-o cuidadosamente e não pôde compreender como é que o judeu ainda estava de pé e ainda desafiador. O comandante da patrulha não disse nada. Rodou nos calcanhares e voltou para junto dos outros soldados.

— Dêem-lhe água e alimentem-no. Ele será de grande interesse para o Procurador.

Judas se espantou quando lhe retiraram a canga e lhe deram de beber e de comer. Então, quando os soldados se puseram em marcha, ele seguiu ainda amarrado, mas sem ser obrigado a correr. Percorreu os dez quilômetros folgadamente. Entraram em Jerusalém e ele foi conduzido diretamente ao Palácio de Pôncio Pilatos. O Procurador já os observava de seu quarto, com o cenho franzido de preocupação. O que teria havido para que seus soldados arrastassem um judeu por entre aquele povo espinhento? Normalmente ele mandava que os rabis usassem os mercenários a serviço do templo executar as prisões. E os presos eram transferidos para as masmorras de seu palácio à noite, quando era menor a possibilidade de que a população tomasse conhecimento da ocorrência. Se o decurião trazia um judeu amarrado e arrastado à luz do dia e à vista da população judaica certamente era porque o assunto devia ser deveras muito sério. Pilatos desceu apressado para o grande salão onde promovia as reuniões e os julgamentos. Levou consigo sua esposa, Cláudia Prócula. Sua presença impunha respeito porque mostrava a todos que eles eram unidos e isto importava muito aos olhos dos judeus. Na verdade, ele desprezava a esposa porque, por intriga, fizeram-no crer que ela o traía.

Anás e Caifás também viram Judas sendo arrastado pela patrulha romana e se indignaram. Era um de seu povo e isto não podia ser tolerado. Anás chamou Caifás para dentro do palácio. Paramentaram-se às pressas e foram imediatamente, pela passagem secreta que ligava os dois palácios, àquele do Procurador. Foram conduzidos ao grande salão onde aconteciam as grandes decisões entre os regentes daquela nação.

— Senhor — disse Caifás com somente um leve curvar de cabeça diante do Procurador — um homem de nosso povo vem sendo trazido preso e amarrado por uma patrulha vossa. Do que é ele acusado?

— Como posso saber, diabos? — Rugiu o Procurador, irritado com aquela arrogância que sempre impregnava os rabis judaicos quando lhe dirigiam a palavra. Não se ajoelhavam diante dele, como deveriam fazer. E já havia aprendido que mesmo sob tortura, jamais o fariam. Pilatos não cedia à tentação de mandar matá-los a chibatadas diante de sua cadeira imperial porque César impunha que não houvesse conflito na província. Ele sabia que uma guerra com os judeus abalaria toda a região, pois aquele povo era mau exemplo para as outras províncias. Morreriam, até à última criança, mas nunca cederiam diante de Roma, se uma rebelião explodisse. E isto estava sempre a ponto de acontecer.

— Vamos esperar que Drusus nos traga o prisioneiro — disse Pôncio com modos bruscos. — Então, veremos do que se trata. Agora, por favor, sentem-se e aguardem.

Vinte minutos depois entraram o comandante decurião, Drusus, e dois soldados escoltando Judas, que vinha preso por uma coleira ao pescoço, mãos amarradas pelos pulsos e à frente do corpo. O comandante decurião cumprimentou o Procurador e fez seu relato.

— Este judeu é um sicário. Nós o encontramos na estrada de Besames portando uma sica, sinal de que é integrante da seita dos sicários.

Pilatos olhou escrutinadoramente para Judas, que o encarava desafiadoramente. Caifás sentiu o perigo para o incauto discípulo de Yehoshua e pigarreou, para chamar a atenção do Procurador.

— Esse homem trabalha para o Templo, Procurador. Ele estava a nosso serviço, quando foi intempestivamente capturado por sua patrulha.

Judas olhou para Caifás que disfarçadamente lhe piscou um olho. Judas entendeu a piscadela e se calou, abaixando a cabeça diante do Procurador que o rodeava estudando-o atentamente.

— Veio montado a cavalo? — Perguntou, olhando para seu comandado.

— Não, senhor. Veio a pé. Por todo o trajeto. Mas, como pode ver, parece que não sente cansaço.

— É porque ele integra o grupo dos que seguem o rabi Yehoshua. Ele é um dos doze escolhidos, mas funciona como nosso espião junto ao grupo. Queremos descobrir quais as verdadeiras intenções do estranho rabi, que prega às multidões incentivando-as à rebeldia contra nossa religião — disse Anás, apressadamente. Sabia que Pilatos estava de olho nas andanças de Yehoshua e, principalmente, na multidão que arrebanhava atrás de si e que crescia cada vez mais, uma séria preocupação para o Governador.

Pilatos voltou-se para Anás e rispidamente rebateu o seu comentário.

— Pouco se me dá as vossas querelas religiosas, judeus. O que me interessa é saber se esse rabi que vos preocupa age de modo a incitar uma rebelião contra nós. Até agora meus espiões não captaram nenhuma palavra, nos pronunciamentos dele, que indicasse desejar sublevar a multidão. Enquanto não houver este perigo, não me interessa o que ele faça. Se perturba vossa religião o problema é vosso, mas quero lembrar-vos que vós não tendes o poder de mandar matar ninguém, exceto vossas mulheres adúlteras. A morte aos homens cabe somente ser decretada por mim, representante do Imperador nesta província. Portanto, nem penseis em agir contra o homem.

— Só o faremos para prendê-lo e arrastá-lo ao vosso julgamento, Procurador — disse Anás abaixando a cabeça para que Pôncio Pilatos não lhe visse a raiva na face.

Ignorando o sumo sacerdote, Pilatos interrogou Judas.

— És mesmo do grupo do tal rabi?

— Eu era. Mas tinha-o abandonado e vinha ao templo prestar contas de meu trabalho aos rabis, quando os soldados me fizeram prisioneiro. E aqui estou, contra minha vontade, que fique claro.

Pilatos sorriu um sorriso mau e olhou capciosamente na face do orgulhoso e rebelde discípulo de Yehoshua.

— Fala-me desse tal rabi que andaste seguindo.

— E o que desejas saber? — A arrogância de Judas não passou despercebida a Pilatos, mas politicamente ele a relevou. Estava muito interessado em conhecer sobre o rabi da Galiléia. 

— Chegou aos meus ouvidos que teu povo o reconhece como o Rei dos Judeus. O verdadeiro. Como sabes, já que és zelote, vossa gente não suporta Herodes porque ele é idumeu. Esse tal rabi… Ele pretende mesmo ser vosso rei?

— Não — foi a resposta sucinta de Judas, que olhava altivamente para o Procurador romano.

— Então, o que ele deseja? Por que há uma multidão que cresce cada vez mais a segui-lo? Ele sabe que isto é perigoso?

— O que ele deseja eu não sei. Pensei que se tratava do Messias esperado pelo meu povo, mas com toda a certeza, não é. Prega uma religião nova… Com um Deus estranho, que nos vê, a nós, judeus, e a vós, romanos, assim como a todos os demais povos, como irmãos.

— Irmãos?! Nós e vós… Irmãos? Certamente que esse rabi é louco! Nunca seremos irmãos. Somos superiores a quaisquer povos e é por isto que somos seus conquistadores. Irmãos!

E Pilatos cuspiu no chão com desprezo. Judas também o fez e os dois se encararam. Percebendo o perigo, novamente Anás interveio.

— Este assunto de religião certamente não interessa ao Divino César, mas a nós ele é crucial. Não podemos permitir que um agitador agite o povo contra nossa tradição. Nosso deus é único e não há outro maior que Ele, bendito seja seu nome.

Pilatos voltou-se para Anás com olhar injetado de raiva.

— Só Júpiter é deus. O resto é tolice.

— Mas vosso Júpiter — explodiu sem se conter, o prisioneiro — não faz os milagres que eu vi o Deus de Yehoshua fazer. Ele curou os paralíticos e fez centenas de cegos enxergar. Nunca houve tantos milagres entre os homens, na terra. Quando foi que o vosso deus fez algo ao menos semelhante? 

Duas tremendas bofetadas estalaram nas faces de Judas Iscariotes, mas ele, em lugar de curvar a cabeça, encarou com olhar assassino o poderoso Procurador romano. Sabia que estava a um fio de cabelo de ser mandado crucificar, mas jamais se curvaria ao desgraçado. No entanto, Anás aproximou-se de Pilatos, pigarreou e sussurrou-lhe ao ouvido:

— Seria melhor que fizésseis desse sicário também um espião vosso. Ele não gosta do rabi, como já deixou claro. Sua vigilância será bem mais efetiva do que aquela de nossos espiões, vossos e nossos. Judas está entre os que privam da intimidade do agitador e pode ouvir seus planos, assim como pode interrogá-lo para descobrir suas verdadeiras intenções.

Pilatos afastou-se do prisioneiro e com um aceno chamou Anás para segui-lo. A sós e falando em voz baixa, conversaram.

— Gostei de vossa sugestão, rabi. Mas não vejo como convencer aquele homem a se tornar meu colaborador…

— Dinheiro, Procurador. O dinheiro compra qualquer dignidade e vilipendia qualquer alma…

Pilatos sorriu um sorriso mau. Dispensou o sumo sacerdote com um gesto de mão e retornou devagar até Judas.

— Estou disposto a te perdoar os insultos que me fizeste e pelos quais posso mandar que te dependurem na cruz, se fizermos um trato.

Judas olhou para Anás, que fez um leve gesto de assentimento com a cabeça. Então, voltou os olhos para o homem diante de si e com o queixo intimou-o a falar. Pôncio avermelhou-se até à raiz dos cabelos, mas se conteve, ainda que com muito esforço.

— Dou-te trinta siclos de prata, dinheiro que tu não ganharias em toda tua vida miserável nem em outra que viesses a viver, desde que me ponhas a par do que anda fazendo o tal Yehoshua. Qualquer informação que me dê motivos para mandar matá-lo será muito bem recompensada. Que tal?

Judas tornou a olhar para Anás que, novamente, fez o gesto de assentimento. O discípulo permaneceu pensando. Não lhe agradava ser um traidor, mas considerou que Yehoshua jamais seria ameaça ao romano. Ele sempre deixava bem claro que não se interessava pelo reino hebraico nem dava a mínima importância ao domínio romano sobre os judeus. Seu interesse se voltava todo para o combate aos maus vícios introduzidos na Torá e no comportamento dos grãos-sacerdotes do Templo. Sorriu, zombeteiro, e assentiu com um aceno de cabeça.

— Por que ris? — Inquiriu o Procurador, desconfiado.

— Porque terei a oportunidade de punir aquele homem. Ele traiu toda a nossa fé e engana nosso povo fazendo-se passar por quem não é — disfarçou Judas. O Procurador olhou-o atentamente por um momento e, então, mandou que o soltassem. Quando Judas já estava desembaraçado das cordas, Pôncio lhe disse:

— Estás livre, mas nem te iludas quanto a eu não mandar prender-te de novo. E se eu der tal ordem tu não terás como escapar, estás compreendendo?

Judas nada disse. Apenas olhava altivamente para o irritado romano. Gozava intimamente aquele momento único em que tinha oportunidade de demonstrar todo o seu desprezo pelos kittins. Talvez não tivesse mais outra oportunidade como aquela. Curvou levemente a cabeça e rodou nos calcanhares para se afastar, mas uma violenta cutilada aplicada na parte interna de suas pernas fez que caísse de joelhos careteando de dor.

— Nunca saias da presença do Procurador de Roma sem que ele te ordene ou te autorize fazê-lo, judeu! — Bradou o decurião. Tinha sido com seu pillum que ele havia golpeado a curva das pernas de Judas, mas agora sua mão segurava firmemente o cabo de seu perigoso gládio. Entretanto, com um sorriso de desprezo e um aceno de cabeça, Pilatos ordenou ao soldado que deixasse o judeu se ir. Judas se pôs de pé e fuzilou com os olhos o comandante decurião diante de si. “Tu morrerás por isto, infeliz” e com este pensamento saiu do salão, dirigindo-se para o enorme pátio que dava acesso ao portão que se abria para o interior da cidade. Saiu sem ser incomodado e foi direto para o Templo, esperar pelos dois sacerdotes que não demoraram a chegar.

Reunidos, agora no palácio de Caifás, Judas lhes informou que tinha desertado do grupo de Yehoshua. Os rabis ouviram seu relato em silêncio e quando ele terminou de falar, Anás lhe disse:

— Não podes desertar, Judas. Agora, és oficialmente um espião de Pôncio Pilatos. Só poderás sair do grupo se ele permitir e isto só vai acontecer quando estiver absolutamente convencido de que Yehoshua não representa perigo para Roma, o que vai ser difícil, pois o homem arrasta multidões atrás de si. Os olhos de Pilatos são os olhos de César, mas ainda que possa ver de longe o que está acontecendo, não pode ouvir senão através do que lhe informam seus espiões, entre os quais, agora, tu contas. 

— Nunca entregarei um irmão de raça a um desgraçado romano. Mesmo que este irmão seja Yehoshua, o falso Messias. 

Anás olhou para Caifás, preocupado. Conhecia muito bem a índole de seu povo e sabia que Judas iria para a cruz romana, mas por ódio e orgulho jamais serviria a Pôncio Pilatos. Caifás, então, colocando a mão conciliadora sobre os ombros de Judas, encontrou uma solução para o impasse.

— Façamos assim. Tu nos trazes as informações e nós a levamos a Pôncio Pilatos. Fica por nossa conta esta dura missão. E quanto ao dinheiro que ele se comprometeu te pagar, não te preocupes. Nós faremos que nô-lo dê e nós to entregaremos. Estamos combinados? Agora, volta para o grupo e te reintegra nele. É crucial que o faças, pois o contrário seria assinar tua sentença de morte e não gostaríamos de te ver dependurado da cruz romana sem qualquer proveito para nosso povo.

Judas pensou um pouco sobre o que lhe era proposto e acedeu. Com uma grande reverência, retirou-se do palácio.

Já era noite quando sua figura surgiu entre os que estavam reunidos ouvindo Yehoshua falar sobre seu maravilhoso Pai e o que Ele desejava para os homens na Terra. Todos os discípulos se puseram de pé, alegres, e receberam o companheiro com exclamações de júbilo. Só Yehoshua se manteve sentado e aparentemente indiferente ao que acontecia.

Judas aproximou-se do Mestre e lhe perguntou, com voz firme e límpida:

— Tu me aceitas de volta ao teu grupo?

— E por acaso tinhas saído dele? — Foi o comentário de Yehoshua, que completou: — Trouxe todos para cá porque vínhamos te buscar, te receber. Sossega teu mau gênio e te junta aos outros. Para mim, jamais me deixaste.

Mas não foi assim que a História ficou registrada.