As nuvens negras geralmente atemorizam as pessoas, mormente quando seguidas de fortes ventos e relâmpagos violentos.

As nuvens negras geralmente atemorizam as pessoas, mormente quando seguidas de fortes ventos e relâmpagos violentos.

O dia amanheceu nublado em Belém e era certo que haveria chuva pesada. Yehoshua pôs todos de pé e depois de orarem uma bereka em agradecimento pela noite que findara e outra pelo dia que começava, todos se lavaram e se reuniram junto à “mesa”, uma esteira no chão ao redor da qual, sentados sobre os calcanhares, apanhavam a comida e a levavam à boca. Sempre usando somente a mão direita, a que era lavada antes de cada refeição.

— Hoje, tão logo nos despeçamos de nossos anfitriões, vamos para as margens do Yan (o Mar Morto). Ali se encontra o barco de Pedro e André — Anunciou Yehoshua.

Os discípulos se entreolharam, espantados. O tempo prenunciava uma tempestade e nenhum deles estava com disposição de se molhar na água fria do aguaceiro que logo despencaria dos céus.

Judas, que se sentava à direita de Yehoshua e era o terceiro na seqüência, fez a pergunta que os outros calavam no peito por respeito ao rabi.

— Algum motivo específico para que nos submetas ao martírio de um banho de chuva?

Yehoshua olhou-o e sorriu, descontraído.

— Não choverá. Não temais, vós todos, por isto — e o Mestre passeou os olhos sobre seus aprendizes.

— Tu vais impedir impedir que a chuva caia? — tornou a questionar o irrequieto Judas Iscariotes.

— Quem sou eu para interferir com a Natureza? — Ironizou Yehoshua bem-humorado.

— És o Filho de Deus — rebateu Judas, olhando atentamente na face de Yehoshua. Este parou de sorrir e o encarou, sério.

— Tu o disseste.

Depois, suavizando sua expressão na face, Yehoshua, com um leve sorriso e desviando os olhos de Judas para olhar o céu, falou.

— Quando criança meu pai me ensinou a ler as nuvens. Elas estão escuras e pesadas, mas não estão quietas. Os ventos não permitirão que se acumulem o suficiente para desabarem sobre nós na forma de aguaceiro. Serão levadas para longe, talvez para a Galiléia. Lá, sim, deverá cair a chuva.

Narraram na Bíblia que Ele andou sobre as águas, mas Ele não dava espetáculos circenses.

Narraram na Bíblia que Ele andou sobre as águas, mas Ele não dava espetáculos circenses.

— Então, sendo tu o filho de Deus, nada mais natural que faças parar a chuva, se ela teimar em cair sobre nós, pois tens poder para isto — insistiu Judas, olhos fixos na face de seu Mestre. — Afinal, segundo Pedro, mandaste parar a tempestade no Yam e ela te obedeceu.

Yehoshua permaneceu em silêncio, mirando a face de Judas, que não se demonstrou nem um pouco perturbado com o olhar inquiridor de seu Mestre. Este, por sua vez, percebia perfeitamente a intenção daquele discípulo destemido e insistente, mas em vez de se zangar por isto, sentia-se inundado de admiração e de amor pelo homem.

— Era necessário, para que eles reconsiderassem o medo desarrazoado que sentiam. Quem tem Fé no “Papai”, nunca perde, seja em que situação seja. Mas quanto a ti, Judas, mesmo que eu mandasse sustar a chuva, coisa que jamais farei, ela cairia sobre tua cabeça, pois tua fé é menor que a chama de uma vela. Vives pelos sentidos e pela razão humana. Quem tem Fé, a Verdadeira, vive pela intuição e pela certeza de que está protegido. Mesmo que venha a falecer na carne sob as maiores torturas ou sob uma grande decepção por acreditar que tal não aconteceria e aconteceu, aquele que tem Fé não vacila um momento sequer quanto à segurança de que “Papai” o protege. E se o chama e o obriga a deixar a carne, aquele que tem Fé não questiona a partida, pois a Verdadeira Vida não é esta que pensais viver.

Bartolomeu, Tiago, Pedro e João riram do colega, que não se agastou por isto.

— Tens razão — disse Judas, rabiscando o chão com o dedo indicador da mão direita. —Minha fé no teu Pai não é grande. Aliás, nem sei se existe…

Yehoshua deu de ombros e se pôs de pé. Entrou em busca dos seus anfitriões, despediu-se deles, o que fizeram também os demais, um a um, e saíram em direção ao Yam. O vento forte trazia um frio cortante. Pedro olhou para o alto e estudou as nuvens. Estavam escuras e deslizavam em direção nordeste.

— Ele tem razão, Judas. Não choverá. O vento vai levar as nuvens embora e isto não se pode dizer que foi porque ele assim o quis — falou o apóstolo pescador.

Ele sempre seguia à frente de seus discípulos. Parecia desejar sempre caminhar sozinho.

Ele sempre seguia à frente de seus discípulos. Parecia desejar sempre caminhar sozinho.

Judas apenas lançou um olhar ao seu colega e estugou o passo. Queria se colocar ao lado de Yehoshua, que parou e esperou que todos se reunissem ao seu redor. Então, determinou.

— Pedro, Tiago, André e Bartolomeu vão a Jerusalém comprar mantimentos. Aproveitem e escutem o que se fala por lá a meu respeito. Os outros, venham comigo. Nós nos reuniremos perto do barco de Pedro e André. Aguardaremos o retorno deles junto ao barco.

— Desculpa-me se insisto — disse Judas iscariotes, adiantando-se para se colocar diante de Yehoshua —, mas por que desejas tanto ir até o Yam? 

— E por que tu te preocupas com isto? — Perguntou, por sua vez, Yehoshua.

Judas pensou um pouco e, com um suspiro, respondeu.

— É que justamente lá, em mais ou menos uma hora, um grupo de Zelotes vai reunir-se para discutir suas ações. Eu não gostaria de que te encontrasses com eles. Afinal, tu os tem decepcionado e eles não te serão receptivos… Nem aos outros que nos acompanham. Quanto a mim, nada farão. Também sou um zelote. Mas os demais, não.

Yehoshua sorriu e posou a mão sobre o ombro de Judas Iscariotes, obrigando-o a caminhar ao seu lado e por ele abraçado.

— Eu não sabia da reunião programada pelos teus companheiros de arruaças, Judas. Fico-te agradecido por tua preocupação. Mas não temas. Teus companheiros são homens de armas, nós não. Por isto não creio que atentem contra nós. Temos filosofias de vida totalmente opostas.

— Não é isto, Mestre. Embora tu me tenhas decepcionado, eu gosto de ti. Gosto de teu ar real, imponente e, se me permites dizer, ainda guardo em mim a esperança de que um dia finalmente tu te resolvas a assumir o trono de David e ser realmente nosso Rei.

Yehoshua soltou uma gargalhada e apertou o ombro de Judas contra seu forte tronco.

— Judas, eu te prometo que tu verás meu Reino, o Verdadeiro, bem mais cedo que os demais. Mas antes, terás de fazer um trabalho muito duro, para mim.

Ele era rebelde, orgulhoso e aguerrido. Mas ao contrário do que se diz, amava e era muito amado por seu Mestre.

Ele era rebelde, orgulhoso e aguerrido. Mas ao contrário do que se diz, amava e era muito amado por seu Mestre.

Judas abriu um sorriso animado. Imaginava que Yehoshua falava do Grande Reino que o descendente de Davi, conforme constava em Amós, 9:11; Salmos 7, 12-14 e outras passagens da Torá Escrita, instalaria na Terra. Então, com um grande sorriso na face e quase gritando, braços ao alto, desvencilhou-se do braço de seu Mestre e correu, saltando e declamando vibrante:

“E suscitarei a tua semente depois de ti e estabelecerei seu trono real. Este é o Ramo de David que surgirá como o investigador da Lei e que se assentará no trono de Sião no fim dos dias. Conforme está escrito, ‘levantarei a tenda derrubada de Davi’. E esta Tenda Derrubada de David é Ele, o Messias, quem a levantará para salvar Israel!”

Yehoshua parou constrangido e ficou olhando seu eufórico discípulo correndo e saltando, braços ao alto, declamando trechos das profecias como se estivesse embrigado.

“Ele jamais vai compreender de que Reino eu falo, até que eu mesmo o leve para lá, comigo” pensou o mestre, meneando tristemente a cabeça, com desânimo. “Eu lido com um adorável fanático. Mas como reagirá quando souber o que lhe está reservado?”

Percorreram os quase dezoito quilômetros com Judas fazendo grande algazarra e brincando com todos os outros, o que causou espanto em todos. Ele sempre tinha sido o mais sisudo e o mais caladão do grupo. Que bicho o tinha picado para que fosse tomado daquela alegria irritante?

Só quando divisaram as águas do Yam é que Judas sossegou e se aproximou de novo de Yehoshua. Agora era ele quem abraçava o ombro do Mestre com seu braço musculoso e rijo.

— Qual será o cargo que me darás no teu reino, Yehoshua?

O Mestre franziu a testa e o olhou de esguelha.

— O menor dos menores — disse, por fim.

Judas soltou uma gargalhada e sem olhar para Yehoshua disse entre risos:

— Não falas a sério. Eu sou o melhor guerreiro que há entre este bando de fracotes que tu arrebanhaste para teu grupo, meu rei. E serei teu guarda pessoal. Ai de quem tentar ao menos tocar a fímbria de tua túnica, quando eu estiver por perto. E acredita: eu sempre estarei.

Yehoshua meneou a cabeça e sorriu, divertido.

— Eu falo a sério. Levará muito tempo até que tu possas ficar ao meu lado novamente, Judas.

Mas o discípulo, apertando o ombro de seu Mestre, meneou a cabeça negativamente. Estava certo que seria o guardião especial do Mestre. Era o melhor guerreiro. E ele logo perceberia que também era o mais fiel que podia encontrar para uma tarefa tão importante.

— Sabes, Yehoshua, vou gostar imensamente quando todos os reinos do mundo se curvarem diante de ti, mas um reino em especial eu vou adorar ver de joelhos. Advinha qual é ele?

Arqueiros assírios. Eles eram temidos por sua destreza no manejo do arco e flecha.

Arqueiros assírios. Eles eram temidos por sua destreza no manejo do arco e flecha.

Yehoshua decidiu entrar na euforia de seu discípulo, mas para se divertir.

— Os assírios — disse, rindo.

— Uma ova! Sírios? Eles não são tão maus quanto os kittins. Eu quero olhar nos olhos chorosos de César e deste maldito Governador, Pôncio Pilatos, quando estiverem esfarrapados e lanhados pelo meu chicote, ajoelhado diante de ti. Ah, eu vou beber até cair. E vou pegar as mais bonitas e mais fogosas prost…

Calou-se de repente e se voltou vermelho e assutado para olhar para Yehoshua.

— Perdoa-me, Mestre. Eu somente…

— Sonhavas — completou Yehoshua olhando-o com carinho. — Não é mau que o homem sonhe, Judas. Mas com certeza ele não deve esperar que só por isto “Papai” lhe dará os objetos de seus sonhos. Então, aconselho-te a não exagerares nas fantasias, senão a decepção te será muito amarga.

— Sendo eu teu guarda pessoal teu Pai há de…

Judas calou-se e parou de chofre. Yehoshua, que o olhava com expressão divertida na face, também sustou o passo e olhou para a frente. E deu com os olhos em um grande elefante que carregava sobre seu lombo uma liteira luxuosa. Era toda de seda. Uma grande comitiva de mais de doze homens precediam o animal e outros tantos o seguiam. Eram guardas e estavam todos armados com grandes cimitarras, punhais e lanças, além de escudos pequenos e redondos.

Passaram os séculos e até hoje eles são explorados em sua mansidão...

Passaram os séculos e até hoje eles são explorados em sua mansidão…

O pequeno grupo de apóstolos do Mestre já se havia detido para dar passagem à faustosa comitiva, mas o elefante foi parado e um homem pequeno, com toques leves de uma vareta, o fez ajoelhar-se e, depois, deitar-se de barriga no solo. Eles estavam entre Judas e Yehoshua e o restante do grupo, a uns cinco metros mais atrás. Uma escada foi colocada do chão até a saída da liteira e por um momento nada aconteceu. Então, um pé calçando um estranho sapato de bico virado para cima, feito todo em fios de ouro e seda, surgiu de dentro da liteira. Sobre aquele pé e curvado para a frente surgiu uma figura impressionante pela riqueza de suas indumentárias. Suas roupas eram de pura seda indiana e muito vistosa devido à profusão de cores verde, azul, amarela e laranja, muito bem distribuída para formar um todo harmonioso. Sobre a cabeça um grande e imponente turbante exibindo na frente e acima da testa do homem uma impressionante esmeralda do tamanho de um ovo de codorna.

— Quem é… ele? — Balbuciou Judas Iscariotes, impressionado com tamanha exibição de riqueza. Nem nas mais ricas festas de Pilatos ele vira tanta opulência. O elefante era adornado com um profusão de pedras preciosas, entre elas muitos diamantes que, mesmo à luz mortiça do dia, soltavam faíscas de luz impressionantes.

— Ele é um Brâmane — explicou Yehoshua, sério.

— E de onde vem essa figura impressionante? É algum rei de um povo do qual nunca ouvi falar, antes?

— Não. Ele é considerado acima dos reis dos outros povos, abaixo, contudo, do Deus Bhrâman, que, no país dele, a Índia, é o criador do mundo e de tudo o que se pode enxergar ao nosso redor e no infinito do céu.

— Ah! Ele também adora o teu Pai?

Yehoshua olhou sério para seu discípulo indisciplinado e falou, aborrecido.

— Por que não aprendes jamais, Judas? O Pai não é Pai somente meu. Também é teu, é do brâmane que se encaminha para nós e é de todos os seres humanos, onde quer que estejam. Ele os fez e Ele cuida para que não se percam nos descaminhos que teimosamente traçam para si mesmos. O nome Bhrâman é um dos vários que nosso Pai possui entre aqueles que levam a sério Seu conhecimento. Mas não é verdadeiramente Seu Santo Nome. Na verdade, Judas, “Papai” não tem um nome que se possa pronunciar em nenhum idioma falado pelos humanos. Ele é o… o Silêncio, embora n’Ele se contenham todos os sons. Ele é a Quietude Suprema, embora n’Ele se contenha todo Movimento. Ele é o Poder Construtivo, embora n’Ele se contenha toda a Destruição… Ele é Bhrâman, mas também é Vishnu  e Shiva, o Criador e o Destruidor, respectivamente.

— Meu Pai é Jeovah, Yehoshua — cortou Judas, olhando firme e com cenho franzido nos olhos de seu Mestre —. E Ele também é teu pai, mas não é pai desse pavão aí — e Judas indicou com o queixo, num gesto de desdém, o brâmane que vinha lento e majestosamente em direção a eles dois. A mão do discípulo segurou firme o cabo da sica e seu gesto foi percebido pelos quatro guardas que secundavam o Brâmane, os quais imediatamente sacaram de seus sabres, ameaçadoramente.

— Mantém teu punhal na cinta, Judas — e a voz de Yehoshua soou tão imperiosa que o discípulo o olhou, desconcertado, mas largando inconscientemente o cabo do perigoso punhal.

O Brâmane chegou até a uns dois metros de distância de Yehoshua e, então, para total surpresa de Judas Iscariotes, jogou-se de testa no solo, gritando em sânscrito abafadamente porque seu rosto estava para baixo:

Um brâmane podia ser um Marajá, casta nobilíssima entre os indianos.

Um brâmane podia ser um Marajá, casta nobilíssima entre os indianos.

— “Budha! Budha! Budha! Finalmente eu vos encontrei, senhor! Tenho peregrinado por longes terras em vossa procura. Por que vós vos retirastes de nossa companhia no meio da noite, como um fugitivo? E por que viestes viver entre gente tão rude e tão revoltada? Sinto o ódio que inunda o coração do homem ao vosso lado. E sinto muita confusão e dúvida nos corações dos que nos olham sem me compreenderem. Todos eles, vejo eu, são “dalit” (párias). Não têm nenhum valor para vós, Budha. Por que vós os preferistes a nós, vossos sinceros adoradores? Voltai comigo, senhor. Este elefante veio exclusivamente para vos levar de volta ao vosso Templo e ao vosso povo — e o brâmane levantou a mão e sem erguer a testa apontou para a grande alimária, sendo seu gesto seguido pelo olhar atento de Judas Iscariotes. Ele captou de imediato a intenção do estrangeiro: queria levar Yoshua consigo. Mas para onde? E por quê?

Judas não compreendeu uma palavra do que o homem e seu séquito diziam, mas ouviu nitidamente o termo Budha e ficou-se perguntando o que quereria dizer aquilo. Os outros apóstolos, que vinham mais atrás deles, não se aproximaram, espantados com a cena inusitada, por isto não puderam ouvir o que o Iscariotes tinha ouvido.

Seus soldados também o seguiram no gesto brusco e estavam prostrados e trêmulos com as testas no solo e as mãos espalmadas ao lado das cabeças. Judas olhava boquiaberto aquela cena inusitada que ele não entendia.

— Levantai-vos, Brâmane! — E a ordem pronunciada em tom seco e duro naquela língua desconhecida desorientou Judas, que inconscientemente deu um passo para o lado, distanciando-se de seu companheiro. Olhou-o e ele lhe pareceu diferente. Não que pudesse jurar ter visto mesmo aquilo, mas pareceu-lhe ver envolvendo seu Mestre uma poderosa e tenuíssima luminosidade pulsativa. Esfregou os olhos e tudo lhe voltou ao normal. Ainda assim, buscou com os olhos os outros discípulos, mas estes olhavam mais para o luxuoso estrangeiro prostrado aos pés de Yehoshua do que para o Mestre. O Brâmane se ergueu, mas não ousou olhar de frente para Yehoshua, que, majestoso, permanecia em atitude real diante deles.

— Eu não sou o Budha que buscais, brâmane — disse Yehoshua com voz firme e seca — Não nesta vida, neste momento cósmico.

— Não podeis negá-lo a mim, senhor. Eu vejo perfeitamente o sinal sobre vossa divina fronte! Vejo vossa Poderosa Luz! Devíeis ter renascido entre nosso povo, como sempre o fizestes. Mas, em vez disto, preferistes vir nascer aqui? Por que?

Yehoshua levou a mão ao queixo do Brâmane e o obrigou a olhá-lo de frente.

— Vós me tivestes por muito tempo. Séculos após séculos eu estive convosco e vos ensinei muito da Sabedoria de nosso Pai. Agora, é chegada a vez de outros povos me conhecerem também. Volta, então, para tua terra e esquece que me vistes aqui.

— Mas és o senhor…

— Cala-te!

A ordem foi dada com uma expressão facial dura, quase irada, o que fez o homem recuar assustado.

— Não existe Budha,  brâmane. Não neste tempo curto em que aqui me encontro. Eu sou Yehoshua, o enviado de nosso Pai celestial, que veio trazer uma mensagem a toda a humanidade. E é só isto que eu sou. Compreendestes?

O brâmane permaneceu olhando atentamente nos olhos de Yehoshua. Então, curvou a cabeça e andou para trás até chegar à escada. Subiu-a e sumiu na liteira. O elefante obedeceu ao comando de seu treinador e se levantou. Mas a comitiva não se afastou. Permaneceu parada, aguardando algo.

Com um aceno de cabeça Yehoshua convidou os discípulos a prosseguirem a viagem, deixando a comitiva do brâmane parada onde estava.

Chegaram em silêncio, intrigados, às margens do Yam. O Humor de Yehoshua tinha sumido e dado lugar a uma expressão de preocupação. Todos perceberam isto, mas só Judas Iscariotes estava curioso para descobrir o que acontecera lá atrás. Quem era o tal brâmane? De onde vinha? Por que chamara a Yehoshua de Budha? E por que trouxera o elefante todo cheio de pedras preciosas e ouro com uma intenção clara de levar Yehoshua de volta a uma pátria da qual ninguém ouvira falar, até aquele momento? O que acontecera com Yehoshua que uma luz diáfana o envolvera por um momento e logo sumira? teriam os outros discípulos percebido a tal luz? Ao menos o Brâmane sabia a seu respeito, pois a mencionara explicitamente. Pela primeira vez Judas Iscariotes olhou com estranheza para seu Mestre. Que mistério havia em volta dele?

— O que fazemos, agora, Mestre? — Perguntou Filipe.

— Ide pescar. Não temais nem o vento nem a chuva. Ela não virá e eu já vos disse isto. Então, trazei os peixes para que sejam preparados para a refeição. Esperaremos os outros voltarem e, então, eu pretendo ensinar-vos algo secreto.

Discretamente de pé um pouco atrás de Yehoshua, Judas Iscariotes prestava toda atenção ao que ele dizia. Sua mente fervilhava de excitação. Acontecera tanta coisa esquisita nestas últimas horas que ele nem sabia como faria seu relato aos Rabis Anás e Caifás para que passassem a informação ao odiado Pôncio Pilatos. Nada do que lhes diria seria motivo para que o miserável romano mandasse prender Yehoshua. Mesmo assim, seu estômago doeu e se contorceu quando se imaginou traindo a confiança daquele Homem a quem já aprendera a admirar e de quem também já aprendera a gostar.

Um grupo caminhando apressado vinha direto para onde estavam Judas e Yehoshua. Este, parecia ignorá-lo, mas Judas tão logo os viu entrou em ansiedade. Eram os zelotes e vinham direto para eles, o que significava um mau sinal.

— Mestre, acho melhor…

— Eu já os vi, Judas, e fugir não é a melhor opção. Deixa que venham.

— Mas senhor…

— Onde está tua fé? O que acontecer é porque tem de acontecer. Então, fica calmo.

Os homens olharam para os lados, enquanto avançavam. Não havia outras pessoas por ali. Todos sacaram de suas sicas e avançaram decididos. Judas foi em direção deles e quando o reconheceram sustaram a marcha. Conversaram durante um tempo, Judas vez que outra apontando para onde estava Yehoshua que nem uma vez voltou-se para eles. Então, andando lentamente, todo o grupo veio ter com Mestre…

(Continua…)