Revoltosos, os zelotes viviam pela adaga e se fizeram temidos pelos romanos.

Revoltosos, os zelotes viviam pela adaga e se fizeram temidos pelos romanos.

Os zelotes pararam junto a Yehoshua e lhe fizeram um círculo, deixando-o sentado entre eles. O que parecia ser o líder do grupo falou:

— Temos acompanhado tuas andanças e teus feitos e tu nos tens causado admiração. Mas também tu nos confundes. Fazes muito do que foi anunciado pelos profetas, mas te comportas ao contrário do Messias que nos está prometido. Tu te negas liderar-nos na grande guerra que finalmente nos livrará da escravidão a estes exploradores que não somente nos tomam tudo, como também nos aviltam as tradições e o respeito a Jeovah, bendito seja seu nome. Por que ages assim? Não confias em que sejamos capazes de derrotar os kittins em guerra franca? Tu de esqueces que o Altíssimo está e sempre esteve conosco? Venceremos! Basta que tu te decidas e o tempo é agora. Sansão venceu seus inimigos armado apenas com uma caveira de burro e eles eram mais de dez mil. E se o Altíssimo mostrou aos inimigos de seu povo o quanto é Poderoso, o que não fará agora, contra os que nos oprimem? O que nos dizes?

Pacífico, ele não necessitava de armas para se impor. Nem as temia.

Pacífico, ele não necessitava de armas para se impor. Nem as temia.

Yehoshua manteve-se quieto por um tempo durante o qual o silêncio pesou como os ventos tempestuosos que arrastavam as nuvens para bem longe dali. Os zelotes primeiramente se desconcertaram, depois começaram a se irar contra aquele silêncio que tomavam como insulto. Algumas mãos se fecharam com força nos cabos das perigosas “sicas” e olhares injetados fixavam o pacífico homem sentado na areia e aparentemente indiferente a todos eles. Então, olhando para o homem que lhe dirigira a palavra, Yehoshua falou.

— Sentai-vos. Não tendes nada importante a fazer e eu vos asseguro que por todo este dia nenhuma patrulha romana passará por aqui. A praia é minha e eu a quero vazia de quem não for escolhido para aqui estar comigo. Então, sentai-vos em paz.

O homem olhou para seu comparsas, em dúvida. Mas um a um, todos assentiram com acenos de cabeça. Se o profeta estivesse errado, eles eram capazes de dar conta de uma patrulha com facilidade. E todos se sentaram, mas os que estavam atrás do Mestre apressaram-se a encontrar lugar diante dele.

— Sim, vós não vistes, mas com certeza vossos espias vos disseram sobre os milagres que me atribuem. Em verdade, em verdade eu vos digo que não sou aquele que faz tais prodígios, mas minha gente os faz por mim. Eles consideram a bondade e o merecimento de quem roga e se encontram tais prendas nos seus corações, premiam-nos com a cura.

— De quem falas, rabi? — Perguntou o que parecia o líder e sua voz tinha um quê de espanto e admiração.

— De meu povo, que não vive entre vós.

— Mas quem é esse povo? — Insistiu o líder, confuso e olhando para os demais companheiros que lhe retribuíam olhar, pasmos.

— Podeis ver o ar?

— Não. Mas o quê…

— Podeis ver o perfume das flores ou o odor da carniça?

— Não…

— Meu povo é como isto. Eles estão aqui, neste momento, mas vós não os podeis enxergar nem sentir, pois tendes vossa visão embotada pelas mesquinharias terrenas. Quando, contudo, vos livrardes delas, então vossa visão se abrirá e vereis as maravilhas de Meu Reino e compreendereis a razão de eu não me interessar pelos vossos dramas.

Houve um momento de silêncio. Judas percorreu a face de seus companheiros e notou o perigo. Eles estavam ficando raivosos com o Mestre. Inquietou-se pelo que antevia: teria de fazer uma opção – ficar ao lado de Yehoshua, que certamente não reagiria se atacado, ou ficar ao lado de seus velhos companheiros de assaltos e matanças?

— Vejo que não me credes. Então, que meu povo vos mostre que realmente existe e está conosco neste momento.

Mal Yehoshua se calou e exclamações de susto se elevaram dos que o rodeavam. Todos, inclusive o Mestre, começaram a levitar. Primeiro, flutuaram acima da areia da praia à altura de um palmo. Depois subiram mais e rapidamente até quase dez metros de altura. Apavorados os homens estenderam as mãos uns aos outros e olharam desesperados para Yehoshua que, de olhos fechados, tinha uma expressão de felicidade na face. Um sorriso leve lhe adoçava a boca e seus cabelos acobreados flutuavam ao vento que soprava aumentando de intensidade.

Agitado, o mar mete medo (princesa-susi.loveblog.com.br)

Agitado, o mar mete medo (princesa-susi.loveblog.com.br)

O grupo flutuou para cima do Yam, cujas águas, agora, se levantavam em agitadas ondas. Olhos esbugalhados e respiração quase suspensa, boquiabertos os zelotes olhavam para o vácuo abaixo de si e viam o mar cada vez mais e mais ameaçador. Sentiram, então, o quanto eram ínfimos diante da fúria da Natureza que se enraivecia de modo assustador.

Eles foram levados mais para cima e entraram nas nuvens borrascosas e viram os raios cortando-as como facas de luz. Os clarões e os estrondos os punham em pânico e, desesperados, buscaram com os olhos a figura serena de Yehoshua que continuava tranqüilo, sempre de olhos fechados e sorrindo beatificamente. Ao seu redor os clarões dos relâmpagos incendiavam o ar com uma luz azulada cegante e dentro daquele mar de fogo o Mestre flutuava tranqüilo e imperturbável. Era um espetáculo não somente assustador, como deslumbrante. De repente todos caíram com uma velocidade terrífica. Não mais flutuavam. Simplesmente caíam vertiginosamente. Todos gritaram desesperados e todos, exceto Judas, se urinaram de pavor. O discípulo rebelde tinha o coração aos pulos, mas estava mais deslumbrado com a maravilhosa experiência que vivia do que com medo. Seus olhos arregalados tentavam abarcar toda a grandeza de um espetáculo único, que ele sabia jamais se repetiria. Era a presença de Jeovah; tinha de ser Ele se manifestando em toda sua grandeza, em toda sua ira, em toda sua potência. Sim, Yehoshua acabava de provar que era realmente seu filho. Como duvidar disto, vivendo o que viviam? E Judas percebeu, maravilhado, que confiava inabalavelmente no seu Mestre. Era aquela confiança, que ele compreendeu como Fé, que o fazia viver toda aquela assombrosa experiência sem tremer de terror, como via os coitados de seus companheiros sofrerem. Ele foi o único a não se urinar e o único a não gritar de pavor. Mas estava maravilhado, em êxtase. Pudesse, e a experiência perduraria para sempre.

E tudo cessou. Estavam novamente sentados na areia da praia, o vento era brando, as nuvens se afastavam e o sol começava a surgir por entre elas, amortecido pelos fiapos que ainda teimavam em permanecer flutuando sobre eles. Os zelotes ainda gritavam desesperados, mas aos poucos perceberam que estavam em solo seguro. Tremendo, sem controle motor, aos trambolhões se levantaram e correram ora caindo ora se levantando e sumiram como fumaça. Yehoshua continuava plácido, com os olhos fechados e sorrindo…

Judas permaneceu sentado, olhando maravilhado para todo lado. Era inacreditável, mas tudo estava como antes de começar. Um milagre como aquele era indiscutível. Yehoshua era o Messias. Podia ser que não viera cumprir com o que os profetas tinham predito, mas não havia dúvida que ele era o Messias. Maravilhado, olhava com novos olhos para seu Mestre.

Ele gostava de ficar à beira-mar, observando os pescadores.

Ele gostava de ficar à beira-mar, observando os pescadores.

O barco de pesca estava longe e Judas se perguntava se os outros tinham visto o que havia acontecido ali. Seus pensamentos foram interrompidos com os vultos dos que tinham ido fazer compras em Jerusalém. Vinham apressados e Judas temeu alguma má notícia. Pedro foi o primeiro a chegar, seguido de perto por Tiago e André. O último foi Bartolomeu, o mais velho do grupo. Deixaram cair na areia as compras que tinham feito e se sentaram. Arfavam. Yehoshua abriu os olhos e os olhou com uma expressão de ternura que admirou Judas. “Ele ainda não voltou totalmente” — pensou consigo o discípulo indisciplinado do Mestre.

— Judas, vimos um grupo de zelotes correndo desembestados e desorganizados. Pareciam apavorados. O que houve com eles? Vinham desta direção…

Quem fizera a pergunta tinha sido Pedro que, de pé, apontava na direção em que os zelotes tinham sumido.

— É que eles…

Yehoshua levantou a mão e impôs silêncio a Judas.

— Passaram por aqui, falaram conosco e se foram. Agora, quero saber quais as notícias sobre mim. O que ouviram falar em Jerusalém?

Judas calou-se. Compreendeu que o Mestre não desejava que ele contasse o que tinha acontecido ali. Orgulhoso, guardou silêncio. Para ele, aquilo era sinal de que o Mestre indubitavelmente o escolhera como seu preferido. Certamente, quando o reino de Yehoshua se manifestasse na Terra e seus guerreiros dobrassem as nações, ele, Judas Iscariotes, seria o comandante supremo dos exércitos de Yehoshua. Ao menos dos exércitos de homens, como ele mesmo.

Yehoshua olhou-o e desatou numa gostosa gargalhada. Os outros permaneceram atônitos. O que estava acontecendo ali?

— E então? — Perguntou o Mestre, ainda sob risos.

— Mas… Bom, não há grandes comentários, não. As pessoas estão mais interessadas nos seus afazeres. Mesmo entre os guardas do templo, os mercenários gauleses, não ouvimos nada que nos preocupasse. Realmente, falam sobre vós, rabi, mas são questionamentos desencontrados, do tipo: ele faz mesmo milagres? Alguém que esteja por aqui já assistiu a algum? Onde se encontra, agora? O que pensam os romanos sobre isto? Coisas assim.

Yehoshua pôs-se de pé e acenou com um pedaço de pano para os do barco. Eles viram o chamamento e embicaram em direção à praia. Já era a sexta hora quando finalmente, sob um toldo armado pelos discípulos, eles almoçaram. Yehoshua comeu peixe frito e pão. Depois, alimentou-se de frutas secas e mel e se saciou com água fresca. Então, estirou-se a fio comprido, tendo uma pedra como travesseiro e, olhando para o toldo acima de sua face, entoou um cântico que era todo feito com versos dos Salmos. Os discípulos também se deitaram e ficaram ouvindo a voz maviosa de Yehoshua niná-los. Quase todos dormiram, exceto Judas Iscariotes que ardia de desejo de conversar com Yehoshua sobre seus anseios de Poder no Reino que ele certamente traria em breve à Terra.

Na oitava hora, o céu ainda encoberto por nuvens, Yehoshua se pôs de pé e os chamou. Era chegada a hora de aprenderem o que ele lhes tinha prometido. Desarmaram a tenda e seguiram o Mestre para um local mais afastado e onde havia muitas pedras. Poucos andavam por ali e, com aquele tempo, ninguém certamente gostaria de ir até lá. Yehoshua escolheu as pedras mais desconfortáveis e cortantes para convidá-los a se sentarem. Desajeitamente cada um procurou encontrar a melhor posição sobre os gumes afiados da pedra. Yehoshua simplesmente sentou-se e esperou pacientemente que todos fizessem a mesma coisa. Quando, finalmente, depois de muito escolherem, todos estavam desconfortavelmente sentados, o Mestre lhes falou.

— Escolhi este local para que vejais o quanto sois desprovidos de fé. Antes de vos sentardes já tínheis sentido os gumes afiados das pedras cortando-vos as carnes. Por isto, alguns dentre vós estão lanhados e os lanhos ardem devido ao sal da água do mar. Tendes andado ao meu lado e tendes visto o que vos parece milagre inexplicável. No entanto, qualquer pessoa, não somente vós, poderá fazer o que faço e até mais, desde que acredite em si.

— Não seria no Pai? — Arriscou-se Tiago Menor.

— Não. Para dominar vossos ambientes tendes de crer em vós mesmos. O Pai jamais interferirá com vossos desafios, pois enfrentá-los e vencê-los faz parte de vossas existências. Quem vive fugindo dos desafios que lhes são colocados pela Vontade de “Papai” não é digno de entrar em Seu Reino. Lá, não há covardes nem fracos nem pusilânimes.

Judas riu, satisfeito. Ele não era nada daquilo, portanto seu lugar ao lado de Yehoshua estava garantido.

— Para vencer o Medo eu vos digo: não vivais com antecedência vossas fantasias a respeito do que vos vai acontecer. Sedes prudentes, sim, mas não tenhais medo do que vos sucederá uma vez tomada a decisão. Quando eu vos pedi que sentásseis, a primeira coisa em que pensastes foi o quão era desconfortável o local. A segunda, foi que as pedras iriam ferir-vos. Isto já predispôs vosso corpo para ser ferido e sentir desconforto. Dominai o ambiente onde estiverdes, pois nascestes para ser o Senhor da Terra. Não está escrito que Deus fez o mundo para o homem? Não ordenou ele aos animais que o obedecessem? E se assim é com a vida nas formas animais, também naquela que pulsa no mar, no ar e nas pedras.

Tiago Maior olhou de esguelha para a pedra onde se assentava e pensou que Yehoshua estava delirando. Uma pedra não podia ter vida. Como se lhe tivesse ouvido o pensamento, Yehoshua falou.

— A maior ilusão que podeis alimentar é que a Vida Divina só se manifeste em vós, homens. Nosso Pai a concede a tudo o que podeis ver e até onde não enxergais. A Vida é sua dádiva. Faz parte de seu Pensamento, por isto, ela jamais cessa. E se podeis pensar o que desejardes, o que dirá o Pai?

— Agora, fechai vossos olhos e retirai vossa atenção dos gumes da pedra onde vos sentardes. Ignorai-as. Recolhei-vos ao vosso interior.

Yehoshua fechou seus próprios olhos e relaxou. Em breve parecia estar profundamente adormecido. Um a um, seus discípulos foram conseguindo entrar no mesmo estado. A dificuldade ficou com Judas Iscariotes, Tomé, Filipe, João e Tiago Menor. Estes sentiam agudamente as pontas aceradas da pedra lhes cortando as carnes das nádegas, das pernas e das mãos e não conseguiam alhear-se da situação. Os demais, logo estavam com a mesma expressão suave nas faces. Novamente ouviu-se a voz de Yehoshua:

— Aos que ainda se encontram nas pedras eu aconselho a que pratiquem a respiração abdominal, como eu já ensinei há tempos. Inspirai, sustentai o ar nos pulmões empurrando-o para baixo, para o ventre. Relaxai e respirai devagar, com a parte livre e superior do tronco. Mantende o ar na parte de baixo de vossos troncos, como se ele estivesse pressionando sobre vossos estômagos…

Após tentar algumas vezes, Tomé sorriu. Conseguira realizar a proeza e sentia que as picadas e o desconforto de estar sentado sobre as pedras pontiagudas diminuíam de intensidade. O segundo a perceber a mesma situação foi Filipe. Os outros, não conseguiram nada e se remexiam cada vez mais incomodados com a ardência dos ferimentos dolorosos.

— Agora, retirai vossa mente para um lugar agradável. Pode ser um que já vivestes, antes. Ide até este lugar e recordai de seus detalhes mais agradáveis… Esquecei de tudo o que aqui está. Apenas mantendes em vossa visão interior o ambiente agradável. Ficai nele até que sintais novamente seus perfumes… sua brisa… a luz suave que vos banhou quando lá estivestes em corpo físico.. Abandonai estas pedras. Deixai-as aqui, fixadas, sempre banhadas pela água salgada de todo momento. Ide. Sede livres. A liberdade não está no corpo, mas em vós mesmos. O corpo se prende ao ambiente. O Espírito é livre para se retirar para onde quiser…

Yehoshua manteve seus discípulos no exercício até quando o sol já mergulhava no ocaso. Só então os chamou para se retirarem. João, Tiago e Judas Iscariotes mancavam e reclamavam das dores nas nádegas e nas pernas feridas. Os outros, não tinham nenhum arranhão.

Quando, já noite e o céu coberto de estrelas, eles caminhavam em direção a Betânia, Yehoshua falou.

— Eu vos ensino um meio de escapardes de dores e sofrimentos. Se quereis não sofrer quando chegar o momento, então, se tiverdes praticado diariamente o que vos ensino, não sereis perturbado por nada, mesmo que o ambiente onde se prepare vosso martírio seja atemorizador. Vós saireis de vossos corpos através de vossas mentes e frustrareis vossos algozes. Aprendei, pois, o que vos ensino.

— Rabi — gritou Judas Iscariotes que, devido aos ferimentos doloridos nas nádegas e nas pernas, não conseguia acompanhar Yehoshua como gostava de fazer. — Onde aprendeste estes truques que nos ensinas, agora?

— Não são truques, Judas. São descobertas. Descobertas que todos os homens devem fazer para realmente se tornarem os senhores do Mundo que o Pai lhes deu. Não se conquista o mundo pela espada, nem pela flecha, nem pelas lanças ou pedras ou aríetes. Não se conquista o mundo pelas armas. Conquista-se o mundo quando se sabe respeitá-lo e viver nele. Não pertenceis a este mundo. Estais aqui de passagem. Todos vós morrereis. Em poucos anos não restará de vós nem o rastro que fizestes no pó do caminho, assim como não se ouvirá o som de vossas vozes. O que quer que vós tenhais criado, ou dito, ou feito aqui, desaparecerá depois que morrerdes. Então, não vos interesseis pelas coisas desta vida. 

— E por quê devemos interessar-nos, rabi? — Perguntou Filipe.

— Pelas coisas que realmente têm valor. A adoração ao Pai do céu; a descoberta da bondade no coração mais empedernido que encontrardes pelos vossos caminhos; a vitória sobre uma dificuldade que vos atemorizou…

— A família conta nisso que dizeis? — Perguntou Bartolomeu que sempre andava preocupado com sua mulher e seus filhos.

— Família? Só tendes uma: aquela onde todos vós sois irmãos. Para o Pai não há filhos, não há esposas, não há filhas, não há maridos, não há amantes, não há virgens nem putas, assim como não há homens promíscuos. Para o Pai há somente seus filhos. Assim, não tendes famílias. Tendes irmãos que deveis ajudar a crescer, depois de nascidos. Tendes irmãos que deveis ensinar a amar ao seu próximo como vós mesmos os amais. Eles pertencem à família do Pai e são vossos irmãos, apenas isto.

Pararam sob um grande e frondoso carvalho e Yehoshua mandou que fizessem uma fogueira. Quando o fogo brilhava e eles preparavam o jantar, o elefante barriu próximo do acampamento. Todos se voltaram para o lugar de onde chegava o barrido do animal, menos Yehoshua. Ele permaneceu quieto, olhando fixamente para o lugar de onde, pouco depois, surgiu a comitiva do brâmane. Este apeou-se e veio ter com o grupo. Saudou-os com as mãos postas no peito, palma a palma, e pediu licença para se aproximar. Falou em sânscrito, o que fez que os apóstolos não o compreendessem. Mas Yehoshua, que se tinha levantado e correspondido ao cumprimento do homem, convidou-o, com um aceno de mão, a tomar assento no grupo.

— Pretendeis, senhor Budha, ensinar a estes dalits, os conhecimentos sagrados que nos pertencem? — Perguntou o rico brâmane, com os olhos postos no chão. Yehoshua permaneceu um longo tempo olhando-o com o cenho franzido. Então, indicando o homem com a mão, disse, falando em koiné (o grego vulgar, muito falado por quase todos os povos da época).

— Vede, meus filhos, o exemplo do mau coração e da arrogância estúpida. Ele vos toma por menores que mendigos. Na terra de onde vem, os homens são divididos em castas. Ele nasceu, viveu e vive na melhor das castas – a dos brâmanes. É rico e poderoso entre os homens e pretende ter a salvação porque estuda e domina os conhecimentos que tento passar-vos. No entanto, eu vos digo que aos olhos de “Papai”, ele é menor que o menor dos infelizes que sofrem abandonados por todos nas ruas de Jerusalém.

O brâmane, maravilhado, compreendeu cada palavra que foi dita por Yehoshua. Mas o olhou perplexo pelo que ouvia e sua boca se entreabriu de espanto.

— Budha! Budha! Dizeis a estes infelizes que sou menor que os menores dentre eles? É isto mesmo o que dizeis?

O brâmane não atentou para o fato de que se estava compreendendo o koiné, então, os discípulos também entendiam perfeitamente o que ele falava em sânscrito. E as faces se fecharam ameaçadoras contra ele.

— Estive entre vós por muitos séculos — falou Yehoshua e sua voz soou alta.  Nesta encarnação, fui até vós quando contava 18 anos e entre vós permaneci até meus 25 anos. Mas em nenhuma época, no passado e agora, vós me entendestes. E nesta vida, até mesmo quisestes matar-me porque pela milésima vez eu vos censurei o sistema político e religioso. Então, se me refugastes quando retornei a vós numa última tentativa de vos retirar a pesada canga da ignorância e da arrogância, por que vinde até mim? O que viestes buscar que já não tenha eu vos dado de sobejo?

O brâmane jogou-se de testa no chão, implorando perdão. Mas Yehoshua foi duro.

— Víbora! Mentis até diante de mim? De mim, que vos posso ler os mais recônditos de vossa alma? Ide-vos daqui! Apartai-vos de mim e voltai para vossa terra, falso arrogante. Despi-vos de vossas riquezas materiais e vivei como vivem os que nada possuem. Aprendei entre eles a piedade, a humildade e a resignação dos sem esperança. Este será o princípio da senda que deveis palmilhar até que vos torneis digno de mim.

Olhos esbugalhados de espanto, o brâmane ergueu o rosto para mirar a face de Yehoshua. Sua aparente humildade se desvaneceu e de seus olhos chispas de raiva faiscaram. Ergueu-se de modo arrogante e majestoso e, de pé, cuspiu com desprezo entre os pés do Mestre. Levantou-se, rodou com altivez nos calcanhares e com um gesto brusco de cabeça ordenou a retirada. Em pouco tempo sua comitiva desaparecia dentro da escuridão. Só o silêncio se fez presente, quando nada mais se ouvia daquela gente.

Yehoshua voltou-se para seus discípulos e ordenou.

— Ficai aqui e meditai no que vivestes e vistes, hoje. Descobri o valor do não apego ao fútil e ilusório. A verdade está à vista de todos, mas todos estão cegos para ela. E a cegueira vos vem do que não tem valor. Vistes a opulência do homem que se foi daqui cheio de ira vazia de razão? Pois bem, tudo aquilo ficará aqui mesmo, quando ele for chamado a prestar contas de sua vida inútil e perdida. Mediteis nisto para vos convencerdes de que o que tem valor não brilha neste mundo.

E o Mestre se retirou para dentro do bosque, buscando um lugar onde pudesse falar livremente com seu Pai…

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