Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro.

A Psicologia é uma Ciência que ainda anda às apalpadelas. No entanto, desde quando me formei na U.G.F.  (1978) até hoje (2013) há que se concordar que ela avançou bastante. Hoje já se fala desinibidamente de novos ramos da Ciência da Psique, que são o Ramo Construtivista e o Ramo Cognitivista. Ambos, no entanto, presos às bases lançadas por Burrus Frederick Skinner e nascidas no pensamento de Jean Piaget (bem antiguinho, diga-se de passagem).

Claro está que a base mais sólida, mais densa que se pode estudar como efeito dos processos psíquicos é o comportamento. Tudo o que se passa na Identidade Pessoal de qualquer pessoa só pode ser percebido, analisado, dissecado e estudado após se manifestar através do comportamento. E para os leigos é necessário esclarecer que comportamento não quer dizer apenas interação interpessoal ou com as coisas e os objetos do meio ambiente em que o indivíduo vive. Comportamo-nos também através da comunicação verbal, através da comunicação gestual, através da comunicação expressional corporal ou facial, através da escolha do modelo de roupa que se quer vestir, assim como através das cores das roupas que vestimos. Comportamo-nos, ainda, através de nossas preferências literárias, esportivas, gastronômicas, musicais e por um infinito de processos que não é necessário esmiuçar aqui.

Cérebro, a usina de energias que desconhecemos totalmente.

Aqui dentro, misteriosamente, acontecem os processos do Pensamento.

Os processos psíquicos acontecem absolutamente fora de alcance do outro, ainda que este outro seja psicólogo, psiquiatra ou formado em ciência afim. No caso do Ramo Construtivista, defende-se a tese de que o indivíduo cria realidades psíquicas, imagéticas, às quais ele mesmo responde. Esta é a visão de Michael J. Mahoney que, desde 1978 já andava, nos EUA, falando e defendendo a abordagem Construtivista, embora no Brasil, àquela época, se enfatizasse mais a Psicanálise freudiana, o rogerianismo (de Carl Rogers) e o skinnerianismo. O Construtivismo piagetiano só se referia mal e porcamente à escola.

Mahoney faleceu em 2006, diz-se, sozinho, aos 60 anos, sentado no sofá de sua casa. Fez o que veio fazer e voltou com toda a certeza satisfeito da vida que construiu.

A psique humana tem, realmente, o fabuloso condão de organizar e reorganizar suas percepções e com elas, correlacionadas com as recordações e as memórias de vivências pretéritas, objetivas ou subjetivas, organizar e reorganizar os ambientes percebidos, assim como também tem a capacidade fabulosa de criar significados com os quais expressa verbalmente tais ambientes psíquicos organizados ou reorganizados intimamente. Com isto, afirmam os Construtivistas, somos capazes de literalmente criar realidades.

O Criador do Behaviorismo deixou um belíssimo legado de conhecimentos práticos que podem ajudar e muito aos que necessitam de auxílio profissional.

O Criador do Behaviorismo deixou um belíssimo legado de conhecimentos práticos que podem ajudar e muito aos que necessitam de auxílio profissional.

Não é errada a premissa dos Construtivistas. Nossa Memória mesma, para que possamos acessá-la de modo produtivo e válido, estrutura-se construtivamente, por ordem de fatos, de datas, de seqüência de perceptos etc… Em 1952 o cientista F. A. Hayek já defendia a tese de que nosso sistema nervoso tinha uma natureza construtiva sem a qual não poderíamos organizar nem nossas memórias, nem nossos comportamentos. O chato na Ciência da Psicologia é que nada se pode comprovar 100%. Tudo são altas tendências; significativas probabilidades; tudo indica que…; e assim sucessivamente. Nenhum Cientista que o seja de verdade, em matéria de Pesquisa Psicológica, é louco o suficiente para afirmar taxativamente que tal hipótese é 100% válida no que diz respeito aos desconhecidos processos psíquicos humanos. 

Em 1926 Jean Piaget dava um pontapé, talvez o inicial, para a abordagem construtivista nos processos psíquicos humanos, com sua epistemologia genética (Epistemologia = teoria da origem, natureza e limites do Conhecimento Humano). Após ele, podemos citar a Análise Construtivista da Memória Humana, de F. C. Bartlett, em 1932. Como se vê, o que parece ser moderníssimo já é velho há muito tempo. É como dizia Lavoisier: “Na Natureza nada se cria, nada se perde: tudo se transforma” e é como dizem, jocosamente, os Administradores: “Em Administração nada se cria, tudo se copia”. E devemos reconhecer que os Administradores estão certíssimos. Em qualquer ramo do Conhecimento Humano, tudo se copia e, em copiando, tudo se vai modificando, reorganizando e construindo novos Conhecimentos. Às vezes, como acontece nas Dissertações de Mestrado, apenas se reorganizam pensamentos outros, nada lhes acrescentando senão vernizes superficiais.

Homens como este, faz-nos adotar a visão de mundo segundo o formismo: é político? Não presta".

Homens como este, faz-nos adotar a visão de mundo segundo o formismo: é político? Não presta”.

Mas as abordagens Construtivistas são deveras interessantes. Por exemplo, vamos tomar a Hipótese de Mundo, de autoria de S. C. Pepper (de 1942, mas absolutamente em voga neste início de Terceiro Milênio). Descomplicando, esta Hipótese se baseia na conjectura de como o mundo funciona de modo a operar segundo um conjunto de pressupostos tácitos, derivados do conhecimento e do entendimento nascidos na visão de senso comum. É claro que, aqui, o Mundo diz respeito àquele puramente conceitual humano, não àquele natural.

Pepper identificou quatro hipóteses autônomas sobre a realidade do Mundo Humano. Estas hipóteses ele resumiu em Formismo, Mecanicismo, Contextualismo e Organicismo. Segundo sua visão, o Formismo é uma hipótese analítica do mundo e se baseia fundamentalmente na classificação e identificação das coisas e processos que acontecem nas estruturas desse mundo considerado. Isto significa que a atividade cognitiva básica que se associa à hipótese construtivista do mundo é aquela voltada para fazer distinções. Ou seja: os fenômenos do mundo são agrupados em categorias semelhantes e dessemelhantes, em tipologias ou formas ideais com base em suas diferenças e semelhanças percebidas. Isto redunda em que o “formista” acredita numa causa material, que é a crença no fato de que as propriedades dos fenômenos são inerentes a ele e também são estáveis, isto é, não tendem à mudança em função de variáveis intervenientes (aquelas variáveis – acontecimentos – que não podem ser controladas pela pessoa ou pelo experimentador, em laboratório de pesquisa. Por exemplo: a morte do objeto de experimentação e estudo). Por serem estáveis, estes fenômenos lhes bastam para a explicação de como o mundo que percebe e cria, funciona.

Se você não é psicólogo, vou tentar colocar a coisa de modo prático. O “formista” é a pessoa que se define como “objetiva”, “direta”, “que tem certeza de algo que viu ou presenciou” etc… Ela percebe o mundo segundo padrões internos que são rígidos: pão-pão, queijo-queijo. Se algo acontece é porque houve uma causa objetiva, material, concreta. Se um homem “pula a cerca” é porque ele é “galinha”, isto é, tem tendência compulsiva para a “traição” etc… Por isto, conclui o formista, o sujeito não merece confiança.

Na visão formista, há uma classe de “homens galinhas”, que assim o são por essência mesma de sua constituição psíquica. Essencialmente os “galinhas” constituem uma classe de fenômeno humano fundamentalmente distinta daquela outra, a dos “fiéis” e “bons companheiros”.

A propósito, você é um formista? Ou apenas se pega, de vez em quando, julgando e agindo segundo os pressupostos do Formismo? Questione-se…

A gente volta ao tema para continuar a estudar e compreender A Hipótese de Mundo segundo Pepper.

Até lá.